Ginevra correu, torcendo para não chegar à Igreja tarde demais. Porém havia um problema. Haviam pelo menos três Igrejas nas imediações, não tinha como adivinhar em qual delas estava Julieta.

Então ela se lembrou da Igreja perto do bosque, onde sua família ia rezar as missas de domingo. Se foram seus tios que levaram Julieta, então provavelmente era lá que ela estava. Ginevra torceu para estar certa e seguiu para lá. O que ela não esperava era que iria encontrar Páris no caminho.

"Ginevra? É você?" Perguntou se aproximando da menina.

"Hum...sim" Respondeu.

"Sua tia está louca atrás de você! Olhe, tenho algo para lhe contar"

"Se é para falar de Julieta, eu já sei" Disse. Páris a olhou confuso.

"Como?" Perguntou.

"As notícias correm por Verona" Respondeu. Tecnicamente não estava mentindo. Daqui a algumas horas todos em Verona saberiam da aparente morte de Julieta.

"Se me dá licença, eu irei visitar minha prima" Seguiu seu caminho para a igreja.

Logo quando estava chegando lá, ouviu seu nome ser chamado. Ela se virou e viu sua tia correndo em sua direção, seu rosto estava vermelho e com marcas de lágrimas em suas bochechas.

"Ginevra! Onde esteve?" Perguntou desesperada. Ginevra coçou o pescoço, nervosa.

"Passeando" Respondeu. Sua tia a olhou com desapontamento nos olhos.

"Sua prima...Julieta...ela..." Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. Ginevra suspirou.

"Está morta, eu sei. Estou indo vê-la" Completou.

Ginevra conseguiu se livrar de seus familiares e servos da família que estava reunidos do lado de fora da igreja e adentrou, torcendo para ter conseguido chegar antes de Romeu.

Obviamente ela estava errada.

O corpo de Julieta estava em cima de uma mesa no altar da igreja, ao lado dela, havia um homem ajoelhado, o rosto enterrado nas mãos enquanto chorava. Pelo cabelo e as roupas ela pôde reconhecer Romeu.

Ginevra ficou escondida atrás de uma pilastra observando tudo de longe.

"Me perdoa Julieta, me perdoa" Murmurou. Romeu se levantou e tirou do bolso de sua calça um frasco. Ginevra não conseguia identificar o que havia dentro.

"Se eu morrer, poderemos ficar juntos" Romeu disse, abrindo o tal frasco e o direcionando à sua boca.

"Não!" Ginevra gritou saindo de seu esconderijo. Romeu se assustou, deixando o vidro cair no chão, se quebrando e derramando seu conteúdo.

"Por que está aqui? Deixe-me sozinho. Você arruinou a única chance que eu tinha de me reencontrar com minha amada" Romeu falou. Ginevra revirou os olhos.

"Se tivesse prestado realmente atenção em Julieta saberia que ela está viva" Disse, puxando Romeu pela mão e colocando sobre o peito de Julieta, fazendo com que ele conseguisse sentir o coração dela batendo.

"Mas como?" Perguntou confuso.

"Ela tomou uma poção que faria sua respiração e seus batimentos cardíacos diminuírem fazendo com que parecesse estar morta. Ela planejava fugir com você" Explicou. Ele pareceu compreender.

Os dois ficaram sentados nos bancos da igreja, esperando o efeito da poção passar e Julieta acordar.

"Você ia realmente se matar?" Perguntou Ginevra após longos minutos em silêncio. Romeu abaixou a cabeça.

"Sim, não conseguiria viver sem ela" Respondeu. Ginevra deu uma pequena risada.

"Você é um idiota" Apontou. Romeu levantou o olhar para ela.

"Se fosse Mercúcio você não faria o mesmo?" Perguntou.

Ela não chegou a pensar no que faria se Mercúcio tivesse morrido devido ao seu ferimento. Para começar, ela nem ao menos tinha certeza do que sentia por ele, não sabia se era apenas atração, se era amor, ou apenas amizade. Ela se importava com ele, talvez realmente não conseguisse viver sem sua presença.

"Eu faria o mesmo por qualquer um de vocês" Disse por fim. Romeu deu de ombros.

