Notas iniciais
Ola pessoas,tudo bem? Curtindo a historia? Ansiosos pela continuação? Poxa.....sabiam que o estimulo do escritor é justamente os comentarios? Enfim.....Se cuidem e não deixem de comentar,beijos de luz!

Na hora do almoço, abro meu laptop na sala de imprensa, um nome moderno para uma cela sem janela cheia de marcas de nicotina dentro do Tribunal Crown, decorada com uma mesa de madeira envernizada, algumas cadeiras e um armário-arquivo amassado, e confiro meus emails.

Uma mensagem chega de Aria.

‘VOCÊ PODE FALAR?’

Digito SIM e clico em enviar.

Aria não gosta de mandar e-mails quando pode falar, porque ela ama conversar e não consegue entender fonemas. Ela costumava escrever “Vwalah!” em mensagens para mim e Spencer, e nós pensávamos se tratar de uma palavra em hindu, até descobrirmos, depois de perguntar, que, na verdade, ela queria dizer “Voilà”.

Meu telefone começa a tocar.

— Oi, Ari — eu digo, levanto-me e saio pela porta da sala de imprensa.

— Você já achou um apartamento?

— Não. — Suspiro. — Estou procurando no Rightmove e torcendo para que os preços caiam por mágica em uma repentina crise imobiliária.

— Você quer no centro da cidade, certo? Não tem problema se for aluguel?

Paige vai comprar a minha parte da casa. Decidi usar o dinheiro para comprar um apartamento. A princípio, um apartamento no centro da cidade onde poderei levar uma vida de solteira cosmopolita, mas os preços me chamaram para a realidade. Aria acha que eu deveria alugar um por seis meses, até me situar. Spencer considera que alugar é jogar dinheiro fora. Luiz diz que posso ficar com o quarto extra dele e, assim, ele terá um motivo para finalmente tirar da casa sua barulhenta colega Nye. Como Aria diz, ele poderia expulsar a amiga se “tivesse cojones”.

— Sim? — eu digo cautelosamente. Aria costuma pegar uma simples premissa e expandi-la para algo bastante intelectual.

— Dê a busca por encerrada. Uma compradora com quem trabalho é podre de rica e está indo para Dubai por seis meses. Ela tem um lugar no Northern Quarter. Acho que era onde funcionava um moinho de algodão ou coisa assim, e aparentemente é liiindo. Ela quer uma inquilina confiável, e eu disse que você é a pessoa mais confiável do mundo, e ela disse que, nesse caso, pode fechar negócio.

— Hum...

Aria cita o valor mensal, que é até razoável. Não impraticável, e certamente não é muito para o tipo de lugar de que ela está falando. Mas Aria está preparando uma loucura.

— Você quer ver a casa comigo depois do trabalho? — Aria continua. — Ela parte na sexta e um primo dela está interessado. Ela disse que ele é meio monstro do pó e que não confia no sujeito. Então, você tem prioridade, mas terá que ser rápida.

— Monstro do pó?

— É, você sabe, cocaína. O doidão do pó.

— Sei.

Penso bem. Eu estava a fim de um contrato mais longo do que só seis meses. Seis meses com opção de renovação, pensei. Mas pode ser uma maneira de levar uma boa vida enquanto procuro um imóvel mais realista.

— Sim, claro.

— Ótimo! Encontro você no Afflecks às 5h30?

— Até lá.

Quando volto para a sala de imprensa, percebo que, enfim, comecei a me mexer para deixar a casa, por mais desconfortável que seja. Minha decisão de me separar de Paige está quase saindo da teoria e entrando na prática, e logo será real. Dividir o dinheiro, separar nossos bens mundanos, voltar para casa à noite e encontrá-la vazia, bem como um futuro bem vazio. Uma parte de mim, a parte bem covarde, sente vontade de gritar: “Espere! Não foi bem isso! Quero voltar atrás!”. Sinto náuseas.

Mas, então, eu me lembro de uma mensagem que recebi de Paige alguns dias atrás, a qual mais pareceu tristeza misturada com raiva: “Espero que você esteja procurando um lugar, porque não vejo a hora de mudar essa situação em que estamos”.

Abro meu laptop e me pergunto se quero mais um café artificial.

Hanna entra e fica atrás de mim, o que me irrita.

— Fique à vontade para sair e comer alguma coisa. Pode deixar suas coisas aqui, se quiser — eu digo.

— Obrigada. — Ela solta o casaco e a bolsa, e coloca o notebook sobre a mesa com cuidado.

