Laderland
4 Capítulo IV: Perseguição
Notas iniciais
Displicentemente adentrou ao recinto como seu aquilo fosse seu. Via-se um grande bar feito exclusivamente de vigas de madeira. Seu chão era recoberto por uma camada de cimento, onde espalhavam-se sobre ele várias mesas de madeira por toda a sua área. Nas paredes observavam-se várias espadas em exposição e algumas bandeiras com o escudo da Santa Ordem estampado. Observou todas as pessoas do local. Haviam pessoas tanto nas mesas quanto no balcão, onde haviam sete homens bebendo vigorosamente até embragarem-se e um garçom gordo, que ficava sempre com uma toalha engordurada em seu ombro, perambulando de um lado ao outro do balcão e empurrando, cada vez mais, bebida aos homens dali.
Aproximou-se do balcão. Ouvia-se ainda o ranger das dobradiças da porta do bar que continuava a balançar incessantemente. Sentou-se no balcão e observou todos olhando para si. Era um homem alto, de cabelos curtos e pretos, com uma grande sobretudo de couro e uma longa espada de duas mãos nas costas. Tinha uma grande fama em Ebal. Fora mandado pelas ordens do Mestre Hasken há muitos anos com a missão de impedir que o clã Alpha partisse para Pisom e atrapalhasse seus propósitos.
Ele conhecia o garçom. Era um dos membros mais misterioso da Santa Ordem, pois nunca lutara e mesmo assim sempre fora um dos Grandes. Seus contatos eram extremamente amplos e podia comunicar-se aos lugares mais longínquos de Pisom e ainda haviam boatos que conhecia até os lugares misteriosos além do mar. Observou-o aproximando-se com uma grande garrafa de Whisky e dois copos com gelo.
– Bem-vindo de volta, Haegar.
– Já estava quase com saudade, Bent.
Observou Bent preencher ambos os copos com o Whisky, segurar o seu e beber um grande gole. Imediatamente puxara a toalha engordurada de suas costas e, após limpar sua boca, disse:
– Os dias estão quentes em Ebal ultimamente. Não sei se é pelo meu porte avantajado ou estamos aproximando-nos do verão. Apenas um bom whisky para aliviar, não é mesmo? Mas, enfim, por onde andastes?
– Comendo algumas putas por esses bordéis de Ebal. Essa terra esquecida pelos deuses traz muitos prazeres escondidos, sabia? Essas vielas escondem tantas ruivas deliciosas que valem muitos mais do que apenas uma noite.
– Não esperava menos de você. Tem um espírito tão jovem afinal, mesmo sua idade não correspondendo. — Esboçou um leve sorriso e uma risada abafada.
– Não posso atrasar o tempo, infelizmente. Mas então, o que tens para mim? — Pegou sua bebida e começou a degustá-la enquanto ouvia Bent falar.
– Muitas coisas. Em Ahaz a tropa do Mestre foi atacada por Klenn e seus bandidos durante a noite. Há boatos que tudo foi a mando do Rei e que ele conspira contra nós e contra todo o reino junto com a Aliança. Hasken está puto, foram mais de quinhentos mortos. E um dia antes do ataque um dos batedores que foram a Pisom foi morto por um Kiyohara. As coisas estão tensas no oriente, Haegar.
– Intrigante. — Mostrava-se pensativo — Rufus e a Aliança juntos? Eu sabia que ele era louco e sínico, mas não sabia que além disso também é burro.
– Parece que é. Os boatos são de que as conspirações são antigas, desde a época de Zero. Mas não é só isso, caro amigo. Há também rebeldes em Pisom. Uma tal de Yris Strauss fundou uma organização chamada de Organization V para anarquizar Laderland e depor o Rei. E parece que o irmão do Klenn, Matther, rompeu as alianças da ESH e da Ordem dos Leões com o reino e com o exército e agora se une a organização da menina e estão todos contra o reino.
– HAHA. Está fechando o pau bonito em Pisom. Essas guerras políticas são sempre boas de se assistir. Mas o que o Mestre planeja fazer?
– Ele pediu-me para convocar os Grandes daqui para irem a Ônica. Me parece que reunirá uma tropa e que pretende vingar-se do batedor morto e demonstrar seu poder na província clériga para intimidar o reino, para isso quer dizimar o clã Kiyohara em uma chacina memorável.
– Interessante.- Seu semblante modificava-se e um leve sorriso tomava sua face.- Parece que as coisas conspiram a nosso favor. Tudo isso indo de encontro ao nosso plano não pode ser apenas coincidência.- Esboçou uma pequena risada.
– Fale mais baixo Haegar. A última coisa que queremos agora é que descubram o que tramas.
– Mas enfim, meu caro amigo. – Levantou drasticamente seu tom de voz. — Esses Kiyoharas já estão decadentes há muito tempo. Sempre estavam na sombra do exército e do clero. Realmente nunca foram grande coisa. Mas diga-me, você foi convocado?
– Caro Haegar, é de conhecimento público que não luto. Meu lugar é aqui, nesse mísero bar, sustentando as bebedeiras dessa gente medíocre. Eles precisam de mim.