Julieta começou aos poucos a se mexer e Romeu se levantou e ficou ao seu lado, até ela abrir os olhos.

"Romeu? É você?" Perguntou ainda meio sonolenta. Ele sorriu.

"Sim, Julieta, como se sente?" Perguntou a ajudando a se sentar.

"Estou cansada apenas, logo estarei melhor" Respondeu se apoiando em Romeu e se levantando.

"Esse imbecil achou que se matar seria a melhor opção para se juntar à você" Comentou Ginevra. Julieta arregalou os olhos e olhou para Romeu.

"Você não ousaria" Disse, fazendo Ginevra sorrir.

"Ah, mas ele ousou" Ginevra respondeu. Romeu corou.

"Meninas, acho melhor irmos andando antes que alguém entre aqui" Mudou de assunto. Ao menos ele estava certo.

Havia uma porta lateral na igreja, que dava para o bosque. Eles saíram por lá, tentando evitar pessoas que poderiam reconhecer Julieta, já que a menina supostamente estava morta.

Passaram por algumas casas e logo perceberam que tinham que passar pelo centro para chegar à casa dos Montecchio. Ginevra tirou a capa que usava e a colocou em Julieta, abaixando o capuz até que o rosto dela estivesse coberto, assim conseguiriam passar despercebidos.

Chegaram finalmente e entraram direto, já que Romeu tinha a chave de casa. Assim que os três se encontravam na sala, Benvólio saiu rapidamente do quarto para vê-los. Se encostou na parede e pôs a mão no peito.

"Graças a deus estão bem. Quase morri de preocupação" Disse se abanando com a outra mão.

"Estamos bem mas não graças a Romeu" Ginevra comentou, indo até a mesa de jantar onde o café da manhã já se encontrava com os pães que Benvólio havia comprado mais cedo e pegando um pão e o mordendo, apenas para tê-lo tirado de sua mão por um tapa de Benvólio.

"Espere todos estarem na mesa para comer sua mal educada, parece até que foi criada pelos Capuleto" Fez piada. Ginevra terminou de mastigar o que havia mordido e cruzou os braços, irritada.

"Porque não vai ajudar Mercúcio a vir para a mesa enquanto eu pego mais um prato pra Julieta?" Romeu pediu. Ginevra assentiu e foi até o quarto, onde Mercúcio permanecia deitado com um braço cobrindo os olhos.

Assim que se aproximou, ele descobriu o rosto e fez um bico, esticando os braços como um bebê faz quando quer colo. Ginevra revirou os olhos e o ajudou a ficar de pé, o problema era que ele se apoiou completamente nela, fazendo com que fosse difícil para ela carregá-lo.

"Pare com isso, assim não consigo te carregar" Reclamou enquanto tentava sustentá-lo.

"Me chamou de gordo?" Perguntou se fingindo de ofendido.

"Não, te chamei de pesado" Respondeu. Ele sorriu de lado e continuou se apoiando completamente nela, a fazendo rir e empurrá-lo levemente.

Quando chegaram na sala, Julieta, Romeu e Benvólio já estavam sentados, os esperando. Assim que Julieta viu Mercúcio e Ginevra se empurrando, cobriu a boca com a mão e deu uma risadinha, chamando a atenção dos outros dois para eles.
Romeu se levantou e ajudou Ginevra a levar Mercúcio para seu lugar na mesa.

Todos comeram em silêncio, porém Julieta não parava de encarar Ginevra e Mercúcio.

"Hum...o médico que cuidou de mim disse que iria avisar meu tio sobre o que ocorreu. Acho melhor o visitarmos mais tarde" Mercúcio interrompeu o silêncio que havia se formado na mesa.

"Falar com o príncipe?" Julieta se pronunciou nervosa.

"Você não vai a lugar nenhum enquanto estiver assim" Benvólio disse, Mercúcio cruzou os braços irritado.

"Ora, vocês realmente acham que deixarão vocês entrarem no palácio sem mim junto?" Perguntou. Todos se entreolharam. Ele tinha razão.

"Tudo bem, mas andaremos até lá bem devagar. E se você piorar, ficamos aqui e vamos visitar o príncipe outro dia" Ginevra decidiu. Todos concordaram.