— A menos que queira ir ao pub almoçar — continuo, sem saber de onde essa generosidade saiu. Talvez de tentar reparar o que fiz com Paige. Nem se eu praticar boas ações pelo resto da vida vou conseguir reverter isso.

— Seria ótimo!

— Espere cinco minutos e vou mostrar a você por que o Castelo ganhou a fama de “o pub mais parecido com um tribunal”.

Hanna concorda e se senta para transcrever sua cópia à mão. Olho para ela enquanto digito. Eu sabia. A letra dela é tão redondinha que seria possível fazer cópias e usar em exemplos de manuais.

Petter entra, apertando os olhos e olhando para Hanna e depois para mim.

— O que é isso? Dia de Traga os Filhos ao Trabalho?

Hanna olha para a frente, assustada.

— Bem-vinda à família — digo a Hanna. — Considere Petter o tio que faria você brincar de cavalinho.

***

Eu me desculpo com Hanna por não beber nada alcoólico quando chegamos ao barzinho. Parece que estou deixando a profissão decepcionada em momentos assim. Em todos os cantos, ouvimos histórias de feras míticas de tempos idos que podiam beber até cair e ainda assim cumprir o prazo, acordar cedinho no dia seguinte e fazer tudo de novo. Elas são lendas, normalmente porque morreram na faixa dos 50 anos.

— É soporífico no tribunal na maior parte das vezes, ainda mais com o calor e a demora. Se eu beber, vou acabar roncando — digo.

— Ah, tudo bem, eu sou peso-leve mesmo — Hanna afirma. — Vou beber uma Coca-Cola Zero também.

Analisamos o cardápio do bar e desanimamos, claramente escrito por gerentes de marketing que pensam ser superengraçados. Tentamos simplesmente apontar para os itens escolhidos para salvar nossa dignidade. Mas o idiota do garçom não deixa passar.

— Tenho astigmatismo — ele diz, como se fosse problema meu.

— Ah — murmuro, irritada, tentando a última saída: — Nós duas vamos querer o Fazendeiro.

— Pelado, animado ou cobiçado?

Droga.

— Animado — murmuro, derrotada. — E pelado para ela.

— Quer derretido? — ele suspira, de um jeito que sugere que a maior parte dos problemas do mundo se resume a pessoas como nós quererem derretido. Decidimos que sim, mas não pedimos o molho especial do chef, já que não queremos concordar com ele.

Trocamos amenidades, em meio à música da Mariah Carey e diversos televisores, quando dois pratos esquentados no micro-ondas são colocados à nossa frente. Assim que Hanna termina de comer, ela diz:

— Olha o que eu escrevi — batendo as migalhas das mãos e pegando um caderno espiral da bolsa, abrindo a página da direita. — Escrevi à mão.

Sinto-me um pouco irritada por ela esperar a minha orientação enquanto ainda estou comendo, mas engulo o sapo junto com uma bocada de queijo borrachudo. Leio sua história, preparada para, senão uma coisa malfeita, pelo menos feita às pressas. Mas está boa. Na verdade, muito fluida e confiante logo de cara.

— Está boa — balanço a cabeça, aprovando, e Hanna sorri. — Você pegou o ângulo certo de que o pai e o tio não negam que foram ver o namorado.

— E se aparecer alguma coisa melhor hoje à tarde? Você ainda acredita na sua intuição inicial?

— Pode ser, mas acho improvável. As coisas mudam devagar. Provavelmente não chegaremos à evidência do namorado hoje à tarde.

Devolvo o bloco a Hanna.

— Então, há quanto tempo você está aqui? — ela pergunta.

— Há tempo demais. Fiz a faculdade aqui e meu estágio em Sheffield, e então vim para o Evening News como estagiária.

— Você gosta do tribunal?

— Gosto. Sempre fui melhor em escrever histórias do que em encontrá-las, então esse trabalho combina comigo. E os casos costumam ser interessantes. — Faço uma pausa, preocupada que esteja parecendo aquelas bitoladas. — Claro que é ruim de vez em quando.

— Como são as coisas aqui? — Hanna pergunta. — O editor de notícias parece meio assustador.

— Ah, sim. — Com a lâmina da faca, eu afasto um monte de salada de repolho que devia estar no prato quando o esquentaram. — Orientar o Ken é meio como brigar com um crocodilo. Todos temos as marcas das mordidas para mostrar. Ele já fez a você a pergunta dos óctuplos? — Hanna nega, balançando a cabeça. — Uma mulher teve óctuplos, nônuplos, sei lá. Você consegue a primeira entrevista no leito do hospital, enquanto ela ainda está chapada. Qual é a única pergunta que você não deixa de fazer?

