La Belle Anglaise

32 31. Revolta? Não, Revolução!


Notas iniciais
* Iniciando novamente, mas dessa vez não é com um aviso de gatilho. Quero avisar que em todas as minhas obras eu tento fazer meus personagens terem quase os mesmos pensamentos da época que eles viveram. Caso eles agissem e pensassem como pessoas atuais, qual seria a graça de ler um romance de época? Seria mais fácil ler qualquer livro contemporâneo. * De qualquer forma, uma boa leitura a todos.

14 de julho de 1789, Paris

Paris era uma cidade condenada pelo pânico. Desde o início de julho, ou talvez desde a convocação dos Estados Gerais em maio, a cidade vivia um grande caos, principalmente com a criação da liberal Assembleia Nacional Constituinte em Versailles e a demissão de Necker, o ministro das finanças apoiador da burguesia.

O Terceiro Estado, a burguesia, havia se revoltado em Paris, o povo estava cansado da tirania que os governava e por isso pegaram as armas, literalmente eles pegaram as armas. O exército bem poderia tomar alguma ação, mas os principais guardas do rei estavam estacionados no Champ de Mars, afim de evitar um motim ainda maior, enquanto isso a cidade caia na desordem. Não havia em Paris armazém com comida, suprimentos e armas que já não tivesse sido saqueado, ou melhor, ainda restavam dois...

... Na Bastille, uma grande fortaleza medieval no centro de Paris, a guarnição que cuidava da proteção do lugar estava quase em pânico, a toda momento chegavam mais notícias dos distúrbios na cidade, o medo de uma possível invasão apenas crescia.

Nous devons nous rappeler que nous sommes la dernière barrière entre le chaos généralisé et cette "milice", nous devons donc être prêts à tout!— O marquês de Launay, o governador da Bastille, gritou para os poucos guardas que protegiam a fortaleza, a grande maioria invalides.— Sombreuil a envoyé des nouvelles des Invalides? Les Parisiens sont toujours...

Monseigneur! Monseigneur Launay!— Gritando assustado, um dos veteranos invalides veio correndo até o marquês, alarmando todos no local.— Les Invalides!... Les Invalides!... La Milice Bourgeoise a pris d'assaut l'Hôtel des Invalides!

Les Invalides!? Et les armes!?— Um dos guardas invalides gritou assutado. Enquanto todos os olhos de pânicos se voltavam ao governador.— Oh, mon Dieu! Les Parisiens ont pris les armes!

De l'ordre! Je demande de l'ordre! La poudre des Invalides est là!— O falatório dos guardas apenas aumentava, e nem mesmo Launay conseguiu parar.— Sombreuil ne céderait jamais...!

O falatório apenas aumentava, incitando ainda mais a raiva do governador. Até mesmo os invalides estavam saindo do comando dele, mas foram as últimas palavras do primeiro guarda que mostrou o que realmente estava acontecendo:

Les rebelles ont pris les mousquets des Invalides et s'approchent de la Bastille!— Foi o suficiente, a ameaça era real e não um simples medo.

O Hôtel des Invalides, um dos dois últimos armazéns, tinha caído nas mãos dos rebeldes, agora havia sobrado apenas a Bastille como o último bastião do absolutista poder da monarquia em Paris. Se a Bastille caísse, todo o sistema cairia junto...

... Antes mesmo que desse meio-dia, a Bastille era uma prisão sitiada, os parisienses haviam cercado o lugar e exigiam que os guardas se rendessem, os canhões parassem de apontar para as multidões e a ponte fosse levantada. Naturalmente o marquês de Launay recusou os pedidos dos rebeldes e enviou seus representantes para discutir com os líderes de Paris os termos de uma possível rendição da Bastille, mas tudo foi em vão.

