Lacrimosa
5 Lembranças
Notas iniciais
“Não sou uma pessoa perfeita,
Há muitas coisas que eu gostaria de não ter feito
Mas eu continuo aprendendo;
Eu nunca quis fazer aquelas coisas com você
E então tenho de dizer, antes de partir
A razão de tudo é você.”
A neblina se sessou totalmente, e logo a frente era possível enxergar as construções majestosas e estatuas elegantes que se estendiam ao longo do campo até o pé da montanha. Não sabia o que era mais angustiante: ver aqueles milhares de túmulos a minha frente, ou pensar na quantidade de pessoas que ali estavam enterradas.
– Princesa Elizabeth! – King gritou ao ver-me caminhar por aquele lugar, lendo os nomes esculpidos em rochas. – Espera.
– Isso é horrível... – pronunciei em um sussurro.
Parei em frente a um pequeno túmulo, que de tão pequeno sabia o que guardava. Havia um urso de pelúcia com uma rosa na mão sobre seu caixão.
– Este vilarejo se tornou o túmulo de todos aqueles que morreram em Danafor, ouvi dizer quando estava do lado dos cavaleiros sagrados. – disse King desviando o olhar.
– Não pode ser... – balbuciei.
– Eu me pergunto por que o capitão viria a um lugar como esse. – citou King, então correu para perto de mim. – Você disse que tinha entendido.
A verdade doía mais do que a ilusão, e naquele momento apenas o silêncio prevaleceu, então King suspirou pesadamente.
– Quando o passado vale mais do que o presente, as pessoas acabam se perdendo nele. – disse depois de algum tempo, entrelaçando os dedos em uma tentativa falha de afastar os pensamentos ruins da mente.
King arqueou as sobrancelhas e arregalou os olhos como se o que havia dito tivesse de alguma forma o afetado.
– D-de toda maneira, como iremos acha-lo? Este lugar é enorme.
– Podemos nos separar.
– Separar? – perguntou King assustado – Não acho que seria uma boa ideia.
– Está tudo bem. – o tranquilizei com um sorriso – isso é um cemitério em uma cidade abandonada, não há ninguém aqui, e se algo acontecer, qualquer grito poderá ser ouvido em um eco a metros de distância. Podemos nos encontrar assim.
– Tem certeza?
– Sim.
– C-certo. – falou cabisbaixo, então apontou para o lado – Você pode ir pelo lado esquerdo e eu o direito, e quando acha-lo, me grite, irei voando imediatamente. Caso for o contrário irei gritar pela senhorita, então deve se manter imóvel no lugar em que estiver que o capitão e eu iremos até você.
Acenei com a cabeça levemente.
– Até depois, King-sama.
A cada passo que dava mais perdida me sentia. Parecia uma floresta de estatuas e túmulos. O ar começara a ficar mais frio, e minhas roupas não eram adequadas para aquela ocasião; encolhi meus braços em frente ao corpo e suspirei.
Eu estava sozinha. Foi o suficiente para que eu pudesse pensar em toda aquela situação em que me encontrava em menos de dois dias.
Eu só queria que tudo voltasse ao normal.
Mas em frente pude notar que os túmulos eram mais detalhados do que os de antes, deveria estar no centro do enorme cemitério, já não sabia a direção em que seguia, até que notei uma enorme placa de ferro, havia algo escrito nela:
“Aqui jazem guerreiros da paz”
Engoli em seco quando li os nomes escritos nos túmulos. Eram todos cavaleiros sagrados. Desde grandes lideres até seus subordinados. Voltei a seguir meu caminho, mas vi alguém logo à frente.
Estava sentado na grama fria em frente a um túmulo com sua cabeça baixa. Os cabelos amarelados caíram sobre seus olhos, deixando um suspiro longo escapar e assim acolheu suas pernas em frente ao corpo abraçando-as.
Vê-lo assim doeu meu coração, e senti como se ele estivesse tão distante de mim que naquele momento eu não poderia alcançar seu coração.
