Ladino - A tormenta da desesperança

1 Cap. 1 – A chegada da tempestade


Notas iniciais
Primeiro capítulo de uma possível sequência do conto de um ladino e suas aventuras tentando conciliar sua preocupação com as pessoas com sua preocupação em enriquecer.

Nuvens acinzentadas se arrastavam pelo céu anunciando a tempestade. Enquanto a sombra se alastrava e transformava prematuramente o dia em noite, os transeuntes aceleravam seus passos, ou para ir para casa, ou para terminar suas tarefas a tempo de se abrigar da chuva. Apesar do tom sombrio que acompanha o fenômeno, ele havia se tornado estranhamente habitual. A única questão era, de fato, evitar de se molhar e resfriar. Havia algumas semanas que, quando os relógios marcavam que metade do dia havia passado, o vento intensificava seu sopro, uivava e empurrava sobre a cidade as nuvens.

Evidentemente, no começo, isso gerou alguma comoção. As pessoas comentavam pelas ruas, desenvolvendo várias teorias sobre as razões do acontecimento. Os rumores iam desde o fim dos tempos até uma manobra dos aristocratas para manter presos os trabalhadores que, sem poderem ir para casa, teriam que ficar abrigados em seu local de trabalho, obviamente por um preço.

Não tardou para que o prefeito da cidade se manifestasse. Para solucionar o caso, grandes eruditos da região foram convidados a pesquisar sobre o ocorrido, sendo pagos pela prefeitura. Por um acaso, segundo conta às massas, Nicholas Autus, um dramaturgo de uma cidade próxima que, tendo ouvido falar sobre o caso, decidiu fazer uma visita turística, encontrou, na biblioteca, um livro surrado contendo alguns mitos que se contavam há milhares de anos na região. Um deles era que, em espaçados períodos de tempo, ocorria algo parecido: as nuvens surgiam todos os dias, como que magicamente, tornando a maior parte do tempo escuridão. Isso tem alguma relação maniqueísta entre luz e trevas, mas o que importava era que isso era um sinal dos deuses de que após o período de sombras, a luz irradiaria novamente. Algo como “a calmaria após a tempestade.” O povo acreditou e se viu abençoado, decididos a resistir a esse depressivo período, tomando-o como um teste para uma eventual bem-aventurança.

Mas nem todos acreditaram na história.

Algumas pessoas demonstraram insatisfação e descrença contra o discurso. Naturalmente, sendo grande parte da cidade devotada a seus deuses e seus santuários, essas reações foram suprimidas até serem limitadas quase ao âmbito privado. Alguns jornais publicavam matérias contrárias, mas sempre em algum lugar pelo meio de suas páginas, temendo que, esse assunto ocupando a capa, as vendas caíssem abruptamente.

Não demorou até que pequenos círculos se formassem em porões, articulando modos de enfrentar essa história que, até então, ninguém havia como provar falsa. O ceticismo crescia no país, então é natural que algumas pessoas resistissem às explicações míticas. Porém, suas ciências não conseguiam avançar. Seus adeptos eram reduzidos, bem como seus materiais.

O clima que ficou na cidade foi bastante caótico nos primeiros dias desses eventos. Caóticos o bastante para que algumas figuras mal intencionadas se aproveitassem. Uma delas é Krahe, um andarilho famoso na cidade por suas caminhadas. Suas vestes humildes fazem as pessoas crerem que é pobre. Os locais que frequenta, contudo, as fazem crerem que é rico. Mas ninguém sabe onde é sua casa ou qual é seu emprego. E a razão é simples: porque ele é o melhor no que faz.

Muitas pessoas já disseram, e ainda dizem, que Krahe é um ladrão, e daí vem seu sustento. E estão certas. Mas qualquer medida legal deve ser capaz de provar sua culpa para condená-lo. Contra ele, há apenas a desconfiança do povo. A seu favor, sua facilidade de tomar dos outros o que lhe convém. É um ladrão, digamos, profissional. O é desde muito jovem, embora a maestria lhe houvesse custado fugas de cidades, noites na prisão e muitos, muitos hematomas. Mas, agora, na cidade de Dsaud, estava conseguindo manter-se safo.

Embora não se tivesse feito presente na manhã do discurso (pois seu horário de trabalho era noturno e, portanto, descansava durante a manhã em qualquer canto escondido da cidade), não tardou para que as fofocas chegassem aos seus ouvidos. Uns aliviados, outros esperançosos, outros irrequietos. Obviamente, foram as incomodações que atraíram mais a sua atenção. Apesar de se sustentar como ladrão, não era de todo uma má pessoa. Quase nunca havia cometido atrocidades, e absolutamente nenhuma para além da necessidade de realizar sua tarefa. Mas como explicaria isso aos outros?

De qualquer modo, a cidade precisava prosperar para que seu trabalho também prosperasse. Suas peripécias invadindo propriedades privadas e públicas, pois não raro as informações valiam tanto quanto joias, já o haviam ensinado que as palavras dos políticos estavam entre as coisas menos valiosas de que poderia dispor. Portanto, era necessário tomar para si a missão de averiguar o que de fato estava acontecendo. Pelas suas andanças, já ouvira o que a rua dizia, mas ainda era confuso, um emaranhado de ideias que se misturavam conforme se difundiam.

Tomando a liberdade que lhe confere ser seu próprio patrão, deu-se uma noite de folga e usou-a para descansar. Durante a manhã, antes que a tempestade chegasse e afugentasse a multidão, seria levado por seu virtuoso interesse a buscar informações com aqueles que se escondem para falar contra o prefeito. Talvez suas aventuras por essa causa inclusive lhe rendessem dinheiro e, lidando, provavelmente, com colunistas e editores de jornais, quiçá até uma redenção de sua imagem diante da sociedade, que lhe traria diversas facilitações.

Seus horários haviam tornado a cidade matutina bastante estranha. Nos últimos dias, suas tardes eram chuvosas e tediosas e as noites, às vezes limpas, às vezes chuvosas, como se essa bênção, mentira ou maldição ocorresse apenas durante o período de Sol da tarde. Agora, finalmente, via o Sol despejando violentamente sua luz e seu calor contra as casas e as carnes. Sentia-se como um vampiro (que, a essa altura onde os mitos tornavam-se realidade, talvez existissem mesmo), sentindo após dias sua pele queimar sob a claridade do dia.

Seus olhos atentos buscavam pela cidade a sua frente um caminho a seguir, uma pista de onde poderia conseguir uma informação ou, melhor ainda, um contrato. Conhecer alguém que lhe pague para roubar outro alguém que com certeza saiba sobre algo seria seu ideal, pois trabalharia, receberia e se informaria. Tudo o que um ladrão preocupado com o bem estar (não de todo o material) precisaria para poder alcançar seu fim altruísta.

Notas finais
Espero que essa história agrade a todos!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.