[Madame Red’s Pov]

Eu sempre odiei a cor vermelha. Sempre. Assim como os fios esbraseados que cobrem minha cabeça, herdados de meu pai.


A primeira vez que eu o encontrei foi quando eu tinha 15 anos. Eu era tola e feliz. Passava as tardes a cuidar do meu jardim, sem me importar com minha aparência. Ou me importar com os cavalheiros que papai insistentemente apresentava-me. O que poderia ser mais importante do que a doce cor âmbar das flores? A cor que eu mais amava. A cor dourada que cobria os fios finos do cabelo de Rachel, minha irmã. Ela era uma mulher muito bela e gentil, e eu sempre á admirei. Eu a amava. Amava seus cabelos cor de âmbar. Amava-a porque ela me fazia feliz, e isso bastava para mim.


“Seu cabelo vermelho é verdadeiramente lindo, Anne. É como a cor do alcaçuz que queima a paisagem. Vermelho cai muito bem em você.”

Foram as palavras que ele proferiu gentilmente, alterando assim completamente meu mundo. Ele. Conde Phantomhive.

Assim como meu mundo, eu também mudei, para adequar-me a ele. Logo, cortei os cabelos há tanto esquecidos e mal cuidados, trajei os vestidos mais rubros que encontrei em meu guarda-roupas, passei á usar rouge nas bochechas. Aprontei-me como há tempos não fazia com tanto deleite. E, ao apenas apreciar o vermelho, trajar o vermelho, cuidar do vermelho...esqueci-me do âmbar. Não era mais necessário lembrar dele. Porque agora quem fazia-me feliz era o vermelho. A cor que ele insistia em dizer que era bela. A cor que ele me ensinou a amar.

E então, eu acabei amando o cabelo vermelho herdado de meu pai. Eu acabei por amar a cor vermelha. Eu acabei por amá-lo.

Suas freqüentes visitas alegravam meus dias. E era simplesmente para ele que eu empilchava-me. Minha mudança agradou á todos da casa, desde papai até Rachel. E não pôde deixar de ser notada por ele. E aquilo deixou-me extasiada. Era simplesmente para ele que eu vivia, era ele que eu mais me importava na época. A época em que fui tola e apaixonada. E esse fora meu erro...

Meses depois, Rachel veio á mim com um belíssimo sorriso desenhado em seus lábios, exibindo assim sua felicidade, como há anos eu não via.

E sua felicidade fora o meu desgosto, a minha inveja. Rachel casar-se-ia com ele, o único que fez-me ver o lado sublime de minha vida avermelhada... E então, voltei a odiar a cor vermelha novamente. Voltei a odiar a mim mesma por amá-lo.

Entretanto, eu não conseguia te odiar, doce irmã. Nunca consegui. Sua felicidade deveria ser a minha, não deveria? Então porquê eu me sentia tão oca e angustiada? Por que eu havia de esconder aqueles sentimentos? Por que eu não me satisfazia com sua felicidade?

Aquele sentimento de vazio aumentou quando eu vi pela primeira vez o rosto de meu sobrinho. Era o rascunho de minha amada irmã e ele. Novamente, eu deveria estar entusiasmada por ambos. Mas porquê meu sorriso parecia tão forçado? Por que minha felicidade soava-me tão falsa?

E então... eu voltei á odiar o vermelho mais uma vez...

Para distrair-me, e retirar ele de meus pensamentos, comecei a freqüentar as inúmeras festas dos condes britânicos amigos de papai, das quais eu sempre odiei. Não era de muita ajuda, mas ao menos momentaneamente eu conseguia esquecer-me de minhas mágoas. E aquilo satisfazia-me. Mesmo que não me deixasse feliz do modo que eu queria...

Por causa das roupas, dos acessórios que eu trajava nas solenidades, e também pelos fios de meu cabelo – todos vermelhos, sempre combinando – fui apelidada de “Madame Red”. E fora esse o nome que adotei após a desilusão com o Conde Phantomhive. Angelina Durless não existia mais... apenas Madame Red, e sua punícea realidade.

Sendo uma dama, eu não poderia viver apenas uma vida boêmia. Deveria arranjar um marido e viver unicamente para constituir uma nova família. Entretanto, bem no fundo eu já sabia que essa vocação não serviria para mim enquanto eu não estivesse ao lado dele. E como estar ao lado dele não era possível, decidi seguir meu sonho e tornar-me uma médica. Continuei á comparecer ás festividades das quais era convidada. E no resto do tempo, estudava ininterruptamente. Mesmo contra a vontade da minha família, consegui a licença de médica e comecei a trabalhar.

