La Visita

1 Capítulo Único


Notas iniciais

Esse conto fiz enquanto ouvia a música "La Visita", do grupo la Oreja de Van gogh. O nome é meio estranho, mas as músicas são boas.

http://www.youtube.com/watch?v=1xNK0j-6mNk, aqui está o link. Aconselho a escutar a música enquanto lêem.

Boa leitura.

Uma nova dor em meu peito e o acelerar de meus batimentos causou-me uma grande expectativa. Sabia que não teria muito mais tempo aqui, mas acreditava que nos veríamos antes de minha última viagem.

Passei a mão por minha fronte e notei um suor frio entre meus dedos, não senti quando começou a formar-se, não saberia dizer quando os tremores começaram nem quando a enfermeira entrou em meu quarto com o rosto levemente preocupado, nem como esse se transformou em um sorriso mais tranqüilo tentando acalmar-me dizendo ser efeito da última medicação e, logo depois de mexer em um aparelho. Saiu sem parar de sorrir, mesmo sabendo que não me convencera com sua atuação.

Um torpor abraçou-me tão logo a nova dose da medicação entrou em minha circulação, não notei o mundo apagar e meus olhos fecharem-se.

Supunha-se que meu sono deveria ser sem sonhos, efeito prolongado de meu tratamento, não é? Então porque essa mulher, vestida com um longo vestido de cor tão inimaginável que, em minha imperfeição humana, poderia comparar, rudemente, com o vermelho sangue; olhos tão negros como a noite que, talvez, pairasse por fora de meu quarto; com o talhe esguio; os cabelos caiam-lhe modelando o corpo até sua cintura. Não conseguia pensar em beleza maior que aquela, nunca em minha curta vida poderia compor tal perfeição. Mas, tão logo esse pensamento passou por minha mente, a imagem de Gabriela surgiu com tal força que apagou boa parte da luz emanada por aquela figura tão deslumbrante.

Com um sorriso misterioso aproximou-se, em passos ritmados, do local onde estava, estendeu-me a mão e, seguindo um extinto, aceitei a oferta e fui suspensa por mãos firmes, mas delicadas, como a mais pura seda.

- Contenta-me que não se deslumbre com meus encantos e esqueça aquela que ama. – sussurrou com voz calma e segura. – O amor que une sua alma a de sua amada é mais forte que o fascínio que exerço em seus sentidos, isso me causa verdadeira felicidade. – com um sorriso convidou-me a sentar em uma cadeira que, antes, não notara existir. – Não sabe quão raro é o amor que sentem.

- Porque estou aqui? – perguntei confusa, lembrava-me vagamente das últimas horas. – Eu morri? – o temor em minha voz saiu sem que pudesse controlá-lo.

- Ainda não. – respondeu ainda sorrindo. – Muito embora não lhe reste muito tempo. – agora o sorriso desapareceu de seu rosto. – Você teve uma parada cardíaca assim que adormeceu, os médicos tentaram reanimar seu corpo.

- Mas eu não resisti, não é? – sussurrei abaixando a cabeça.

- Você está em coma. – respondeu com a voz imparcial. – Sua vida está por um fio.

- E ela? – minha saúde não importava tanto quanto a dela. – Como Gabriela está? – meus músculos enrijeceram com a expectativa.

- Já se recuperou. Os ferimentos foram leves e o coma induzido foi para prevenir novos traumas provocados pelo choque. – relatou com a voz um pouco surpresa, imaginei não ser comum minha calma.

- Assim é melhor. – respirei profundamente, senti meus músculos relaxarem. – E o que tenho que fazer agora?

- Você não vai implorar por sua vida? – perguntou-me erguendo uma de suas sobrancelhas em um gesto tão igual ao dela que não pude evitar recordar-me seu rosto novamente.

- Isso funcionaria? – perguntei voltando das doces lembranças, a mulher sorriu.

- Não. – sorri, nós nos entendíamos perfeitamente bem.

- Então já tem sua resposta.

- Você tem mais uma hora de vida, prefere passar acordada ou dormindo? – perguntou serena.

- Acordada.

- Que assim seja. – e com um aceno senti como me voltavam os sentidos.

Os médicos apressados começaram a examinar-me vendo como estavam meus sinais vitais. Olhei para o relógio no final do procedimento, faltava-me apenas meia hora.

- Precisa de algo? – o sorriso da idosa enfermeira pareceu-me levemente familiar, mas não me recordava de onde.

- A senhorita Gabriela? Posso vê-la? – perguntei em um sussurrei apenas audível.

- Está melhorando, mas não pode ir vê-la nem ela a você. – respondeu com um semblante preocupado, deve lembra-se de quando demos entrada no hospital, de meus apelos e súplicas. — Agora se encontra sob repouso.

- Certo. Pode arrumar um papel e uma caneta? Por favor? – precisava dizer-lhe, ao menos pela última vez, que a amava. – Preciso escrever algo para ela antes que acorde novamente. – como vi sua face desconfiada acrescentei. – Era uma promessa nossa. Por favor?

- Está bem. – concordou depois de alguns minutos. – Só um momento. – saiu da sala e em poucos minutos retornou. – Aqui está.

- Muito obrigado. – respondi sorrindo, olhei para o relógio, faltava apenas vinte minutos. Com os olhos molhados comecei a escrever. – Você poderia deixar isso em sua cabeceira? Para que seja a primeira coisa que veja quando acorde?

