La Belle Anglaise
35 34. Ideais Em Conflito.
Em frente ao Canal Longwater, que ficava logo depois do "Jardim da Grande Fonte", o regente interino de Niedersieg e a marquesa viúva de Bristol discutiam em baixo tom. Qualquer um que olhasse para os dois iria pensar que estavam tendo uma conversa normal, mas bastava prestar mais atenção nas expressões deles e a verdade logo surgiria.
Elizabeth negou veemente a Wilhelm, ele havia acabado de sugerir que... não, não e não! Desviando o olhar do genro, a viúva encarou em silêncio o espelho d'água que o canal formava. Em tempos anteriores essa simples imagem, das árvores refletindo na água, a teria acalmado o suficiente para fazer um sorriso surgir, mas não agora, não no inverno.
— Você tem alguma ideia das possíveis consequências desse seu... ato, Wilhelm?— Ainda tentando manter-se contida, Elizabeth perguntou baixo.— Os problemas que isso trará para nós e o povo?
— Tenho total certeza que qualquer consequência ou oposição será facilmente vencida, principalmente quando o povo perceber como é benéfico.— A viúva negou, ele claramente não sabia o que estava fazendo, sobre quem eles estavam falando. Mas essa negação não passou despercebida pelo príncipe.— Então diga-me, quais poderiam ser essas "terríveis consequências"?
Ele estava desdenhando? A marquesa viúva encarou consternada o príncipe, que sorria cético... ele estava desdenhando! Katherine então não estava exagerando todas aquelas vezes que reclamou do marido, mas Elizabeth nunca acreditou plenamente.
— Eu tenho quase 50 anos, nasci, casei e fiquei viúva durante guerras, sou muito mais experiente que você, Wilhelm, e posso dizer, sem dúvida alguma, que a imprensa é a primeira a nos criticar em momentos de crise.— Porém, muito diferente da filha, a viúva não apelaria aos gritos e ordens, mas usaria a calma. O que não impediu o príncipe de negar irônico.— A imprensa não é imparcial, eles são guiados apenas pelo interesse e próprio benefício.
— Minha senhora parece uma absolutista tirânica falando dessa forma.— Tirânica!? Arregalando os olhos em choque, Elizabeth afastou-se para trás e negou. O arrependimento logo chegou em Wilhelm.— Oh, meu Deus, perdão pelas minhas expressões. Eu...
Sem ao menos sinalizar, Elizabeth deu as costas ao genro e voltou a alameda principal da Grande Fonte. O príncipe seguiu ela, esperando o melhor momento para tentar se desculpar. Mas, faltando metade do caminho para chegar na fonte, onde as damas da companhia da marquesa viúva esperavam, Elizabeth parou e respondeu séria:
— Nem sempre a liberdade é benéfica, Wilhelm, ela nem sempre edifica, mas sim destroe.
Se a imprensa tivesse muita liberdade, mas do que já tinha, o que seria deles?... o que seria dos segredos que eles escondiam? Nenhum segredo estava verdadeiramente escondido, de fato, mas Elizabeth não queria ficar na história como "a fornicadora", nem como a "falsa puritana"! Com a marquesa viúva parando, Wilhelm caminhou para a frente dela e, esquecendo o perdão de antes, colocou uma expressão muito decidida no rosto.
Foi o suficiente para fazer a viúva mudar de expressão, da preocupada aflição para a melancólica preocupação. Não havia muita dificuldade.
— Eu prometi que cuidaria de Niedersieg, que iria defendê-lo contra qualquer perigo que a revolução pode trazer, e assim farei.— Tomando as mesmas decisões que os revolucionários? Porém Wilhelm parecia muito certo do que falava.— Katherine me deu esse poder, ela gostando ou não do resultado. Eu tenho o seu apoio, minha senhora?
Ser uma princesa, participar da realeza, nem sempre significava fazer suas próprias vontades, mas sim, em grande parte dos momentos, fazer sacrifícios por um bem maior. Mesmo não desejando, a marquesa viúva estendeu sua mão a Wilhelm, que aceitou e beijou.
