La Vie En Rose
4 Vermelho
Quase engasgo com meu bolo ao assustar com uma batida na porta.
Eu detesto morar no trailer por diversos motivos, um deles é que quando alguém bate na porta com forca eu sinto que está acontecendo um terremoto. Outros deles é que eu odeio lugares apertados, mas isso entra na categoria de coisas em que eu exijo demais.
Abro a porta do trailer ainda tossindo e a pessoa que está do lado de fora me faz engasgar mais. É Rose.
—Finalmente mudou de ideia? – jogo um sorriso perverso para ela.
—Cale a boca e me ajude.
Rose entra em meu trailer me atropelando, ela está nervosa. Quero dizer, isso é apenas um palpite, eu nunca sei como ela está.
Fecho a porta e quando me viro, Rose cruza os bracos e contorce sua cara em frustração.
—Em que posso lhe ajud...
—Maurice disse que ele não sente química entre nós por minha culpa!
Mordo meu lábio inferior segurando a risada. Maurice de fato estava implicando com ela, mas por um motivo estupidamente bobo. Todavia, pensando bem, é de fato culpa dela, por que afinal, é só eu olhar um pouco mais pra baixo que eu consigo criar uma química imediatamente.
—Como você quer que eu te ajude? – pergunto.
Ela não responde de primeira, mas contorce a cara como se as palavras que querem sair de sua boca doessem.
—Quero dicas... – Rose franze a testa, respira fundo e continua – Quero que você me ensine a como estar falsamente apaixonada.
Dessa vez, pela primeira vez em todas as vezes que eu tento me socializar com Rose, ela que ficou sem graça, por que senhoras e senhores, dessa vez fui eu quem caiu na gargalhada. E fazia um bom tempo que eu não ria alto assim, afinal, uma mulher quer dicas de como se apaixonar! E o mais bizarro de tudo isso é que não é qualquer mulher que está me pedindo esse favor, é Rose Esme!
Ela me olha com desprezo e quando recupero meu ar de tanto rir, ela revira os olhos e bufa:
—Eu sei, eu sei! Mas eu quero dicas técnicas nada de demonstrações! – Rose tira de sua bolsa o roteiro e sua famosa caneta roxa.
Enquanto ela senta no sofá e abre o roteiro na provável cena em que Maurice implicou com ela, aproveito para olha-la rapidamente. Ela está vestindo uma regata branca um pouco decotada e uma calça jeans bem colada e botas.
—Qual é... Sei lá, a teoria do amor? – Rose fala arregalando seus grandes olhos com um brilho de curiosidade totalmente diferente de qualquer olhar que ela já tinha me dado antes.
—Teoria? – indago confuso – Não tem teoria, amor é amor... – sento-me ao seu lado e apoio meu braço numa almofada – Amor é algo involuntário, entende? Você não pode dizer pro seu cérebro na hora de atuar “agora é hora de amar”! Amor não é nem algo que se usa na hora de atuar, é algo bem pessoal. Porem, numa cena de amor, basta só você imaginar uma coisa ou alguém que você ama muito, se isso não funcionar, faça como eu, lembre-se de alguém ou um momento em que você teve certeza que amou ou se sentiu amado. Acredite em mim, o resultado é muito bom.
Rose não desgrudou seus olhos de mim, por um momento eu não entendi por que, ate me dar conta de tudo o que eu acabei da falar. É incrível como quando se leva algo tão a serio ao ponto de sentir prazer em falar sobre o assunto. Eu amo meu trabalho, acho que é por isso que eu falei todas essas coisas da boca pra fora.
—Não, serio Alain, não tem nenhuma definição técnica? – ela balança a cabeça atônita – eu não quero saber toda essa merda sentimental.
Solto um suspiro frustrado misturado com um sorriso. Não sei bem se fico bravo pelo desprezo de minha explicação, ou se eu realmente deveria pensar em alguma coisa mais concreta para ajuda-la.
Mas palavras não saem de minha boca. Eu simplesmente penso em uma experiência em que tive em que me senti amado ou amei. Se a audição de Rose possui um filtro de coisas que as palavras traduzem do coração, ficará difícil ajudar. É como se ela quisesse andar de cavalo sem nunca ter visto um.
—Rose – indago fixando meu olhar em seus olhos – Eu quero que você feche os olhos.
—Mas o que...?
—Apenas feche-os – corto sua fala imediatamente para não perder a linha de raciocínio. Ela solta uma rápida risada, mas acaba cedendo ao meu pedido e fecha seus olhos com um tímido sorriso em seus lábios avermelhados – Agora eu quero que você se lembre de alguém que você amou. Um namorado antigo, ou seu primeiro amor! Lembre-se de todos os momentos juntos que vocês passaram! O prazer de sentir que cada palavra ordinária parece canções de amor!
