La Da Dee

1 Cada um se declara de um jeito né?


Notas iniciais
Uma One com o tema de um das minhas musicas favoritas https://youtu.be/V2JBOOfp-vc
Espero que gostem.

“There's no way to say this song's
About someone else
Everytime you're not in my arms
I start to lose myself
Someone please pass me my shades
Don't let them see me down
You have taken over my days
So tonight I'm going out”

Mais uma folha amassada e jogada contra a parede.

— Eu necessito de uma inspiração, alguma que não possua olhos azuis e já tenha até mesmo uma escova de dentes no meu banheiro. — digo arrancando meus óculos como se alguma ideia fosse surgir magicamente sem eles.

Sinto a frustração preencher todo meu corpo, desde a ponta de meus dedos até meu último neurônio e percebo o que Alvo já cansou de jogar na minha cara.

— Eu tô fodido. — assumo em voz alta.

Eu não posso lançar um álbum onde todas as músicas falam de uma pessoa específica, bem específica mesmo.

Não acredito que estou prestes a admitir que fiz meu primeiro e último (se Deus quiser) álbum de amor.

E tudo por culpa daquela benção que não consigo tirar da minha vida, acredito que estou intoxicado.

Finalmente minha atenção é desviada para o celular que vibrava sobre a mesa.

“Não esquece de me buscar, meu carro está com a Lily.”

— Alvo.

A festa, ainda preciso lidar com pessoas alteradas, música eletrônica que parece um zumbido e contato humano. Como se meu dia já não estivesse uma bosta.

Mas talvez fosse bom para esquece-la um pouco, preciso de novos ares.

Sua blusa velha do Aerosmith jogada sobre minha cômoda é a primeira coisa que noto ao entrar no quarto, seus óculos de descanso estão na minha mesinha de cabeceira e seu all star amarelo jogado no meio do quarto.

Não entendo como é possível ela deixar uma bagunça notável por onde passa, como se quisesse se fazer presente mesmo não estando, como se gostasse de saber que não sairia da minha cabeça mesmo comigo tentando.

Deixo tudo do jeito que está, sei que não irá demorar para ela estar de volta para me embebedar com mais uma dose de seu veneno, me fazendo cair de quatro por ela.

Bem que Alvo me avisou quando ela chegou à cidade, alguns meses atrás.

"— Ela é diferente, vai fazer suas pernas bambearem antes que você possa se apoiar em algo. — ele caiu na gargalhada ao notar meus olhos revirarem após sua fala. — Não diga que não avisei, é o charme do interior. "

“La da dee la la da doo
La da da me
La da da you
La da dee la la da doo
There's only me, there's only you”

— Ainda não entendi porque a Lily está com o seu carro. — digo enquanto Al não se decide qual música merece ser tocada agora.

— Também não entendi. — ele se decide por deixar na rádio se jogando contra o banco. — Ela está saindo com o Frank, mas simplesmente pegou o meu carro e foi para sei lá onde, depois disse que iria de lá para a festa do Zabine.

— Você saiu de casa, mas a Lily não saiu do seu carro. — seguro a risada diante de sua cara emburrada.

— Mudando de assunto. — ele se ajeita no banco para ficar de frente para mim. — Nick disse mais cedo que nossa doce Rose ficou sumida por uns quatro dias, você sabe onde ela poderia ter estado? — seu sorriso é sugestivo.

— Não faço ideia. — digo voltando a atenção para a entrada da boate que foi fechada para a comemoração.

— Algo me diz que ela esteve pelas redondezas do seu bairro. — ele diz tirando o cinto enquanto estaciono. — Quem sabe ela não deu uma passada por entre suas cobertas?

Assim ele simplesmente abre a porta e saí do carro me deixando paralisado para trás, que merda essa garota fez comigo?

Ao entrar me deparo com o que eu já esperava, jovens matando lentamente sua juventude, para onde olhasse se podia ver casais se agarrando pelos cantos e pessoas felizes com suas garrafas de bebida colorida.

Daria tudo para dar a meia volta e assistir a nova temporada de Greys em algum site pirata que provavelmente agregaria novos vírus para meu computador.