— Estou fazendo isso apenas para manter a ordem, não gosto nenhum pouco dessa história. Ehreschöne também não gostará, mesmo com algumas limitações e subordinação ao Staatsrat, o Grafschaftsrat age praticamente de forma independente a corte de Niedersieg.— Eram preocupações válidas, Elizabeth lembrava bem a dor de cabeça que a compra desse condado trouxe para Alfred, mas Wilhelm não parecia importar.— Caso uma revolta aconteça em Ehreschöne, Niedersieg não terá os meios para reprimi-lá, teremos que pedir uma intervenção imperial.
— Tenho total confiança na razoabilidade dos... ehreschöners, o imperador não receberá um pedido de socorro nosso.— Wilhelm dizia isso, mas nem mesmo lembrava a denominação de Ehreschöne. Elizabeth negou e voltou a andar para junto das damas.— Mesmo assim, obrigado pelo aviso.
Havia tanta certeza nas expressões do príncipe, ele estava totalmente certo de que seus atos não teriam consequências significativas, era um certeza que até beirava a arrogância. Porém as consequências não eram exatamente a preocupação de Elizabeth, mas sim quem levaria a culpa.
— Espero francamente que a minha filha não seja culpada pelos seus atos.— Finalmente chegando a fonte, a viúva comentou séria.
— Eu nunca culparia ela por um erro meu, para falar a verdade, Katherine é culpada apenas em ser lenta ao fazer mudanças.— Sorrindo largamente, o príncipe respondeu. Ele estava sendo injusto, nem todos fizeram mudanças.— Agora, se me der licença, irei a Sala Dourada.
E o príncipe ultrapassou a marquesa viúva, que estava junto da Grande Fonte com as damas restantes. Essas últimas palavras, a lentidão... atingiram Elizabeth, parecia até mesmo um desafio e crítica, não apenas a Katherine, mas também... um desafio a Alfred, ao legado dele. Lágrimas encheram os olhos da marquesa viúva, aqueles 20 anos lutando por um legado não seriam jogados foram, ela não permitiria!
— Não é uma questão de lentidão, Wilhelm, e nem falta de vontade, mas as pessoas simplesmente ainda não estão preparadas para certas coisas.— O príncipe parou de andar ao ouvir a marquesa e ficou um momento parado, mas, não respondendo ou olhando para trás, ele continuou andando. Elizabeth suspirou, Wilhelm havia sido avisado.— Vamos ver Katherine, mas não contem nada do que aconteceu para ela.
Uma intriga, principalmente agora, não era bem-vinda. As damas assentiram em concordância e logo elas foram aos aposentos da marquesa.
*****
Os erros do passado não seriam repetidos, Wilhelm não permitiria ser novamente enganado pelos que diziam-se "mais experientes". 1782 foi um erro, um que dificilmente seria repetido, Wilhelm faria certo dessa vez, ele tomaria a melhor decisão, sem dar importância alguma a oposição dos falsos liberais.
A marquesa viúva, praticamente todos os Tudor-Habsburg na verdade, estava muito receosa, e Katherine mesma iria ficar terrivelmente furiosa quando descobrisse, mas isso não dava medo algum ao príncipe. Foram dados poderes para Wilhelm, influência o suficiente para ele criar atos e ninguém se opor. Parecia um discurso absolutista, mas os resultados seriam perfeitos, isso que importava.
— Que inverno mais fresco esse, parece até primavera.— Assim que entrou na sala dourada, Wilhelm foi recebido com esse sarcástico comentário do conde de Kent.— Acho que logo iremos escutar o som das trombetas celestiais e dos pássaros.
Seria algum tipo de provocação? Apenas colocando um grande sorriso no rosto, o príncipe fitou Lord Kent e deu os ombros.
— A temperatura está normal, Kent. Veja bem isso, ou você ficará doente, igual a York.— O olhar arrogante do conde permaneceu imperturbável. Não persistindo nessa disputa, Wilhelm voltou-se aos outros dez, que tentaram uma mesura.— Não vamos perder nosso tempo com formalidades, milordes, afinal, temos assuntos importantes para tratar.