Dei leves passos para não interrompê-lo, mas o barulho da grama molhada foi o suficiente para chamar sua atenção. Meliodas me olhou surpreso, seus olhos levemente estalados e sua boca entreaberta foi o suficiente para entender que ele não gostaria de me ver ali.
– E-Elizabeth... O que você está fazendo aqui?
Ele se levantou por um momento, então finalmente pude ver o nome esculpido no túmulo em que Meliodas contemplava. Em todas as letras, grandes e redondas, e uma frase ressaltava palavras de honra: “Elizabeth. Sua fé e força prevaleceram pelo povo.”
Uma angustia forte pairou em meu peito naquele momento. Minha vista se embaçou e senti minha pressão cair drasticamente. Já não conseguia enxergar um palmo a frente, pude notar que cairia naquele momento, mas fui parada pelos braços de Meliodas que chamava pelo meu nome várias vezes em um tom confuso e preocupado, não conseguia responde-lo, uma dor insuportável em minha cabeça me torturava, meus olhos ardiam como se queimassem em fogo vivo.
~
Eu sabia que aquilo não era normal, mas tudo parou — como se as dores fossem embora — como se nunca existissem, e simplesmente notei que não sabia onde estava. Era um lugar estranho, porém familiar, estava tudo tão claro que só pude enxergar as paredes de madeiras e um tapete aveludado no tom escarlate.
Não conseguia me mover, era como se estivesse congelada dentro de um corpo que não me pertencia, e pude ter essa certeza quando me vi levantar por vontade própria e caminhar até uma porta perto da janela. O que está acontecendo?
Uma silhueta se mostrou ao abrir a porta. E ele entrou na casa e tirou suas botas, se espreguiçou e tratou de exibir um sorriso cansado no rosto. Mas aquele sorriso tão verdadeiro que já não via há tempos em seus lábios. Meliodas-sama.
– Está atrasado! – aquela voz doce e aguda foi proferida por mim. Não era minha voz, não eram minhas palavras.
– Eu sei, pode descontar sua raiva se quiser – Meliodas se aproximou e puxou pelo braço aquela garota na qual eu habitava e depositou um beijo em seus lábios. Mesmo não podendo me controlar, pude sentir aquele toque, aqueles lábios imprensados de uma forma tão apaixonada que as pernas bambearam – Mas só se for na cama.
Uma risada pairou no ambiente, mas era uma risada envergonhada e constrangida, até que o braço direito se levantou o suficiente para impulsionar um tapa em Meliodas, que esfregou seu rosto levemente após aquele ato, mas ainda sim olhou em minha direção e riu.
– N-não fale besteiras... Eu estou te esperando há horas neste lugar e você sabe que odeio ficar parada. – disse, cruzando os braços.
– Adoro quando tenta se fazer de difícil – retrucou Meliodas depositando em seu rosto um sorriso pervertido – Vai, admita. A verdade é que você estava morrendo de saudades.
A garota tentou bofeteá-lo novamente, mas Meliodas segurou em seus braços e a imprensou na parede. Ela se debatia como se aquilo a incomodasse, mas ainda sim seu rosto levemente avermelhado era um sinal de desistência, então seus olhos se fechavam como se esperasse por algo.
Ela deslizava pela parede até se sentar ao chão, então Meliodas agachou-se em sua frente, entrelaçou seus dedos aos dela, e a beijou novamente, mas desta vez a mesma não resistiu. Eu conhecia aquele toque.
Pude sentir o coração pulsar forte em meu peito, aquela paixão era tão forte que sentia vontade de chorar, mas este corpo não me pertencia, então apenas pude estar ali, sentindo os beijos de Meliodas e seus toques marcantes, se misturando em uma onda de felicidade em que aquela garota se encontrava.