– Claro que precisam. — Deu uma leve gargalhada. — Tenho que partir então, tenho um longo caminho a percorrer até Ônica.
Com um grande gole no whisky terminou a sua bebida e, imediatamente, levantou-se do balcão e foi em direção a porta. A passos largos saia do bar de Bent e reunia-se com seus aliados que o esperavam no lado de fora. Via-se uma paisagem extremamente desolada, com uma grande neblina que cobria toda a cidade, mesmo com um calor imenso. Observava as casas, quase todas de madeira apodrecida, caindo aos pedaços, e algumas crianças brincando na rua com seus olhos vazios e tristes.
Aproximou-se de um grande poste na frente do bar. Havia ali seu grande companheiro, Nigles, um garanhão branco extremamente majestoso e forte. Montou em tal e permaneceu pensativo. Não imaginava que o rei podia ter se aliado a Aliança e ria ao pensar que era tão ingênuo e que, cada vez mais, afundava-se sozinho em sua própria ganância. Com aliados tão duvidosos, não era de se duvidar que logo fosse traído e que o trabalho para a Santa Ordem fosse extremamente facilitado.
Precisava despedir-se de seus aliados e deixar algum novo líder do bando até sua volta. Apenas os Grandes foram convocados e sua tropa não poderia ser levada consigo. Decidiu escolher para líder o mais habilidoso e disciplinado guerreiro. Olhou para todos os mais de trinta homens e, aumentando sua voz, disse:
– Irmãos, tenho a dizer para vocês que fui convocado para uma missão extraordinária em Ônica e apenas eu, um Grande, deverei partir para lá. Portanto, haverá um novo líder para vocês e este será Wessen, que comandará a tropa até eu voltar. Entendido?
– Entendido, mestre Haegar. — Diziam em coro.
A trotes afastou-se de seus companheiros e seguiu, solitário, a Ônica. Há tempos não participava de uma missão tão excitante como essa. Amava a ação e a adrenalina no seu corpo, e dizimar um clã inteiro, sem dúvidas, era uma ótima diversão.
A viagem era longa. O poderoso calor que já assolava as terras de Laderland castigava Haegar e Nigles, que frequentemente necessitava parar seus trotes para hidratar-se. Haegar sabia que Ônica era provavelmente a mais quente província de todo e reino e sabia quão árdua seria sua jornada.
Estava cansado. Haviam cinco horas que abandonara sua última pousada em Ernak, ao leste da província de Megido, e se dirigira a Cidade de Graphel, capital de Ônica. O balançar dos trotes de Nigles causava dores em sua coluna e o deixava enjoado, principalmente com o grande calor que contribuía para degastar-se mais do que o convencional. Já atravessara a fronteira entre as províncias há algum tempo e logo ao entrar em Ônica encontrou-se com um mensageiro qualquer da Santa Ordem dando-lhe explicações de como proceder ao chegar à capital. Não teve paciência para ouvir tal inutilidade e, devido ao grande enjoo, houvera vomitado no pobre homem que saiu fedendo como um porco a procura de algum lugar para banhar-se.
O calor começara a diminuir. Via-se no horizonte os raios de sol pondo-se delicadamente criando um lindo espetáculo alaranjado. A noite aproximava-se e, com ela, uma fresca brisa que parecia renovar as forças de Haegar. Já conseguia observar as maravilhosas luzes da capital de Ônica e a grande Catedral que demonstrava seu esplendor em meio à grande relva dos campos de Ônica naquela noite de quase verão.
Finalmente atravessava a grande entrada da cidade de Graphel. Via-se nela um grande jardim com inúmeras e lindas rosas e um arco gigantesco feito de puro ouro. Nele estavam escritas quaisquer palavras em Rikurou que Haegar não compreendia e, além do arco, estava a mais bela cidade de todo o reino. Sua fartura e bênção era visível no rosto das pessoas que, mesmo a noite, não se intimidavam em andarem livres pelas ruas. Mais à frente observava uma linda mulher, de longos cabelos ruivos e com um vestido negro que era mais escuro do que a própria noite. Estava escoltada por três homens que, disfarçadamente, estampavam em seus trajes o escudo da Santa Ordem.
– Bem-vindo a Ônica, Haegar. — Dizia a mulher com uma voz tão poderosa quanto sedutora.
– Quanto tempo, Stella.
– Vejo que estás forte como sempre.
– Faço o possível para me manter bem, principalmente quando vou me encontrar com beldades como você.
– Poupe os elogios e venha comigo, galanteador.
Stella virou-se e, fazendo menção para segui-la, entrou no meio da multidão seguindo pelas ruas da cidade. Era uma cidade magnífica, possuía grandes prédios iluminados e as ruas eram limpas e cheirosas, bem ornamentadas com rosas e flores em devoção a deusa da vida. Entraram em uma estreita viela que terminava em um alto muro com uma pequena porta. Haegar desmontou de Nigles e amarrou-o em uma árvore próxima com as próprias rédeas. Com isso, seguiu Stella e seus guarda-costas através da porta que daria em um grande jardim ornamentado com árvores e flores e que tinha uma passarela de ladrilhos que findava ao chegar na entrada de uma grande mansão.
