Lacrimosa
13 Desespero
"Quando eu vejo seu sorriso
Lágrimas caem pelo meu rosto e não posso fazê-las voltarem
E agora que sou mais forte eu descobri
Como esse mundo se torna frio e atravessa minha alma”
Estava pasma. Não importava as palavras que usava Ban não iria acreditar em mim. Ele estava tão nervoso e ao mesmo tempo excitado com sua descoberta, seja qual for ela. Eu temi o fato de não saber o que ele iria querer comigo.
Meliodas já estava em fúrias, as ações de Ban e seus atos contradizendo os dele haviam o irritado de uma maneira que nunca podia imaginar em ver. Tudo aquilo me era tão estranho, e eu não estava entendendo nada.
– King, leve a Elizabeth para o quarto e fique com ela até eu resolver as coisas aqui. – disse Meliodas sem ao menos olhar para o pecado da preguiça. Sua atenção era totalmente guiada ao Ban.
Eu olhei para King com a esperança de que ele não obedecesse às palavras do Meliodas e tentasse parar toda aquela confusão, mas o mesmo apenas se levantou cabisbaixo e veio em minha direção. Eu me neguei deixar tudo aquilo acontecer.
– Meliodas-sama, pare... – disse em um tom nervoso – vamos conversar, talvez eu possa acabar com este mal entendido...
– Elizabeth, não existe mal entendido. – ele me respondeu sério. – Ban esta totalmente fora se si, ele não vai ouvi-la mesmo se você o conhecesse tão bem quanto eu.
Uma angustia tomou conta de mim, mas antes que pudesse fazer qualquer movimento King me segurou pelo braço. Seus olhos estavam tão opacos e distantes, mas mesmo assim ele me encarou em uma tentativa de me convencer a obedecer às ordens de seu capitão.
Eu apenas resolvi confiar em Meliodas. Mas antes de guiar meus passos novamente até a escada ouvi Meliodas pronunciar algo que me fez tremer...
– Nunca mais toque na Elizabeth, se o fizer... Não irei poupa-lo, mesmo sendo meu melhor amigo. Você me entende não é, Ban?
Ban o encarou na mesma intensidade. E sua resposta soou mais como uma provocação.
– Belas palavras capitão, eu diria o mesmo se fosse por ela...
~
Ao entrar no quarto deixei meu corpo pesar e cai de joelhos sobre chão gelado. Um temor surgiu em meu coração, este que não era somente meu – como se eu o carregasse há muito tempo – o mesmo temor que Liz carregava consigo.
O medo de Meliodas ir contra o mundo por minha causa.
King se abaixou ao meu lado e estendeu a mão, ele forçou um sorriso, e eu não pude ignorar aquilo.
– Princesa, não se preocupe com aquilo. Eles sempre foram assim.
Deixei um suspiro ecoar pelo quarto antes de aceitar sua ajuda para me levantar. – King-sama, você sabe o que o Ban tem?
Ele desviou o olhar por um momento.
– Elaine... – ele sussurrou, mas pude ouvi-lo bem.
– Elaine?
– Ela era minha irmã – completou King, e então voltou a me olhar – Ela morreu, e isso aconteceu há muito tempo.
– Mas... então.
– Sim – ele me respondeu como se soubesse o que iria perguntar. – Depois que deixei a floresta das fadas Elaine ficou sozinha durante séculos, até que certo dia um mortal escalou a árvore da vida atrás da fonte da juventude. Este mortal era Ban, e foi ele quem curou a solidão de minha irmã.
Por um momento fiquei sem saber o que dizer, nunca poderia imaginar algo assim sobre o Ban.
– Ele a ama – concluiu King – e eu soube no momento em vi os dois na Cidade dos Mortos que ele faria de tudo para trazê-la de volta a vida.
– Mas... – disse um pouco vacilante. – King-sama, ele acha que... Eu teria algum poder para isso?
– Eu realmente não sei princesa. – King me encarou por um momento, seu semblante era sério e desconfiado. – Você tem?
Não soube como respondê-lo. Eu sentia que existia algo em mim que não sabia, aliás, minha existência era um mistério, e eu já esperava tudo depois de minha descoberta sobre Liz. Mas eu realmente não tinha conhecimento de nada do que Ban disse além da espiral tripla que carrego em meu olho esquerdo.