— O primeiro sinal da importância de algo é a urgência que uma pessoa dá para isso.— Fingindo estar distraídos com uma pena, o barão Hartford comentou altamente, referindo-se a demora do príncipe.— Cambridge, quando estiver pronto, você pode começar...
— Também não iremos perder nosso tempo com leituras, milordes.— Apenas isso bastou para Wilhelm ganhar alguma atenção, principalmente de Hartford, que não gostou nada dessa interrupção.— Vamos logo ao pronto principal dessa reunião: Niedersieg.
Num profundo silêncio, os onze cavalheiros presentes trocaram olhares confusos e alarmados, principalmente Kent e Hartford. Satisfeito com essa reação, Wilhelm sorriu e juntou as mãos na mesa, a confusão sempre era uma boa arma.
— Mas, Sua Alteza, não está acontecendo nada de importante lá.— Lord Laytmer, um dos poucos que não causava problemas, comentou confuso.— Sobre o que então iríamos discutir?
— Você está errado, Laytmer, ainda não está acontecendo nada de importante em Niedersieg, mas eu logo farei acontecer.— Parando um momento, ele fitou todos os lords. Wilhelm não sabia qual seria a reação deles... mas que importância isso tinha?.— Em outubro, frente aos acontecimentos em Paris e Versailles, a marquesa ordenou mudanças em Niedersieg, mas eu achei pouco...
— Pois eu já penso o contrário.— Novamente Hartford... evitando fechar os olhos em irritação, Wilhelm dirigiu ao barão um olhar desdenhoso.
— A opinião do milorde é irrelevante. Saibam que são necessárias mais mudanças, então eu as farei.— Ainda não houve nenhuma interrupção, mesmo que eles tenham ficado levemente inquietos.— Como não quero criar rodeios, irei logo ao ponto: sem censura, sem tortura, sem isenção de impostos a aristocracia e nobreza, sem milícias e...
— Sua Alteza, o senhor irá apenas tirar?— O barão Barnander interrompeu assustado.
— Muito bem pontuado, Barnander, e ainda pergunto mais: sem as milícias, quem protegerá o principado!?— Wilhelm quase ficou surpreso com essa furiosa pergunta, mas não o suficiente. Era Lord Kent, nunca com autocontrole.— Talvez meu príncipe não saiba, mas elas são a principal proteção de Niedersieg.
Após a fala de Kent, os outros também começaram a acrescentar suas opiniões, a favor ou contra, embora alguns estivessem neutros. Wilhelm escutou tudo, mas não dando atenção alguma, porque ele simplesmente não precisava.
— As milícias podem representar a maior proteção de Niedersieg, mas não são leais ao príncipe, então serão descartadas!— Elevando a voz, o príncipe fez-se ser ouvido pelos lords.— E quanto a sua pergunta, Barnander, daremos sim algo aos niedersiegers: igualdade e liberdade.
Não foi o suficiente para calá-los, logo os comentários voltaram às maiores alturas. Alguns perguntaram o que seria feito caso o principado fosse invadido em alguma possível guerra, outros perguntaram que: se não existia verdadeira igualdade nem na Grã-Bretanha, por que haveria em Niedersieg? E...
— Está querendo fazer uma revolução, Kendal?— Lord Kent fez as perguntas e comentários cessarem, com esse... foi um desafio.— A marquesa não apoiaria.
Eram tantos desafios e oposição, mas Wilhelm simplesmente direcionou ao conde um olhar irônico e riu com desdém. Que Kent ficasse com seus desafios.
— Minha decisão já foi tomada, milordes, a marquesa um dia agradecerá.— Ou talvez não... Wilhelm dispersou esses pensamentos e voltou a encarar todos.— Sem censura no teatro, na ópera, na imprensa e nos livros.
— A própria Igreja Católica proíbe certos livros, meu príncipe.— O visconde Richmond, quase entediado, destacou.
— Bem lembrado, Richmond!— Quase gritando, o visconde Gray então fitou o príncipe.— São os católicos que governam Niedersieg.
