La Vie En Rose
6 Índigo
Notas iniciais
Rose está sentada na cama em que foi feita a cena desde quando acabamos as filmagens.
Seus joelhos servem de almofadas para sua bochecha e ela fica ali, imóvel, como uma estatua. Acima de tudo, ela ainda veste as roupas intimas que ela usou para filmar. Obviamente, eu já quis conversar com ela assim, mas não nesse estado emocional depressivo.
Para falar a verdade, nunca tinha visto ela tão vulnerável assim antes. E como isso é novo para mim, uma dúvida vem em minha mente: Falar ou não falar com ela?
Eu não tenho motivos para falar, mas ao mesmo tempo tenho. A cena foi de acordo com minhas expectativas. Meus filmes geralmente são de comedia romântica, ou dramas, ou seja, sempre tem uma cena de amor. Porém, eu senti algo diferente ao fazer essa. Eu sentia que Rose estava se sentindo desconfortável, mas ao mesmo tempo ela estava se esforçando demais para não ter que gravar novamente. Apesar de todas as mulheres em que eu já gravei, eu também me senti desconfortável de certa forma. Geralmente, essa é a cena que as atrizes mais esperam, e quando a hora chega, a cena rola numa tranquilidade. Dessa vez foi diferente. Maurice nos parabenizou, disse que ficou bastante natural e harmonioso e tenho certeza que um sorriso falso brotou não só na minha cara, mas na de Rose também.
Prefiro poupar os detalhes da cena a ficar lembrando a culpa que senti por uma pontada de mim ter sentido prazer em gravar aquela cena. Sinto-me tão sujo.
Involuntariamente caminho até Rose. Quase atropelando a produção do filme que vive caminhando por ai carregando cenário ou correndo para retocar maquiagem.
—Tenho que admitir que eu não imaginei que nossa conversa com você só de sutiã e calcinha seria assim! – sento-me ao seu lado e ameaço um sorriso, mas a atmosfera que o olhar vago dela proporciona me dá um tiro de arrependimento pelas palavras ditas – Quero, dizer... Você até que mandou bem?
—Mandei, eu sei disso, eu levo meu trabalho a sério! – Ela responde cobrindo seus seios cruzando os braços – E eu ainda quero lavar minha boca com sabonete e escovar meus dentes!
—Não foi tão mau assim, foi? – pergunto me aproximando com uma luz de esperança crescendo em meu coração. Tudo o que gravamos poderá se repetir, mas com intenções não profissionais.
Ela finge vomitar em meu colo e depois ri de minha expressão abalada. Mas depois de uma gargalhada final ela deposita sua mão em meu joelho como forma de consolo.
—Alain, eu tenho certeza que na minha lápide estará escrito “Não vou dormir com você, Alain”! – um sorriso cresce em seu rosto, e meus olhos descem até... – Meus olhos estão aqui! Viu só! É por isso que a gente não funciona!
Meus pensamentos congelam no mesmo instante em que Rose se levanta com uma exaltação sagaz. Seu corpo magro exposto a minha frente. Seu tom de voz carrega uma irritação. Eu me esforço para não olhar para seu corpo e prestar atenção em seu sermão, por mais desinteressante que ele seja.
—Alain! – ela solta uma risada irônica – Olhe para mim e olha para você! Nós dois somos trabalho em progresso! Eu sou danificada pelo meu passado e você... – a voz dela treme numa risada que progride em uma expressão risonha – a cada dez palavras que você fala, onze envolvem sexo! Nós dois não sabemos lidar com relacionamentos!
Parte do que ela disse é verdade, mas sabe ela que o que no fundo ela sabe que é verdade, é que nós dois, eu acredito, estamos com medo de nos conhecemos verdadeiramente.
Ela me encara em busca de alguma reação depois de seu discurso. Mas dessa vez, sou eu que a surpreendo. Eu apenas balanço minha cabeça com um sorriso.
—Eu tenho que ir... Assistir o episodio novo de Game Of Thrones. – levanto-me e começo a caminhar para fora do set, mas sou impedido pelo braço de rose me puxando.
—Espera ai! Você só vai simplesmente sair, sem falar nada? – ela ri em descontentamento.
Dou os ombros e respondo:
—Sim.
Rose Esme. É minha vez de jogar nesse jogo, e prepare-se por que você vai descobrir que eu posso ser uma caixinha de surpresas.
Ela contorce a cara em indignação e ao invés de protestar minha saída, ela respira fundo e muda completamente de temperamento. Acho que depois das filmagens, vou manda-la pra uma clinica psiquiátrica por sintomas de síndrome de bordeline.
—Eu pensei que você tinha mudado... E o nosso trato?
—Minha porta está sempre aberta para você. Você sabe disso. Mas eu acho que você não sabe traduzir seus sentimentos.
