Lab Break
1 Pete "Cinderella"
New York. Início da década de 30. Os EUA haviam acabado de receber um duro golpe em seu tão valioso estilo de vida, mergulhando o país na maior recessão de então, golpe que ficou conhecido como a Grande Depressão. Eram tempos difíceis para os homens... Felizmente, o herói de nossa história não é um homem. É um rato. Literalmente. George era um rato malandro, sempre em busca de comida e diversão fácil. Foi dele a ideia genial de fazer com que os homens pensassem que ratos adoram queijo. Assim, os queijos eram escondidos, enquanto que doces eram deixados em potes de fácil acesso.
Os tempos eram difíceis para os homens, mas totalmente indiferentes para os ratos. Afinal, se na Era do Jazz eles comiam caviar e escargot podre, na Depressão eles comiam atum podre. E, na opinião dos ratos, dava tudo na mesma. A situação até melhorou, visto que os homens agora tinham outras preocupações além de inventar meios de matá-los. E George nunca engoliu bem a história de que seus antepassados terem sido os transmissores da Peste Negra. Ele acreditava firmemente na teoria da conspiração que foi tudo uma bruxaria dos gatos.
George vinha há dias preocupado com seu companheiro de aventuras, Kevin. Kevin não estava doente. Antes estivesse! Kevin estava sumido e sem seu cúmplice, George não conseguia comida com a mesma facilidade. Para botar um fim a esse mistério, George foi se encontrar com Peter “Cinderella”. Cinderella era um rato enorme que adorava usar salto alto, vestir saias compridas e que dizia com orgulho ser descendente dos ratos que ajudaram a própria séculos atrás. George não entendia como alguém podia ter orgulho disso.
– Cinderella, preciso de uma informação – disse, curto e grosso.
–Hunnnm... você sabe o que isso vai lhe custar, meu bem.
E George sabia. Por isso que tinha evitado por tanto tempo esse encontro – Sim, eu sei... Mas depois trataremos disso. Preciso saber por onde o Kevin.
– Aquele seu cúmplice desprezível...? Receio que não tenho boas notícias para lhe dar, meu bem.
Uma mistura de medo, pela possibilidade de receber a noticia da morte de seu amigo e ódio, por ouvir aquele rato bicha dizendo “meu bem” mais uma vez tomou conta de George. Mas ele engoliu tudo e disse – Prossiga.
– Seu amigo foi... “escolhido” digamos assim, para experiências na Universidade.
George recebeu aquilo como um soco, mas sem saber de onde veio. Kevin? Uma cobaia? Não, não era possível. Seu fígado não permitiria.
– Você tá louco, Cinderella? Os homens de branco nunca aceitariam Kevin. Ele é uma péssima cobaia.
– Mas os tempos são outros, meu bem... o governo cortou drasticamente o subsidio para experiências cientificas. Com o corte de gastos, os cientistas não podem mais se dar ao luxo de comprar ratos branquinhos, limpos e de sangue nobre. Têm que ir à caça nas ruas.
–Então ele foi sequestrado! Devemos avisar as autoridades competentes!
– Boa sorte com isso, meu bem. Aproveite e conte para eles a vida honesta que você tem levado nesses últimos meses.
George voltou para as ruas, resignado. O que fazer? Sem seu parceiro ele era tão vulnerável quanto um gato doméstico. Não aguentaria muito tempo. Depois de muito refletir, tomou uma resolução. O único modo de resgatar Kevin seria se deixar ser apanhado pelos cientistas e ajudar seu amigo na fuga da Universidade. E era isso o que ele faria!
O grande problema – com o qual George, certamente, não estava contando – era a enorme quantidade de Universidades na cidade de New York. A quantidade era absurda! Não é como se os humanos ficassem muito mais inteligentes que eles após frequentar uma das instituições. Continuavam idiotas e facilmente manipuláveis, porém eram capazes de decorar livros inteiros e recitá-los numa grande demonstração pública, onde os outros humanos admiravam sua ‘inteligência’. Para George, isso tudo era uma grande besteira. Eles, ratos, eram menos cobaias que os idiotas engravatados da Columbia University ou qualquer outro da Times Square. Eles só corriam em rodinhas quando confinados e obrigados, já os humanos viviam girando como idiotas no mesmo lugar e ainda achavam estar no topo.
Circulou então, no mapa da cidade que tinha preso em seu esconderijo (um beco sem saída do esgoto logo abaixo do Central Park), todas as universidades próximas onde seu amigo podia estar. Columbia, New York e Rockfeller eram elas.
Como as opções eram muitas, a ideia de “ser capturado” ao acaso estava fora de jogo. Teria de se infiltrar nos laboratórios até achar seu parceiro. A ideia não era tentadora, mas era menos assustadora do que continuar vagando sozinho e faminto por aí. Achar comida era especialidade de Kevin, e George ficava com a parte de tramar planos para pegá-la. “Tramar planos”, porque nem sempre estavam tão de bom humor para aceitar a vida e pegar restos em latões de lixo. Às vezes, a revolta era tão grande, que tinham vontade de roubar pedaços enormes de pão e fugir por sobre as mesas do restaurante, somente para ver as caras enojadas dos clientes.
– “Vida honesta”! Como podemos ter uma vida honesta nesse poço? – resmungou enquanto fazia as preparações para botar o plano em prática. – Vida honesta... Olha quem fala! Um rato que usa SAIA. S-A-I-A!
George passou então a divagar sobre o que estariam fazendo com seu parceiro Kevin. Vai saber que tipo de drogas estariam injetando nele! Mal gostava de pensar. Talvez quando chegasse lá, seu amigo já tivesse criado um terceiro braço. Já tinha visto ratos de laboratório e sabia que qualquer coisa podia acontecer, então passou o caminho tentando se acostumar com a ideia de seu melhor amigo ter três braços... Ou três olhos. Dois focinhos certamente seriam úteis...
– Não, não. Foca na situação, George! Não podemos mais perder tempo. Achar parceiros de trapaça é muito difícil, você bem sabe disso. Quanto mais tempo perdemos aqui, maior o risco de eu perder de verdade o Kevin. Eu preciso resgatá-lo mas antes, claro, preciso saber onde ele está — George estava tão compenetrado em seus pensamentos que nem reparou que sua TV estava ligada — Mas com quem eu vou conseguir essa informação? Um rato que esteja inteirado do mundo dos laboratórios e experiências....
Nesse momento de silêncio em seus pensamentos, como se ele mesmo estivesse esperando uma resposta, o homem de cabelo arrepiado e jaleco verde que estava na TV, praticamente gritou
– Eu sou o Beakman! E você está no Mundo de Beakman!
George ficou olhando para a TV pensando em como não havia pensado nisso antes. Mesmo assim, era uma resposta que não lhe agradava — Você só pode estar brincando comigo....
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