Antes que eu possa desviar de Alvo e partir em busca da liberdade, vejo um mar de cabelos ruivos, um pouco ofuscados pelas luzes e vindo em nossa direção

— Oi Scorpius. — percebo ser a pequena Lily quando vejo olhos castanhos no lugar dos azuis. — Oi Al, aqui está. — ela diz estendendo as chaves do carro no rosto do irmão.

— Não vai precisar mais? — ele pergunta em tom de sarcasmo apesar do som alto que toca em nossos ouvidos. — Tipo para sair sem rumo, sem nem me pedir?

— Menos irmãozinho, ele tá inteiro. — diz com pouco caso arrumando a calça de cintura alta. — Isso que importa.

— Família. — escutamos o grito no meio do grupo a nossa frente e Dominique aparece carregando Fred que bambeia para os lados apesar de a festa ter acabado de começar. — Adivinhem, Molly está se agarrando com o Lorcan lá em cima.

Apesar do tom alarmante, a compreensão desce sobre nossas cabeças e todos os olhares se viram para Fred, que apenas olha para os lados como se não estivesse no mesmo ambiente que nós.

— A cara. — Alvo passa o braço por seus ombros, como sempre ajudando os injustiçados. — Vamos pegar uma água para ajudar sua versão embriagada e arrumar algumas gatinhas para você. — e logo saem os dois abraçados pela multidão.

— Eu estou morrendo de dó, o que ela faz não é certo — Lily diz se escorando em mim e oferecendo sua bebida que logo aceito. — E cadê a Rosa? Ela não ia vir com você? — diz com seus olhos sobre Nick.

— Ela disse ter uma encomenda de última hora, na próxima ela vem. — diz dando os ombros.

“Yeah, I'm feeling like
There is no better place
Than right by your side
I had a little taste
And I'll only spoil the party anyway
Cause all the girls are looking fine
But you're the only one on my mind”

— Scorpius, não é por nada. — Lily diz se desencostando e olhando para mim. — Mas a Wood não desvia os olhos de você, acho melhor beber água para não desidratar.

Olho a minha volta e a vejo parada no bar, apoiada com o quadril no balcão e os olhos sem nem piscar, o vestido justo valorizava suas curvas e o cabelo solto lhe dava um charme, resumindo, ela estava linda.

— Porque não vai lá? — Nick pergunta com olhares maliciosos.

— Não posso. — digo automaticamente.

— Por causa da Rosie? — Lily pergunta sorrindo.

— Não, nós não temos nada. — respondo rapidamente, antes que imagens passeiem em minha cabeça.

— Então não tem nada a perder.

E a junção dessa última frase de Nick e a vontade de esquece-la, me faz seguir em direção ao bar em passos apressados e pedir duas doses de vodca antes que a adrenalina abandonasse me corpo.

A sinto se aproximar devagar, seu perfume me alcança e me repreendo ao compara-lo com o cheiro suave de Rosie. Logo a vejo se apoiar ao meu lado olhando para os vidros coloridos a nossa frente e desviar os olhos em minha direção.

— Já estava pensando que não daria atenção para essa mera mortal. — ela diz logo que o barmen me entrega as doses.

— Porque não daria? — pergunto antes de sentir a bebida descer rasgando por minha garganta.

— Você anda sumido. — ela se vira apoiando novamente o quadril no balcão. — Sei que não gosta de festas, mas Al sempre encontra um jeito de te arrastar para elas. — sinto suas mãos acariciarem minha jaqueta e me lembro dos dedos gelados de Rosie que me fazem arrepiar no sentido bom da palavra.

— Eu tinha desculpas boas para dar ao Alvo. — solto um riso ao perceber que essas desculpas encobriam as visitas da prima dele. — Mas elas acabaram e estou de volta.

— Bom saber. — vejo o sorriso travesso se abrir e a falta que senti das covinhas de Rosie me faz virar a segunda dose. — Vem.

Quando dou por mim, estou na pista de dança, ela começa a se mexer a minha frente e me sinto desconfortável.

