Labirinto
2 O estranho
Notas iniciais
Estava no início do inverno, as folhas das árvores estavam quase todas ao chão, os habitantes de Chirneville já estavam vestindo seus habituais casacos feitos de pele de animal, cortando os pinheiros e levando para casa, a fim de montar uma belíssima árvore de natal junto com a família. E nesta mesma manhã de inverno Harry chegara à cidade para visitar seus pais, porém após ter passado vários anos estudando no exterior, já estava desacostumado com esse clima em que todos do local se conheciam, no entanto ninguém o reconhecia, mas dentro de si Harry já imaginava esse fato, já que não voltara para casa há sete anos, além disso, não lembrara a perfeita localização de seu antigo lar, por este motivo estava dentro da carruagem que sua família mandara para busca-lo no porto. Harry era um jovem misterioso e bastante comum, possuía olhos de uma coloração azul-esverdeado como o mar, um olhar extremamente penetrante, ameaçador e ao mesmo tempo angelical assim como seu sorriso, seu cabelo era escuro, desfiado, curto e cobria parte da testa, os lábios eram rosados como uma pétala de cerejeira, a pele pálida como marfim, usava um sobretudo escuro e uma cartola não muito longa.
Harry, que estava dentro da carruagem, estava a observar a paisagem de sua antiga cidade até que acabou por adormecer e quando a carruagem parou acordou assustado com o relinchar dos cavalos, passou a mão nos olhos, e assim que desceu uma menina com cabelos louros, liso e longo, que usava um vestido de cor salmão até os pés, o abraçou fortemente, encostando o rosto em seu peito. Harry não sabia ao certo quem o estava abraçando, porém, a menina o apertou mais e disse “Bem vindo de volta, irmão”, ele estava pasmo, não conseguia acreditar que aquela doce criancinha de sete anos, que fora a última vez que Harry havia visto sua irmã, tenha crescido tanto, ela havia se tornado uma moça muito bela, era esbelta, tinha olhos azuis como o céu e um olhar que mostrava sinceridade e inocência, suas bochechas eram rosadas assim como seus finos lábios, era sempre sorridente, ainda mais agora que seu amado irmão voltara à cidade. Harry, após terminar de abraçar sua irmã se deparou com seus pais, que em sua visão não haviam mudado nada, por isso os reconhecera de imediato, o serviçal da família levou as malas para o antigo quarto de Harry, que aparentemente estava com móveis recém-comprados, ele logo se acomodou, tirou seus livros e organizou-os na mesa de estudo, sua irmã chegou em seu quarto abraçada a um urso de pelúcia e sentou em sua cama, olhou o quarto todo como se estivesse procurando ou analisando algo, até que finalmente resolveu quebrar aquele incomodo silencio:
–Sabe, senti muito sua falta, todos os dias sentava nesta cama e imaginava como seria se estivesse aqui, estou te vendo agora, mas não sei ao certo se é realmente você ou apenas uma ilusão da minha mente – disse enquanto fitava profundamente os olhos de Harry.
– Eu também senti sua falta, Lea. – Harry sorriu fraco, enquanto dirigia-se a sua irmã no intuito de abraçá-la.
O abraço que se seguiu foi demorado. A menina apertava-o de uma forma possessiva, como se não pretendesse soltá-lo nunca mais. De tão emocionada que estava, cálidas lágrimas ameaçaram a sair de seus olhos, até ouvirem o chamado de sua mãe, avisando-os que o pinheiro de natal estava posto a sala, apenas os esperando para decorá-lo em família. Seus pais estavam muito felizes, mas ninguém sorria tanto quanto sua irmã, Lea Brook.
Após decorar a árvore de natal junto com sua irmã, Harry decide ir reconhecer a cidade acompanhado por Lea. Pegaram seus casacos e subiram na carruagem, os cavalos relincharam e começaram a andar. Harry não sabia ao certo sobre o que falar com a irmã, já que ela havia crescido, não saberia se ainda gostava das mesmas coisas, porém, Lea estava apenas encarando o irmão como se algo estivesse em seu rosto, Harry discretamente passou a mão pra conferir, pois se sentia incomodado com ela o fitando, aparentemente não havia nada.
