Labirinto da Escuridão
5 Capítulo 4 - Desespero
Notas iniciais
– O que foi aquilo? – perguntei no momento em que Diego entrou pela porta. O barulho fora tão alto que escutamos da casa em que nos encontrávamos que era ligeiramente afastada da cidade.
– Um prédio explodiu.
– Por quê? – Alma questionou.
– Não sei. – respondeu rapidamente e os gêmeos entraram atrás dele. Estavam cobertos por poeira branca, e agora realmente, eu só conseguia ver os olhos vermelhos brilhando no branco. Hideo trazia diversos arranhões em seu pescoço, e as manchas de sangue desciam pavorosas por ele.
– Vou tomar banho. – disse rapidamente e saiu sem dizer nada mais, subindo as escadas.
– É, também estou precisando. – Yudai comentou e foi logo atrás do seu irmão, e então fiquei em silêncio, vendo claramente a cortina de fumaça branca misturando-se com a negra — provavelmente no local da explosão — pela porta.
Diego a fechou com um chute.
Ele falou com Alma na língua deles, e ela respondeu rapidamente, e ele continuou. Reparei que as conversações eram extremamente rápidas, e como não entendia nada, simplesmente me arrastei até um sofá.
Algo me dizia que Diego mentiu para mim. Mas aquilo me incomodava, mesmo que eu soubesse que problemas deles eram deles e provavelmente amanhã eu iria voltar para casa. Ou ao menos era o que eu esperava, embora de vez enquanto me pegasse pensando se realmente era uma boa ideia... Só de pensar na recepção que provavelmente estaria me esperando, era capaz de pedir eternamente para que não retornasse, mas aqui também não era o meu lugar. Era muito diferente, eu sequer entendia a língua local.
Arrastei-me novamente para o andar superior, voltando para o quarto emprestado e vendo pela janela o local onde ocorrera a explosão. A visão lembrava-me vagamente as Torres Gêmeas por diversas filmagens que havia visto, e diversas daquelas... Naves? Desciam no local.
Eu queria rever a minha mãe... Mas mesmo que eu retornasse para a Terra isso não aconteceria.
Às vezes eu era tomada por essa vontade. Quando eu me sentia sozinha, ou quando as brigas aconteciam, o que era realmente comum.
Lá eu me sentia sozinha. Aqui não está diferente. Por que seria?
Olhei para baixo e vi um animal subindo pela lateral de um tubo de água. Cerrei os olhos para ver melhor e percebi ser uma cobra de escamas brancas e vermelhas. Antes que ela chegasse na janela, tentei fechá-la, quando subitamente algo saltou sobre mim.
Caí com força no chão ao mesmo tempo que alguém imediatamente me imobilizava e vi os dois olhos verdes e viperinos delineados em preto por entre globos oculares do capacete que mais era um crânio gigante de cobra. Meu coração gelou, era Had. Eu conhecia aqueles olhos aterrorizantes.
Eu poderia ter gritado e esperneado como fizera da primeira vez, porém nada disso me veio a mente. Eu escutava silvos de cobras em todos os lugares, e ainda havia o próprio Had sobre mim. Isso era absurdamente aterrorizante.
– Isso mesmo, boa garota. – agora sua própria voz mais parecia um silvo. Eu escutava minha pulsação martelando contra meus ouvidos. Meus olhos correram para meu lado e literalmente havia cobras ali, se arrastando pelo chão, indo em direção à minha porta. Elas pareciam pequenas, mas ao mesmo tempo gigantes, e literalmente elas estavam coladas ao chão, como sombras. – Aquela incompetente falhou e parece que teremos que lidar com tudo com nossas próprias mãos. Se você não resistir, talvez...
A porta se abriu com um estrondo e a cabeça de Had foi cortada ao meio.
Quando o sangue começou a jorrar em todas as direções eu esqueci até como se respirava, mas Had continuou encima de mim. Alguém me agarrou e me puxou para longe dele, e eu sentia o sangue quente e viscoso escorrendo de meu rosto, manchando boa parte de meu tronco.
Um gorgolejar acompanhado de uma risada foi a coisa mais horripilante que já escutei em toda minha vida. Had levantou-se, rindo enquanto sua cabeça rachada ao meio pendia para ambos os lados como a imagem de um pesadelo sangrento, ainda ligada por alguns filamentos de carne. Mesmo Yudai, que segurava uma enorme espada que deveria ser apenas um pouco menor que eu começou a recuar. Had bambeava como um bêbado, e suas risadas enchiam meus ouvidos de tal maneira que eu queria vomitar.
Ele apontou um dedo ensanguentado para Yudai, enquanto as suas serpentes juntavam-se ao redor de seus pés, como se procurassem o calor de seu corpo. Começou a gorgolejar palavras num tom furioso e suas risadas ensandecidas mais uma vez retornaram, enquanto o próprio Yudai pareceu ficar aterrorizado. As cobras trançavam seus corpos umas sobre as outras, crescendo numa coluna ao seu lado. Meteu sua mão entre elas e puxou uma espada muito semelhante a que Yudai, porém seu cabo era repleto de escamas negras e vermelhas, na lâmina dourada eu via claramente as marcas dos corpos das cobras.
