Labirinto da Escuridão

3 Capítulo 2 - Outro mundo


Notas iniciais
Consegui! Dois capítulos em dois dias! Sabe, se minha imaginação permitisse, eu faria quatro capítulos essa semana para compensar o mês que passei sem escrever... Mas por enquanto, eu vou me esforçando... Espero que gostem!

Entreabri os olhos, mas eles doeram devido à luz ofuscante. Soltei um resmungo, tentando cobri-los com minha mão, mas havia alguns fios presos às costas de minhas mãos e em meu pulso. Olhei aquilo meio grogue, e então para as paredes claras do quarto refrigerado, constatando então que deveria estar num hospital.

Forcei minha mente a trabalhar, e então me lembrei rapidamente daqueles dois, Had e Cloud. Lembrei-me deles simplesmente correndo a quilômetros por hora, me levando... Para uma floresta.

Eu enlouqueci?

Alguém no ambiente perguntou algo, numa língua estranha que jamais escutara na vida, fazendo-me praticamente saltar do modo que estava. Não havia escutado nada que pudesse indicar que havia alguém no recinto, portanto, a voz apenas veio do nada.

Olhando para o lado, vi um rapaz bonito que eu daria uns dezessete ou dezoito anos, enorme e musculoso. Ele usava um boné, mas seu cabelo repicado escapava dele, ligeiramente comprido, até a altura do pescoço. E era branco. Talvez tingido? Sob as sombras do boné, eu via olhos vermelhos praticamente brilhando, como quando a luz atinge os olhos de um gato.

Que... Esquisito. Só de olhar para ele, eu tinha um misto de sensações que sinceramente me confundiram. Primeiro, porque ele passava uma sensação estranha... A de perigo. Como se eu estivesse presa em um recinto com um animal selvagem prestes a atacar. Mas eu só estava num quarto de hospital com um desconhecido.

Mas essa também vinha a segunda sensação. Era como se... Eu já tivesse visto ele antes. Mas de onde? Nunca me lembro de ter visto alguém sequer parecido com ele na minha vida! E das duas sensações, essa era a mais acentuada. Martelando repetidamente.

Ele falou de novo comigo, mas não entendi, obviamente. Ele franziu o cenho e então decidi tentar me pronunciar.

– E-eu não te entendo.

As sobrancelhas dele se ergueram, parecendo ficar extremamente surpreso.

– Inglês?! – exclamou.

– Hã... Sim. Onde eu estou?

Ele ficou em silêncio, ainda me encarando, então ele simplesmente pareceu ter se teletransportado até a porta. Pisquei. Quando ele se moveu?

Escutei-o falando extremamente rápido naquele idioma esquisito, então ele voltou, fechando a porta.

– Onde estou? – repeti.

– Sacraelum. – respondeu. – Eu sei que não vai entender direito onde está, mas... Argh, como eu explico? Er, espera um pouco.

Assenti, ainda confusa.

– Qual seu nome?

Mas ele já havia saído pela porta.

Fiquei encarando-a, então puxei aquelas cobertas surpreendentemente quentes sobre mim, me encolhendo. Onde eu estava? Ele parecia ter dificuldades em me dizer, então decidi apenas ficar quieta, me remoendo de nervosismo.

Além daquela sensação. Onde eu já havia o visto?

O rapaz voltou acho que um minuto depois, com uma garota mais ou menos trinta centímetros menor que ele. Chegava a ser engraçado, mas ela tinha um ar de... Autoridade. Mesmo que, na minha opinião, ela não devesse ter mais que uns dezesseis anos. Seu cabelo, também branco estava simplesmente puxado num rabo de cavalo, e também tinha olhos vermelhos como os dele.

Eles discutiram algo rapidamente enquanto eu ainda continuava encarando-o, boiando, e então a garota voltou-se para mim.

– Com licença, poderia me dizer de onde você é?

– Filadélfia. – respondi automaticamente.

– Eu disse. – Diego comentou do lado dela com um suspiro, voltando-se para a parede enquanto esfregava o rosto. Ela apenas olhou para ele, e então continuou.

– Qual seu nome?

– Catherine.

– Escute Catherine. Meu nome é Anita, e esse é Diego. Hm... Pode não fazer muito sentido, mas... Digamos que você não está mais na Terra.

