La Prophétie - 2ª Temporada
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Isnaria entregou a xícara a amiga.
– Tanta coisa mudou em tão pouco tempo. Mal posso crer que finalmente estou vinculada ao Heron e que, em poucos dias, você será oficialmente a segunda shellan do Rei Cego.
Aileen rolou os olhos.
– Eu sempre soube que você se vincularia a Heron, era apenas uma questão de tempo. Quanto a minha união com Wrath, a cerimônia é somente uma questão de formalidade que ele deseja cumprir.
– Você consegue ser mais desprendida do que eu quando se trata desse assunto. Eu quis toda a pompa e circunstância para este momento. – ela provou um pouco de seu chá – Meu anseio era que todos vissem o quanto Heron e eu nos amamos.
– Eu entendo isso, Is. Talvez se eu não tivesse recebido tanta atenção ultimamente, ansiasse por algo parecido, mas esse não é o caso. O que eu menos anseio é atenção desnecessária. Essa união já trará obstáculos por si só.
– A rainha ainda não aceitou o fato, não é?
– Ela aceitou no sentido de ser inevitável apenas, mas não concorda com o assunto e já deixou isso bem claro. Sem falar que as fêmeas da Corte parecem apoiá-la totalmente. – Aileen apoio sua xícara sobre a bandeja.
– Chega a ser curioso, afinal a maior parte delas foi criada pelos preceitos vampiros e conhecem a tradição de um macho se vincular a mais de uma fêmea. – Isnaria mordeu um de seus bombons – Mas, hipocrisia sempre foi algo latente entre a elite vampira, portanto não é uma grande novidade.
– Não vá por aí, por favor. A última coisa que precisamos é envenenar nosso momento juntas. – a Eleita respirou fundo – O que realmente importa, para mim, é que Heron e você estejam presentes durante a cerimônia. O resto será resolvido no momento certo.
– Sua fé no destino me surpreende a cada dia. – a fêmea sorriu.
– Minha vida mudou drasticamente graças a uma profecia, Is. Diante de algo tão extraordinário, só me resta acreditar que esse mesmo destino se encarregará do que ainda está reservado para mim. – ela pousou a mão sobre seu ventre ainda plano.
Isnaria apenas sorriu para a amiga, afinal não havia como refutar aquela declaração. Ela só esperava que o destino fosse generoso com Aileen, pois até o momento carregar a esperança da raça não lhe trouxera grandes benefícios.
– Finalmente Heron chegou. – Isnaria quebrou o silêncio ao ouvir um dos doggens receber seu hellren – Depois de tê-lo apenas para mim por um tempo, ainda não me acostumei a passar horas sem ele.
– Ah! O amor... Quem diria que tornaria a indiferente Isnaria em uma shellan carente. – Aileen caçoou da amiga.
Em resposta, a fêmea jogou uma almofada nela.
– Nada disso, mocinhas. Nada de lançar a mobília uma na outra. – Heron entrou na sala rindo e se aproximou de Aileen – Olá, thally. Como você está? – ele depositou um beijo suave na testa da amiga.
– Muito bem, trahyner. E quanto a você?
– Vivendo as maravilhas reservadas para os vinculados. – ele sorriu e se aproximou de sua shellan – Minha leelan. Não imagina o quanto senti sua falta hoje e a felicidade que tenho em vê-la em nosso lar. – ele beijou a fêmea com amor.
– Posso imaginar sim, nallum. Seus sentimentos são como os meus.
A Eleita sorriu, assistindo a interação dos amigos. Os dois sempre foram destinados um ao outro e era inspirador perceber que a felicidade finalmente chegara a eles.
– Então, o que minhas duas das minhas fêmeas preferidas estavam fazendo?
– Tomando chá e conversando. – Isnaria se aconchegou ao corpo do hellren no sofá – Aileen veio nos convidar para sua Cerimônia de Vinculação. O Rei Cego finalmente irá tomar uma atitude de macho digno.
– Isnaria... – o macho repreendeu com um sorriso.
A fêmea deu de ombros e continuou, como se não tivesse sido interrompida.