O Terceiro Estado tinha sede de justiça e liberdade, e nessa sede eles acabaram tentando invadir o local, os guardas fizeram seu melhor para impedir e ordenaram que o povo saísse, mas o barulho impediu qualquer entendimento... no meio de todo esse caos, um tiroteio nasceu espontaneamente entre as duas forças, iniciando assim uma carnificina.

Tal tiroteio continuou até às 17 horas, onde parou e o marquês de Launay escreveu uma carta oferecendo uma rendição, mas com um porém:

Soit ma garde laisse la Bastille indemne, soit toute la forteresse, et le quartier avec elle, s'enflammeront lorsque j'allumerai la poudre.

Foi uma ameaça séria, Launay estava pronto para explodir todo o lugar caso sua única condição não fosse atendida, mas isso nunca aconteceu. A condição do governo foi recusada, mas ainda assim ele aceitou uma capitulação e os portões da Bastille foram abertos, deixando assim a multidão entrar... Em poucas horas a Bastille foi tomada!... Talvez ninguém imaginasse, mas essa única ação mudou, ou destruiu, a vida de milhões de pessoas...

Les Parisiens ont pris la Bastille, monseigneur.— Logo cedo no dia seguinte, em Versailles, o duque La Rochefoucauld notificou a Louis XVI e Marie Antoinette o que havia acontecido em Paris. A rainha ficou sem palavras e o rei encarou atônito o duque.— Ils l'ont détruite et ont tué ses principaux représentants dans la ville.

Levaram anos para os parisienses construírem a fortaleza da Bastille, mas em praticamente uma noite eles destruíram o lugar. O rei a rainha de França se entreolharam por um momento, compartilhando as dúvidas que tinham.

S'agit-il d'une révolte?— Quase confuso, o rei perguntou a La Rochefoucauld, que negou sério.

Non, sire, ce n'est pas une révolte...

Ouvindo as palavras do duque, Louis e Marie Antoinette encararam um ao outro, ambos com os olhos arregalados de pavor.

*****

16|07|1789 Castelo de Windsor, Windsor

Na sala de música no Castelo de Windsor, o rei estava sentado ao piano forte, tocando, enquanto a rainha Charlotte cantava ao lado dele. A música sozinha já era triste o suficiente, mas os últimos acontecimentos na Inglaterra deixavam ainda mais triste.

No final do ano passado o rei teve um surto de loucura, foi algo tão terrível que ele nem mesmo conseguiu abrir o parlamento, o resultado foi então uma crise sem precedentes na história inglesa. O rei estava louco, mas então como o parlamento poderia aprovar uma lei de regência? Sem a aprovação do soberano isso era ilegal! Todavia não foi apenas o governo que entrou em crise, mas também a própria família real. Enquanto a rainha desejava simplesmente a recuperação do rei e não admitia deixá-lo, o príncipe de Gales preferia uma regência. Ambos acusaram um ao outro de buscar o poder para si.

A lei da regência acabou sendo aprovada pela Câmara dos Comuns, mesmo que ilegalmente, mas antes que ela pudesse passar pelos lords, o rei se recuperou e tudo voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido, a rainha e o príncipe de Gales estavam intrigados, mas não era a primeira vez que isso acontecia.

O rei não estava mais louco, mas isso não significava que a rainha estava mais calmo, muito pelo contrário...

— A voz de Charlotte é linda, até mesmo com Mozart ela já cantou, mas está tão triste agora.— Escondendo o rosto com o leque, a marquesa viúva comentou baixo. Os Bristol estavam na primeira fila, bem a frente dos monarcas e ao lado das três princesas mais velhas.— Para falar a verdade, Charlotte está sempre triste, deprimida, preocupada e mal-humorada.

— E como não estaria depois do que aconteceu? Foi um desastre terrível!— Não dando importância alguma a discrição, Wilhelm respondeu com ironia. Apesar de manter um sorriso no rosto, Katherine bateu seu leque na mão do marido.— É a verdade! Talvez seja por isso que ela esteja quase chorando.