Sinceramente, a primeira coisa que se passou na minha mente, era que essa garota era louca. Mas ela falou num tom tão convincente que me peguei acreditando.

– Como assim?!

– Tente ficar calma. – disse, e vi Diego ajeitando o boné sobre os olhos, encostado à extrema parede distante de mim. – Está em Darneliyan. Digamos que... Aqui é outra dimensão, paralela a Terra, mas é diferente em vários aspectos...

– Anita, você está se enrolando? – Diego comentou num tom incrédulo.

– É difícil explicar isso, sabia?! Eu pensava que só Hideo sabia trazer situações complicadas!

– Não, Hideo trás situações inacreditáveis, nem se encaixam mais em complicadas.

Ela suspirou,

– Você se lembra de como veio parar aqui?

– Sim, dois caras me abordaram na rua, Cloud e Had, se me lembro bem. Depois de um tempo eles apareceram do nada, Cloud me jogou no ombro deles e saiu correndo. Eles entraram em alguma coisa e a última coisa que me lembro é da floresta.

Ela olhou para Diego, que voltara a estar de cenho franzido, e ele balançou ligeiramente a cabeça.

– Só tinha um, e era uma mulher. – disse simplesmente.

– Mas eu me lembro com certeza dos dois! – exclamei, mas Anita interveio.

– Calma. Tem um jeito de você voltar, só que digamos que no momento está... Debilitada.

– Quanto tempo fiquei desacordada?

– Umas duas, três horas. – Diego respondeu.

– Diego, tente explicar algumas coisas para ela, eu vou ter que falar com... – ela apenas indicou para fora e então saiu.

Ele pareceu ficar desconfortável, encarando o chão, e tirou o boné da cabeça, mexendo-o distraidamente. Diego estava claramente pensando no que iria dizer, enquanto eu ainda tentava absorver a informação, começando a me achar extremamente idiota. Será que ela estava falando sério, ou tirando uma com minha cara?

Lembrei da língua estranha que os dois compartilhavam, e Diego disse:

– Aqui nessa dimensão tem monstros. E um deles estava lhe levando, quando... Bem, te pegamos. – disse. Seu próprio modo de falar era bem mais inseguro do que o de Anita. – Por isso corria tão rápido, se quer alguma explicação. Nós o matamos, e... Você caiu, quebrou a perna e algumas costelas e desmaiou.

Levantei as cobertas quando ele disse isso, mas nenhum sinal de gesso, sem contar que eu não sentia dor alguma. Ele deu um sorriso sem graça quando o olhei em dúvida.

– Os médicos já deram um jeito nisso.

– Espera, você disse que... Vocês os mataram?

– Sim.

– Mas aquela coisa corria a quilômetros por hora.

– Nós também. – ele olhou para o lado. – Somos meio monstro. Híbridos, é assim que todos nos chamam aqui.

– Vocês são filhos de...

– Não! Pegam, quer dizer, pegavam crianças e faziam transplantes nelas, substituindo órgãos e partes do corpo, músculos também eu acho, delas por de monstros. Como resultado, temos força e velocidade sobre humanas, além da habilidade de detectá-los.

Olhei-o de cima abaixo, perguntando-me se deveria levar a sério.

– E quem seria louco de aceitar isso?

– Ninguém. Se você perguntar a qualquer híbrido, ele foi obrigado a passar pela cirurgia. – respondeu simplesmente, me fazendo ficar calada. – Ficamos com cabelo branco e olhos vermelhos também, então somos facilmente reconhecidos. – fez uma careta. E só então alguém bateu a porta, e Diego saiu. Mantive-me quieta.

Outra dimensão? Eles estavam falando sério? Para mim eles estavam tentando me levar num papo de louco, mas as imagens daqueles dois não saiam de minha cabeça. Eu lembrava de olhos vermelhos brilhando. A luz dando nos olhos de Diego fizera-os brilhar, mas... Ah, sei lá. Não é o tipo de coisa que conseguimos engolir tão rapidamente.

Had e Cloud. Aqueles dois que me sequestraram. Pareciam simplesmente pessoas normais no momento em que os encontrara na praça, mas era impossível serem normais. Lembrava-me dos olhos de cobra de Had como se fossem um pesadelo, junto com as presas de serpente. Como se estivesse apenas esperando para dar o bote.

