Laboratório de Poções
2 Essência da Aurora Boreal – Ms. Pena
Notas iniciais

Era uma bela manhã de sábado em Hogwarts, e a maioria dos alunos aproveitava o dia livre para dormir até tarde. Bervely Black, no entanto, acordou bem cedo e se dirigiu para a sala de poções nas masmorras, sabendo que seria um dia cheio.
Quando ela chegou, com uma braçada de pergaminhos em uma mão e uma caixa de amostras em outra, o Prof. Snape já a aguardava, como sempre metido em roupas pretas cheias de botões. Secretamente, ela pensava que Snape não praticava o hábito mudando de dormir, pois qualquer outra pessoa tão cedo numa manha de sábado exibiria pelo menos uma cara amassada.
– Já temos todos? – ele perguntou, a voz trovejante lhe retirando dos devaneios a respeito da sua humanidade. Ela assentiu, eficiente. – Ótimo, já basta de espera, vamos começar as análises.
Bervely sentiu um arrepio de excitação. Afora as atividades normais da disciplina, o Prof. Snape solicitara aquela tarefa de criação em poções aos seus melhores alunos, para fins de crédito extra, e ela estava contanto que haveriam projetos muito interessantes entre os que leriam naquele dia.
– Como prefere ordená-los? Ordem alfabética?
– Ordem de entrega.
Ela concordou e sentou-se à mesa, em frente a ele, os trabalhos entre os dois, bem com as amostras enviadas. Como fora ela mesma a receber os relatórios ao longo dos últimos quatro dias, sabia bem quem fora o primeiro a entregar.
– Srta. Pena – anunciou, pegando o rolo de pergaminho na pilha, um dos mais volumosos. – Essência da Aurora Boreal.
Ela ergueu o rosto, esperando autorização para continuar, e viu que o mestre puxara uma pena e um livro de anotações. Ele fez um aceno de cabeça para que prosseguisse.
Bervely começou a desenrolar o pergaminho, e parecia que ele não terminava mais.
– Wow, isso tem quase um metro.
– Vamos torcer para que a Srta. Pena use o nosso tempo sabiamente, então.
Bervely sorriu em concordância e começou a ler:
Razão da criação
A Aurora Boreal é um fenômeno mágico natural amplamente conhecido. Trata-se de luzes de diversas cores e formas que aparecem nas regiões mais próximas do pólo Norte, durante os invernos rigorosos.
A comunidade trouxa consegue visualizar as luzes invernais, fazendo deste um dos únicos fenômenos mágicos visíveis a olhos não-mágicos. Isto acontece porque a Aurora Boreal é um acontecimento que abrange os dois mundos, trouxa e bruxo, traçando uma linha tênue entre o plano dos vivos e o dos mortos.
Durante o inverno, quando a luz e o calor são escassos e a vida luta para se sobrepor a morte, nos lugares mais longínquos do planeta, o fino véu entre o plano dos vivos e dos mortos se rompe. É quando acontece a Aurora Boreal.
– Eu não sabia disso. – Bervely interrompeu a leitura, impressionada. O professor Snape assentiu.
– Estuda-se as propriedades de fenômenos mágicos naturais como este em geomagia, não é uma disciplina que temos em Hogwarts.
– Parece que alguém andou fazendo turno extra na biblioteca.
– Prossiga, Srta. Black. – ele mandou, como sempre não o maior fã de papo furado.
O excêntrico herbologista Lars Johanessen, em 1827, registrou em seu caderno de explorações, a beleza do evento visto da isolada e inabitada ilha de Lítla Dímun, pertencente ao árquipelágo das Ilhas Féroes, como pode ser visto no trecho de seu diário de viagem, transcrito abaixo:
“Quando a vi do povoado de Hvalba, a pequena ilha abandonada a própria sorte, povoada apenas por ovelhas e ervas, soube que tinha que ir lá. Resumindo-se a uma falésia e uma montanha, com nada de frutos ou terra fértil, sem atrativos aos olhos trouxas e consequentemente, com pouca ou nenhuma intervenção estabanada dos mesmos, pensei que poderia encontrar algo de útil para os meus estudos herbais. Que não houvesse encontrado nada de útil lá, mas entre o vento marítimo enregelante o solo duro e pedregoso, o mais belo dos eventos se descortinou diante dos meus olhos! Um véu de luz, sons e cheiros. Soube que estava diante de algo tão grande quanto a vida, soube que estava diante da própria morte!” Diário de viagem – Ervas Nórdicas, pág 47. 28 de dezembro de 1827 – L. Johanessen.