– A cerimônia será em Eagle Creek sob a lua cheia. Interessante, não concorda?
– Certamente. – Heron se serviu de um dos bombons – E, de alguma maneira, é exatamente o que eu esperaria para você, Aileen. Simples e de um modo que não possa sofrer interferências de ninguém, além da natureza.
[...]
Isnaria prendeu a ultima flor nos cachos de Aileen e admirou o resultado. Sua amiga usava um vestido leve e esvoaçante de um azul claro e pequenas flores repousavam em seus cabelos de modo aleatório. Por ser um casamento natural, decidiram que não haveria joias envolvidas.
– Então... – Aileen incentivou.
– Está perfeita. – Isnaria elogiou – Como uma ninfa das florestas.
– Você também está linda. – Isnaria também usava um vestido leve, mas em um tom rosado e um arranjo de flores complementava o coque elaborado que moldava seus cabelos.
Heron escolheu este momento para entrar no quarto e pareceu embasbacado com a aparência das duas.
– Vocês estão absurdamente lindas. – ele elogiou – Acho que não estou à altura de acompanha-las.
– Sempre estará à altura de me acompanhar, nallum. – Isnaria foi até seu hellren e beijou seus lábios brevemente – Apenas não posso dizer o mesmo de nossa querida Aileen, afinal ela está para se unir ao Rei Cego.
– Pois é. Sempre soubemos que ela estava destinada a grandes feitos. – Heron entrou na brincadeira e imitou Mansur.
– Vocês são dois bobos. – a fêmea riu com gosto.
– Bem. Agora que já consegui arrancar um sorriso dos lábios das duas fêmeas mais lindas do mundo, devemos ir para Eagle Creek antes que o rei mande a Irmandade buscá-la.
Ainda rindo o trio se materializou em meio à vegetação do Oregon.
A noite estava absurdamente linda; o céu limpo e estrelado e o aroma da vegetação fazendo com que o local exalasse uma aura de paz capaz de se infiltrar em todos. Era como se a natureza também estivesse empenhada em tornar aquela união em algo sublime e memorável.
A beira do lago, os Irmãos formavam um semicírculo em volta do rei e de Phury, que conduziria a cerimônia. Haviam se posicionado de maneira que ficassem em frente à queda d’água e a lua cheia refletida nas águas tornava todo o cenário algo mágico.
Aileen caminhou até o lado do Rei Cego; que havia dispensado a túnica e o cinto de joias e trajava apenas as calças de seda negras; ladeada por seus amigos e com o som da cachoeira e murmúrios melodiosos vindos de Zsadist embalando seus passos. Era melhor do que qualquer sonho que sua imaginação um dia criou.
Phury sorriu levemente para a fêmea antes de falar na Língua Antiga:
– Nesta noite, somos testemunhas da união deste macho e desta fêmea de acordo com os costumes de nossa raça, sob a benção da grandeza criada para nos abrigar e suprir. – o macho abriu os braços, indicando a natureza que os cercava, antes de voltar-se para a Eleita – Aileen, filha de Mansur, o rei da raça pede que o aceite como seu hellren. Aceitá-lo-á como seu, se for digno?
– Aceitarei. – Aileen não hesitou, enquanto fitava seu macho.
O Irmão voltou-se para o rei.
– Wrath, filho do Wrath e rei de toda raça vampira, está fêmea o respeitará. Dará prova de seu valor por ela?
– Eu o farei. – o Rei Cego falava de modo ainda mais firme e claro.
– Sacrificar-se-á por ela?
– Eu o farei.
– Defendê-la-á contra aqueles que pretendam lhe fazer mal?
– Eu o farei.
– Me dê sua mão, Aileen.
Seguindo o costume, ela o obedeceu mantendo sua palma voltada para cima.
– Meu senhor.
O macho também estendeu sua mão, alinhando a com a de sua fêmea.
Phury colocou sobre as mãos deles um cordão de três dobras e atou suas mãos.