Novamente Katherine bateu seu leque nele. Wilhelm não poderia ter nem um pouco de bom-senso!? Os monarcas estavam bem perto deles, quase ouvindo, ou melhor, a rainha havia escutado sobre as lágrimas, por isso mesmo logo tratou de segurá-las. Apesar de sua educação medíocre, a ela sabia do status elevado que tinha, e todos sabiam que ela era a mais digna e formal do casal. Pela terceira vez a marquesa bateu o leque no marido, mas pela terceira vez ele não deu importância alguma.

— Não mencione mais esse acontecimento, Wilhelm, principalmente quando estivermos perto deles.— O príncipe não respondeu, simplesmente continuou a olhar para o rei e a rainha. A vontade de Katherine era gritar altamente, mas ela manteria a calma.— Lembre-se do que aconteceu com mamãe na última vez que ela mencionou o assunto.

— Eu quase fui expulsa da corte.— Exatamente. Katherine fitou Wilhelm em aviso. Naquele dia a marquesa viúva voltou a Hampton Court com o pior dos humores.— Charlotte não é mais a mesma, ela ficou muito...

Talvez por falta de coragem, ou simplesmente pelo fato da música que a rainha cantava estar prestes a acabar, Elizabeth parou de falar. Não foi um problema...

— A rainha está muito dura.— Finalmente o príncipe encarou de volta a marquesa, não havia competição alguma no olhar deles, simplesmente pena.— Embora eu deva dizer que pelo menos ela ainda canta bem.

— Wilhelm! Não seja malvado.— Segurando o riso, a princesa abriu o leque e começou a movimentá-lo. Sorrindo levemente, o príncipe pegou a mão da esposa e apertou.— Sejamos mais discretos, seja mais discreto. A Dinamarca ter um rei louco não faz de você um médico.

O sorriso de Wilhelm morreu instantaneamente, transformando-se em irritação. A Dinamarca nunca deixaria de ser um assunto delicado, Katherine havia esquecido disso. Apertando a mão do marido, a marquesa tentou remediar o erro, mas antes que qualquer palavra fosse dita a rainha Charlotte parou de cantar, eles teriam de esperar. Todos na sala de música começaram a aplaudir a consorte real, que assentiu em agradecimento.

Sorrindo amplamente, o rei levantou do banco e pegou a mão da rainha, olhando fixamente nos olhos dela.

— Esplêndida, você e sua voz são sempre esplêndidas, Charlotte.— Mesmo com o público, George beijou amavelmente a mão da esposa. Charlotte sorriu e baixou levemente a cabeça.— Sente e descanse sua voz, nossa outra Charlotte pode cantar a próxima música.

— Talvez seja melhor nossa Elizabeth tocar, a princesa real não gosta dessas apresentações musicais.— A rainha estava praticamente provocando a princesa real, cuja natureza tímida não permitia fazer essas apresentações.

Ninguém disse nada, entretanto, nem mesmo a princesa real. Satisfeita com o pedido da mãe, a princesa Elizabeth, a mais nova das três, levantou e foi para junto do pai. Logo o rei voltou a tocar, sendo agora uma música mais alegre, muito possivelmente afim de tentar agradar a rainha, era quase visível um sorriso no rosto dela. Enquanto isso as duas princesas mais velhas, Charlotte e Augusta conversavam em tom baixo, mas sem qualquer tipo de discrição a mais.

Apesar da princesa Elizabeth cantar muito bem, muito igual a rainha, a atenção de Katherine acabou recaindo mais sobre as duas princesas mais velhas. Era tão estranho que essas duas jovens, principalmente a princesa real, ambas na casa dos 20 anos, ainda fossem solteiras. Claro que nem todas as mulheres casavam cedo, pelo menos nem todas casavam tão cedo quanto as princesas Tudor-Habsburg, mas mesmo assim, Charlotte e Augusta eram princesas.