Johanessen morreu em agosto de 1872, aos 104 anos, tendo catalogado na ilha de Lítla Dímun, cerca de 15 espécies diferentes de ervas, das quais, apenas 4 demonstraram aplicações reais no mundo bruxo, sempre relacionadas com a sua grande resistência a interpéries e aplicadas em fertilizantes fortificantes para plantas sensíveis ao frio.
Apenas em 1891, foi documentada novamente a visita de bruxos à pequena ilha de Lítla Dímun. Os jovens récem-casados, Aurora e Otávio Pena, um casal de artesãos de varinhas portugueses, acreditaram que seria romântico observar o fenômeno que nomeava a jovem dama, em um lugar ermo, sem nada, apenas com os breves sussurros de um casal apaixonado, que bem poderiam ser os últimos de toda a Terra.
“Aquela foi uma noite mágica, apenas nós dois, os últimos dos bruxos, os últimos dos mortais! Não havia nada além das luzes, não parecia haver passado ou futuro naquele lugar inóspito, iluminado por tons de verde, roxo e dourado, que o tornavam mais belo do que qualquer campo florido. E haviam flores ali, as mais estranhas flores, levemente douradas, tão pequenas que poderiam ser confundidas com reflexos das luzes na neve recém caída sobre as ervas, que teimavam em não sucumbir aos desmandos do rigoroso inverno nórdico. Eram lindas, cheiravam como lenha queimando, menta fresca e aconchego.” Diário pessoal de Aurora Pena – Pág 34 – Acervo familiar.
Aurora foi encontrada em sua pequena casa de campo, em frente a lareira, com o seu chá favorito de menta ao lado, dormindo o sono eterno, setenta anos depois de ter registrado em seu diário os aromas de sua morte.
– Poético. – Bervely zombou, mas o professor parecia compenetrado o suficiente para não se interessar em seu tom.
– Continue.
Esse conto foi passado de geração em geração dentro da minha família, sendo a estória de minha tatara- avó Aurora, a favorita entre os pequenos. “Teve uma vida abençoada”, contam os mais velhos. “No fim da vida não havia medo, apenas uma aceitação de que até mesmo a melhor das existências se finda”, assim sempre terminou a estória.
Meu pai conta que quando ela finalmente se foi, não houve tristeza e lamentações. As pessoas apenas se sentaram em sua velha sala de estar e compartilharam histórias, ora divertidas, ora doces, da senhora apaixonada que sempre sonhou em encontrar novamente aquelas lindas flores douradas de sua juventude.
Suponho que seria apenas uma bela estória familiar, se não houvesse encontrado recentemente, num pequeno boticário do povoado de Hvalba, Ilhas Féroes, uma flor chamada de Orvalho do Norte, que cresce apenas na base da montanha de Slættirnir, na infame ilha de Lítla Dímun!
O boticário me explicou, que aquela pequena planta de uma suave cor branca acetinada era popurlamente usada em tônicos dados a pacientes terminais, para que partissem em paz, para o outro lado do véu. Perguntei a ele se havia mais flores naquela pequena ilha e ele me garantiu que apenas o Orvalho do Norte era teimosa o suficiente para crescer naquele solo.
– Ela colocou uma fotografia trouxa da flor! – espantou-se, ao ver a imagem completamente parada colada ao pergaminho com um feitiço de grude.
Snape se inclinou e deu uma olhada breve na fotografia.
– O senhor já tinha ouvido falar no Orvalho da Noite?
– É citado em um ou outro livro como ingrediente de uso comum nos países baixos, mas um tanto subestimada pelo resto dos porcionistas europeus. Conhecidencia curiosa a Srta. Pena ter um histórico familiar ligado à esse ingrediente, sendo ela de origem portuguesa.
– Sorte.
Contei a ele brevemente a história de minha ancestral, de como ela parecia fascinada por essa pequena flor dourada, completei dizendo que deveria ter sido apenas a imaginação de uma garota apaixonada e me despedi do simpático boticário, triste por ter destruído voluntariamente uma estória que deveria ter ficado naquele doce compartimento entre o real e irreal nas nossas mentes.
Qual não foi minha surpresa ao ser chamada de volta pelo velho homem, me dizendo para esperar, pois ele tinha algo para me mostrar. Ele trouxe, num pequeno vidro, uma flor miúda, ressecada pelo tempo, mas que claramente apresentava um leve brilho dourado.
Ali estava, a flor da minha avó, a flor que encantou minha família por gerações! O boticário me explicou que aquela era a Orvalho do Norte, mas que havia sido colhida pelo seu pai, a quase 50 anos atrás, numa fria noite de inverno, com direito a aparição da bela Aurora Boreal.