– Uma Cerimônia de Segunda Vinculação dá origem a uma união semelhante a um cordão de três dobras. É preciso que todas as dobras estejam alinhadas para que exista o cordão e este não se quebra facilmente. – o Irmão olhou para o casal intensamente – Uma união de três dobras é algo que apenas um macho digno deve obter. Agora, meu senhor, deves provar seu valor a sua shellan.
Wrath selou seus lábios com os de Aileen, antes de se afastar e aguardar.
Os membros da Irmandade se aproximaram e deram inicio ao registro do nome nas costas do rei.
Aileen se esforçou para assistir a cada novo golpe que ele precisava suportar. Era muito mais impressionante assistir essa parte da cerimonia quando eram os corpulentos membros da Irmandade que desferiam os golpes.
Intimamente, deu graças por seu nome ser relativamente curto.
Lágrimas escorreram por seu rosto quando recebeu de seu companheiro o baú com as provas de sua devoção. Era o inicio de um novo desafio, uma nova fase.
Por um instante o luar pareceu brilhar ainda mais forte sobre as águas... Talvez fosse um sinal, ou apenas uma ilusão gerada pela emoção dos presentes.
Longe dali...
– Está feito. – Beth falou após um longo período em silêncio – Há esta hora, Wrath já tomou aquela fêmea como sua segunda companheira. Contra todas as expectativas, eu ainda tinha esperança de que ele não fosse adiante.
As fêmeas da Corte apenas a observaram sem saber o que dizer.
Logo após a Primeira Refeição, elas haviam se reunido a rainha para demonstrar seu apoio, apenas Cormia e Jane foram mantidas longe da Reunião. Porem, pouco se podia fazer diante de uma situação imutável.
– Não se desespere, Beth. – Marissa tentou acalmar a amiga – Você ainda tem prioridade e ela terá que respeitá-la.
– Disso não tenha duvidas, Marissa. A Eleita não perde por esperar. – a voz da rainha saiu dura – Ela que não tenha esperanças de uma união tranquila.
Em Eagle Creek...
Um a um, os convidados para testemunhar a união felicitaram o casal e se desmaterializaram, deixando a Eleita e o Rei Cego sozinhos.
Era certo que alguns dos Irmãos não haviam seguido para muito longe em razão da segurança do monarca, mas, de qualquer modo, concediam privacidade ao casal.
– Aconteceu como você sonhou, nalla? – Wrath questionou sua companheira, entrelaçando seus dedos.
– Foi melhor. – Aileen lhe sorriu – Diria que a natureza contribuiu para uma noite mais perfeita do que eu poderia imaginar. Foi algo mágico.
Satisfeito com todo o entusiasmo de sua shellan, o macho a beijou docemente.
– Venha nadar comigo. – sussurrou contra os lábios dela.
– Eu não trouxe roupa de banho. – confessou – Desculpe.
– Não se desculpe. – ele sorriu maldoso contra os lábios de sua companheira – O tipo de natação que estou pensando não envolve nenhuma roupa.
A fêmea corou no momento em que entendeu o que seu hellren queria dizer.
– Não tenha vergonha. Somos apenas nós dois aqui. Dispa-se para mim, nalla. – a voz dele foi quase um comando.
Aileen ainda se debatia internamente contra a ideia, mas havia algo instintivo que a impedia de negar um pedido de seu macho.
Sob o olhar atento dele, ela se despiu lentamente. Quando ele a encarava com tanta intensidade, era complicado recordar que ele não enxergava plenamente.
Wrath aguardou que ela estivesse completamente nua para se livrar de suas calças, a única peça de roupa que vestia. Segurou a mão de sua fêmea e a guiou para dentro do lago.
A água estava fria, mas nada que pudesse incomodar o casal e os planos do monarca iriam esquentá-los muito em breve.
Caminharam até bem perto da que d’água submersos até os ombros.
– Prometo que farei com que as coisas sejam melhores de agora em diante, nalla. – Wrath enlaçou a cintura dela com um braço, enquanto acariciava seus cabelos – De algum modo, faremos funcionar.
Aileen sorriu para seu hellren.