Não tardando muito, a música que o rei tocava acabou e ele iniciou outra, desviando os pensamentos de Katherine, até que essa também teve seu fim e tanto a princesa quanto o rei foram descansar.

— Eu gostaria tanto de ouvir sua voz cantando novamente, Charlotte. Cante para nós, por favor.— Mas o descanso do monarca de forma alguma significava o fim da música. A consorte negou sorrindo.

— Sim, minha rainha, cante novamente.— Porém, mesmo com a encabulacão dela, a marquesa viúva também incentivou.— É sempre maravilhoso ouví-la.

Mesmo com as tentativas da rainha em negar, os pedidos continuaram vivos, até mesmo com os outros presentes acrescentavam algum incentivo. Finalmente, Charlotte aceitou e levantou-se.

— Mas quem tocará o piano forte? Eu só irei cantar com alguém me acompanhando no piano forte.— Houveram algumas exclamações de protesto na sala, mas a rainha continuava impassível.— Preciso de alguém no piano.

— Então toque para nós, Kendal.

A sala ficou em silêncio com o ordem do rei, e não apenas em silêncio, mas também todos voltaram os olhos para Wilhelm. De imediato o príncipe não entendeu, mas bastou Katherine sorrir para ele lembrar que era Kendal.

— Seria maravilhoso.— Ainda levemente confuso, Wilhelm levantou e foi para o piano.

— Oh, Kendal, eu lhe dei um ducado simplesmente porquê não sabia como chamá-lo, mas você parece nem se importar.— Em seu lugar, Katherine mordeu os lábios para não rir, Wilhelm não dava importância alguma ao ducado. O rei riu irônico.— Como devo chamá-lo?

— Meu nome é Wilhelm, meu rei, use esse nome.

Se o rei ficou ofendido, ele não deu sinal algum, apenas riu divertido e sinalizou para o príncipe começar a tocar. Quando a música já deveria estar pela metade, o conde de Aylesford entrou na sala de música e caminhou até o rei. Ninguém deu muita atenção, todos estavam muito distraídos com a calma e pacífica melodia que estava sendo tocada e cantada, mas Katherine percebeu essa chegada e ficou muito alarmada quando o rei, depois de Aylesford sussurrar lhe algo no ouvido, a encarou fixamente.

Algo estava acontecendo e logo ela iria saber também. Lord Aylesford veio em seguida a marquesa e disse as mesmas palavras ditas ao rei... Paris estava um caos... o povo estava saqueando mantimentos e... armas!... e a Bastille havia caído... Mas foram as últimas palavras do conde que mais afetaram a marquesa... Katherine encarou Aylesford com os olhos arregalados.

— Uma revolução!? Como assim uma revolução!?— Se o objetivo era manter a discrição, Katherine havia acabado com isso. As altas exclamações da marquesa foram ouvidas por todos, até mesmo Wilhelm parou de tocar.— O milorde não quis dizer rebelião?

Aylesford olhou para o rei e, voltando a marquesa, negou veemente. Katherine levou uma mão a boca, assustada. Uma revolução na França? Com o crescente falatório entre os aristocratas, que começaram a fazer questionamentos sobre os acontecimentos na França, a rainha perguntou altamente ao rei:

— George, diga-nos claramente o que está acontecendo na França.— As mãos da rainha estavam tremendo em pavor, obrigando as três princesas a abraçá-la.— O que significa uma revolução na França?

— Mantenha a calma, Charlotte, por favor. Você também Katherine, vá acalmar sua esposa, Kendal, melhor ainda, todos fiquem calmos!— Mesmo com o alto pedido do rei, apenas Wilhelm foi ver como Katherine estava, mas ela afastou-se dele.— Minha rainha, princesas, príncipe, milordes e miladys, anteontem o povo francês se cansou da opressão e mostrou que deseja mudanças, eles tomaram a Bastille e destruíram. Que Deus proteja e guie as Majestades Francesas!

