La Petite Douceur

1 Capítulo Único


E ele sorriu. Sorriu espontaneamente. De gargalhada.

Naquele instante eterno entre uma risada e outra pude ouvir a batida mais harmônica e serena do meu coração.

Sua presença era tão angelical e rica em alegria que quem estivesse a sua volta se enchia vigorosamente daquela mesma aura delicada.

A bola não parava no seu pé, sempre empolgado. Frenético! Casualmente, um clube de futebol diferente vestia nos dias da semana. As meias esticadas até a canela. Branca ou preta. Sem exceção. E a eterna chuteira rosa e azul. Metódico apenas nisso, é claro. Uma desorganização só! Quarto de menino. Um menino de gostos de jovenzinho de dez anos. Somente dez. Mas com tantos talentos dentro de si... Ele era um menino tão comum. Um menino como os outros. Mas mesmo assim ainda havia algo de especial dentro daquele corpo esguio.

Seus desenhos expressivos me faziam ficar por horas pensando no que se passava por aquela cabeça tão jovenzinha. Como tudo parecia saudável naquela idade. Aquelas bochechas rosadas no calor de um jogo de futebol. Franja e nuca impregnados de suor. Típico menino aventureiro daqueles que você vê em propagandas de sabonete antibacteriano. Depois de um dia corrido na escola, por vezes me senti na vontade de jogar suas camisas no cesto de lixo mesmo. Até parecia que o pequeno voltara da guerra vez ou outra. Entretanto, fui pega pelo sentimentalismo que uma simples camisa trouxera. Cada detalhe, cada valor, cada momento passado com determinada roupa. Era o meu filho ali.

Naquele verão tórrido sob um imenso sol alaranjado, ele nasceu meu garotinho. Era um sentimento de ternura que ia crescendo de dentro para fora, expandindo, expandindo e expandindo. Assim, meu garoto expandiu também. Ou melhor, ele esticou. Esticou em um momento que o Senhor do Tempo escondeu de mim. Ele o roubou e colocou em uma caixinha de forma que eu não pudesse ver. Pois, de certa forma, eu também estava em uma caixinha, porém era uma bem pequenininha e escura. Eu pensei que nunca iria sair mais de lá. Havia momentos que eu até conseguia alcançar a tampa da caixa e bisbilhotar o mundo afora. Mas então eu via o seu rosto. Eu via seu corpo. Você estava ali e aquilo parecia demais para o meu ser desrealizado. Então, eu voltava encolhida para o canto da caixa.

Depois de um tempo, eu percebi que eu não tive culpa daquilo ter acontecido. Nem o Senhor do Tempo levou a culpa. Estava tudo na minha cabeça que mais parecia um ninho gigante de mafagafos. Você estava ali, sim. Mas agora estava tudo bem. Eu era uma mãe e a mais feliz de todas, pois eu era a sua mãe.

E ele sorriu. Sorriu espontaneamente. De gargalhada. Naquele instante eterno entre uma risada e outra, eu pude ver intrinsicamente que a vida valia a pena ser vivida. E eu a viveria... docemente.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!