Então foi aí que eu entendi, a flor que apazigua a mente e o coração daqueles que estão se despedindo da vida, ao encontrar a Aurora Boreal, capta a essência da vida e morte e nos dá um vislumbre do que pode ser o nosso último momento neste plano.
Bervely tinha um sorriso no rosto ao final da frase.
– E mais um pouco de sorte. Como se não fosse o bastante saber pelo diário da avó sobre a flor, ela acha justamente o boticário que tem um exemplar guardado há cinquenta anos.
– Eu me concentraria mais do fato de a Srta. Pena ter identificado a propriedade de absorção mágica do componente, Srta. Black. – disse o mestre, fazendo uma anotação em seu pergaminho. – Tem ideia como isso é raro?
– Uma flor que absorve magia, ou alguém notar o fenômeno?
– Ambos.
Erguendo ligeiramente uma sobrancelha, ela continuou a leitura.
Consegui convencer o homem a ceder a sua preciosa relíquia familiar, prometendo que num futuro próximo retornaria a Hvalba, para lhe entregar um pequeno lote dessas preciosas flores colhidas na base da montanha de Slættirnir, em uma noite de inverno, sob as luzes da Aurora Boreal.
Prometi ao boticário também uma referência ao seu pai, Grímur Rasmussen, aquele que primeiramente teve a brilhante ideia de colher a Orvalho do Norte durante a Aurora Boreal, em meus futuros estudos a respeito da utilização da pequena flor em poções de deslumbre do fim da vida.
Acredito que para além dos meus laços afetivos com a história do ingrediente principal dessa poção, a Essência da Aurora Boreal tem diversas aplicações no mundo mágico, descritas no Item 4.
– Ah! Quer dizer que ela foi até a tal ilha isolada colher a flor, ela mesma? – duvidou, e foi a vez de Snape lhe erguer uma sobrancelha cética, ligeiramente divertido.
– Inveja, Srta. Black?
Bervely não lhe respondeu, apenas ajeitou o pergaminho reto em sua mão com mais força do que era necessário.
– E chegamos aos ingredientes. Orvalho do Norte, cinco flores douradas desidratadas. “Muito utilizada para apaziguar a mente e o coração de pessoas próximas à morte, a Orvalho do Norte, fresca e colhida em qualquer momento é amplamente utilizada, tanto pelos trouxas, quanto pelos bruxos das regiões das Ilhas Féroes e Dinamarca. Quando colhida durante a Aurora Boreal, absorve do evento, suas características de premonição da morte, propriedades essas ainda sob estudos, muito recentes e com poucos dados.”
O Prof. Snape passou a fazer notas rápidas em seu livro, e Bervely supôs que deveria continuar a listagem.
– Raiz de verbena, três pedaços – continuou, curiosa para saber qual efeito a poção teria. Snape a proibira de ler os relatórios sozinha, então precisaria se morder de curiosidade até chegar à essa parte. Naturalmente saltou os efeitos deste ingrediente, que conheciam ambos muito bem. Um pequeno adendo histórico no entanto lhe chamou atenção – “Os druidas a consideravam uma planta santa e tinham uma cerimônia especial para colhê-la: esperavam até o aparecimento da estrela do Grande Cão, Sirius, quando tanto o Sol quanto a Lua estavam atrás do horizonte.”
– O quê? – Snape ergueu a cabeça, quando percebeu que ela tinha parado de ler e encarava o pergaminho pensativa.
– Nada não… sabia que na minha família as pessoas tem nome de estrela?
A informação irrelevante ao contexto talvez o irritasse, pensou tardiamente, mas o professor pareceu intrigado.
– Estou certo de que Bervely não é um nome de estrela.
– Não. É um nome de boneca. – lembrou-se, com um sorriso vago.
– Como? – ele entendeu ainda menos. Bervely piscou, percebendo que se desviara um tanto do assunto.
– Nada. Vou continuar. – pigarreou – Solução de Olíbano , três colheres de chá dissolvidas em álcool etílico. Licor de Artemísia – 400ml… ela diz que a artemísia é utilizada na poção para garantir que a pessoa se lembre dos aromas sentidos e que possa controlar a sua volta da imersão provocada pela essência.
– Interessante.
– Acha que é uma poção que permite viajar ao mundo dos mortos? – cogitou, a ideia lhe vindo à mente de súbito, a possibilidade se engrandecendo em sua mente.
– Saberemos quando a sua leitura avançar. Prossiga, Srta. Black, se não for muito incômodo.