– Se eu tiver algum poder faria de tudo para ajuda-lo. – respondi finalmente. – Aliás, Ban-sama é meu amigo também.
King sorriu com minha resposta.
– Eu sei que sim, princesa.
Suspirei fundo e me sentei sobre a cama. Um barulho veio do salão principal do bar, e novamente aquela preocupação tomou conta de mim.
– King-sama... – disse ao encara-lo, ele pareceu perceber o que iria pedir.
– Tente dormir, eu irei cuidar disso. – King sorriu. – é um favor por ter me ouvido na floresta aquela vez.
Suas palavras eram tranquilizadoras, então pude deixar todo aquele temor ir embora por um momento antes de cair sobre a cama. Parecia que não descansava há muito tempo, logo meus olhos começaram e se fechar, e a última coisa que vi foi uma silhueta alta na minha frente.
~
Não entendia muito bem o que via, mas isso parecia um sonho. Estava cercada por flores, e o céu azul e límpido radiava sobre mim.
Algumas criaturas pequeninas voavam sobre as enormes árvores que me cercavam, mas eu não sabia o que eram.
Apoiei minha mão na grama húmida antes de me levantar, foi quando uma enorme dor tomou conta de meu corpo. Minhas pernas estavam machucadas, e meus braços levemente arranhados. Aquela dor era real.
Aquilo não era um sonho.
Cenas vieram a minha mente, e ao mesmo tempo minha cabeça começou a latejar, e uma aguda pontada em meu cérebro me fez lembrar tudo.
Uma silhueta alta se estendeu a minha frente antes de dormir, o meu cansaço levou-me a acreditar que era um sonho, mas o grito do Meliodas me fez despertar e ver que tudo aquilo era real.
Ban estava parado a minha frente, e ele me segurava pelos braços, retirou um objeto estranho do bolso e logo uma luz branca tomou conta do quarto, foi quando desmaiei.
Aquelas lembranças repentinas me fez levar as mãos até a boca e abafar um grito assustado. Eu não sabia onde estava, mas não podia deixar toda essa confusão tomar conta e me enlouquecer.
Precisava arrumar um jeito de voltar para o Boar Hat, ou não podia imaginar o nível do desastre caso Meliodas me encontra-se primeiro.
“- Nunca mais toque na Elizabeth, se o fizer... Não irei poupa-lo, mesmo sendo meu melhor amigo. Você me entende não é, Ban?”
...
Encostei-me em uma árvore e cuidadosamente olhei por detrás da mesma. Minha suposição estava certa, e foi ao ver as pequenas fadas voarem por todos os lados que tive a certeza.
Quando ameacei dar mais alguns passos senti que algo me prendia, mas a verdade era mais assustadora do que parecia. Por conta do meu corpo dolorido não havia notado a corda amarrada em minha perna. Aquilo me desesperou, mas ao tentar tira-la percebi que ela se estendia ao longo da árvore.
Resolvi seguir a corda me aproximando lentamente de sua origem. Não havia notado, mas aquela árvore era realmente grande, o suficiente para esconder uma pequena caverna entre algumas rochas.
A corda me guiava para dentro da caverna, hesitei antes de entrar, mas o fato de conseguir enxergar dentro dela por conta da forte iluminação da floresta me encorajou. Afastei a cortina de flores que ocultava a entrada e me surpreendi ao ver que alguém adormecia lá dentro.
Era uma garota. Seu corpo raquítico e seus cabelos loiros me fez acreditar que ainda era uma criança.
Caminhei até seu lado e me abaixei cuidadosamente para não assusta-la.
– Ei, garotinha... – a chamei, mas vi que seu sono era tão profundo que ela nem ao menos reagiu.
– Ela não vai ouvi-la. – uma voz soou ao fundo da caverna.
Dei um salto para trás desconfiada, mas ao ver a figura daquela pessoa pude sentir um temor crescer dentro de mim.
– Ban...
Ele caminhou em minha direção. Levantei-me o mais rápido que pude e corri para fora da caverna, mas ao pisar no lado de fora senti algo puxar a corda tão forte que cai sobre algumas pedras, o que fez minhas feridas se intensificar cada vez mais.
Notei que qualquer movimento que fizesse seria inútil. Então resolvi desistir.