— Hum... Eu perguntaria se doeu.

— Você vai ter mais filhos? Ela provavelmente vai jogar uma fralda cheia na sua cabeça, mas é isso o que ele quer. Você é jornalista, sempre pense como uma jornalista. Procure a manchete.

— Certo. — Hanna franze a testa. — Vou me lembrar disso.

Eu sinto a vontade incontrolável de poupar uma pessoa das mil bobagens feitas quando se é novo, mesmo sabendo que ela cometerá outras, mas tento poupá-la mesmo assim.

— Seja confiante, não faça besteira e, se errar e vier a público, assuma. Ken vai brigar com você mesmo assim, mas acreditará da próxima vez que você disser que não é sua culpa. Mentir é o pavor dele.

— Certo.

— Não se preocupe — digo a ela. — Pode ser meio pesado no começo, e então, mais cedo ou mais tarde, você começa a reconhecer que toda a experiência humana se encaixa em uma dúzia de tipos diferentes, e você sabe exatamente como o editor vai querer que eles sejam descritos.Nesse momento, você já terá adquirido o cinismo necessário, e aí deve seguir em frente.

— Por que você quis ser jornalista? — Hanna pergunta.

— Rá! Lois Lane.

— É sério?

— É, sim. A morena é morena. Corajosa, enfrentava o chefe, tinha cobertura própria e camisola de seda azul. E saía com o Superman. Minha mãe costumava assistir aos filmes do Christopher Reeve quando eu estava doente e não ia à escola, e eu assistia a eles um atrás do outro. “Você tem a mim, quem tem você?”. Brilhante.

— Não é estranho o fato de tomarmos grandes decisões na vida com base nas ocorrências mais aleatórias? — Hanna pergunta, puxando a Coca-Cola com o canudo até fazer barulho. — Sei lá, se sua mãe assistisse ao Batman, nós não estaríamos sentadas aqui agora.

— Hum — murmuro sem ser clara, e mudo de assunto.

***

Vejo Aria a um quilômetro de distância usando casaco roxo e sapatos vermelhos. Parece mais um sol bolly woodiano explodindo em contraste com meu filminho preto e branco.

Ela diz que são suas 'tendências' indianas — não consegue resistir a joias coloridas e coisas brilhantes. Mas é sempre o cabelo que mais brilha nela. Desde que conheço Aria , ela usa um xampu de coco de uma libra que deixa seus fios brilhantes parecendo uma auréola. Eu o usei uma vez e o resultado foi uma juba dura, mas brilhante.

Ela me vê e balança uma chave pendurada em um barbante, como um hipnotizador agitando um relógio.

— Finalmente!

Aria não estava brincando quando disse que o imóvel ficava no centro. Cinco minutos depois, chegamos lá, diante de um prédio vitoriano de tijolos aparentes que passou de um templo de trabalho árduo para um espaço elegante para os endinheirados.

— Quarto andar — Aria diz, olhando para cima. — Espero que tenha elevador.

Tem, mas está quebrado, então subimos os vários lances de escada, com os saltos batendo no mesmo ritmo nos degraus.

— Não tem vaga de garagem — Aria me lembra. — A Paige vai ficar com o carro?

— Ah, sim. Do jeito que as negociações têm ocorrido até agora, fico feliz por não possuirmos animais de estimação nem filhos.

Minha mente retoma momentos de minha vida que eu pagaria muito bem para que fossem apagados. Nós nos sentamos e conversamos sobre como separar duas vidas muito mescladas, e eu dizia: “Fique com tudo, fique com tudo!”, e Paige me perguntou: “Significa tão pouco assim para você?”.

Aria enfia a chave na fechadura do desconhecido apartamento 21 e abre aporta.

Caraca — ela suspira, admirando o espaço. — Ela disse que era bacana, mas eu não pensei que fosse tanto.

Caminhamos até o meio de uma sala cavernosa com paredes de tijolos aparentes. O chão de madeira clara se estende à nossa frente. Uma luz amarelada ilumina alguns pontos, vinda de luminárias verticais de papel. O sofá em forma de L na sala de estar é bem grande e branquinho como neve, com almofadas em tom de marfim e bege. Mentalmente, penso que qualquer refeição que envolva molho de soja, vinho tinto e chocolate está proibida de chegar perto dele. Ou seja, as refeições das noites de sexta-feira.