– Sei disso, Wrath. – selou seus lábios com os dele brevemente – Confio plenamente em você.
O macho beijou-a longamente, apreciando o prazer daquela bela noite de acertos e começos.
No dia seguinte as disputas recomeçariam, mas por hora esqueceria o mundo nos braços de sua segunda shellan.
[...] Trecho do livro Amante Consagrado [...]
O som de alguém entrando na mansão ecoou no corredor. Cormia deu um salto para trás afastando-se da estátua, tão rápido que tropeçou na base de sua túnica. Enquanto os passos pesados galgavam a escada e chegavam ao segundo andar, ela se escondeu no recuo de uma janela e olhou pelo canto.
O Irmão Zsadist apareceu no alto das escadas. Estava vestido para o combate, com adagas sobre seu peito e uma arma no quadril – e a julgar pela forma em que apertava a mandíbula parecia que ainda estava em meio de um combate.
Depois de que o macho desapareceu do campo de visão, ouviu que golpeava no que devia ser a porta do estúdio do Rei. Movendo-se silenciosamente, Cormia andou pelo corredor, e se deteve em uma esquina mais próxima ao lugar onde estava o Irmão.
Ouviu uma brusca ordem, e logo o som de uma porta se abriu e fechou. A voz do Rei ressoou atravessando a parede em que estava apoiada.
– Não está se divertindo esta noite, Z? Parece que você teve uma noite e tanto.
As palavras do Irmão Zsadist foram sombrias.
– Phury já voltou para casa?
– Esta noite? Não que eu saiba.
– Maldito bastardo. Ele disse que estava indo para casa.
– Seu gêmeo diz muitas coisas. Por que não me conta sobre o drama bombástico do momento?
Esmagando-se contra a parede, com a esperança de passar despercebida, rezou para que ninguém entrasse no corredor. O que o Primaz tinha feito?
– Eu o surpreendi transformando redutores em sushi.
O Rei amaldiçoou.
– Pensei que te havia dito que deixaria de fazê-lo.
– Ele disse.
Houve um grunhido, como se o Rei estivesse esfregando-os olhos e talvez as têmporas.
– Então o que exatamente você viu? – houve uma longa pausa. A voz do Rei tornou-se ainda mais grave. – Z, cara, me fale. Eu preciso saber com o que estou lidando para poder fazer alguma coisa com ele.
– Que seja. Encontrei-o com dois redutores. Tinha lhe desprendido a perna, e tinha uma marca de queimadura ao redor do pescoço como se tivesse sido estrangulado com uma corrente. Estava inclinado sobre o estômago de um assassino com a adaga na mão. Maldito seja... ele nem estava prestando atenção em volta. Não me viu até que falei. Poderia ter sido outro fodido redutor, e se o tivesse sido? Neste momento, estariam torturando-o ou estaria mais morto que os mortos.
– Que diabos vou fazer com ele?
A voz de Z assumiu um tom tenso.
– Não quero que ele seja expulso.
– Não é sua decisão. E não me olhe dessa forma... sigo sendo seu chefe, seu cabeça quente desgraçado. – produziu-se um silêncio – Merda, estou começando a pensar que seu gêmeo necessita ser mandado a um psicólogo. É um perigo para si mesmo e para outros. Disse-lhe algo?
– A polícia tinha acabado de chegar e...
– Nisto policiais envolvidos nisso também? Cristo...
–... então, eu não consegui falar nada.
As vozes soaram amortecidas até que o Irmão Zsadist disse um pouco mais alto:
– Você sabe o que isso faria com ele!? A Irmandade é sua vida.
– Foi você que chamou minha atenção para isso. Usa a cabeça. Uma semana fora de circulação e férias não vão ser suficiente para solucionar isto.
Houve outro silêncio.
– Olhe, devo ir ver como está Bella. Só te peço que fale com o Phury antes de acabar com sua vida. Te escutará. E lhe devolva isto.
Quando algo pesado golpeou no que devia ser a mesa, Cormia se mergulhou em um dos quartos de hóspedes. Um momento depois, ouviu os pesados passos do Irmão Zsadist dirigindo-se para o próprio quarto.