Começo a olhar em volta e logo vejo Nick segurando Fred, que apenas observa em choque o show que Molly faz se esfregando contra Lorcan, esse que nem suspeita do fogo cruzado que se encontra.

Ao olhar para o mezanino, consigo encontrar Lily e Frank que não parecem em clima de festa, na verdade, estão debatendo sobre algo sério. Já Alvo provavelmente deve estar em algum canto dando um presente para o aniversariante, como se até a tia Gina não soubesse e esperasse pacientemente para ser apresentada para seu novo genro.

— Ei! — me assusto pelo tom autoritário e encontro com olhos raivosos. — Sua mente está onde?

— Me desculpe. — peço enquanto seguro sua cintura, sinto uma leve aflição pelos paetês espalhados pelo tecido e penso que minhas mãos acabaram se acostumando com pijamas de algodão. — Apenas estou preocupado com o Fred.

— Que tal. — seu olhar raivoso é substituído por um com mais malícia. — Começar a se preocupar comigo e com a possibilidade de acontecer algo entre a gente, num futuro bem próximo? Tipo em meia hora?

Seu nariz encosta no meu e sinto seus lábios, pensei ser minha salvação para parar com todo o sentimento implantado em mim.

Mas as comparações surgiram e para começar o gloss estava melando meu rosto inteiro, como se eu tivesse acabado de comer um frango frito.

O ritmo desesperado estava me deixando agoniado e em vez de criar um desejo para continuar, só me deu vontade de fugir e pedir para Rose me proteger daquele sentimento de estar fazendo algo errado.

Suas mãos me tocavam bruscamente e isso pode dar a impressão de frescura, mas eu só queria o beijo lento e as mãos delicadas de Rosie pelo meu corpo com a mesma atenção que ela passa o pincel em uma tela.

Quando o beijo terminou, eu não encontrei as familiares estrelas em seus olhos ao abrir os meus e isso foi o ápice, me afastei pedindo desculpas e segui porta afora vendo James chegar atrasado de relance.

“All this places is packed with people
But your face is all I see
And the music's way to loud
But your voice won't let me be
So many pretty girls around
They're just dressin' to impress
But the thought of you alone
Has got me spun
And I don't know what to say next”

— Merda, merda, merda. — digo batendo no volante no sinal vermelho. — O que deu errado? — me pergunto e a única coisa que passa pela minha cabeça é que Rosie está sozinha agora.

Acelero quando o sinal abre e aumento o som para espantar os pensamentos, mas todos os nossos momentos se passavam em minha cabeça. A gargalhada gostosa de dela e a mania de sorrir mordendo a língua, seus olhos grandes e atentos a tudo e a todos a sua volta, seu corpo se movendo no ritmo dos meus acordes me desconcentrando de propósito.

O jeito que ela dorme no meio do filme, aconchegada no meu peito com seus cachos espalhados por seu rosto, ou como acorda extremamente fofa com a cara amassada e tentando sintonizar onde está e o que aconteceu.

Sua voz melodiosa extrapola o som do rádio e me entorpece ao ponto em que simplesmente pego a primeira rotatória para sua casa, pois sei que não vou conseguir dormir sozinho hoje.

“There's only me, there's only you
La da dee la da da doo
La da da eu
La da da você
La da dee la da da doo”

Chego a casa azul com a cerca branca mais clichê que poderia ter, sigo pelo jardim que começou a ganhar mais atenção com a chegada da nova dona e toco a campainha.

Dentro de alguns minutos, escuto passos apressados descendo as escadas e a porta sendo escancarada.

— How you doin? — ela pergunta com aquele sorriso e as covinhas estourando em suas bochechas.

— Não me venha imitar o Joey a essa hora. — digo respirando fundo e encostando a cabeça no portal de entrada.

— Você está bem? — abro um dos olhos e vejo seu olhar de preocupação, um pouco mais calmo consigo analisa-la por completo.

Seus óculos de reserva sobre os olhos atentos, um risco de tinta amarela perto do nariz me mostra que a encomenda não foi uma desculpa e a blusa do acampamento meio sangue completa o visual.

— Não tem medo de atender a porta assim? — pergunto desviando do assunto e a vejo sorrir me dando passagem para entrar.