– Alik. – um homem entrou no quarto acompanhado de uma mulher baixinha de cabelos acobreados. Usava uma camisa de gola alta e mangas compridas completamente branca, assim como a calça e os sapatos. Tinha o cabelo curto e preto e olhos também negros. Trazia o que pensei ser um tablet, mas percebi que havia apenas uma armação de ferro como uma moldura, e o conteúdo em seu interior não passava de algo como uma imagem holográfica.

– Ele pediu licença. – Diego traduziu para mim.

– Ah... Tudo bem.

– Hm, eu entendo... – o homem murmurou, parecendo ligeiramente desconcertado. – Bem, meu nome é Lasir Oihannaa. Eu sou o médico que... Consertou seus ossos, por assim dizer.

– Obrigada. – falei surpresa. Estava tão acostumada a ver médicos de jaleco que, sinceramente, pensaria que ele era uma espécie de enfermeiro.

– Tudo bem. – sorriu gentilmente, antes de afastar o lençol de minhas pernas, e posicionou o aparelho numa armação que havia próxima a cama, movendo algumas coisas nele e vi a tela ficar preta. Lasir mirou minha perna e percebi que aquilo estava lhe dando uma espécie de visão raios-X. Ele apalpou minha canela esquerda e eu jurei que ia doer e coisa do tipo, mas não. Na verdade só senti um incômodo. Ele falou algo para a mulher que saiu rapidamente do quarto.

– Se você puder. – ele fez um movimento para Diego com um dedo, girando-o. E então Diego se pôs de frente para a parede, de costas para mim. Lasir voltou a mim. – Você quebrou algumas costelas, então vou precisar verificar, tudo certo?

– Ah... Sim. – murmurei, enquanto ele levantava a blusa que eu usava até a altura de minhas costelas, murmurando alguma coisa naquele idioma que eu não entendia e mexeu naquele tablet novamente. Pressionou minhas costelas.

– Isso dói?

– Dói. – Respondi tentando me impedir ofegar diante a dor repentina. Ele falou algo que mais me pareceu um estalar de língua, mas Diego respondeu, então ele realmente falou algo.

A mulher voltou com o que me pareceu uma meia, só que quando Lasir a pôs em minha perna, a percebi... Estranha. Era ao mesmo tempo macia, gelada e rígida. Ele puxou algo do lado dela e realmente ela endureceu, quase como um gesso, só que... Mais confortável. Ele só se prendia em meu calcanhar, mas eu via que não ia sair tão facilmente.

– Tente não andar muito nem correr nos próximos dois dias. – avisou. – E então terá de voltar aqui. Suas costelas estão voltando ao normal um pouco mais devagar, mas é só tentar não fazer nada que a faça doer. Se começar algo, pare imediatamente, está ouvindo? – assenti. – Ótimo. Agora você tem alta.

– Hã, já? Mas eu não...

– Vou te levar para a casa em que ficamos. – Diego disse e Lasir assentiu nervosamente antes de sair. Ele suspirou enquanto se aproximava. – Esse médico se controla bem. Normalmente as pessoas tentam fugir quando nos veem.

Diego pegou um de meus braços e olhei-o sem entender. Quando ele passou-o atrás de seu pescoço que eu entendi, e ele me pegou no colo, me carregando como se eu pesasse tanto quanto nada. Senti meu rosto ficando vermelho.

– E-ei, eu posso andar!

– Eu sei. Mas não grandes distâncias. – replicou, e deu um jeito de abrir a porta do quarto me apoiando só com um braço, quase como uma criança.

No momento que ele saiu e se afastou um pouco, um grupo de médicos apareceu correndo com uma maca... Que estava flutuando, com apenas uma plataforma sob ela. Eles falavam incrivelmente rápido naquele idioma esquisito e só vi a pessoa se convulsionando enquanto eles a levavam para o quarto que até alguns minutos atrás era ocupado por mim.

– Está ocorrendo uma epidemia. – Diego explicou, e percebi que ele andava extremamente rápido. Eu poderia jurar que ele estava correndo, mas quando percebi, ele estava simplesmente... Andando. – O hospital está com falta de espaço, e estão construindo mais. Porém é mais gente que eles podem suportar. – sua boca se entortou. – Mesmo que os hospitais fiquem prontos, eles têm que arranjar médicos de outras regiões. Em parte, acho que é por isso que ele te deu alta tão rápido.