Olhei para trás e vi que Ban havia se sentado ao lado da garota. Ele levou seus dedos até o delicado rosto dela e o acariciou, guiando-os até seus cabelos loiros. A expressão que pairou em sua face fez meu coração doer.
Tudo fazia sentido agora.
– Ela é Elaine? – perguntei, minha voz estava falha, mas ele pode me entender, e com isso me encarou sério.
– Ele te contou, não é? – disse – Bem, isso não importa mais.
Caminhei até ele e me sentei a sua frente.
– Ban-sama, você não precisava fazer isso, seja lá como o fez.
Um sorriso irônico brotou em seus lábios. – Esta me dizendo que eu não precisava sequestra-la? Acha mesmo que o capitão iria aceitar tudo isso na boa? Você ouviu o que ele disse.
– E eu digo o mesmo. – balbuciei um tanto preocupada – você ouviu o que o Meliodas-sama disse, mas mesmo assim...
– Está preocupado comigo, princesa? Você está esquecendo quem eu sou.
Não adiantava contradizer. Ban não iria abaixar a cabeça, e menos ainda iria deixar-me sair.
– Como me trouxe aqui? – perguntei, mas antes de encara-lo observei novamente o lugar para ter a certeza. – Aqui é a floresta das fadas, não é? Estávamos na fronteira de Lyones e Danafor, é simplesmente impossível...
Antes que pudesse completar Ban jogou um objeto em minha frente. Era uma esfera verde-esmeralda, e podia ver um brilho mágico tomar conta da caverna, o mesmo brilho que vi antes de acordar neste lugar.
– Eu aprendi durante o tempo em que vivi nesta floresta que não devemos subestimar as fadas, elas escondem itens muito úteis. – disse, e então caminhou até a esfera. Observei seus atos, mas um suspiro assustado escapou-me quando vi tomar a esfera em mãos e a despedaçar como se fosse um pedaço de vidro.
– Eu não vou dizer que realmente acreditei nessa sua história de que não conhece seus poderes, então fui forçado a isso. – ele disse em um tom firme. – Não me leve a mal princesa, mas minha única motivação... A motivação que me faz acordar todos os dias e viver neste inferno... É saber que existem formas de fazê-la voltar.
Lágrimas brotaram em seus olhos, mas Ban realmente se negou a chorar.
– Li uma vez sobre o extinto clã das Deusas, e por muito tempo procurei meios de me comunicar com elas. Por este motivo concordei em ir naquela missão no Vilarejo Perdido, pois sabia que de alguma forma iria descobrir algo que pudesse me ajudar. Mas veja só. – ele riu, e apontou para mim – A resposta estava a minha frente e não percebi! Você pode imaginar o que acontece com uma pessoa quando prestes e desistir de seus objetivos encontra a esperança? Eu realmente não soube o que fazer!
– Ban-sama... – sussurrei para mim mesma e voltei a encarar o chão. Senti uma enorme vontade de chorar.
Imaginei que Meliodas podia ter caído no mesmo abismo quando perdeu Liz.
Olhei novamente para a garotinha deitada a minha frente. Seu rosto tão sereno não me convenceu de que ela não estava apenas dormindo, sua pele ainda mantinha um leve tom roseado como se o sangue corresse em suas veias, e seu rosto arredondado realmente me lembrava do King. Era tão... Injusto.
Eu já havia me decidido. Se existia uma forma de trazer Elaine de volta e a esperança estava em minhas mãos, eu realmente iria fazê-lo, mesmo não sabendo como.
Estava prestes a dizer minha decisão ao Ban quando ouvi um tumulto do lado de fora da caverna. Algumas fadas voavam de um lado para o outro, e outras vieram até nós desesperadas.
Ban se ergueu antes mesmo delas dizerem algo, e seus olhos estalaram em surpresa.
– Rei fada Ban. – uma das fadas pronunciou em reverência. — Um portal se abriu, provavelmente isso é obra do King.
– Está me dizendo que ele...
As palavras de Ban foram interrompidas quando as cortinas de flores que ocultavam a caverna foram cortadas de uma só vez, e a expressão furiosa de Meliodas aquietou o tumulto das fadas.
Aquela frase voltou em minha mente, logo um medo inquietante tomou conta de mim.
– Você pagará caro por isso, Ban.
~
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