La Vie En Rose
1 Único
Notas iniciais
Perfume barato, cigarros. Batom vermelho, chuva gelada.
Sabia que era uma empreitada arriscada, mas também sabia que valia a pena. Muito a pena. Só pelo cheiro dele, pelo sabor de seus lábios, pela pressão gentil e necessitada em sua cintura e coxas. Mesmo com o incômodo da chuva e a incerteza do beco escuro ao lado do cabaret, estava lá, a lhe aguardar.
Ele vinha quando queria — sempre no momento em que ela menos o esperava. No início, entre as conversas barulhentas e a névoa dos cigarros. Depois, o tempo em que estavam unidos no quarto tornara-se curto demais para tamanha intensidade de sentimentos e sensações, e o escuro fora escolhido. Afinal, porque precisavam se ver quando havia tanta paixão entre os dois? Não necessitavam de olhares quando havia os toques, os beijos, e tantos outros momentos...
Cinco minutos, dez, quinze. Mais chuva. A roupa dela já grudara em seu corpo quando o perfume chegou. Com aquele aroma típico — perfume misturado à fumaça de cigarro. Com aquele abraço típico, que a puxava para perto, que a pressionava tão doce e suavemente. Que fazia com que ela entendesse que o desejo que sentia era plenamente correspondido, sem que nem uma única palavra fosse utilizada.
Ela segurou-o pelo elegante sobretudo, a fim de acabar com os incômodos milímetros que separavam seus corpos. Beijaram-se, como se o beijo fosse fundamental para a sobrevivência de ambos. Unhas vermelhas passeavam pelo sobretudo, arranhavam-no. Dedos seguravam com força o vestido justo e totalmente encharcado, acariciavam ombros e costas, cintura e coxas. Cheiros e hálitos quentes misturavam-se. Tornavam-se um só. E pareciam não ser incomodados pelo frio da noite — aumentado exponencialmente por conta da chuva torrencial.
Mas, por fim, a necessidade de oxigênio falou mais alto. Por alguns minutos, os lábios afastaram-se. E ela sussurrou, com seu rosto próximo do dele e sua voz macia, que o amava.
E ele sorriu, embora não dissesse nada.
Ela também sorriu. E mais um beijo teve início.
Alguns dos dedos soltaram o vestido, mas o vital encontro de lábios não foi interrompido. Ela não conseguia reprimir seu sorriso, e mal pôde perceber os toques frios de chuva e de alguma outra coisa antes que o beijo terminasse novamente e...
Escuro.
Perfume barato, cigarros. Chuva vermelha e gelada, e uma prostituta, morta, no chão.
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