Assenti sem dizer nada e saímos numa espécie de passarela que ligava um prédio ao outro, e olhei, embasbacada para o cenário. Estava no pôr do sol, e eu via uma gigantesca cidade com prédios gigantescos, estranhamente ovalados e que pareciam ser inteiramente feitos de vidro. Via estranhos veículos andando por eles como aviões de caça que se manobravam por entre aquelas montanhas de ferro e vidro guiados por estranhas luzes que seguiam como caminhos para eles em meio aquele formigueiro.

– Acho que só agora você acredita em nós, não é?

– Hã... – Abaixei o rosto, sentindo-me imediatamente constrangida. Era impossível não ficar. E eu achando que eles era loucos.

– Tudo bem. Só... Se segure.

Só tive tempo de fazer isso e ele... Disparou. Gritei, imediatamente as memórias daqueles dois voltaram no momento em que percebi a velocidade em que Diego se movia. Eu não conseguia discernir nada além de borrões. Se eu achara aqueles veículos rápidos, com certeza era porque eu não o vira correndo.

– Ei, fica calma. – Disse numa voz muito calma para quem estava correndo a uns trezentos quilômetros por hora.

Ele parou numa guinada em frente a uma casa mais afastada da cidade, de dois andares, cor de creme e branca, toda quadrada como um mini prédio. Ele me pôs no chão, mas minhas pernas pareciam feitas de geleia, e num reflexo para não cair me agarrei aos braços de Diego. Percebi que estava ofegante e tremia.

– É, talvez eu devesse ter mandado você fechar os olhos ou coisa do tipo. – refletiu.

– Você só pensa nisso agora?!

– Sinto muito. Vamos entrar ou vou precisar te carregar de novo?

Neguei com a cabeça, tomando um pouco de coragem antes de me soltar dele hesitantemente, vendo se conseguiria ficar de pé. Quando fiquei firme, ele abriu a porta, e eu entrei. A sala era ampla de uma cor de salmão, com um piso de pedra cinza. Havia uma espécie de cama minúscula, quase uma de solteiro, em frente a uma armação que trazia apenas uma caixa de ferro, além de outra cama, e uma cadeira que parecia um trono, só que menor.

– Senta no sofá.

– Sofá? – não via nenhum ali.

– Ah é... Esqueci que os sofás daqui são diferentes. – ele apontou para uma mini-cama. – Aquilo é um sofá para nós.

Olhei-o surpresa, mas fui para lá sem reclamar. Aproveitei para por meus pensamentos em ordem. Então... Eu realmente estava em outra dimensão? Era um pensamento ao mesmo tempo perturbador e fascinante. Mas muito mais perturbador que fascinante. Por que aqueles dois me trouxeram até aqui? Certamente não fora por qualquer coisa, mas...

Por quê?

– Oi. – me assustei quando uma garota negra apareceu do nada. Ela era linda e alta, deveria ter, brincando, mais de um e oitenta de altura, com um corpo bonito e em construído. Assim como Diego, tinha cabelos brancos e olhos vermelhos, e seu cabelo crespo era bem cuidado e volumoso, chegando-se até sua cintura. O repentino pensamento veio a minha mente de que qual seria o tamanho daquele cabelo se ele fosse alisado? Com certeza chegaria até bem depois de seus quadris. Ela poderia muito bem ser uma modelo. – Tudo bem?

– Alma, por favor, não vá traumatizá-la. – Diego surgiu descendo as escadas.

– Você fala como se eu fosse capaz de falar coisas terríveis!

– Alma, você disse que estava tudo bem nós passearmos só de toalha por causa dessa sua mente pervertida, é óbvio que você consegue traumatizar alguém. Você conseguiu traumatizar os gêmeos!

Quando ele falou isso, escutei o som que, sinceramente, lembrou-me uma lira misturada a chocalhos de ferro. Diego puxou algo do bolso e subiu.

– Ignore esse chato, ele vai dizer que eu vou te traumatizar o tempo todo. – Alma se adiantou, estendendo uma de suas mãos. – Meu nome é Alma! E o seu?

– Ah, Catherine. – respondi, mas quando fui apertar sua mão, ela apertou meu pulso, balançando-o como se estivéssemos trocando um aperto de mão.