Após terminarem de comer, alguns criados recolheram os pratos e Benvólio e Romeu foram ajudar Mercúcio a voltar para a cama, deixando Ginevra e Julieta sozinhas.

"O que há entre você e Mercúcio?" Julieta sussurrou para a prima. Ginevra corou.

"Nada..." Respondeu. Julieta levantou uma sobrancelha.

"Fale a verdade" Insistiu. Ginevra suspirou.

"Talvez haja algo. Mas eu não sei ainda o que é" Respondeu. Julieta sorriu e bateu palmas, fazendo Ginevra revirar os olhos.

"Vocês são tão lindos juntos, são alegres e espirituosos" Falou. Ginevra riu.

"Assim como você e Romeu são almas gêmeas, os dois são teimosos, lentos e irritantes na maioria das vezes" Julieta se levantou e começou a perseguir Ginevra, as duas rindo.

Os rapazes voltaram para a sala e Ginevra se escondeu atrás de Romeu, porém este a segurou pelos braços e a colocou em frente ao seu corpo, a prendendo no lugar onde Julieta poderia pegá-la. E assim ela o fez, enchendo Ginevra de cócegas.

"Não é justo, ela é sua esposa!" Ginevra gritou para Romeu que apenas deu de ombros.

"Então, vamos realmente falar com o príncipe?" Benvólio perguntou. Ginevra e Romeu se entreolharam.

"Acho que não temos muita escolha. As pessoas estão começando a comentar pelas ruas sobre a morte de dois Capuleto e o sobrinho do príncipe...e sua família, bom, eles me querem morto por...você sabe" Romeu disse. Ginevra baixou a cabeça. Era doloroso lembrar da morte de seu irmão. Benvólio suspirou.

"Vamos, vou arrumar meu quarto para vocês duas." Disse. Ginevra riu, nervosa.

"Não precisa, quer dizer, é sua casa. Deve ficar com seu quarto para você" Benvólio sorriu, porém as guiou para o quarto do mesmo jeito.

"Nada disso, vocês são hóspedes, devem ter conforto. Posso muito bem dormir no sofá no quarto de Romeu. Afinal, com Mercúcio na cama é preciso ter alguém o vigiando e Romeu tem um sono muito pesado, não iria acordar nunca" As meninas então o acompanharam. O ajudaram a trocar os lençóis da cama e logo foram deixadas sozinhas. Deitaram na cama e começaram a conversar.

"É tão estranho" Julieta comentou. Ginevra se virou para ela.

"O que?" Perguntou. Julieta suspirou.

"Como nossas vidas mudaram em tão poucos dias. Quer dizer, a uma semana atrás eu jamais imaginaria que estaria deitada na cama da casa dos Montecchio" Riu.

"Ou que estaria casada com um" Completou.

"Foram tantas emoções para tão pouco tempo" Ginevra disse. Julieta se sentou abruptamente e a encarou.

"Sei que está pensando em Teo" Murmurou. Julieta se sentia estranha por chamá-lo assim, pois depois que Teobaldo cresceu ele passou a odiar o apelido.

"Vou sentir falta dele. Mesmo brigando o tempo todo...ele era meu irmão" Lágrimas brotaram nos olhos de Ginevra e ela as secou rapidamente.

"Todos sentiremos" Julieta abraçou a prima. Ginevra fungou.

"Teobaldo te amava." Contou. Ela sentiu Julieta ficar tensa e logo ela sentiu algo molhado em seu ombro. Julieta estava chorando.

As duas passaram grande parte da tarde assim, abraçadas.

"Lembra quando éramos pequenas e trancamos Teobaldo na dispensa?" Disse Julieta, fazendo Ginevra sorrir.

"Sim, ele começou a chorar pois tinha medo do escuro e ficou uma semana inteira dormindo com uma vela acesa. E você se lembra quando nós o forçamos a vestir um dos vestidos de sua mãe e ficamos brincando pela casa?" Continuou.

Julieta arregalou os olhos e começou a rir.

"Isso é sério? Teobaldo de vestido?" Gargalhou. Ginevra franziu um pouco as sobrancelhas.