Casei-me com um homem que conheci em um banquete. Eu falei-lhe que “havia um homem que eu não podia esquecer-me” antes de selarmos nossos votos ante de Nosso Senhor. Mas ele simplesmente sorriu e disse-me “Eu não me importo”. Ele fora um homem sincero, e amava-me incondicionalmente, mesmo que eu não pudesse retribuir seu doce amor. Confesso que casar-me com ele não estava entre tantas coisas que eu havia desejado inicialmente, entretanto... eu estava feliz. Ele fazia-me feliz. E novamente, amei a cor vermelha. Não com a paixão que amei outrora, mas amei. Sentia-me completa simplesmente por achá-la adorável. Assim como minha vida era. Nunca fora o que eu desejei. Mas eu sentia-me bem com o que eu possuía. E nada mais importava á não ser a felicidade momentânea que invadia o meu ser. Não era muito. Era o suficiente para que eu continuasse. Mesmo assim, dessa vez...

De algum modo, tudo foi levado...

Uma carruagem desgovernada. Tudo o que foi preciso para arrancar de mim o último pedaço de felicidade que eu incansavelmente agarrava, como uma criança ao seu ursinho de pelúcia favorito.

Assim como passou – estrondosa e penosamente – a carruagem levou meu marido, e o filho cujo rosto eu nunca poderei ver. Apenas imaginar em uma das incansáveis noites em claro que passei recuperando-me do acidente.

Para aumentar a minha dor, retiraram meu útero para salvar minha vida. Logo, eu não poderia conceber mais nenhuma criança. Sorri internamente ao receber a notícia, pois meu corpo não possuía forças para completar tal ato. Ao menos eu não traria uma criança para minha odiosa realidade.

Tudo foi levado para longe de mim...tudo foi manchado.

Após incontáveis dias de recuperação, decidi visitar minha adorada irmã, meu cunhado e meu sobrinho, que no dia, completaria seus dez anos. Mas, como sempre, o vermelho estava lá. E o seu simples vislumbre fez meu corpo estremecer, como se minha alma quisesse deixar meu corpo. O vermelho subia pelas paredes da grande mansão Phantomhive, resumindo sua grandiosidade em uma combinação de fumaça, fogo e pó. A casa fora destruída pelo fogo, e os corpos de minha irmã e seu marido encontravam-se em um estado deplorável. Não encontraram o corpo do filho de ambos.

Por mais que eu estivesse devastada, senti uma inveja incontrolável de minha irmã. Ao menos ela perdera a vida ao lado de tudo que ela amou, não saiu em desvantagem. Já eu... como sobrevivente, não restava-me outra alternativa se não continuar vivendo. E carregando comigo as mágoas que há tanto tempo acumulavam-se dentro de meu coração. Se é que ele continuava a existir, já que eu não sentia-o havia tanto tempo. Não fazia falta.

Eu não conseguia entender, não conseguia acreditar, em como tudo havia acontecido tão depressa... tudo por causa do vermelho. Sempre estava lá, nos raros momentos de alegria, e nos tantos momentos de tristeza.

Tudo foi manchado pela cor vermelha que eu tanto desprezava.

Voltei á minha antiga profissão acreditando plenamente que eu poderia esquecer das perdas que sofri. Do marido que perdi. Do filho que nunca tive. Dos filhos que nunca poderia conceber. A única coisa da qual eu me importava... e por falta do útero que retiraram para que eu continuasse a viver, eu não teria mais a dádiva divina de gerar uma criança. E elas matavam-nas como animais, sem dó ou piedade. “Estorvo”. “Chateação”. Era o que elas diziam sobre ter filhos. Aquelas mulheres imundas, prostitutas sem valor. Jogavam fora a oportunidade que eu sonhava em ter sem pensar duas vezes.

Quais erros eu havia cometido? Por que apenas eu sou a amaldiçoada com esse destino infortunado? Tudo o que eu havia feito foi amar demais. Então amar demais tudo o que quis – assim como tudo o que eu não poderia ter – era errado?

Aquele sentimento de vazio então se transformou em um ódio intenso, mais forte do que eu sequer imaginaria. E dominou-me por completo... e eu tinha que descontar em algo... ou em alguém. Mais precisamente, “alguéns” .

Segui cada uma daquelas mulheres levianas que eu operei, e, empunhando um bisturi, matei-as sem dó ou piedade. Do mesmo modo que elas pediam-me para assassinar inúmeras crianças, que sequer obtinham culpa de terem sido geradas. Se aquelas prostitutas não quisessem-nas, então eu garantiria seus desejos em retirá-las, incluindo seus úteros, vida e felicidade...

Eu irei manchá-las... Irei fazer tudo ficar vermelho com estas mãos...

