Notas iniciais
Eu sei, ainda está complicado, mas prometo que no próximo capítulo tudo começará a se encaixar...
Com o segredo que você me deu como companhia, Eu atravesso o silêncio da noite pálida.

-Lacrimosa... Assim chamarei este lugar, porque é como se eu vivesse dentro de uma lágrima minha. – eu disse em um suspiro, encolhendo-me.

Meu céu era uma mistura de azul escuro, azul claro e laranja. Em meu céu não havia nem Lua nem Sol, apenas aquela enorme bola azul e, as vezes, o reflexo de uma bola branca e esburacada enganava meus olhos, pois, quando eu me dava por mim era apenas minha imaginação.

Os dias eram calmos e passavam lentamente, sem que um dia acabasse e o outro começasse. Eu não dormia. Minhas únicas companhias eram aquelas duas rosas que se autodenominavam meu coração e minha mente. Elas nunca diziam o que eu queria ouvir.

-O que você fará hoje? – perguntou-me a rosa iogurte.

-O que posso fazer? Não sinto felicidade nem amor, muito menos carinho ou alegria. Não sei sorrir. Os sentimentos que me rodeiam e me preenchem são os de ódio, dor, tristeza e angústia.

As flores não me responderam. Junto a um suspiro, jogo-me de costas no chão, fechando os olhos lentamente, eu só... Só queria sair daqui.

Uma música. Eu ouvi o cantarolar de algo... Bem, era baixo, difícil de ouvir com nitidez. Abri os olhos e ergui-me um pouco, apoiando meu peso nos braços. Aos poucos o som foi se tornando mais alto, como se estivesse se aproximando, era... Uma sensação horrível percorreu todo meu corpo por dentro, como se queimasse meus órgãos, ossos, carne, pele... Eu estava sendo preenchido pelo medo. Era impossível raciocinar com o medo me corrompendo por dentro, agora, mais do que nunca eu queria sair daqui.

Quando movi a cabeça para o lado, meu corpo paralisou e parei de respirar. O ar não entrava nem se eu forçasse. O desespero era assustador. Eu tentava puxar o ar para dentro de meus pulmões, mas era como se algo, como um plástico extremamente fino estivesse tapando minha boca, mas não havia nada.

Adiante, se aproximando de mim lentamente, havia uma moça, não que fosse realmente uma moça, parecia mais... Um cadáver... Não importa, era realmente horrível! Vestia um vestido de noiva completamente esfarrapado, repleto de rasgos, manchas e marcas de envelhecimento feitas pelo tempo. Sua pele era branca, meio azulada. Sua face encontrava-se escondida pelo véu. Ela se aproximava cada vez mais. Um filete de gelo percorreu meu corpo, quase me sufocando. Finalmente consegui puxar uma bolada de ar e, com estas novas e desesperadas forças, ergui-me apressado e corri. Poucos metros adiante meu pé fora puxado e eu caí no chão. Olhei para trás e vi a “noiva macabra” se aproximando, seus pés não tocavam no chão, na verdade, acho que ela nem ao menos possuía pés!

Em pânico, voltei-me para o meu pé onde existia um fio meio transparente, fio este que se partia em dois na metade do caminho e me ligava a... Segui com os olhos e vi que eu estava amarrado àquelas duas únicas rosas da roseira detrás. Puxei, tentei arrebentar, praguejei. Eu nunca desconfiei estar preso aquelas rosas, afinal, eu nunca saíra de perto delas.

-O que eu faço? – gritei em pânico, eis que a rosa negra me responde:

-Vença seu medo.

E a rosa iogurte me diz:

-Leve-nos com você.

Eu não pensei no sentido da frase da rosa negra, já que a rosa iogurte havia sido mais direta, também não tive tempo de perguntar a elas se morreriam, ou desapareceriam, ou até mesmo se espedaçariam, eu simplesmente as arranquei, com força e pressa. Quando ergui meu rosto, pronto para correr, vi uma imagem que ficou gravada em minha memória para sempre: o sorriso daquela noiva, perto demais. Seus lábios vermelhos carmesim pingavam sangue, sangue este que havia sido usado como batom, borrando tudo. Novamente, eu não consegui mais me mexer, simplesmente paralisei.

De repente, aquela música de terror que predominava em minha mente e aquele medo avassalador simplesmente desapareceu. A noiva não mais se movia e o buquê de flores mortas dela se desmanchara. O silêncio predominou.

Lentamente, o soar de sinos foi se tornando cada vez mais alto e nítido... Não, não era o soar de sinos, era uma risada, baixa, meiga e melodiosa. Vi o desfoque de um ser parecido com um anjo passar na frente da noiva, fazendo o sorriso dela se desmanchar. Aquela rosada doce continuou a soar, trazendo-me paz.

Quando a presença do vulto sumiu, de imediato olhei para todos os lados, a procura daquele anjo que houvera me salvado e, por mais inesperado que possa parecer, eu o achei, flutuando ou se movimentando para longe, além daqueles arbustos que por tanto tempo marcaram meus limites.

Eu o segui.

Eu permanecia com ambas as rosas em mãos. A cor de iogurte ficou inquieta, tremendo, como se ela fosse pular de meu colo a qualquer momento. Apertei um pouco mais as flores em meu colo e continuei a correr, seguindo atrás daquele anjo. Vi que eu estava chegando cada vez mais perto daqueles arbustos que um dia houveram de me limitar a um pequeno espaço deste jardim de bonecas; não mais.