Um perigo para si mesmo e para outros.
Não podia imaginar o Primaz tratando brutalmente a seus inimigos ou ficando em perigo por ser descuidado. Mas, por que o Irmão Zsadist mentiria?
Ele não faria isso.
Repentinamente se sentiu exausta, sentou-se no canto da cama e olhou em volta lentamente. O quarto era decorado com o mesmo matiz lavanda que sua rosa favorita.
Que formosa cor, pensou, deixando seu corpo cair sobre o edredom.
Certamente formoso, embora não conseguiu apaziguar seus nervos agitados.
[...] Fim do trecho do livro [...]
Isnaria bufou, se jogando no sofá.
– Agora, Hala espera que convença Heron a voltar a trabalhar com seu pai. Ela me liga todos os dias para insistir nisso. Diz que esse capricho de Heron está dividindo a família.
– Imagino que sim, afinal Gael como um bom membro da glymera não gosta de perder o controle das coisas, principalmente da vida do único filho.
– Exatamente isso. – a fêmea concordou – Mas, ela pode ter certeza de que Heron não irá voltar atrás. Se libertar do julgo do pai era um de seus sonhos e ele apenas não tinha feito nada antes para não dificultar ainda mais a negociação de nossa união.
– Então, se prepare, esse assunto ainda irá render bastante. – Aileen sorriu – E como estão as coisas no escritório dele?
– Um pouco lentas ainda, mas eu tenho certeza de que logo ele se tornará um sucesso. Principalmente agora, que todos sabem que ele cuida das finanças da segunda shellan do Rei Cego. – Isnaria piscou para a amiga – Tudo o que é relacionado a você está em alta dentre os membros da glymera.
– Sei disso. Parece que acrescentamos mais um motivo para minha vida ser de interesse público.
– Pois é... Mas, isso não é importante, se você está feliz.
A Eleita acenou em concordância ainda sorrindo. Não havia como nem porquê refutar aquela afirmação.
– Agora, me diga, como o rei está se dividindo entre suas amadas shellans, já que elas não vivem na mesma casa e uma delas não está muito satisfeita com a existência da outra.
Aileen se endireitou no sofá.
– Você trata o assunto com toda essa leveza porque não é com você. Algumas vezes, me incomoda bastante o fato da rainha ser tão intransigente e não sei como irei aguentar esperar que ela compreenda nossos costumes.
– Irá aguentar porque ama o Rei Cego. – Isnaria sentenciou tranquilamente – E, por amá-lo, é capaz de amar e se importar com a rainha, porque ele a ama e ela também é parte dele. Simples assim.
Por um instante as amigas sorriram uma para a outra, compreendendo-se sem palavras.
Aquela era a essência do ensinamento sobre segundas shellans. A princípio, parecia algo complicado de se aceitar, mas no final se resumia a amor em uma de suas diversas formas.
– Agora, não mude de assunto e me diga como têm funcionado os encontros de vocês.
– A nova casa é plenamente segura, além de enorme, e isso ajuda. A propósito, você precisa ir até lá para conhecer. – a Eleita demandou – Por agora, Wrath fica comigo lá as segundas, quartas e sextas. E nós nos falamos pelo telefone todas as noites em que ele não está comigo.
Isnaria refletiu por algum tempo.
– Acredito que seja uma boa divisão, assim vocês não ficam separados por muito tempo, exceto pelos finais de semana.
– É o que se pode fazer no momento, Is.
– Pois é. Basta esperar o nascimento do bebê. Tenho certeza de que quando isso ocorrer, a rainha perderá essa preferência toda, os finais de semana serão seus e do bebê.
– Não seja assim, Isnaria. Eu anseio que a rainha e eu possamos nos acertar, não piorar o clima já muito tenso.
[...] Trecho do livro [...]
Não estava, e o Rei estava em seu escritório.
O olhar do Wrath se elevou da lupa que estava sujeitando sobre um documento. Inclusive através de seus óculos, era perfeitamente óbvio que estava irritado.