Nem mesmo as palavras do rei foram o suficiente para aplacar o medo dos presentes na sala, muito pelo contrário, mais perguntas sugiram, o desespero estava começando a tomar de conta. No final, o rei saiu da sala de música, acompanhado por Aylesford, dizendo que iria procurar saber mais sobre Paris. Não é preciso dizer que isso também não ajudou em nada, a maioria dos cortesãos foi até embora.

— Uma revolução... uma revolução da França...— Falando consigo mesma, Katherine fitou o impassível Wilhelm, que a encarou de volta.— Que palavra mais amargo a boca.

*****

Há não muito tempo, quando chegaram as notícias que a Assembleia Nacional havia exigido reformas e iniciado uma sessão ininterrupta em Versailles, os britânicos saldaram alegremente essa ação, mas hoje, alguns diminutos dias depois, os mesmos estavam aterrorizados com a tomada da Bastille pelo povo francês, estavam horrorizados com uma revolução.

Essas reações apostas eram muito difíceis de entender, mas Wilhelm sabia de uma coisa: os franceses estavam cansados da tirania e a tomada da Bastille, o maior símbolo da opressão na França, mostrava claramente isso. O príncipe estava quase sorrindo, eles estavam certos, os pensadores estavam certos!

— Espero que os parisienses estejam atrás somente de pão e liberdade.— Ainda sustentada pelas filhas, a rainha comentou friamente temerosa, recebendo assentimentos dos que não haviam se retirado.— Assim como espero que o caos dessa revolução não cruze o Canal.

— Eu não vejo necessidade alguma de tanto alarde, minha rainha, é apenas uma revolução.— Significava mudar, talvez para melhor. Mas ele não recebeu nenhuma concordância, simplesmente silêncio e uma negação de Katherine. Claro.— Lembremos da Gloriosa Revolução, aqui mesmo, na Inglaterra.

Dessa vez pelo menos olharam para Wilhelm... achavam ele um tolo, assim como as palavras dele. Suspirando, o príncipe negou a cabeça, era impressionante como os ingleses não viam além do seu próprio nariz!

— Acho que você não ouviu o rei corretamente, Wilhelm.— Antes que ele pudesse desistir dos ingleses, Katherine comentou... negando incrédula?

Wilhelm riu, não apenas dessa incredulidade, mas também dessa afirmação.

— O povo cansou dos abusos que sofria e iniciou uma revolução. Foi isso que eu escutei.— Rindo secamente, Katherine começou a andar pela sala batendo o leque na mão. Wilhelm ainda iria tomar essa coisa dela.— É ruim? Eu creio que não.

— A revolução não é o problema, Wilhelm, mas sim quem faz ela.— Quem faz ela? Ele não poderia estar escutando uma coisa dessas. E Katherine ainda continuou:— A Gloriosa Revolução foi organizada por nobres, homens capazes, que não queriam um católico absolutista reinando a Inglaterra, mas o que é a revolução na França? Uma revolta de pessoas pobres e esfomeadas querendo mudanças e mais direitos, e quem vai custear isso? Quem vai sofrer? Não preciso nem responder.

Balançando a cabeça, Wilhelm negou veemente essas... infâmias de Katherine. Os franceses estavam sofrendo! Passando fome de verdade! Eles não eram como os niedersiegers que mesmo pobres viviam bem. Ela falava como uma sem coração e Wilhelm não deixaria isso assim mesmo!

— Você tem alguma pena daquelas pessoas, Katherine?— Sem medo algum, Wilhelm perguntou com ironia. Ofendida, a marquesa avançou na direção dele, apontando ameaçadora o leque.— Está levantando a mão? Pois então eu pergunto novamente: você tem alguma pena daquelas pessoas!?

Mais alto e mais desafiador, o príncipe repetiu, ele sabia que aqui ela não teria coragem. Eles tinham um público, a rainha, as princesas e alguns cortesões estavam olhando. Percebendo isso, Katherine apertou o leque com força e arrogantemente deu as costas para Wilhelm.