– O que achou da nossa nova casinha? — Disse Stella em tom de provocação.
– Não será boa enquanto eu não a usar para provar de seu corpo novamente, senhorita.
– Safado como sempre, não é mesmo?
– Apenas não escondo os meus desejos.
– Pois agora deverá escondê-los pelo seu próprio bem, afinal fui chamada para trazer-lhe aqui e não para foder com você.
– Não vejo problema em mudar as regras desse jogo.
– Deverá ter mais cuidado com o que fala ao entrar ali, Haegar. O Mestre nos espera, vamos.
Fora obrigado a aquietar-se. Haegar tinha uma grande admiração pela bela moça e, com sua fama de galã, não podia deixar de tentar tê-la, novamente, por uma noite. Lembrava-se das vezes que passara com a doce ruiva em sua última visita à capital de Ônica. Seu jeito ousado e libertino enlouquecia-o e instigava seus desejos mais selvagens que apenas ela podia saciar.
Entrou na mansão. Era enorme, possuía um grande salão onde acontecia um grande banquete e uma imensa festa de recepção aos Grandes de todo o reino que ali estavam. Percebeu no centro da grande sala uma pequena elevação de madeira, como um palco, onde estava o Mestre junto com um garoto sério e sem expressão alguma preparando-se para falar. Estava faminto. Parou em frente a uma enorme mesa recheada de comidas e deliciou-se com os saborosos pratos servidos. Haviam carnes, molhos, saladas, bebidas, e diversos pratos típicos de todas as regiões de Laderland. Era um banquete completo.
Observava inúmeras pessoas irem ao encontro do Mestre pedir sua benção. Haegar não costumava idolatrar pessoas, nem mesmo o mestre da sua ordem. Era contra o puxa-saquismo dos outros membros e tudo que conseguira fora pela sua própria e indiscutível competência.
Subitamente observou um grande clarão que viria da enorme espada, agora desembainhada, do Mestre. Sua espada brilhava como o próprio sol e todos silenciaram-se para ouvir as palavras do homem.
– Irmãos, hoje é um dia especial para todos nós. Reuni todos os Grandes aqui para fazermos a nossa própria justiça e aplicar ela em cima daqueles que merecem. — Sua voz ecoava como um trovão. — Há algumas semanas um homem do famigerado clã Kiyohara matou um de nossos mais queridos membros de forma a retirar também a sua própria vida. Mas isso não é o suficiente, irmãos. Chegou nossa hora de vingar o nosso sangue, vingar os filhos de nossa Mãe. Derramaremos a justiça da Santa Ordem sobre esse, agora, amaldiçoado clã!
Grandes gritos de animação ecoaram por todo o lugar. Haegar animou-se tanto quanto os outros homens e mulheres que se levantaram excitados de seus assentos e gritaram suas palavras de guerra. Não via a hora de poder lutar e dizimar todos daquele antigo clã e divertir-se um pouco.
– Irmãos, atenção — todos calaram-se novamente com a grande voz trovejante de Hasken — infelizmente não serão todos que irão poder exaltar o nome de nossa ordem e de nossa Mãe. Amanhã, no cair da madrugada, apenas os líderes das sedes em cada província irão partir ao ataque. Portanto, chamo aqui os nobres guerreiros: Haegar de Ebal; Stella de Ônica; Dnit de Megido; Kros de Pisom; Frost de Pacem; Jham de Ypsos e, por último, meu novo escudeiro e líder da sede de Ahaz: Roth.
Todos os chamados, inclusive Haegar, subiram ao pequeno palco ao som de fortes aplausos. Sentia-se privilegiado. Sua adrenalina e ansiedade cada vez aumentavam mais à espera da próxima noite. Com passos curtos seguiu ao lado de Stella até a frente do palco onde observava o fim do discurso de seu mestre.
– Irmãos, em função dessa nossa nova empreitada o banquete seguirá daqui até o fim da noite e amanhã os líderes terão o dia todo para prepararem-se para o derradeiro ataque durante a noite. Divirtam-se irmãos, viva a nossa glória, viva a nossa Mãe!
Apenas ouviam-se altos gritos de comemoração e aplausos por todo o salão. Estavam todos excitados, a energia do local era magnífica. Sentia-se animado e, cada vez mais, esperava pelo genocídio que ocorreria em breve.
Observou o Mestre virar-se para os líderes que estavam lado-a-lado atrás dele. Imediatamente Hasken guardou sua espada, cumprimentou-os todos desejando boa sorte e retirou-se para o meio da festa onde receberia os demais Grandes que chegavam. Haegar, então, olhou para a bela ruiva que estaria ao seu lado e segurou em sua mão. Desceram juntos para o meio da festa e seguiram juntos até uma enorme escada que dava nos dormitórios da mansão.
– Você não tem jeito, Haegar.
– Não posso perder o costume de dormir com belas moças antes de dias incríveis.
Fale com o autor