–Lea, meu rosto esta sujo? – perguntou um pouco receoso.
–Não, por que estaria? – perguntou Lea com um ar de riso.
– Não sei, apenas tive a impressão de que havia algo. – falou em um tom baixo- Mas, diga-me, como esta a escola? Esta namorando? Conte-me tudo! Quero saber o que aconteceu com minha irmã enquanto estive fora. – falou tentando puxar algum assunto para que não voltasse àquele incomodo silencio novamente.
–Me transferi de colégio ano passado, acho que consegui me adaptar direito, já conheço praticamente todos de lá, são muito legais. Fizemos uma visita ao museu da cidade vizinha semana passada, foi extremamente divertido! – Lea respondeu empolgada.
–Se transferiu? Não sabia disto. Por qual motivo?
–Aconteceram algumas coisas não muito convenientes... Bem, os pais da...
Lea foi interrompida pelo relinchar dos cavalos, haviam chegado ao centro, onde existiam as multidões, eles se retiraram da carruagem, Lea segurou no braço do seu irmão e se puseram a andar. Aparentemente todos os caras da região conheciam Lea e mostravam certa atração por ela, deduziu Harry, todos estavam a se questionar quem seria o jovem misterioso que acompanhava a pequena Lea.
Eles entraram em uma loja de relógios, Harry havia rapidamente se locomovido ao fundo do estabelecimento a fim de conferir de perto um relógio de bolso que avistara, Harry desde pequeno amava colecionar relógios, pois, um pouco antes de seu avô falecer, ele recebeu de presente o relógio que o avô usara numa das guerras, em que Harry nunca recordou qual era, porém sempre teve um carinho especial por relógios desde então. Enquanto isso Lea cumprimentava o filho do dono, Jack Roef. Ela sorria, ria, gargalhava durante a conversa com Jack, que também a fizera experimentar diversos modelos de relógios de pulso. Jack era um cara alto, de olhos cor de mel, cabelos negros, usava uma esquisita cartola e assim como todos da cidade, estava curioso e perguntou a Lea quem haveria de ser o misterioso homem que a acompanhara.
– É o Harry! Você lembra dele? Meu irmão! –Lea respondeu abrindo um sorriso angelical de canto a canto.
–Jura?! Esta irreconhecível! Quero dizer... você sabe, a última vez que o vira foi há uns... cinco ou seis anos, então é totalmente normal que tenha mudado. Ele já te arranjou uma cunhada? – Jack falou num tom de brincadeira.
–Cunhada? Não sei nada sobre isso, ele não me contou nada. Por que você não vai lá falar com ele?
– Tem razão, afinal, ele sempre foi um grande amigo meu.
Jack dirigiu-se a onde Harry estava e o cumprimentou, conversaram por um tempo, até que escutaram o barulho da porta da loja abrindo e automaticamente olharam para conferir o que seria. Dois rapazes entraram conversando, Harry decidiu ir até onde sua irmã estava, até que sem querer escutou uma das conversas que eles estavam tendo, algo sobre um cunhado que entrou em um labirinto nas redondezas da cidade e ainda não saiu, Harry achou isso extremamente estranho, decidindo chegar mais perto para conseguir ouvir um pouco mais da conversa, até que escutou algo relacionado a tesouros, porém os dois caras retiraram-se da loja antes que pudesse saber mais informações.
–Você sabe algo mais sobre isso? – perguntou, fixando seu olhar em Jack.
–Isso é uma enrascada. Tudo o que eu sei é o que dizem por aí, que há um tesouro dentro de um labirinto ao lado da mansão dos Bellafont, e de repente todos os homens ao saberem desse tal tesouro resolveram aventurar-se lá para acha-lo, afinal, era um labirinto bobo, hm? Mas apenas parece bobo, pois há meses que entraram, e ninguém saiu ainda, peculiar isso, não?