Ele a ergueu, e imediatamente eu o achei muito mais assustador que Yudai, que era uns vinte centímetros mais alto e indubitavelmente mais musculoso, que ergueu a sua para aparar. Um estrondo alto se ouviu e...
A lâmina de Yudai caiu partida no chão.
Ele olhou-a surpreso e sem reação, mas teve o suficiente para desviar de um ataque que partiu a parede. Fui arrastada para fora e Alma subia as escadas, só então me dando conta de que Diego era quem estava me segurando. Ou melhor, eu estava agarrada nele como um bichinho. Ele praticamente gritou alguma coisa para ela e praticamente me jogou até ela, gritando alguma coisa e voltando para onde os estrondos vinham imediatamente.
Quando percebi já estava do lado de fora e Alma falava alguma coisa comigo, mas eu só parecia ver a imagem assustadora de Had, seguida pela sua imagem, gritando aquelas coisas com a cabeça partida ao meio.
Aí ela deu um tapa no meu rosto. Aí eu acordei.
–Ótimo, parece que você voltou. – um estrondo alto veio da casa e uma parede inteira ruiu, porém eu não via ninguém lá dentro. Repentinamente um vento incrivelmente forte passou por mim, quase me levando junto, mas Alma me segurou pelo braço, o que não me impediu de cair sentada.
– O que foi isso?!
– Se você se refere ao vento, foi o Hideo. Se você se refere ao cara que está tocando o terror lá dentro... Eu não sei.
– Had. – falei e ela me olhou com o cenho franzido. – Ele foi um dos que me trouxe para cá, eu lembro dele! Ainda tinha outro, Cloud, se não me enga...
– Não se engana não.
Alma me puxou ao mesmo tempo em que senti o chão começar a se afundar atrás de mim, mas um imenso felino saltou sobre ela. Alma caiu e a imensa puma atacava-a furiosamente. A mão forte e macia como a pata de um felino, cheia de garras, agarrou meu braço e mais uma vez me jogou sobre seu ombro como um saco de batatas. Minhas costelas doeram tanto que as lágrimas vieram aos meus olhos e ele disparou. Escutei Alma gritar, mas seu grito ficou para trás e eu mais uma vez não via mais nada.
Cloud saltou no momento em que uma corrente elétrica passou por mim e não parou, pelo contrário, continuou a correr. Vi quando ele passou por cima do que me pareceu ser vários homens com lanças douradas e brancas, saindo em meio a uma planície deserta e então se embrenhou pela mata.
Foi como se tudo estivesse ocorrendo novamente, como quando eles me pegaram na rua de casa. E dessa vez algo me impedia sequer de gritar. Um medo estridente recheado de perguntas, mas que tudo se misturava numa sensação nauseante.
Algo se atirou em Cloud e mais uma vez vi tudo girando, alguém me agarrou, pondo-se sobre mim, e então esse alguém que absorveu todo o impacto do baque no chão. Diego saiu debaixo de mim, levantando num salto.
Só vi as mãos de Cloud descendo e o sangue esguichando do corpo de Diego.
Mal havia levantado e Diego já caiu. Uma um X sangrento profundamente marcado em sua carne, indo de ambos os ombros até a lateral do quadril, e ele perdia tanto sangue que entrei em desespero. Imediatamente levei as minhas mãos até o local, imediatamente o sangue as manchando de forma assustadora. Ele soltou um breve gemido, então seus olhos rolaram nas próprias órbitas e se fecharam.
A mão de Cloud caiu bem ao meu lado. Ela ainda segurava uma espada curva, quase como uma foice, na verdade, estava mais para aquelas antigas espadas egípcias.
Escutei passos rápidos, mas não me virei, ainda tentando absorver a informação que era quanto sangue Diego estava perdendo. Laivos negros começaram a descer por seu cabelo, e mesmo sem saber o que era, um arrepio tenebroso passou por minha coluna.
Um som nojento atrás de mim, que lembrava um monstro saindo da casca em filmes de terror começou a soar, e então... Parou. Yudai apareceu do meu lado, se abaixando, murmurando alguma coisa baixo. Tirou a própria camisa, rasgando-a em tiras e a usou como bandagens no imenso ferimento, servindo-se do que restava da dele também.
– Espere ai. – disse rapidamente e o vi puxando aquele objeto que mais parecia um celular.
Acho que um minuto depois ele começou a falar rapidamente com quem quer que fosse, e uma luz extrema subiu no céu e se espalhou como uma auréola. Sequer olhei para ele, continuei encarando Diego e a coloração negra que lentamente descia por seus cabelos.
Ele não podia morrer. Era uma mistura de medo e uma sensação nostálgica, com um arrepio aterrorizante que martelava no fundo do meu ser. Ele não podia morrer. Aquela sensação era quase como a de quando a minha mãe havia morrido: O que vou fazer se ele morrer?
Parecia um pensamento irracional, sendo que eu conhecera Diego há apenas um dia, mas era exatamente isso que eu sentia. Era como se houvesse aquela sensação de impotência, caso algo acontecesse com ele.