Ela notou a nota de impaciência na voz dele, e percebeu que o mestre também estava curioso.
– O próximo ingrediente é Hissopo… “para reforçar as proteções emocionais do bruxo, já que a Orvalho do Norte ajuda no rompimento do véu entre esse mundo e o outro, e não há estudos suficientes para saber se algo do outro lado pode passar para aqueles que fazem uso da essência da Aurora Boreal.”, ela diz. Isso está começando a soar perigoso.
Snape lhe deu um olhar severo, e Bervely logo continuou a listagem.
– Myristica… “para reforçar a clarividência”. Noz moscada, sério? O que é isso, receita de bolo do além?
– Alguns ingredientes culinários aparentemente desprovidos de propriedades mágicas podem apresentar uma interação ativa se feitas as combinações corretas, como a senhorita deve ter conhecimento, já que comentei isso há algumas aulas…
– Eu sei… mas noz moscada? Uff. Oenocarpus… uma semente do norte do Brasil. Uau, ela foi buscar isso longe. Emulsificante e potencializado de aromas.
– Vale a verificação – ele pontuou, acrescentando uma nota ao seu livro – Quem sabe não podemos adicionar o ingrediente às nossas opções de emulsificante do estoque da escola?
Ela fez uma anotação mental, já que os pedidos de ingredientes eram uma de suas obrigações como monitora, e voltou ao relatório.
– Modo de preparo! – era sem dúvida a sua parte preferida. – “Esta é uma poção de preparo extremamente rápido e deve ficar pouquíssimo tempo no fogo, pois senão, os seus aromas podem se volatilizar. Para prepará-la, é necessário que todos os materiais estejam prontos para a aplicação antes do início e as instruções devem ser lidas previamente para evitar erros. As flores Orvalho do Norte devem estar devidamente desidratadas; as raízes de Verbena devem estar o mais frescas possíveis, mas sem nenhum traço de terra nelas, elas serão utilizados em pedaços grandes; o hissopo deve ter o seu talo retirado; a myristica deve ser macerada com a ajuda de um espremedor de sementes de aluminío; a Oenocarpus deve ser ralada grosseiramente em ralo de alumínio nº2.”
– Me agrada o nível de detalhismo descritivo da Srta. Pena – ele comentou. – Será que todos terão o mesmo cuidado na descrição do processo, ou este foi um relatório afortunado?
– Torço pela primeira opção. Replicar as poções sem essas informações pode ser um verdadeiro inferno… Ah, preparo, então.
1º- Em um caldeirão de bronze, tamanho 1, coloque os 400ml do licor de Artemísia, juntamente com as três colheres de chá da solução de olíbano e leve ao fogo brando por 7 minutos, sem mexer, para que o álcool dos dois líquidos comece a se dispersar;
2º — Passado o tempo, comece a mexer em sentido anti-horário, 12 vezes, a cada 3 voltas, adicionar uma raíz de verbena.
3º — Acrescente a myristica e o oenocarpus e mexa no sentido horário 17 vezes, sem encostar a colher no caldeirão, apenas no líquido.
4º — Deixe ferver. No exato momento em que a poção estiver começando a borbulhar e a espumar, adicione a Orvalho da Noite e mexa no sentido horário, até que a poção engrosse e adquira uma coloração perolada.
5º — Desligue o fogo e tampe o caldeirão imediatamente.
6º — Deixe a poção esfriar, de um dia para o outro, tampada e sem nenhum tipo de movimentação.
7º — Com o auxílio de um filtro de pano, coe a poção, adicione as flores de hissopo e engarrafe imediatamente.
8º — Se todos os passos tiverem sido executados corretamente, a poção deverá ter uma coloração bordô opaca e leitosa, será possível visualizar as flores de hissopo e haverá um pequeno anel de espuma consistente.
– Um mínimo de dois dias de preparação. – ela notou – Já que precisa esfriar de um dia para o outro. Ah, tem algumas observações. “A poção deverá ser preparada, preferencialmente em noite de lua nova; Deverá ser armazenada em local seco e abrigada da luz direta, mas não precisa ser armazenada em frascos de cores escuras; O efeito da poção dura de 6 à 8 dias, quando completamente vedada. Em uso, a poção dura 18 minutos, se utilizada durante o dia e 27 minutos, se utilizada à noite.”
– Há alguma explicação para a variação do efeito, quando tomada em turnos diferentes?
– Não, senhor. – Bervely deu uma olhada rápida no relatório – Mas eu imagino que tenha a ver com a interação da verbena com a energia lunar?
– Talvez. – ele fez mais uma anotação. – Efeito esperado?