Aria e eu caminhamos por ali, admirando tudo e apontando como zumbis quando descobrimos a sala de banho com um lavatório de vidro, ou a cama queen-size com cobre-leito de seda, ou a geladeira Smeg cor-de-rosa. Parece a casa que o personagem de um drama chique habitaria. O tipo de seriado no qual todo mundo é lindo e tem empregos meio fúteis, porém bastante lucrativos, sobrando muito tempo para almoços com amigos e intrigas.

— Não sei bem o que acho dele — digo, apontando para o tapete na frente do sofá. Parece a pele de algum animal que deve ser majestoso na Africa, e não mereceria estar embaixo da mesa de centro da marca Heal. As manchas peludas vermelhas me deixam inquieta.

— Tem rabo e tudo. Ai.

— Vou ver se você pode tirá-lo — Aria concorda.

— Diga que sou alérgica a... bisão? — É falso, digo a mim mesma. Com certeza.

De pé no meio da sala de estar, damos mais uns giros de 360 graus boquiabertas, e sei que Aria já está planejando uma festa. Para o caso de duvidarmos do propósito principal do apartamento, a palavra “FESTA” está escrita com letras douradas bem grandes presas na parede. Também há um quadro de pop art de Warhol: uma menina indiana cujo rosto é marcado por formas geométricas assustadoras olha para nós em quatro cores diferentes.

— É ela?

Aria se aproxima de mim.

— Ah, sim. Rupa tem um ego enorme. Está vendo aquele nariz?

— Aquele no meio do rosto dela?

— Isso. Presente de 16 anos. Antes disso... — Aria coloca um dedo na ponta do nariz e faz um arco no ar, parando no lábio superior.

— É mesmo? — Eu me sinto meio culpada por falar sobre as intervenções estéticas da mulher dentro do próprio apartamento dela.

— É. O pai é um dos maiores cirurgiões plásticos do país, então ela conseguiu um desconto. O que você acha do apartamento? — ela pergunta, um tanto redundante.

— Eu acho que parece aquela propaganda na qual as pessoas viam cenas da vida comum através de uma garrafa de vodca que deixava tudo muito mais interessante.

— Eu me lembro dessa propaganda — Aria diz. — Fazia a gente pensar nas pessoas com quem dormimos quando enchíamos a cara. Devo dizer a ela que você aceita? Que se muda no sábado?

— O que vou fazer com as minhas coisas? — Mordisco o lábio, olhando ao redor. Eu estragaria a paisagem sentada ali, como estava.

— Tem muita coisa? — Aria pergunta.

— Roupas e livros. E... utensílios de cozinha.

— E mobília?

— Sim, coisas de três cômodos.

— Você adora essas coisas?

Penso na pergunta. Gosto um pouco delas, afinal, fui eu que as escolhi. Mas, se acontecesse um incêndio, eu não conseguiria me imaginar protegendo uma mesa ou o sofá vermelho da Ikea se as chamas se alastrassem.

— Pergunto porque você poderia fazer um acordo com a Paige e deixá-las com ela. Você disse que ela vai manter a casa, certo? Vai ficar caro para ela comprar os objetos maiores, além do transtorno. Você poderia receber um dinheiro por eles e comprar coisas adequadas ao local onde acabar morando. Ou pode vender tudo o que tem e comprar uma peça incrível, tipo um lounger da Eames ou uma cadeira da Conran!

O paradoxo da Aria: razão e loucura dividindo o mesmo quarto — ou uma cama de solteiro,na verdade.

— Acho que sim. Tudo depende do desespero de Paige para que eu saia versus as dificuldades que ela quer criar. Difícil saber.

— Posso falar com ela, se você quiser.

— Obrigada, mas... vou tentar primeiro.

Nós caminhamos até a janela, e a paisagem da cidade se espalha a nossa frente, com luzes acendendo conforme escurece.

— É tão glamouroso — Aria suspira.

— Glamouroso demais para mim, talvez.

— Não aja como sempre, convencendo-se de não fazer algo que poderia ser bom.

— Eu faço isso?

— Um pouco. — Aria me abraça. — Você precisa de uma mudança de cenário.

Eu retribuo o abraço.

— Obrigada. E que cenário.

Nós o analisamos em silêncio por um momento.Eu aponto.

— Espere... ali é...?

— O quê? — Aria aperta os olhos.

— .....Swansea?

— Que se dane! Vou ficar.

Notas finais
Curtiram o local? E ai,a Aria é uma graça né? Comentem comentem plis e os leitores fantasmas,podem se achegar,não mordo não,gosto de todos os meus leitores *--------* beiiiiiiiijoooooooooss