– Eu estava esperando você.
Na cabeça do Phury, o mago pegou com elegância sua túnica negra e se sentou em um sofá reclinável estofado em pele humana.
Meu reino por um saco de pipocas e balas. Isto vai ser espetacular.
Phury entrou no escritório, seus olhos mal registraram as paredes de um tom azul, os sofás de seda creme e a lareira de mármore. O persistente aroma de redutor no ar lhe disse que Zsadist acabava de estar ali.
– Suponho que Z já falou contigo — disse, porque não havia motivo para tentar esconder as coisas.
Wrath baixou a lupa e se recostou em sua cadeira atrás de seu escritório Luis XIV.
– Fecha a porta.
Phury se encerrou com ele.
– Quer que eu fale primeiro?
– Não, já falaste suficiente. — O Rei elevou seus enormes coturnos e os colocou na elegante escrivaninha. Aterrissaram como balas de canhão – Você realmente faz isso mais que suficiente.
Phury esperou que recitasse sua lista de fracassos por cortesia, não por curiosidade. Era bem consciente de sua posição: tentando fazer que lhe matassem no campo de batalha; assumindo o cargo do Primaz das Escolhidas, mas sem completar a cerimônia, envolvendo-se além do devido na vida de Z e Bella; não emprestando a suficiente atenção a Cormia; fumando todo o tempo...
Phury se concentrou firmemente em seu Rei e esperou a que uma voz que não fosse a do mago listar seus erros. Salvo que nada ocorreu. Wrath não disse absolutamente nada.
O qual parecia sugerir que os problemas eram tão grandes e óbvios que seria como assinalar a detonação de uma bomba e dizer: Nossa, isso foi realmente ruidoso, vai deixar uma cratera no chão, não vai?
– Pensando bem – disse Wrath – me diga que deveria fazer contigo. Me diga que diabos eu devo fazer?
Quando Phury não replicou, Wrath murmurou:
– Sem comentários? Quer dizer que tampouco tem nem ideia do que fazer?
– Acredito que ambos sabemos qual é a resposta a isso.
– Não estou tão seguro disso. O que você acha que tenho que fazer?
– Me tirar de circulação por um tempo.
– Ah.
Mais silêncio.
– Então é nesse ponto que estamos? — perguntou Phury.
Nossa, realmente necessitava de um cigarro.
Os coturnos se uniram no dedão.
– Não sei.
– Isso significa que quer que lute? — o qual seria um desenlace melhor do que se teria atrevido a esperar — Te dou minha palavra...
– Vá se danar. — Wrath ficou de pé com um rápido movimento e rodeou a mesa — Disse a seu gêmeo que retornaria aqui, mas aposto montes de dinheiro que foste ver o Rehvenge. Prometeu a Z que terminaria com a tortura de redutores e não o fez. Disse que seria o Primaz e não o é. Demônios, fica falando que vai a seu quarto dormir um pouco, mas todos sabemos o que faz ali. E esperas honestamente que aceite sua palavra em algo?
– Então me diga o que quer que faça.
Desde detrás de seus óculos de sol, os olhos pálidos e desfocados do Rei o esquadrinhavam.
– Não tenho certeza se um tempo fora e um monte de terapia vão ajudar, porque não acredito que vá frequentar as sessões.
Um temor frio se enroscou como um cão ferido e molhado nas vísceras do Phury.
– Você vai me expulsar?
Tinha ocorrido antes na história da Irmandade. Não com frequência. Mas tinha acontecido. Veio-lhe à mente Murhder... merda, sim, provavelmente tinha sido o último em ser expulso.
– Não é tão simples assim — disse Wrath — Se ficar fora, onde deixa isso às Escolhidas? O Primaz sempre foi um Irmão, e não só por causa da linhagem. Além disso, Z não tomaria bem, inclusive irritado como está agora contigo.
Genial. Suas redes de segurança consistiam no fato de salvar a seu gêmeo da loucura e ser o brinquedo sexual das Escolhidas.
O Rei foi até as janelas. Fora, as árvores em flor se balançavam ao vento.