— Eu não diria que católicos governam Niedersieg, mas sim aristocratas, nobres e ricos donos de terras, latifundiários.— Exatamente... como os lords na frente dele. Ainda não houve interrupção, embora tenham ficado ofendidos.— O que me lembra das outras mudanças. O Grafschaftsrat de Ehreschöne será reduzido a posição de Stadtrat, como os da Capital, Smaragdberg e Königsstadt. E ainda falando desses conselhos, dos doze membros, quatro devem ser representantes da burguesia.
Na maioria das vezes os conselhos eram formados apenas por nobres, aristocratas e cavaleiros, embora geralmente também houvesse, no mínimo, dois bispos ou sacerdotes católicos. Poucos eram os banqueiros, comerciantes, advogados, fazendeiros e médicos membros dos conselhos, mas Wilhelm mudaria isso.
— Meu príncipe, o Staatsrat já tem um médico, um banqueiro e um fazendeiro como membros, isso não basta?— Dificilmente, Wilhelm negou ao visconde Gray, que não ficou satisfeito com essa resposta:— Não seria melhor...
— Minha decisão foi tomada, milordes. Acontecerá então como eu quero, para a proteção de Niedersieg.— Os lords ainda pareciam céticos, principalmente Kent e Hartford, mas que importância havia neles?— A marquesa viúva está sabendo e apoia minha decisão. Com isso os cavalheiros estão dispensados, menos você, Cambridge.
Por um momento, um quase verdadeiro, Wilhelm pensou que os lords do Conselho de Bristol ainda iriam protestar, mas eles não fizeram isso, muito pelo contrário, em silêncio cada um saiu da sala. Já era de esperar que houvesse oposição, mas não desse jeito, embora estivessem sendo até que brandos, eles haviam sido muito mais brandos em outubro do ano passado.
Em pouco tempo uma carta foi escrita ao barão von Frieden pelo príncipe, logo depois foi selada com o selo oficial de Katherine e enviada a Niedersieg. Estava feito, e não havia mais volta... ou melhor, Wilhelm esperava que não. Agora a única preocupação dele era Katherine... que definitivamente não estava melhorando.
*****
Início de fevereiro|1790 Palácio de Hampton Court, Londres
Houve um momento, um nada curto e insignificante, que toda a Londres teve o mesmo pensamento comum de que a marquesa de Bristol estava morrendo. Apesar de terem origens questionáveis e desconhecidas, todos os dias chegavam aos jornais notícias sobre a saúde de Katherine, e nunca eram boas, falando que era como se... ela tivesse perdido a vontade de viver.
Os últimos dias de janeiro talvez tenham sido os piores da vida de Katherine, nunca a morte esteve tão perto. Porém, surpreendendo até mesmo o Dr. FitzGerald, ela não morreu, mas simplesmente acordou sem febre alguma em certa manhã. Foi um alívio, assim como a subsequente melhora dela. Se o final de janeiro parecia o fim da linha, o início de fevereiro foi o renascimento, onde a marquesa voltou até a escrever suas cartas ao grão-duque da Toscana, o irmão mais novo do santo imperador, e discutir os efeitos da revolução.
As reuniões com o Conselho de Bristol demoraram mais para voltarem, mas Katherine logo ficou boa o suficiente para novamente estar presente. Muito na verdade, ela estava preparando-se para sua primeira reunião depois da doença, e por isso mesmo mandou Lady Cottington chamar Wilhelm e a marquesa viúva... que estavam demorando muito para chegar.
— O príncipe disse que logo viria, minha marquesa, não fique preocupada.— Percebendo a impaciência da marquesa, Lady Cottington tentou acalmá-la.
— Mas eu chamei o príncipe e a marquesa viúva.— Ambos deveriam atualizar Katherine sobre os últimos acontecimentos.— O que mamãe disse, milady?
Estando de costas para suas damas, lendo alguns relatórios sobre as propriedades, Katherine não conseguiu analisar a reação de Lady Cottington, mas a baronesa ficou em silêncio, um estranho silêncio... como se estivesse receosa.
— A marquesa viúva apenas olhou para o príncipe e balançou a cabeça.— Isso era no mínimo estranho. Deixando os relatórios de lado, Katherine fitou a baronesa.— Ela não disse que viria, mas também nunca disse que não viria.