–Bellafont?
–A única herdeira viva da Família Bellafont é Emma Bellafont, achei que você a conhecesse. Há boatos na cidade que seus pais foram mortos por assassinos profissionais, porém nunca achou nenhuma pista sobre o caso, ela vive sozinha lá, e é uma menina um pouco arrogante, porém não poderíamos julga-la, já que além dela ser de uma família rica, seu passado é muito misterioso, aparentemente muito sofrido, mas ela nunca quis se voluntariar para ajudar na busca dos aventureiros no labirinto. Só digo uma coisa, não fique interessado por essa ideia de labirinto, ok?
Após receber essas informações os irmãos Brook saíram da loja e entraram na carruagem afim de irem para casa. Harry estava pensativo olhando pela janela, enquanto Lea o encarava tentando descobrir sobre o que o deixara tão pensativo.
– Algum problema? – Perguntou Lea preocupada
–Não, nenhum. Ah, você sabe alguma coisa a mais sobre esse labirinto?
–Não sei nada além do que o Jack contou. A não ser sobre a Emma, éramos amigos, não lembra? No dia em que seus pais morreram ano passado ela não vai mais a escola ou simplesmente sai de casa, raramente aceita visitas, mas alguns dizem que ela tem tutores para ensina-la em casa, mas aparentemente eles mudam toda semana... Isso é tudo o que eu sei, não temos mais nenhum contato...
Depois disto, o silencio reinou dentro da carruagem até chegar ao destino, onde apenas entraram em casa em silencio, dirigiram-se aos seus determinados quartos e só saíram na manhã seguinte.
Harry logo cedo saiu de casa, desta vez sozinho, pensou em colher informações mais aprofundadas sobre o labirinto, mas ele concluira noite passada que qualquer tipo de conhecimento circulado sobre o assunto na cidade não seria mais do que o que a Lea e o Jack sabiam, decidindo assim ir falar diretamente com a nobre senhorita Emma Bellafont.
Após a carruagem chegar ao destino, Harry retirou-se e se deparou com uma mansão realmente enorme e um pouco acabada, havia mesmo apenas uma pessoa morando naquela casa? Talvez ele soubesse como ela se sentia morando ali, talvez fosse igual a como ele sentiu-se morando fora. Solitária. Talvez ela fosse apenas uma jovem incompreendida e solitária. Isso enchia o pensamento do Harry com milhões de questionamentos enquanto ele se direcionava a porta da mansão, até que avistou alguém, aparentemente o esperando a frente da porta, mas, ela já o esperava? Ele tornava-se mais confuso a cada passo dado, até que a senhora da porta o cumprimentou, ela parecia ser uma mulher muito gentil, tinha uma aparência idosa, cabelos grisalhos, corcunda e um sorriso cativante, que sinceramente, deixou-o menos tenso. A senhora o fez entrar e esperar em uma sala até que a Emma finalmente aparecesse lá. Quando ele a viu não sabia o que fazer, sua beleza o havia fascinado, ela possuía um olhar penetrante que parecia hipnotizar, porém eles eram olhares que não mostravam sentimento algum, sua expressão era sempre séria, seus lábios eram rosados, sua pele era de um branco que aparentava nunca ter tido contato com a luz do sol, possuía cabelos negros e brilhosos, seus fios batiam até o quadril, ela usava um vestido totalmente preto, marcado na cintura e longo, o rapaz após ter aceito uma xícara de chá tomou coragem e perguntou o que tanto o incomodava, queria saber o que a moça guardava no labirinto, porém ela o fitou com seus olhos penetrantes por alguns minutos, e após isso deixou a sala dizendo apenas algumas palavras:
– Um cavalheiro de tão brava corte deveria descobrir por si só, se realmente possui tal coragem de perguntar diretamente, poderia descobrir o caminho de um tão simples labirinto. – Disse Emma arrogantemente.
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