Era prazeroso ver aquela cor escorrendo de seus corpos sem vida, manchando as calçadas e as mãos pálidas que tremeluziam ante a luz gélida da Lua, única testemunha do assassinato que eu havia cometido. Até que uma gargalhada ecoou pela viela onde o corpo sem vida e eu me encontrava. Um shinigami arroupado de um vermelho vibrante sorria para mim, seus dentes afiados ganhando um brilho sombrio por causa da luz do luar.

Compartilhando a mesma cor, unimo-nos para continuar nossa carnificina contra aquelas que possuíam o dom, e desperdiçavam-no. E foi assim que alterei novamente meu nome. Já não era mais “Madame Red”, porque esse nome – assim como a realidade dele – não me satisfazia mais... Transformei-me em “Jack — o Estripador” – como os jornalistas nomearam o autor dos assassinatos em série, por causa das vítimas desventradas – e gostava daquilo. Gostava da realidade do nome... gostava do nome, e também adorava dar motivos para possuí-lo.

Após alguns meses, meu sobrinho desaparecido surpreendentemente reapareceu. Junto dele, um mordomo trajado de preto, que mais parecia-me sua sombra, pois sempre ele estava ao seu lado.

Eu deveria estar feliz com seu retorno, não é verdade? Entretanto, meu coração não se contentava com somente possuir Ciel novamente. Não era Ciel quem eu queria que voltasse... Era ele. Mas porque ele não podia voltar? Porque Ciel tomou seu lugar e ele teve que morrer? Por que...?

Aquela criança voltou... mas porquê não ele?

Ele não merecia viver... Ele descobriu minha verdadeira face, meu verdadeiro nome. Meu verdadeiro eu. Não poderia continuar a viver, com aquela expressão idêntica á expressão solene de minha amada irmã. Aquele rosto veio estragar meus planos. O que mais ela poderia afastar de mim? Eu não odiava o vermelho. Eu a odiava porque ela fazia minha vida enrubrescer.

Desta vez, não deixarei nada ser levado de mim. Não desistirei de nada!

Então eu pergunto-me: Por que eu não consigo matá-lo? Por que o rosto de Rachel vem á minha mente quando estava prestes á saciar meu desejo de vingança?

Mas agora tudo isso não importa mais... vejo minha vida inteira passar ante meus olhos como um filme mudo, enquanto a tela lentamente vai tingindo-se de vermelho, como se anunciasse o fim... O meu fim.

Novamente, eu odiei aquela cor vibrante. Mas agora está tudo acabado, sem volta. Vivi e morri com ele, amaldiçoando meu destino, manchando minha vida. A vida em Vermelho...

La vie en Rouge.

–x–

N/A: Oi, gente! x3

Ufa, finalmente terminei essa one-shot. Eu queria escrevê-la em forma de drabble, mas não consegui escrever somente cem palavrinhas pra resumir todos os sentimentos da Madam Red. E eu queria fazer uma one-shot curta, tipo, uma página e meia. Saíram 4 páginas para o meu desgosto...! =3=

Mas ao menos eu consegui escrever menos do que eu escrevi na outra one-shot, yaaaaaaaay! Palmas pra mim *O*

Deixando a minha pessoa (nada) importante de lado... sim, eu escrevi sobre a Madame Red. Confesso que eu tava louca pra fazer um PWP limão entre Ciel e Sebastian (tanto é que tenho uns rascunhos prontos aqui e tudo o mais, acho que vou utilizá-los, quem sabe? :G), mas de tanto ver Kuroshitsuji, eu achei bacana escrever algo sobre ela. Mas em terceira pessoa não ficaria bom, tentei escrever desse modo e não gostei do resultado. Aí fiz em primeira pessoa. Só que daí eu lembrei que no anime/mangá, é a Madame Red que narra sua vida. Aí eu falei pra mim mesma “legal, plagiei a obra sem querer... X_X”. Reescrevi essa fic muitas vezes, umas 7 ou 8 vezes, só pra não deixar idêntico. Mas ainda acho que tem (muita) coisa parecida. E_E

E ninguém notou a caca que eu fiz, né? Misturei (inconscientemente, não era pra envolver o mangá no meio) o anime com o mangá, tá uma pataquada louca aqui. X_x

Sim, as frases em itálico entre um parágrafo e outro são retiradas do anime. Já que tá uma mistureba louca, resolvi colocar umas frases pra complementar. Ao menos eu gostei desse resultado.

Bem, eu realmente espero que vocês tenham curtido ler essa fic. Não está lááá essas coisas, mas eu me esforcei para fazê-la, já que é a primeira vez que eu escrevo em POV, mimimi. Fãs de Kuroshitsuji, não me matem. >___<#

Elogios, dicas, erros, sugestões, críticas (construtivas, onegaaaaaaaaaai T-T)? Review, gente! Podem mandar, eu não mordo não... Garanto que será tão bom pra você quanto será pra mim. :D

Bye-bye minna-san *-----*v

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!