— Com certeza ambos logo irão chegar, Katherine. Não deixe essa ansiedade fazer você pensar tolices.— Antes que a marquesa pudesse perguntar mais, Lady Courteney tomou a palavra.— Será que Bess está conseguindo segurar o conselho? As vezes eles são tão... nem sei dizer.
Homens ricos, agora em sua maioria jovens, que eram arrogantes e orgulhosos como... como qualquer homem rico com um título de nobreza. Katherine duvidava muito que Bess estivesse conseguindo segurá-los plenamente, nem mesmo ela conseguia. Lady Baster, porém, mantendo eles na sala dourada já bastava.
O assunto desse controle, porém, não alargou-se. Wilhelm entrou no quarto da marquesa, obrigando imediatamente todas as damas a fazerem uma longa mesura, mas o príncipe não deu importância e simplesmente foi para a frente da esposa.
— Você está atrasado, Wilhelm, sabe o que isso significa?
— Que sua tortura com os "bons lords" terá que esperar.— Já tinha começado... Evitando revirar os olhos, a princesa assentiu. Wilhelm sorriu satisfeito.— Mas temos assuntos a tratar, não? Estão dispensadas, miladys.
O que era de tão importante assim para as damas de companhia não escutarem? Parecia até que algo estava sendo escondido. Ainda assim, Katherine sinalizou para elas saírem do quarto e, quando estavam sozinhos, Wilhelm sentou a frente dela.
— Onde está mamãe? Pensei ter deixado bem claro que ela deveria estar presente.— Impassível em sentimentos, o príncipe assentiu. O que exatamente significava isso?— Assim como disse que ela teria voz nos assuntos de Ehreschöne.
— Sua mãe mandou avisar que não havia mais necessidade alguma dela estar aqui. Ehreschöne não é mais um assunto à parte, mas sim de Niedersieg.— Para ela esse sempre foi um assunto de Niedersieg, mas por que disso apenas agora?— Eu não quero lhe enganar, Katherine, então vou falar a vocês antes de todos os outros.
O modo como Wilhelm falava estava assustando Katherine. Ela deveria se arrepender de ter dado poderes a ele?... ou seria a revolução? Não, isso parecia ir muito além... O casal ficou em silêncio, um completamente desconfortável.
— Então fale, Wilhelm. Espero que não seja algo ruim.— Ele permaneceu calado... com receio? Katherine franziu levemente o cenho e repetiu:— Diga.
— Garanto a você, com toda a confiança, que não é nada de ruim, pelo menos não para o povo, o mesmo não posso afirmar de você, claro.— Ele falava de?... Katherine arregalou os olhos ao perceber.— Suas mudanças em outubro foram um ótimo início, mas não o suficiente. Eu as achei incompletas.
— Incompletas? Wilhelm... não me diga que você...— Apertando as mãos com força, a marquesa fechou os olhos e tentou manter-se calma.— O que você fez?
— Completei as suas mudanças, dei ao povo as "coisas elementares".— E o que seriam essas "coisas"? Wilhelm suspirou e falou logo:— Em resumo, eu acabei com as milícias, a tortura e a...
— A tortura e a censura... mas é claro, muito claro, como a luz da manhã!— Elevando gradativamente sua voz, ela cortou o príncipe.
Não aguentando mais olhar para Wilhelm, Katherine levantou e deu as costas para ele. A raiva e desgosto que a marquesa sentia nesse momento eram impossíveis de descrever, mas ela não iria gritar ou falar alto, definitivamente não iria!
— Katherine, eu...
— Quem você pensa que é para fazer uma coisa dessas, Wilhelm?— Cortando novamente ele, a princesa perguntou contida, mas muito dura. O príncipe franziu o cenho.— Você deveria proteger o povo, não fazer o que bem achasse melhor.
— O que eu "bem achasse melhor"? Eu salvei o seu povo, Katherine! Ou você acha que suas "mudanças" iriam impedir alguma revolta, pior ainda, uma revolução!?— Ele estava ofendido!? Katherine voltou-se ao marido horrorizada. Ela que deveria estar ofendida!— Aquelas pessoas merecem coisa melhor! Merecem a simples liberdade! Ler o que desejarem, ver o que quiserem, não ter medo de confessar um crime por causa da tortura!