Ela correu o dedo para o tópico mais aguardado do relatório. Normalmente o efeito esperado de uma poção era a primeira coisa a se ler sobre ela, e Bervely tinha a sensação de que o professor fizera de propósito ao colocá-lo após os ingredientes. Se nada, o mestre gostava de um certo suspense.
“O efeito esperado da Essência da Aurora Boreal é a potencialização das propriedades naturais da flor conhecida como Orvalho do Norte, colhida na base da montanha Slættirnir , na ilha de Lítla Dímun, durante a Aurora Boreal, que acontece durante o inverno nórdico.
Aquele que respirar o aroma da essência deverá ser capaz de sentir os cheiros e odores que estarão presentes em sua morte. Será útil para aqueles que desejam adiar o encontro com a morte, já que assim como a arte da Adivinhação, essa poção não é definitiva e tão pouco mostra um futuro inevitável.
Pode ajudar a antecipar casos de futuras violências, através da identificação de odores como o de sangue, de fogo, de venenos, mas é necessário que a pessoa que utilize a poção tenha alguma noção de aromas.
Quando eu senti os aromas da poção, veio para mim um forte cheiro de maresia, madeira úmida e lã molhada. Estou evitando viagens de barco no inverno desde então, mesmo tendo sentido também um leve cheiro, que só posso descrever como inevitabilidade.”
Seguiu-se ao trecho lido um silêncio pesado entre eles. Apesar de ter desconfiado das propriedades aromáticas da poção ao ler os ingredientes, e o efeito esperado da poção lhe causou arrepios involuntários. Quando voltou da sua momentânea distração (que cheiro teria a sua morte?), o professor acabara de falar alguma coisa.
– Desculpe, professor, o quê?
– Eu disse: pegue a amostra na caixa, Srta. Black.
– Mas ainda faltam as reações adversas e as contra-indicações…
– Agora. – ele insistiu.
Bervely reconheceu o pequeno frasco retangular entre os outros, de tampa dourada, onde as pequenas flores de hissopo boiavam na poção clara, através do vidro. Entregou a ele com receio.
– O senhor não vai testar, vai? Nem sabemos se funciona, ou se foi feita corretamente.
Ele analisou o líquido, depois retirou a tampa e, para surpresa dela, a aspirou cuidadosamente. Bervely tentou ler a expressão em seus olhos, que cheiro teria a morte de Severus Snape? Mas ele nada esboçou, a não ser um ligeiro vinco entre as suas sobrancelhas negras e espessas.
Quando viu que ela lhe olhava com a boca ligeiramente aberta, abaixou o frasco.
– Leia as reações adversas e contra-indicações.
Bervely não obedeceu de primeira.
– O senhor vai me deixar saber...?
– Não.
Bufou, e com uma última olhada para ele, voltou ao relatório.
– “A poção pode causar tontura, enjôo, cefaléia (dor de cabeça) e vômitos caso não seja preparada adequadamente, ou sua conservação não seja feita em um ambiente com baixa umidade e longe de incidência solar, que podem fazer com que as substâncias mais volatéis mudem suas propriedades.” E nas contra-indicações… “à mulheres grávidas, pois o destino da mãe e do bebê estão atrelados, a pessoas muito sensíveis aos cheiros fortes, a animagos que se transfiguram em animais com o olfato muito apurado e a seres mágicos que possuam ligações com a lua, como os lobisomens, por conta da utilização da erva Verbena, um verdadeiro veneno para tais criaturas.” E isso é tudo.
Quando levantou os olhos, o professor observava ainda a Essência da Aurora Boreal contra a luz, profundamente absorvido.
– Hum… professor? Foi um relatório bastante completo, não foi?
– Certamente.
Ela o observou por um minuto inteiro, antes de tomar coragem para propor.
– Eu posso testar?
Ele enfim arrancou o olhar da poção para pregá-los nela.
– Perdeu completamente o juízo?
– Mas o senhor mesmo acabou de cheirar!
– Tem noção de como uma informação como essa, caso a poção funcione, pode ser perigosa? – ele brigou. Ela nem sabia como o deixara de repente tão alterado. – Bruxos mais maduros que a senhorita já perderam o juízo por menos!
– Mas eu não vou ficar louca com o cheiro da minha morte nem nad–
– Fora de qualquer cogitação, Srta. Black! – Snape exclamou, agora tão aborrecido como se ela tivesse derretido um caldeirão de estanho inteiro sobre a mesa. – não quero ouvir mais nem um pio dessa ideia absurda. Vamos ao próximo relatório!
(Continua…)
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