— Estava pintando no sótão, vi seu carro estacionando. — ela dá ombros ignorando. — Mas eu suponho que você tem um certo compromisso com meus primos, deveria estar aproveitando a festa e beijando algumas bocas.

— Eu adoraria estar aproveitando a festa, beijando algumas bocas e, na verdade, eu beijei a Wood. — digo e não vejo seu rosto mudar, permanecendo a feição debochada.

— É mesmo? — ela pergunta tranquilamente segurando a minha mão e me guiando escada acima.

— Sim. — digo em tom firme, apesar dos meus olhos não desviarem de seus quadris que se movimenta de um lado para o outro a cada degrau.

— E foi bom? — ela pergunta.

Percebo que está me levando para o sótão onde inúmeros quadros estão secando em cavaletes, o cheiro do piso de madeira inunda meu nariz e percebo que a única coisa que nos ilumina é a lua que atravessa as grandes janelas de vidro.

— Foi maravilhoso. — digo com a voz tremula. — Você não se importa? Não te incomoda eu ter gostado? — a vejo me soltar e caminhar até seu último quadro apenas para analisa-lo.

— Não me incomoda, não temos nada. — ela desvia os olhos em minha direção. — Mas fico preocupada com a sua saúde mental.

— Como? — pergunto me aproximando sem desviar dos seus olhos.

— É estranho. — ela diz e volta seus olhos para o quadro. — Se você gostou tanto do beijo, porque está terminando a noite no meu ateliê e não na cama dela? — nesse momento até meu ar escapou dos meus pulmões e uma chave girou no meu cérebro me deixando ainda mais confuso.

— Eu acredito que quero te deixar com ciúmes. — respondo.

— Porquê?

— Talvez eu esteja tentando provar que você sente algo por mim. — ela me olhava atentamente com toda a paciência. — Eu não consigo parar de pensar em tudo que passamos juntos nesses meses e eu não quero aceitar esse sentimento.

— Porque não quer aceitar? — ela pergunta se sentando no banquinho.

— Porque você não sente o mesmo, eu fiz um álbum e todas as músicas são sobre você. — passo a mão pelo meu rosto tentando me controlar. — Eu te vejo em todos os lugares, estou vivendo para fazer comparações entre você e outras garotas, eu não aguento mais.

— Ei. — ela tenta se aproximar, mas a interrompo com a minha conclusão.

— Mas você não sente o mesmo.

— Quem disse? — ela pergunta segurando o meu rosto. — Se quer saber algo é só me perguntar, eu não me importaria de responder.

Ela me puxa, me coloca de frente para seu último quadro

— Aqui está retratado a vista da janela do seu estúdio, onde fico sentada te vendo tocar. — ela aponta para o lado. — Essa é a praia onde foi o casamento da Vic. — ela me guia como em uma excursão pelas telas. — Foi onde nos conhecemos e essa é você tocando para mim na varanda.

— Você pintou os momentos que passamos juntos? — pergunto e a vejo sorrir.

— Você escreve e eu pinto, cada um se declara de um jeito né?

— Porquê não me disse? — pergunto rindo. — Eu poderia ter evitado um beijo essa noite.

— Você precisava entender o que estava sentindo. — logo sinto suas mãos tocando meus ombros, seus lábios lentamente tocando os meus e só aí percebo a saudade que senti. — Não pensei que chegaria a beijar outra.

— Me desculpe.

— Só te desculpo se puder te dar um spoiler. — ela sorri se afastando e me levando com ela pelas escadas.

— Ok, pode ser. — respondo sabendo que um spoiler era pouco para o que fiz.

— O Derek voltou. — ela solta de supetão e quase rolo as escadas no susto me segurando no corrimão.

— Ele tá morto. — eu afirmo mais para mim do que para ela.

— Bem, a Meredith o encontrou. — ela diz como se não fosse nada terminando de descer as escadas.

— Ela morreu também? — meus olhos arregalados a fazem gargalhar.

— Eu encontrei a nova temporada na internet, vou colocar para gente assistir.

“When you're gone I think of you”

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!