– É isto o que acredito — Wrath levantou os óculos e esfregou os olhos como se tivesse uma dor de cabeça — Deveria...
– Eu sinto muito. — disse Phury, porque era tudo o que podia oferecer.
– E eu. — Wrath voltou a deixar os óculos em seu lugar e sacudiu a cabeça. Enquanto voltava para a mesa e se sentava, sua mandíbula se esticou junto com seus ombros. Abrindo uma gaveta, tirou uma adaga negra.
Pertencia a Phury. A que tinha deixado no beco. Z devia ter encontrado a maldita coisa e a tinha levado a casa.
O Rei girou a arma em sua mão e se esclareceu garganta.
– Me dê sua outra adaga. Está fora das rondas de forma permanente. O assunto de se for consultar ou não a um psicólogo e como vais dirigir as coisas com as Escolhidas não é da minha conta. E não tenho nenhum conselho para ti, porque o certo é que fará o que te dê a vontade. Nada do que eu te exija ou peça vai fazer diferença.
O coração do Phury parou por um momento. De todos os desenlaces que tinha previsto para esta confrontação, nunca tinha considerado a possibilidade de que Wrath se lavasse as mãos no assunto.
– Ainda sou um Irmão?
O Rei simplesmente ficou olhando fixamente a adaga, o que deu a Phury a resposta em três palavras: só de nome. Algumas coisas não precisam ser ditas, não é?
– Eu falarei com Z — murmurou o Rei — Diremos que tem uma permissão administrativa. Não mais trabalho de campo para ti, e já não assistirá às reuniões.
Phury sentiu um sobressalto, como se tivesse estado caindo de um edifício e acabasse de fazer contato visual com o pavimento que tinha seu nome escrito. Não havia mais redes. Não havia mais promessas para quebrar. Para o Rei, ele estava por conta própria.
Mil novecentos e trinta e dois, pensou. Tinha estado na Irmandade durante só setenta e seis anos.
Levando-a mão ao peito, pegou sua outra adaga, desembainhou a arma com um só puxão, e a colocou sobre a escrivaninha azul pálido. Fez uma reverência ante seu Rei e abandonou a habitação sem mais palavras.
Bravo, gritou o mago. Que pena que seus pais estejam já mortos, companheiro. Estariam tão orgulhosos neste soberbo momento... espera, vamos trazê-los de volta, quer?
Duas imagens rápidas lhe golpearam: Seu pai desacordado em uma habitação cheia de garrafas de cerveja vazia, sua mãe jazendo em uma cama com o rosto voltado para a parede.
Phury voltou para seu quarto, tirou seu estoque, enrolou um cigarro, e o acendeu. Com tudo o que tinha passado essa noite, e com o mago continuando seu sadismo psicológico, ou fumava ou gritava. Então ele fumou.
[...] Fim do trecho do livro [...]
Wrath fechou os livros nos quais estava trabalhando e se preparou para ir até a casa de Aileen. Certamente aquela fora uma longa noite e ele queria apenas dormir com sua shellan a seu lado.
Os sons característicos dos passos de Beth, o alertaram de sua aproximação antes mesmo que pudesse sentir seu perfume. Parte dele torcia para que eles não tivessem um novo embate, mas não era tolo ao ponto de se deixar enganar.
Ela o havia evitado por todo o final de semana, então era pouco provável que escolhesse esse momento para fazer as pazes.
– Não pode estar pretendendo ir até aquela fêmea. – a voz dela continha um tom mordaz.
– É exatamente o que farei em alguns instantes, Beth. – o monarca respondeu cansado.
– Não pode deixar a mansão com tudo o que está ocorrendo. Estamos em meio a uma crise, Wrath. Precisamos de você aqui. – a voz da fêmea se tornava cada vez mais alta — Será que a preciosa Eleita não pode compreender isso?