E quando essas leituras estivessem mandando o povo se revoltar contra a coroa? E quanto aos traidores, o que fazer com eles? Enviá-los ao exílio em alguma ilha? Niedersieg era rodeado por alpes! Katherine negou para Wilhelm, essas... isso era terrível! Wilhelm tirou da nobreza o poder de juntar milícias, agora quem iria proteger Niedersieg? O principado não tinha exército, não tinha armas, nem mesmo a Guarda do Príncipe era grande o suficiente para proteger 21. 500 pessoas.
— Eu vou ficar calada frente a suas... violações.— Até aquele momento, Wilhelm estava sentado, mas ele levantou e foi atrás dela.
— Pois eu não, irei falar tudo que tenho a dizer.— E ainda havia mais? Balançando a cabeça, Katherine riu com ironia.— Aconselho você a não rir. O Grafschaftsrat de Ehreschöne tornou-se um conselho comum. Também declarei que todos os quatro conselhos devem ter, pelo menos, quatro membros que pertençam a burguesia.
Essa foi a gota d'água. Tirar definitivamente o poder de um condado insignificante poderia não ser ruim, mas haveriam consequências, porém, o pior mesmo era Wilhelm permitir que a burguesia tomasse parte nas questões políticas das cidades! Ele havia dito que iria dar "liberdades elementares", mas isso dificilmente era simples! Voltando-se ao marido, Katherine apenas negou com decepção.
— Não consigo acreditar que você fez uma coisa dessas, Wilhelm. Tocar nos pilares que sustentam o poder é proibido, você não tem medo e arrependimento!?— Muito certamente não, a julgar pelas expressões dele.
— Eu deveria ter arrependimento por fazer o certo?— Isso era algum tipo de ofensa!? Aproximou-se do marido, Katherine levantou a mão, ameaçando dar um tapa nele. Wilhelm, porém, levantou orgulhosamente a cabeça.— Agora é você, Katherine. Diga-me o que fará?
Ele já não estava vendo? Negando com ironia, a marquesa negou a abaixou a mão. Eles não eram mais os dois jovens emocionados de anos atrás, embora não tenham mudado muito.
— O que está feito, está feito. Para não deixar meu povo confuso, irei fechar os olhos frente as suas violações, mas esteja avisado de algo:— Os dois estavam se encarando, como dois inimigos em uma guerra... dois pensamentos em eterno conflito.— Se isso tudo der errado, você irá assumir inteiramente a culpa, mas se der certo... não acontecerá nada, você apenas ficará, em particular, feliz.
— Posso viver com essa perspectiva.— Com todo o orgulho que possuía, Wilhelm afirmou. Que assim fosse então.
Katherine e Wilhelm permaneceram calados por um momento, até que a reunião com o conselho foi lembrada e ambos desceram de braços dados até a sala dourada, como se nenhuma discussão tivesse acontecido, ou melhor, houve sim uma sinal. Quando a reunião estava prestes a começar, a marquesa pediu a atenção de todos e simplesmente disse:
— Milordes, eu gostaria de lembrá-los que sua obrigação é servir a mim e a minha vontade, peço então que nunca mais voltem a concordar com o príncipe. Caso o contrário... todos serão dispensados de suas posições.
Nenhum deles tentou falar alguma coisa, ou se justificar, apenas Lord Cambridge iniciou a reunião como de costume.
Nas semanas seguintes chegaram de Niedersieg notícias de como as primeiras leis de Katherine foram recebidas. Naturalmente houve alguma oposição, principalmente em relação às leis sobre a educação e os estrangeiros, mas ameaças de prisões foram o suficiente para suprimir qualquer oposição ou revolta significativa. Surpreendentemente a alta sociedade não reclamou muito, mas eles sabiam que a baixa e médio burguesia nunca estaria no mesmo lugar que eles.
As reformas de Wilhelm, que também fariam parte das Katharinengesetze, porém, ainda eram uma incógnita. Os líderes do governo reclamaram, claro, mas isso era esperado, enquanto o povo e a sociedade... isso ninguém sabia.
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