Laderland

1 Capítulo I: O que os deuses resevam para mim?


Notas iniciais
Essa é minha primeira história, criada há tempos e hoje finalmente adaptada para o site. Espero que gostem!

O sol estava escaldante. O Vale do Megido era extremamente vasto, com solo acidentado e, onde estavam, com um aspecto extremamente desértico que parecia infinito. Pôs sua mão no cinto e retirou um cantil, abriu-o e deliciou-se derramando a água por sua garganta e saciando sua enorme sede. Já andavam há mais de três dias a pé pelo vasto vale e sabiam que o caminho até Pisom era longo. É verdade que onde passavam eram bem recebidos e que várias tribos os auxiliavam com suprimentos, mas sentia uma certa inveja dos batedores que já deviam estar aproximando-se. "Que nossa Mãe e todos os deuses da floresta nos ajudem a enfrentar esse inferno desolado", pensava solitário perdido no próprio pensamento.
– Vamos, avante! Nossa Mãe nos espera. Não podemos perecer, homens! — Gritava energeticamente um homem alto e loiro com o símbolo da Ordem estampado no peito. O calor já confundira suas ideias, não lembrava quem era este, mas sabia que devia conhecer. Era um dos Grandes, andava nas carruagens que seguiam o Mestre e possuía uma grande espada embainhada na cintura.
Olhou para trás. Via uma multidão caminhando ambiciosamente atrás do objetivo apresentado pela Ordem. Desejavam ser um dos Grandes, serem guerreiros, irem a guerra e conquistar por si só o poder que lhes diziam pertencer, porém não eram, e apenas restava sonhar e caminhar, cada vez mais, atrás de um sonho.
– Não desista, você também é um de nós! — Disse-lhe uma voz feminina que o tiraria do transe. Olhou ao lado e viu lindos olhos azuis. Acalmou-se. Seus cachos loiros brilhavam a luz do sol e criavam um efeito magnífico.
– Creio que sou, Jenny. — Disse com um sorriso calmo no rosto. Observou-a responder-lhe com um mesmo semblante de afeto, porém logo virou-se a frente determinada em continuar sua caminhada. Desejou ter essa mesma vontade de seguir em frente.

A peregrinação era intensa, não haviam descansos. Durante mais três dias andaram pelo deserto com apenas duas paradas por dia: uma para descanso logo após o meio-dia e uma para dormir à noite. Noite esta que era absolutamente fria e desolada, onde as temperaturas do deserto despencavam absurdamente.

Ao meio-dia do terceiro dia observaram-se atravessando a fronteira do deserto com a grande província de Ahaz, com suas grandes florestas e rios fartos de água. E finalmente ao fim deste mesmo dia, chegavam ao leito do grande rio de Ahaz.

O novo clima já era revigorante. Era notável como a temperatura agradável, as brisas e o grande rio de Ahaz recuperava muito a força dos viajantes. Todos que passaram acampados a noite ali já recolhiam suas coisas e começavam a partir em direção a Pisom. Ainda era cedo, a alvorada mostrava seus primeiros raios, mas não tinham tempo a perder. Reencheram seus cantis, lavaram seus rostos e corpos e, a pé, partia uma enorme multidão cega em busca de seus objetivos.
Atirou-se ao rio. Seria seu primeiro banho em águas mornas e deliciosas desde que partira do coração da floresta em direção ao vale. Sentia-se em casa dentro de Ahaz. Conhecia cada palmo de chão da floresta, cada arroio e rio e sentia o cheiro de mato penetrando suas narinas e dando-lhe força para continuar. Nadou até a margem. Já observava os primeiros raios de sol e tinha que partir. Colocou sua roupa, juntou suas coisas — que eram pouquíssimas — e recolheu algumas frutas das árvores para alimentar-se e, correndo, fora encontrar a multidão que já partia pela floresta.
Avistou os belos cachos de Jenny. Achava a beleza da menina espetacular, mantinha uma paixão implícita por ela. Não mantinha o hábito de se relacionar com mulheres, fora, desde o começo de sua vida, treinado para ajudar os Grandes a conquistar o poder que lhes era de direito, e, portanto, não sabia como expressar-se.
– O que você acha que irão fazer ao chegar em Pisom, Jenny? — Surpreendeu-a com sua voz.
– Ah, Roth. — Sorriu — Imagino que vão conquistar o que nos é de direito. O nosso líder pronunciou-se hoje de manhã, antes da alvorada, e disse que farão o que precisar para reivindicar o poder da nossa Mãe e que nada vai nos parar.
– Entendo. — Silenciou-se.
– Parece que você não está empolgado, Roth. Esperamos tanto por isso.
Não queria dizer, mas nunca sonhara com tal poder. Queria mesmo era viver em paz a beira dos rios de Ahaz, com filhos e, principalmente, Jenny ao seu lado. Mas não podia desanimar, seus pais, amigos e toda a sua tribo dependiam dele. Apostaram nele, que se demonstrou tão forte nesse tempo de recrutamento.
– Que nada, estou também muito ansioso para ajudar. — Sorriu o sorriso mais amarelo e amargo de sua vida.
– Então prepare-se que vamos ter que lutar bastante. Vai ser muito emocionante, Roth!
Jenny falava com uma enorme empolgação, algo que Roth invejava. Queria ter também toda essa animação, queria poder ser assim. Mas não era e, mesmo assim, tinha que ser.
– É claro, é claro que vai.
E solitário ficou para trás, perdido em seus pensamentos e idealizando seus sonhos.