– Pois é, Diego pediu para eu arranjar roupas para você enquanto estiver por aqui. Como não vai passar muito tempo, tudo bem em usar roupas de uma outra garota que está conosco? Ela tem mais ou menos o seu tamanho. É melhor do que essas roupas de hospital.

– Tudo bem. — respondi e só então olhei para as roupas que usava. Era uma blusa comprida, que se abria como um vestido até um pouco acima de meus joelhos, e uma calça que parecia uma calça leg. Isso é uma roupa de hospital aqui?! Para mim seria uma roupa que usaria quando estivesse arrumada!

– Alma! – Diego voltou no momento em que ela pareceu se dirigir à escada. – Você vai ter trabalho.

– O que foi?

– O Hideo ligou e... O Yudai perdeu um braço.

Olhei-o assustada. Ele falou aquilo com tanta naturalidade como se fosse a coisa mais normal do mundo. Alguém perder o braço.

– Mas eles não tinham ido visitar a família?! A avó deles era energética, mas não tanto!

Diego revirou os olhos cor de sangue.

– Ele não explicou direito, só está o trazendo. – ele me olhou. – Tudo bem com você?

– Tudo, tirando que vocês estão falando sobre alguém ter perdido um membro com toda a normalidade do mundo...

– Você não conhece os gêmeos...

– Você não conhece o Diego. – Alma alfinetou. – Ele é muito pior.

Ele fez uma expressão de como se ela não estivesse muito errada. Encarei-o. Eles levavam uma conversa sobre perder membros quase como uma brincadeira.

– E você é uma enfermeira.

– Ei!

– É você que sai regenerando todo mundo!

– Sabe, seria o paraíso para mim se todos soubessem se regenerar como você, mas não, parece que todos tem que ser do tipo ofensivo! Até a Raquel que é super boazinha é do tipo ofensivo!

– Maurice e Larry são regenerativos. E se não me engano, Nina e Ygor também.

– Continuam sendo minoria... Espera, o Ygor?! – ela me olhou. – Ah sim! Desculpa, acho melhor arranjarmos logo roupas pra você, depois falamos disso.

Que bom que ela reparou. Eu estava literalmente voando na conversa, mas algo me dizia que era melhor nem entender o que eles diziam. Alma me guiou pela escada e quando olhei um pouco para o lado, vi Diego me encarando também. Porém, ele não disse nada, apenas deu as costas e entrou por uma porta que eu ainda não havia realizado o que realmente era.

Acordei mais tarde com sons estranhos no andar de baixo. Havia demorado horas para conseguir dormir, e agora eu escutava em alto bom som pessoas falando aquela língua que falavam aqui, muito rapidamente. Mesmo sonolenta, fiquei curiosa, então levantei lentamente e fui até a porta.

Quando comecei a empurrá-la, algo a prendeu, impedindo-me a abri-la mais que uma fresta. Olhei para baixo e vi um pé, então olhei para cima, vendo apenas um olho vermelho bem desenhado com cílios longos e curvos. Mas aquele olhar me deu medo, era simplesmente... Nada. Havia um vazio tão grande neles que eu quase me encolhi.

– Não saia daí. – disse simplesmente numa voz grave e baixa, que imediatamente fez com que eu amarelasse e fechasse a porta. Foi assustador.

Passei algum tempo sentada na cama meio encoberta pelo lençol, encarando a porta com a infantil sensação de que um monstro saltaria dela e me atacaria. A reação natural de me chamar de boba devido a isso veio logo, mas em seguida tudo o que tinha acontecido voltou a minha mente, me obrigando a perceber que não, não era bobagem.

Alguém bateu na porta e quando eu me movi, Diego apenas pôs a cabeça discretamente para dentro.

– Tudo bem?

– S-sim. Eu só escutei algo e quando tentei sair, alguém segurou a porta.

– Deve ter sido... – Ele se interrompeu e balançou a cabeça, entrando no quarto. – Mas ele fez bem.

– O que aconteceu?

– Bem, Alma estava regenerando o que falamos que tinha perdido o braço anteriormente. – não enxergava muito bem no escuro, mas pensei tê-lo visto sorrindo. As únicas coisas que conseguia ver direito eram seus olhos e o cabelo branco, que agora estavam sem aquele boné de antes. Peguei-me pensando novamente de onde Diego parecia tão familiar. – Acho que você não estaria preparada para ver alguém com um braço faltando.