Pensei que seria difícil. Supus que haveria uma parede invisível ali ou talvez cordas que me amarrassem a algo e me obrigassem a permanecer ali dentro, mas nada. Nem ao menos um galho para enroscar em meu pé e me fazer cair ou talvez uma mínima folhinha de árvore que se emaranhasse em meus cabelos, obrigando-me a parar e tirá-la.

Nada.

Fora fácil como flutuar.

O anjo sumira de minha vista. Tentei seguir o som de sua risada, mas aos poucos ela ia sumindo, gradativamente. Assim que sua risada sumira por completo, começou a surgir outro som baixo quem, à medida que eu andava para frente ela ia aumentando. Era o som de uma música que me retrocedia a meu passado, se é que houvera um. Uma recordação de um campo florido, acho que estávamos na primavera. Havia árvores e... Meus lábios foram tomados por uma sensação de formigamento, como se alguém estivesse me beijando... Será uma namorada...?

Não sei dizer ao certo e, na verdade nem ao menos me é possível raciocinar direito. Aquela música, agora sei tocada a violino simplesmente me acalmava, começando em meu peito e alastrando-se por todo o meu corpo, até preencher-me por completo. Meu corpo cedeu e eu fui ao chão, caindo sentado com um sorriso bobo brincando em meus lábios.

Ao meu redor, vi nascerem flores de todos os tipos, das mais variadas formas e cores, preenchendo por completo todo o gramado verde que me rodeava. Em meio às flores, assisti enquanto dançava com um violino aquele mesmo anjo de anteriormente. Suas vestes eram brancas, com detalhes em dourado, assemelhando-se a um príncipe. Os cabelos eram loiros, levemente ondulados e passando o rosto, sua face era somente um desfoque, impossível de se ver.

-Ame-o. – aconselhou-me a inquieta rosa iogurte.

-Esqueça-o. – impôs-me a irritada rosa negra.

De repente, me dei conta de que estava tendo uma segunda chance de alcançá-lo, mas, quando fiz menção de me levantar ele sumiu, deixando-me só no campo florido. Joguei meu corpo para trás, deitando-me no chão de braços abertos. Na frente de meu rosto, as notas musicais, douradas e parecendo possuir purpurina dançavam, no ritmo da música que ia se tornando cada vez mais baixo...

-Quem era? – eu perguntei estranhamente calmo e feliz, sorrindo idiota, enquanto apreciava o doce soar de sinos que caracterizava a rosada do anjo, mas que no momento vinha das notas musicais.

-Um príncipe anjo! – disse a rosa iogurte, com um suspiro encantado.

-Apenas mais uma pessoa normal. – falou a rosa negra, com um bufar enraivecido.

-Um anjo ou uma anja?

-Um anjo. – rosa iogurte.

-Nenhum dos dois. – rosa negra.

Sem que ninguém esperasse, um estalo ecoou pelo local, e eu sabia que era de meus pensamentos clareando. Pisquei algumas vezes, como se o ambiente todo tivesse clareado repentinamente.

Eu fui tão burro!

-Se a rosa negra é minha mente, então o que ela diz é o que eu penso e se a rosa cor de iogurte é meu coração, ela diz o que eu sinto. – constatei em voz alta, ouvindo aplausos vindo de lugar nenhum. – Então, eu penso que ele é uma pessoa normal, e sinto que ele é um anjo que devo amar...

-Correto. – aplaudiu-me a rosa iogurte.

-Errado. – ralhou-me a rosa negra. –Você nem ao menos sabe se o conhece.

-Eu o conheço? – perguntei sorrindo para a rosa negra, ato este que pareceu não a agradar.

-Conhece.

Satisfeito com o fato de apenas uma rosa ter respondido e com os atuais resultados de minha recém descoberta, voltei-me para a rosa iogurte.

-O que sinto por ele?

-Nós estamos confusos. – pela primeira vez respondeu-me a rosa iogurte no plural da primeira pessoa.

Sem que eu a movimentasse, a rosa iogurte pulou em meu peito e aconchegou-se ali, como se fosse dormir. Senti, naquele lugar, como se tivesse um coração, que ardia de um jeito bom. Suspirei de puro prazer, deleitando-me com aquela sensação calorosa.

-Entre naquela casa. – pediu-me docemente a rosa iogurte.

-Amanhã entrarei naquela casa...

-Amanhã não existe! – enfureceu-se a rosa negra, chamando minha atenção. Fitei-a com uma imensa curiosidade.

-Existe sim, chegará assim q-

-Não existe! Você por acaso já viveu o amanhã? Não, e nunca viverá! Dizer que fará algo amanhã será o mesmo que dizer que nunca fará! Na Terra, você vive o hoje sem que o amanhã nunca chegue, em Lacrimosa o dia não passa. Não importa o lugar, o amanhã não existe!

Minha boca estava aberta, pois ele estivera certo em absolutamente tudo o que disse. O amanhã nunca chegaria e, se eu dependesse do amanhã para entrar lá eu nunca entraria, meu tempo seria para sempre lacrimoso...

Notas finais
Muito bem, quais serão suas conclusões do anjinho? Não é tão difícil, né? Pois bem, mais explicações no próximo ato de "Lacrimosa".

Reviews, sim?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.