Meliodas afastou seus lábios lentamente e a encarou com uma expressão serena. Desta vez não sorria, Mas seus olhos esverdeados brilhavam tão vividamente. Ele simplesmente a abraçou como se mais nada importasse.
– Eu te amo, Liz.
Meliodas-sama...
Desta vez senti lágrimas escorrerem pelo rosto, mas não eram minhas; quem chorava era a garota, e chorava muito. Em seu peito ardia um sentimento único, uma mistura de medo e felicidade, mas pude ver o quanto aquelas palavras soavam como uma despedida para ela.
– Meliodas, me prometa algo?
– O que?
Ela sorriu com ternura e suspirou.
– Cuide daquele lugar. O proteja. É nosso recanto, é importante para mim.
Meliodas sorriu, e então afagou os cabelos avermelhados da garota.
– Eu prometo – a respondeu, então Liz pode exibir um sorriso sincero em seu rosto.
– Eu te amo.
~
As freches de luz que percorria pelo quarto me fez despertar. Já era dia e não me lembrava de nada que havia acontecido. Apenas um sonho permanecia tão vivaz em minha mente, um sonho lindo.
Tentei me levantar, mas senti um peso sobre mim. Olhei brevemente para baixo e pude notar a presença dele, sentado ao lado da cama com suas mãos segurando as minhas. Meliodas dormia tão pesadamente como se há tempos não descansava. Eu estava feliz por vê-lo bem; não sabia como acabamos voltando para Boar Hat, mas não era isso que percorria em minha memória.
Aquele sonho me era tão real, aquele momento tão especial pairava como uma lembrança em mim, e eu sentia como se tivesse de ir a algum lugar naquele momento.
Sorri, e então soltei minhas mãos das de Meliodas e acariciei seus cabelos, mas aquele sono que parecia tão pesado me enganou, então o ergueu a cabeça assustado, e seus olhos avermelhados me fitaram.
– Elizabeth!
– Bom dia, Meliodas-sama.
Ele se levantou da cadeira e sentou na beirada da cama deixando um suspiro escapar.
– Me desculpe – ele disse em um tom baixo que mal pude ouvir – Não era minha intenção errar tanto com você, não queria ter feito aquilo ontem, mas não pude me controlar.
– Meliodas-sama... – eu não podia acreditar naquelas palavras. Ele tinha finalmente se abrido comigo. Sentia-me tão feliz.
–... E quando a vi no cemitério eu pude notar no quão errado estava agindo, mas você simplesmente... Desmaiou. Eu não sabia que seu resfriado estava tão sério, e ainda sim você foi atrás de mim.
– Está tudo bem, não me sinto tão mal agora...
– Não... – ele me interrompeu – Eu entendo caso me odeie, principalmente por eu ter te beijado.
Ouvir aquelas palavras vindas dele me fez corar. Eu não sabia o que dizer, apenas me era permitido abraça-lo, e pude sentir ele se surpreender com aquilo.
– Obrigada.
– Por que está agradecendo? – perguntou confuso.
– Por você me dizer o que está acontecendo contigo.
Meliodas olhou-me surpreso, mas mesmo assim sorriu com as bochechas levemente ruborizadas.
– Você se preocupa de mais com as pessoas princesa, mas ás vezes deve se cuidar melhor.
Ele não poderia entender sobre aquela preocupação que pairava em meu coração.
Meliodas se levantou e ficou ao meu lado estendendo sua mão a mim, eu a segurei e então me levantei junto a ele.
– O que acha de irmos comer algo? Ah, seria bom também dar as caras lá no salão. King ficou muito preocupado com a princesa ontem.
Meliodas gargalhou, e então eu me lembrei de que King estava comigo, aquilo me fez sentir tão mal por causar-lhe preocupação.
– Sou muito desastrada mesmo.
– É sim.
Meliodas então me puxou até a porta. Mas eu o parei.
– Escuta Meliodas-sama. – pronunciei confusa – Há um lugar que gostaria de ir antes, e quero que vá comigo.
~
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