"Acho que você era muito nova, por isso não se lembra. Papai quando o viu usando vestido e jóias ficou furioso...bateu em Teo e me deixou de castigo" Completou. Julieta finalmente se acalmou e parou de rir. Na mesma hora a porta foi aberta e Romeu entrou.

"Desculpa atrapalhar a conversa de vocês, mas Mercúcio está extremamente impaciente com a ideia de visitar o príncipe e eu pensei que nós poderíamos ir agora, se vocês não se incomodarem" Disse. Julieta e Ginevra se entreolharam.

"Não, está tudo bem, podemos ir" As duas se levantaram e foram até a porta da frente, onde Mercúcio esperava por eles montado nas costas de Benvólio, se segurando no mesmo com as pernas ao redor de sua cintura e os braços ao redor do pescoço.

"Vamos logo. Antes que fique tarde e meu tio não queira nos ver" Mercúcio reclamou, batendo com uma das mãos na cabeça de Benvólio, que suspirou e começou a andar.

"Eu andaria mais rápido se não estivesse com você nas minhas costas" Murmurou. Mercúcio fez bico.

"Viu? Eu disse. Pesado" Ginevra riu, Mercúcio lhe mostrou a língua.

Para a sorte do grupo, as ruas estavam vazias pelo fato de ser fim de tarde. Apenas algumas crianças brincavam e elas não apresentavam nenhum perigo. Obviamente algumas delas paravam para olhá-los, já que não era de se esperar ver um homem montado nas costas de outro.

Julieta e Romeu estavam andando lado a lado, ela segurando firmemente em se braço e sua cabeça apoiada em seu ombro. Ginevra torceu o nariz para eles. Os dois eram tão extremamente fofos que chegava a ser irritante.

Chegando no palácio, os guardas que ficavam protegendo o portão se posicionaram em frente ao mesmo e desembainharam suas espadas ao os ver se aproximando.

"O que querem aqui?" Um deles perguntou. Mercúcio desceu das costas de Benvólio e mancou até a frente do grupo, acenando para os guardas.

"Podem abrir o portão para nós? Precisamos ver meu tio" Pediu. Os guardas se curvaram ao reconhecerem o rapaz e se puseram a abrir o portão.

Entraram no palácio e Ginevra se pegou admirando a decoração como da primeira vez que estiveram ali. Uma das portas se abriu.

"Em que confusão se meteu agora?" Um homem adentrou o salão e parou, cruzando os braços.

"Lucca! Poderia avisar meu tio que precisamos falar com ele? É um assunto urgente" Mercúcio disse.

"Sua alteza está em uma reunião, garanto que sua conversa pode esperar" Falou, fazendo Mercúcio revirar os olhos.

"Tudo bem, então avise-o que precisamos falar com ele. Estaremos em meu quarto."

Mercúcio os levou para seu quarto e todos eles se sentaram. Julieta e Romeu em um sofá, Benvólio e Ginevra na cama, enquanto Mercúcio apenas se deitou na cama.

"Quem era aquele?" Perguntou Ginevra. Mercúcio riu.

"Lucca? Assistente de meu tio. Parece ser inteligente e tudo mais porém é um idiota. Não sabe lutar e mal sabe ler" Ginevra franziu as sobrancelhas.

"Então por que ele trabalha pro príncipe?" Perguntou Julieta. Mercúcio deu de ombros.

"Não faço ideia. Mas pelo menos ele é leal. Ele levaria uma flechada pelo meu tio" Respondeu.

"Isso é idiotisse da parte do príncipe, quer dizer, alguém que não sabe se defender?" Romeu retrucou.

"Bom saber que pensa isso de mim Montecchio" Uma voz vagamente conhecida disse da porta. Todos se viraram para encontrar ninguém mais ninguém menos do que o próprio príncipe de Verona.

"Príncipe Escalus...mil perdões" Romeu se curvou. O príncipe abriu um pequeno sorriso.

"Levante-se jovem Romeu, não se preocupe com isso" Falou para o Montecchio que estava corando furiosamente.

"Tio, precisamos falar com o senhor" Mercúcio insistiu, porém o príncipe levantou a mão para fazê-lo ficar em silêncio.

"Primeiramente, vamos ao meu escritório, teremos uma conversa apropriada lá"