– Ah... Com certeza. – murmurei, imediatamente aterrorizada simplesmente de pensar na imagem.

– É aterrorizante quando pensamos. E quando vimos da primeira vez... Você nem imagina. Mas é uma sensação estranha, sabe? Você se acostuma depois.

– Prefiro não me acostumar. – comentei baixinho, fazendo-o rir de maneira contida. — O que foi?

– Nada. – respondeu simplesmente, deixando que um silêncio quase que constrangedor caísse sobre nós, deixando-me nervosa. Diabos! Eu sequer poderia dizer que conhecia Diego e estava já desse jeito. Ele moveu-se de repente, se levantando. – O que houve?

– Estão me chamando.

– Eu não escutei nada...

– Normal. – disse simplesmente, e mais uma vez naquele dia, ele me deixou sozinha antes de falar algo.

No dia seguinte, vesti as roupas ainda da noite anterior – que usei pelo quê? Dez minutos? – e abri a porta quase que com medo, mas não havia ninguém no corredor.

Saí hesitantemente, descendo as escadas com cuidado – dessa vez devido à minha perna – e escutei vozes na cozinha. Me senti muito deslocada no momento que escutava-os falando em sua própria língua materna, mas entrei lá de qualquer jeito.

– Bom dia! – Alma disse e um rapaz de cabelo curto que estava sentado próximo a ela virou-se para mim, e quase praguejei. Se eu achara Diego bonito... Esse era quase humilhante.

Seu rosto era oval e suas feições pareciam tão milimetricamente simétricas que por um momento me perguntei se ele era de verdade. Não eram simétricas a ponto de parecerem andróginas, mas de um modo ou outro causavam estranheza ao olhar. Os olhos vermelhos eram grandes... E inexpressivos. Seu cabelo era bem curto com uma franja repicada na altura dos olhos e uma mecha mais larga caindo sobre a ponte do nariz perfeitamente reto, e sua pele era tão branca que chegava a se confundir com o cabelo, salvo um rubor na face completamente natural. Todos os modelos e atores que eu achava lindos pareceram-me repentinamente feios... Deus, esse cara é de verdade mesmo?!

– Ah, Catherine, esse – ela apontou para o rapaz absurdamente lindo. – é o Hideo. Ele chegou ontem depois de você ter ido dormir.

– Ah... Oi.

– Olá. – respondeu simplesmente numa voz grave e calma e fui tomada pela súbita vontade de cutucá-lo para ver se sua pele era pele mesmo ou se era silicone, ou borracha, ou sei lá.

– Ei, cadê o Yudai e o Diego? Já está meio tarde e nenhum deles dois...

– Eu tô aqui. – outro entrou pela porta que tinha ali e por um momento fiquei confusa, para então constatar que ele era idêntico ao Hideo, tirando que seu cabelo era mais comprido, chegando-lhe até o queixo. Ei, isso é injusto! Tanta gente querendo ao menos parecer bonita e chegam essas dois e humilham a sociedade!

– Ah, esse é o Yudai. – ele a interrompeu para dizer um oi rápido e se jogou numa cadeira ao lado de Hideo. – Já deu pra perceber que eles são os gêmeos que comentamos ontem, não é?

– Ahan... – murmurei, era mais que óbvio que eles eram gêmeos. Yudai me olhou com curiosidade, e percebi que ao contrário dos de Hideo, seus olhos eram muito mais expressivos. De certa forma, isso me acalmou, até que um estrondo do lado de fora se fez ouvir, juntamente com uma explosão alta e gritos de pessoas.

Notas finais
Os gêmeos não são muito observadores - principalmente o Yudai - e bem desleixados quanto a própria aparência. A descrição da Catherine faz vocês entenderem PORQUÊ as pessoas - garotas principalmente - ficam encarando eles XD Eu queria por isso desde o primeiro, mas, enfim, não tenho mãos de ouro o suficiente para fazê-los direito T.T Finalmente consegui por uma descrição decente deles, porque de TODAS as minhas fics (olha que são muitas, pois conto com as que ainda não postei) eles são os personagens mais bonitos que já criei. E bom, é isso!