***
Eu não curto muito essa coisa de assistir séries.
Muitos de meus amigos passam horas assistindo, quanto a mim, só Game Of Thrones. Afinal das contas, é a série do momento, eu tenho que ter assunto para aquelas mulheres que são viciadas em séries.
Entrando no tópico mulheres, eu até esqueci-me de Rose por um momento. É claro que eu ainda tenho intenções secundarias com toda essa historia que ela inventou sobre “relacionamento casual”. Eu sempre tenho intenções secundarias. Mas a paixão que ela possui pelo trabalho e toda a história do passado dela me envolveu tanto com esse projeto que eu acho que as probabilidades das segundas intenções apenas dissolvam com o tempo. E quem sabe, essa aproximação que ela quer faça com que ela mude de ideia sobre mim.
Mas isso não me faz mudar minha opinião sobre Rose. Ela continua sendo uma pessoa surpreendente, cheia de surpresas e a cada dia com um argumento exótico a respeito de nosso relacionamento, relativamente, de amizade. Hora ela está toda grudenta querendo entender a arte de criar química nas câmeras e hora ela está completamente ignorante julgando meu estilo de vida. Por mais gostosa que ela seja uma hora eu esgoto-me de todo esse mistério. Cavar para chegar à camada mais sensível de sua alma está me desgastando. Cheguei a um ponto no qual eu cansei de conduzi-la aos meus braços.
Obrigo-me a parar de pensar nela e volto a assistir o episodio. Eu fiquei tão cativado pelo comportamento de Rose que acabei não prestando atenção em grande parte do episodio.
Enrolo uma manta que estava no pé da minha cama em minha perna. As luzes estão apagadas, estou confortável aqui em minha cama e Game Of Thrones está cuidando da parte de entretenimento. Nada poderia estragar esse momento comigo e eu mesmo.
É claro que tem sim algo. A famosa batida na porta.
Levanto-me e visto meu roupão. Não desgrudo meus olhos da televisão para aproveitar cada segundo do episódio.
Caminho até a porta com desprezo e raiva de seja lá quem for.
O desprezo abandona meu corpo quando vejo Rose encolhida em seu roupão felpudo, o qual seu nome está bordado em índigo, um tom de azul.
—Alain, me descul... — fecho a porta na cara dela.
Rose está completamente equivocada se ela acha que pode chegar aqui e pedir desculpas. Celular serve para isso.
Jogo meu roupão no chão, volto para minha cama e meu cobertor. Um suspiro põe para fora toda a tensão.
—Você nunca ouviu falar de chaves? – a voz de Rose me assusta e sua silhueta em minha porta duplica o susto.
—Jesus, Rose! – coloco minha mão em meu coração e sinto que ele está acelerado.
Ela não ri. Ela não sorri. Ela nem ao menos solta um grunhido ameaçador de gargalhada. Rose se aproxima e senta-se na ponta de minha cama virando o troco em minha direção.
—Alain, eu sou louca. Eu sei que você sabe disso, e quero que você entenda essa minha loucura.
Concordo com a cabeça para que ela prossiga e chegue a algum lugar com esse papo. E provavelmente será um discurso sentimental que guiara até um pedido de desculpas e ambos de nossos corações amoleceram e acabaremos nos pegando. Gosto dessa ideia. Clichê, mas totalmente acessível.
—Ah, quer saber? – Ela dá um tapa em meu peito e seu nariz se contorce rapidamente. – Eu estou cansada desse papo sentimental então vou tentar ser bem direta.
Rose deita-se ao meu lado. Estranho, mas bom.
—Eu fiquei pensando no que você disse, sobre meus sentimentos. Mas também pensei em você. E eu acho que nenhum de nós está sabendo encarar nossos sentimentos reais. — Ela senta e vira sua cabeça fincando seu olhar em meus olhos. – Estamos tão focados em parecermos um casal no filme, que esquecemos que somos pessoas. Estamos limitados em ser Mirelle e Pierre e esquecemos de que Rose e Alain podem agir como pessoas normais, apesar de nossos caracteres completamente distintos. – um suspiro longo é o tempo perfeito para sentir a honestidade das palavras de Rose atingindo-me como uma facada. – Então, eu não vou pedir desculpas pelo o que eu te disse hoje, por que eu não me arrependo, eu sei que eu tenho razão, somos incompatíveis Alain Blanche, mas eu sei que eu não te conheço e nem você me conhece eu sei que tudo está acontecendo muito rápido, mas eu estou louca para te dizer... Oi! Meu nome é Rose Esme!
Ela estende a mão em minha direção e selo-a com um delicado beijo nas costas de sua mão.
—Encantado em te conhecer Mademoiselle Esme, sou Alain Blanche Mounvier.
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