A multidão começou, subitamente, a parar. Via-se ao longe um grande homem, abrindo grandiosas asas de fogo e erguendo-se ao céu com uma grande espada nas mãos. Todos reverenciavam-no de joelhos e gritavam em louvor: " Mestre, ó Mestre. O que tens para nós?". O homem possuía uma voz trovejante, toda a floresta parou para vê-lo erguer-se e para escutar suas palavras diante de tal multidão.
Apavorou-se. Talvez nunca houvera visto tal homem, e sentia seu poder fluindo pelo ar e tocando a todos. Tinha longos cabelos ruivos, uma estatura alta e forte com grandiosas asas de fogo que ofuscavam o brilho do sol. Era magnífico. Apenas repetia os gestos da multidão e ouvia os gritos em coro retumbarem pela floresta inteira como em um ritual gigantesco.
– Bom dia, meus caros irmãos. Hoje é um dia muito triste para nós, pois, ontem um de nossos batedores, Dave, fora morto por pessoas inescrupulosas ao chegar na fronteira com Pisom. — Sua voz era poderosa, não houvesse que não entendesse tais palavras perfeitamente.
Começaram gritos de espanto. Todos conheciam o poder de Dave, era muito querido pelos membros da Santa Ordem e muito devoto de nossa Mãe e muitos ficaram tristes e chocados com tal acontecimentos.
– Mas não temam, irmãos. — Os gritos foram cessados pela poderosa voz que continuava seu discurso — O herege e medíocre homem que o matou trocou sua vida pela dele e não representa mais perigo para nenhum de nós, porém a sua instituição, chamada de ESH, irá sofrer as consequências mais tarde pelo seu ato de ignorância.
Fora muito ovacionado. Todos queriam tal vingança e os gritos de felicidade e raiva foram muitos e retumbaram ainda mais no eco da floresta, como se todos os animais, feras e seres repetissem e compartilhassem de sua dor.
– Porém esse não é o nosso único problema, irmãos. Vocês sabem que aqueles que são filhos da verdadeira deusa, a nossa Grande Mãe, sempre serão alvos das maiores atrocidades e perseguições e conosco não é diferente. Ouvi boatos que um grande guerreiro, chamado Klenn Legionis, está reunindo guerreiros em Ebal e pretende nos destruir antes que cheguemos a Pisom e, por isso, iremos ficar em estado de alerta para nos proteger de quaisquer ataques, principalmente esta noite que acamparemos aqui, a beira desse riacho.
Um grande espanto se espalhou pela multidão. As pessoas não estavam preparadas para tal ataque e muitas delas não eram guerreiros e temiam morrer com suas famílias. Mas todos eram esperançosos e acreditavam que os Grandes e o Mestre fossem fortes o suficiente para defender-lhes.
– Então ó irmãos, acampem hoje aqui e durmam tranquilos, pois nossa Mãe nos protegerá esta noite e nos proporcionará que consigamos conquistar o poder que nos é de direito.
O sol se punha. Suas asas já diminuíam e pousava suavemente no chão, embarcando em sua carruagem ao som de muitas palmas e gritos de louvor. As pessoas começavam a dispersar-se e a tomarem seus rumos para montar, cada um, seu acampamento para passar a noite.
A noite já caíra. Não se ouviam os barulhos dos animais da floresta e uma grande calma se espalhou por toda a floresta. Algumas pessoas já dormiam, porém Roth estava ansioso. Desde o começo da noite ficara abraçado em sua espada sem largá-la por nenhum instante. Estava com uma má impressão — tanta calmaria em meio a floresta, uma noite tão escura e uma ameaça de ataque — tudo parecia conspirar contra ele e sabia que ao sinal de qualquer ataque teria que apresentar-se, imediatamente, para o combate.
As horas passavam e Roth mantinha-se acordado. A noite permanecia calma, sem nenhuma brisa ou intervenção dos animais da floresta. A tensão aumentava e, por fim, Roth saltou de sua cabana subitamente. Não aguentava mais e agora parecia ouvir passos. E os passos se aproximavam cada vez mais criando tensão em Roth que seria o único acordado do acampamento. Não sabia se era loucura ou uma verdadeira ameaça, mas já via vultos correndo em torno das cabanas e, com seu pavor extremado, observou, perplexo, um grupo de aproximadamente 50 homens correndo em direção ao acampamento. Suas armaduras reluziam ao brilho da lua cheia que aparecera no céu. Eram grandes homens, empunhavam grandes espadas e pareciam ter um aspecto muito forte e poderoso.
Desesperou-se. Roth pôs-se a correr e imediatamente ouviu os grandes sinos das torres de vigília tocando alarmantemente anunciando a todos o perigo. O acampamento levantou-se às pressas. Todos os guerreiros apresentavam-se com armas empunhadas e, aqueles que não lutavam, corriam desesperadamente pelo acampamento visando achar um local seguro para ficar.
Os Grandes começaram a sair de suas carruagens em meio ao alvoroço e colocaram-se em modo de ataque unindo-se aos guerreiros comuns e, no céu, aparecia a imagem do Mestre com suas enormes asas de fogo. Todos pararam para observar e a floresta calou-se imediatamente. Apenas observavam o desembainhar da poderosa espada que ele portava e do relampejo criado que iluminou toda a floresta.
Roth colocou sua mão na espada, orou aos seus deuses e, pedindo que sua vida fosse poupada, esperou que a chacina começasse.

Notas finais
Obrigado pela leitura, espero que gostem! ^^