– Beth, por favor, não esta noite. A cada noite que vou para Aileen tem sido uma nova batalha. Sempre há algum motivo que você considera empecilho para que eu esteja com ela. – o macho passou a mão por seus cabelos, exasperado – A situação da Irmandade está estabilizada, estivemos trabalhando nisso nos últimos três dias, verificando as nuances. Fizemos o possível por Phury, mas agora depende dele. Posso evitar que ele coloque em perigo a si mesmo e aos outros saindo para lutar, mas não posso fazer com que o macho se ajude ou procure ajuda.
– De qualquer modo, precisa ficar aqui para demonstrar seu apoio a todos.
– Ninguém na mansão ignora minha posição diante do assunto, Beth. E todos conhecem meu compromisso com Aileen.
Beth se aproximou dele rapidamente.
– Ok. Talvez eu anseie por mais tempo com você. – a mudança de estratégia pegou o macho de surpresa, mas não foi o bastante para nublar seu julgamento – Fique comigo.
– Estive na mansão pelas ultimas noites, Beth, e nós estivemos juntos apenas na hora de dormir e de modo bastante platônico. Você se manteve o mais ocupada possível e desencorajou todas as vezes que tentei falar com você. – ele suspirou frustrado – Não consigo entendê-la.
– Quero estar com você agora, dormir em seus braços. Não pode arrumar tempo para mim? – a fêmea traçou os lábios do monarca com os dedos – Sei que também sente minha falta.
Wrath não gostou da impressão que teve, detestaria pensar que sua rainha esperasse manipulá-lo daquela forma. Segurou a mão dela e a afastou de seus lábios delicadamente.
– Irei até Aileen hoje e estarei com você amanhã.
– Se for até ela hoje, não irá me tocar de nenhuma forma quando retornar. – a voz de Beth saiu alta e em tom de aviso.
– Isso coloca a situação em perspectiva... – o monarca comentou mais para si mesmo e depois acrescentou – Me receber sempre será sua escolha, leelan. Nunca a forçarei a nada. E também não aceitarei que use nossos momentos como barganha.
– Não estou barganhando, Wrath. – a postura da fêmea se tornou defensiva – Apenas, diferente de você, estou lutando por nós, por nosso relacionamento. Seus momentos com a Eleita ameaçam isso.
– Minha união com Aileen não ameaça meu compromisso com você, Beth. Ela não quer e não pode nos separar, somente você é capaz de fazer isso. Não sei quantas vezes teremos que enfrentar essa mesma conversa.
– Até que você pare de vê-la. Apenas quando isso acontecer, terei certeza de que valoriza o que temos, que é leal a mim e a seus compromissos. – a rainha praticamente gritou.
– Não questione minha lealdade e minha honra, Beth. Nem mesmo você pode fazer isso. – a voz do macho saiu fria – Irei até Aileen neste momento, antes que um de nós diga algo do que possa se arrepender.
Antes que pudesse falar qualquer coisa, a fêmea o assistiu se desmaterializar.
...
Wrath não foi diretamente para a casa de Aileen, pois não queria que ela tivesse que lidar com seu temperamento alterado, quando nada tinha feito para que ficasse naquele estado. Ao invés disso, se dirigiu a uma área arborizada, próximo a casa de sua segunda shellan e ali permaneceu por um tempo incontável.
O amanhecer estava próximo quando entrou na casa de Aileen.
O olhar surpreso do doggens o fez saber que ela havia desistido de espera-lo.
Com isso em mente, seguiu para o quarto principal se preparando para uma nova briga, ciente de que qualquer fêmea teria razão em reclamar nesta situação.
O quarto estava mergulhado na penumbra, mas ele pode ver os olhos de sua fêmea acompanhando sua entrada.
– Você veio.
Wrath não soube identificar o que seu tom de voz sugeria, mas preferiu se adiantar.
– Aileen, sinto por ter chegado tão tarde.
– Não se preocupe. – ela sorriu para ele – Você parece sobrecarregado. Venha dormir um pouco. – a fêmea abriu os braços para ele.
Dizer que o macho não se surpreendeu com a atitude de Aileen seria mentira, mas ele não pestanejou e se rendeu a seus braços, recebendo com prazer o conforto e calor de seu corpo.
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