— Katherine não quis ser insensível, Wilhelm, mas ela está certa. O que o povo francês deseja pode atingir negativamente o Primeiro e Segundo Estado.— Tentando defender Katherine, a marquesa viúva explicou, mas não ajudou em nada, muito pelo contrário.— Imagine, Wilhelm: nós, a realeza e os bens instruídos, perderemos nossa influência, poder e voz para pessoas que são inapropriadas para tomar suas próprias decisões!

— O Terceiro Estado não tem instrução, não tem educação, apenas um desejo.— Ainda de costas, Katherine afirmou certa do que dizia.— Eles são incapazes, Wilhelm! Irão trazer a ruína sobre si mesmos!

— Falem o quanto quiserem, tentem ao máximo destruir minha fé, mas não conseguirão.— Dando os ombros e sorrindo petulantemente, o príncipe respondeu, para o horror da viúva e indiferença de Katherine.— Eu acredito na capacidade daquelas pessoas.

Era uma certeza, Wilhelm não tinha dúvida alguma que, caso fossem bem liderados, os franceses alcançariam seus objetivos. Ninguém tinha morrido ainda, então tudo bem. O restante na sala de música entrou em silêncio, principalmente os nobres surpresos com a discussão dos Bristol. Entretanto essa situação teria de acabar em algum momento, e logo acabou realmente:

— Essa noite já rendeu o que deveria, o melhor agora é voltarmos para nossos aposentos e tentar nos acalmar.— Finalmente soltando-se das filhas, a rainha ordenou autoritária, sendo prontamente seguida.— Vamos ver o rei, meninas.

Nem mesmo os Bristol não conseguiram vencer o cansaço e também se retiraram para dormir. Talvez pela manhã, estando mais calma, Katherine estivesse mais disposta a ouvir a razão, havia até mesmo a possibilidade dela iniciar algumas reformas sociais em Niedersieg, tentando evitar o mesmo que aconteceu em Paris, Wilhelm estava disposto a ajuda.

Entretanto não foi isso que aconteceu, durante café da manhã a marquesa era a visão do cansaço, muito diferente do príncipe que dormiu calmamente, houve apenas uma sensação... mas Wilhelm não acreditava em premonições ou intuição.

— Odeio a palavra revolução, mamãe. A senhora acredita que não preguei os olhos nessa noite?— Quase não conseguindo manter-se ereta na cadeira, Katherine comentou, recebendo um assentimento da igualmente cansada marquesa viúva.— Estou tão preocupada com Marie Antoinette, os franceses a odeiam.

— Não vejo motivo algum para preocupação com o rei e a rainha da França, os franceses querem liberdade, não a morte do rei.— Ouvindo ele, a marquesa revirou os olhos. O príncipe fez uma careta e voltou ao seu próprio desjejum.— Sua preocupação...

— Nem todos são como os dinamarqueses que praticamente adoram os Oldenburg.— Uma ofensa? Wilhelm franziu o cenho e desviou o olhar da esposa. Katherine suspirou cansada.— Durante a Guerra Civil os ingleses também queriam "simplesmente" mais liberdade e veja o que aconteceu.

Essas era duas situações diferentes. Na Inglaterra havia um parlamento desde... sempre, enquanto a França sempre viveu sobre o domínio absolutista. Os três ficaram em silêncio, apenas tentando aproveitar o café da manhã, até que Katherine começou gradativamente a rir, sem motivo nenhum.

— Está passando bem, minha rosa?— Trocando rapidamente um olhar com o genro, a marquesa viúva perguntou preocupada a filha.— Ou é apenas mais uma ofensa a...

— As mentiras que falam sobre Marie Antoinette, não sei o que é mais tolo: afirmar que uma mulher faliu um lugar como a França ou acreditar nisso?— Encarando fixamente o marido, a marquesa riu irônica.— Quanta tolice, não?