- Porque você não deixa? – perguntou-me com a expressão piedosa e resignada.

- Muito obrigada. – não sei se foram minhas lágrimas ou a atmosfera de final despedida que envolveram o quarto, mas, agora, estava em uma cadeira de rodas indo ao encontro de minha amada. – Você não sabe o quanto isso significa para mim.

- Eu já fui jovem criança. – disse sorrindo enquanto abria uma porta e empurrava-me para dentro de outro quarto. – Já amei antes também.

Levantei-me com sua ajuda, aproximei-me da cama tremendo com o esforço imposto a meu corpo. Deixei a carta perto de um vaso de flores, retirei uma rosa e beijei suas pétalas, deixando-a perto da carta. Aproximei-me de sua cama, seu rosto tranqüilo sorriu ao toque de minha mão, rocei nossos lábios em um singelo contato.

- Sempre lhe amarei. Vou lhe esperar até o dia em que não me queiras mais. – beijei suas mãos e cai sem forças na cadeira.

- Vamos voltar para o quarto que você já se esforçou demais. – falou compreensiva a enfermeira. – Amanhã poderá vê-la novamente se você se comportar bem.

Sorri com tristeza, mal sabia ela que essa seria minha última noite nesse planeta. Chegamos ao quarto, com ajuda deitei-me na cama. Jude, vi em seu crachá, aplicou a medicação em minha veia e o sono torpor novamente tomou conta de meus sentidos. Olhei para o relógio, faltavam-me dois minutos.

- Jude? – chamei e, em meus as sombras de meus olhos quase fechados, vi como parava e voltava-se para mim. – Muito obrigada. Você foi a melhor enfermeira que já cuidou de mim.

- Espero não ser a última. – sorriu compreensiva e saiu do quarto.

Não ouvi a porta se abrir, nem a enfermeira sair. Minha mente já não estava mais ligada ao meu corpo.

- Não quer nem mais uns minutos de vida? – novamente a voz calma fez-se ouvir. – Não é possível que esteja tão calma assim perante seu destino final.

- Deixo tudo resolvido na Terra, não tenho mais pendências. – respondi da mesma maneira. – É claro que desejaria ficar a eternidade ao seu lado, mas assim é a vida. Não somos eternos.

- Só espero que sua noiva também seja assim. Acho que nunca receberei alguém como você.

- Nós sabíamos que um dia seriamos separadas, seria muita pretensão, desejar morrermos juntas. – sorri com nostalgia de nossas tarde juntas.

- Bem,... – começou com um sorriso. – pelo protocolo você tem direito a um último desejo antes de ir.

- Gostaria de ver se se recuperará. – respondi vendo como seu vestido tornava-se branco. – Isto é, se isso for possível.

- É, mas confesso que pensei que o desejo fosse diferente. – comentou com a surpresa novamente em seu rosto.

- Como qual? – indaguei curiosa.

- Sei lá. –respondeu com um toque de riso. – São tantos pedidos absurdos que você não pode nem imaginar.

Rimos juntas e, antes que percebesse alguma coisa, vi o rosto de traços suaves; os olhos castanhos, quase verdes; os lábios vermelhos naturais; os cabelos dourados tal qual o Astro Maior; ao seu lado uma mulher morena, de sorriso contagiante, olhos cor de mel, quase dourados. As duas andavam juntas por uma rua movimentada trocando carinhos e beijos suaves. A felicidade era marcadamente contagiante, mesmo com os olhares reprovadores que recebiam por parte de poucos.

- Ela vai ser feliz? – perguntei maravilhada por ver seu rosto mais maduro, mas, nem por isso, menos belo.

- Sim. – respondeu vendo a mesma cena que eu. – Chorara pouco, como você pediu e ficará por um bom tempo sem ninguém, mas não resistirá quando conhecer essa nova pessoa.

- Ela irá me esquecer? – perguntei não conseguindo, desta vez, controlar minhas lágrimas.

- Nunca. – respondeu firme. – Você sempre será uma boa recordação, um doce passado. Mas seguirá a vida, você será a força que a fará continuar sem cair na apatia.

- Graças a Deus! – respondi tentando enxugar meu pranto. – Graças a Deus! Ela não sofrerá muito. É o melhor. Ela deve me esquecer e continuar a viver. – minha voz saia fraca. – Tem muitos sonhos e deve cumpri-los. Não poderia pedir que os abandonasse por mim.

- Realmente nunca verei alguém como você. – comentou com um sorriso. – Nunca vi ninguém ficar feliz em ver a pessoa amada com outra pessoa e, ainda mais, sendo feliz sem sua presença. – com um sorriso estendeu sua mão. Aceitei-a e começamos a andar calmamente. – Realmente o mundo perdeu uma bela alma, com sua partida Laura.

- Não é que não tenha vontade de que ela ficasse sempre pensando em mim e eu fosse seu único amor, mas não estarei mais lá para segurar sua mão quando precisar. – respondi sorrindo e vendo como nossos corpos começavam a desaparecer. – Ela deve viver sua vida e evoluir sempre, quem sabe não nos reencontraremos outra vez. – com um sorriso ainda brinquei com a mulher que, agora, reconhecia como a mulher que me deu a vida, em sua aparência de trinta anos. – Não sou tão perfeita ainda para reencarnar tão rápido assim.

As risadas marcaram nosso desvanecimento total. Era o recomeço de um novo tipo de vida para mim e o começo de uma nova vida para minha eterna amada Gabriela.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!