Isso era completamente irracional.
– Por que o cabelo dele está ficando preto?
Yudai não respondeu. O que me encheu de pavor.
– Ele está morrendo?!
– Não...
Eu sabia que ele estava mentindo. Não sei de onde veio essa certeza, mas eu sabia que ele estava. E isso me irritou tão profundamente, quando percebi, estava gritando com ele. Depois nem me lembrava do que gritei, só sei que Yudai escutou tudo em silêncio, sem objetivar palavra alguma em defesa.
Com certeza estava parecendo uma louca, mas só parei quando escutei o som de turbinas. Olhei para cima e vi uma nave não tão grande digna de um filme de ficção científica. Ela não tinha trens de pouso, simplesmente ficou flutuando a uns dois metros do chão e uma rampa se abriu.
De dentro saltou um rapaz não muito mais baixo que Yudai, com uma franja espessa e quase reta, tirando o leve repicar nas pontas, e rosto anguloso. Como se não bastasse, era bonito. Ele veio rapidamente até nós, e outro o seguiu.
Congelei no momento em que o vi.
Era... Cloud?
Ele era um híbrido, e seu cabelo não era tão repicado quanto o de Cloud, pelo contrário, era liso até a nuca, com vários fios caindo sobre a testa. Mas mesmo assim tinha as mesmas feições, a mesma altura e se duvidar, até mesmo a mesma estrutura corporal.
Ele se aproximou, se agachando quase à minha frente, examinando Diego, enquanto o outro trocava palavras extremamente rápido com Yudai, e então apontou para algo atrás de mim. Só por curiosidade, virei – aproveitando para me afastar do outro -, e vi uma espécie de templo de colunas douradas colado contra a parede da montanha e piso de mármore, com várias estátuas dentro dele. E... Só.
O que era igual ao Cloud também olhou, e seus olhos se arregalaram, e ele falou alguma coisa, o outro respondeu e Yudai também, e os três começaram a discutir. Enquanto isso, eu olhei novamente para Diego, e os laivos negros pareciam estar retornando, o que me encheu de alívio. O ferimento também parecia estar se fechando, o que era ótimo.
– Ei, aconteceu alguma coisa?
Yudai e o outro me olharam, parecendo nervosos, e olharam para o templo novamente.
– Está vendo o templo atrás de você? – Yudai questionou. Olhei para ele sobre meu ombro novamente.
– Sim. Por quê?
– Porque... Ele é um portal dimensional. Que liga aqui a Terra. Ou melhor. Era.
– Era? – questionei, e sinceramente, comecei a ficar nervosa, e o que ele disse depois confirmou meu receio.
– Ele... Fechou.
Olhei-o incrédula. Lembrava-me de uma luz quando fui trazida para cá. Uma... Porta de luz. Mas não havia nada disso naquele templo. Era apenas uma construção grudada a uma imensa rocha de montanha.
– Eu não vou poder voltar para casa?!
– Fique calma. Não sabemos se é só esse ou se... Foram todos. – o outro objetivou educadamente.
– Sem querer parecer grosso, mas acho ser melhor tirarmos o Diego daqui. – o que estava atrás de mim disse. – Eu posso curá-lo para sair do risco de vida, mas eu não sou como a Alma. Vamos precisar de ajuda, porque até os órgãos internos dele foram prejudicados.
Os dois murmuraram algo, e Yudai pegou-o pelas pernas, enquanto o que era idêntico a Cloud pegou-o pelos ombros, e o rebocaram para dentro da nave. E fiquei ali parada como a mais completa estúpida até que o que havia ficado tocou meu braço para que eu o seguisse.
Entrei naquela nave e percebi que seu interior não era muito diferente do de um avião cargueiro. Puseram Diego deitado em um banco, mas suas pernas não cabiam nele, então elas pendiam para fora. Posicionei-me no pouco espaço restante, e ergui delicadamente sua cabeça, a pondo em meu colo. Mas uma vez não sei por que fiz isso, só... Fiz.
Nem senti quando ele decolou. Não era como um avião, afinal. Eles continuavam falando, mas como eu não entendia apenas fiquei mexendo no cabelo de Diego, até que Yudai pareceu lembrar de minha existência.
– O que está pilotando a nave é Diego. – apresentou. – O outro é Denis.
Olhei para Denis discretamente. Ele era o idêntico a Cloud. Era aterrorizante para mim encará-lo, principalmente depois do que ele fizera a Diego. Decidi voltar parte de minha atenção à Yudai enquanto eu continuava mexendo no cabelo dele.
– Estamos voltando para a cidade?
– Não. – respondeu. – Estamos indo para a Ordem.
– Ordem?
– Digamos que é a “casa” dos híbridos. – respondeu. — Ainda há alguns humanos, mas a maioria esmagadora é híbrida. Temos outros com habilidades de cura lá, enquanto Alma cuida de Hideo em Sacraelum.
– E como ficou a situação lá?
– Feia. – respondeu simplesmente. – Muito feia.
Fale com o autor