Subitamente, o sorriso em seu rosto se desmancha e seus grandes olhos castanhos se abrem acompanhado de um longo suspiro.
—Eu não consigo fazer isso. – Rose se levante e cruza os braços.
—Você nunca esteve num relacionamento?
E foi nesse momento em que percebi que o tópico relacionamento é um gatilho para o famoso olhar vago e transparente de Rose Esme. Ela ficou paralisada por um instante olhando para minha cara como se ela não existisse e eu fiquei a encarando, esperando por uma resposta, mas tudo o que ela fez foi respirar fundo e se sentar novamente. Sua coxa encosta na minha. Um avanço para quem mal me cumprimentava, próximo passo, cama! Quero dizer, amizade!
—É claro que eu já estive num relacionamento, Alain. – ela levanta uma sobrancelha junto a um triste sorriso. – É que eu não tenho uma boa experiência com relacionamentos, sabe?
Concordo com a cabeça, porque afinal, minha vida é feita por relacionamentos express., elas veem, elas se divertem, e nunca mais eu as vejo. Pensando bem, e aproveitando esse clima sensível em que estou presenciando agora, minha vida é bem repugnante, mas, eu não sei como e quando eu comecei a me acostumar desse estilo de vida e sentir prazer com ele. De certa forma, eu nunca tive relacionamentos sérios.
—Vou te contar um segredo, Alain – Rose se inclina para trás separando o contato físico que existia entre nós – Meu ultimo namorado se chamava Marius, e posso te afirmar que ele era bem mais bonito que você! – ela cutuca meu abdômen provocando-me de proposito – E nós éramos felizes e fazíamos coisas de casais, íamos a lojas de construção e planejávamos nossa futura casa, ficávamos a manha toda na cama acariciando um ao outro... Enfim, eu me sentia a garota mais feliz de toda a França. Até que eu comecei a reparar que ele trabalhava até muito tarde e ele nunca me deixava ler os e-mails dele. – Rose range os dentes e finca o olhar além de meus olhos, como se o olhar dela estivesse mentalmente matando – E então eu descobri que aquele filho da puta estava me traindo.
Meu coração desacelera por um momento ao ouvir o adjetivo que ela usou para descrever o ex.
—Mas, Rose, isso foi um caso. Uma mulher como você já não teria superado? – Coloco minhas mãos atrás de meu pescoço e estico minhas pernas e analiso o tipo de mulher que ela é. E puxa, que mulher!
—Relacionamentos não são reais, Alain! É tudo ilusão! – seu tom de voz aumenta de forma sutil e ela se levanta – Se amor existisse meu pai ainda dormiria na mesma cama de minha mãe e Marius ainda estaria comigo!
Levanto-me e seguro seu braço para tentar acalmar sua exaltação. A cada dia que se passa, Rose se torna cada vez mais misteriosa.
—Rose, eu também não acredito em relacionamentos sérios, olha pra minha vida! Tudo o que eu quero fazer com você é te beijar, brincar um pouco e depois esquecer! Mas isso não me faz desacreditar que um dia, quem sabe, eu me casar...
O verbo iniciado em “c” nunca tinha saído de meus lábios de forma tão profunda e com um significado verídico. Geralmente, quando eu falo de casamento é parte do roteiro de algum filme, ou alguma cantada para atrair alguma mulher.
Acho que tal palavra não só causou impacto em mim. Rose me olha perdida com os labos semiabertos. Talvez eu não tenha a mensura de o que esse tal de Marius significou para Rose, ou o que a ausência de seus pais juntos expressa para ela. Afinal, eu posso ter uma companheira a qualquer hora e meus pais estão juntos até hoje, apesar deles nunca me incentivarem em constituir uma família. Deve ser por causa deles que essa ideia de casamento brotou em minha mente, eu cresci num casamento saudável, e parando para refletir, eu não sei por que eu acabei me desviando dessa ideia de possuir uma família. Afasto rapidamente todos esses pensamentos que vieram à tona e volto a pensar em como conquistar Rose Esme. Que isso Alain? Meu estilo de vida é simples e sexy, e relacionamentos são para pessoas eruditas.
—Rose eu... – tento consertar minha reação a respeito da historia de Rose.
—Obrigada pelas dicas – ela me interrompe – Eu vou tentar pensar em algo que me deixa feliz ou algo assim.
Fico parado e a observo abrir a porta do trailer.
—Sabe de uma coisa, Alain? Você não é tão ruim quanto eu pensava. Você sabe pensar de forma certa.
Fale com o autor