— Seria uma provocação para mim?— Porque parecia muito. Katherine deu os ombros sorrindo. Realmente, apenas um tolo para acreditar numa mentira dessas.— Creio que seja uma indireta mesmo.

Mais uma vez, ela apenas deu os ombros. Negando carrancudo, o príncipe ficou em silêncio e voltou ao café da manhã, para falar a verdade, todos a mesa ficaram em silêncio, chegava a ser entediante. Essa situação, porém, não demorou muito para acabar, logo Lady Baster entrou na sala e entregou um bilhete a Katherine.

— Que apropriado, não? O rei mandou notícias da França.— A ironia usada por ela era impressionante, poderia até ser engraçada em outra situação.— Deixe-nos, Bess.

A condessa fez uma mesura e saiu da sala, deixando para trás um grande sentimento de dúvida e mistério. Quais eram as notícias? Abrindo o bilhete e iniciando a leitura, Katherine caminhou para acabar com as dúvidas. Wilhelm fitou fixamente a esposa, analisando todas as reações dela... os olhos da princesa arregalaram, logo depois ela fez uma careta, seguida por um olhar enojado... ela fitou o marido com raiva.

— O que exatamente diz aí, Katherine?— Praticamente agindo como uma intermediadora entre eles, a marquesa viúva perguntou preocupada, mas foi ao príncipe que a marquesa entregou a carta.— Wilhelm?

— Não quero a senhora assustada lendo as ações do chers Français, mamãe, melhor ele fazer isso.— Sério, o príncipe leu cada palavra que estava escrita no bilhete, cada número e descrição... virando o rosto, Wilhelm amassou a carta, ele estava sem apetite agora.— Vamos, Wilhelm, diga-nos o que o eles fizeram na Bastille.

— Muito bem, eu falarei. Saiba que não tenho medo algum, Katherine, vidas serão perdidas, principalmente quando uma revolução é feita pelos franceses.— A princesa ficou em silêncio e simplesmente apontou para a carta. Wilhelm suspirou e repetiu o que leu:— Um defensor da Bastille foi morto durante o ataque, três oficiais da guarnição foram mortos pela multidão, três dos invalides, mais dois guardas suíços do Regimento de Salis-Samade, foram linchados pela multidão e...

A voz dele morreu nesse ponto, a última parte com certeza era a pior.

— Está com nojo, Wilhelm? Não importa, acabe o que começou.— Isso era tortura! Katherine estava cometendo tortura, mas Wilhelm tinha seu orgulho.

— O marquês de Launay, governador da Bastilha, e o Monsieur Flesselles, o prefeito de Paris, foram mortos e suas cabeças fincadas em lanças desfilando pelas ruas de Paris.

E acabou. O silêncio novamente tomou de conta e só acabou quando a marquesa viúva levantou e saiu rapidamente da antecâmara, ela estava enojada, como não estaria?

— Vou ver como mamãe está.— Também levantando, Katherine avisou sem animação.

— Um minuto, por favor.— Wilhelm queria dizer isso. Ela parou e encarou ele. O príncipe hesitou um momento, mas falou:— Podemos voltar logo a Londres, Katherine, e também não brigar por causa dessa revolução.

— Já vamos ouvir muito sobre a França, Wilhelm, então não quero discutir sobre ela com você.— Dando um último sorriso a ele, Katherine afirmou e saiu da antecâmara.

Encontrando-se sozinho, Wilhelm suspirou e encarou o café da manhã. Com certeza essa revolução não acabaria com a queda da Bastille, algo dizia ao príncipe que... muito ainda iria acontecer.

Notas finais
* A Revolução Francesa, mas que assunto rico. Liberdade, igualdade e fraternidade, nesse ponto de La Belle Anglaise deixamos o romantismo levemente de lado, mas ainda com revelações, e entramos mais no lado político e histórico. * Embora eu tenha dito que nem sempre o que eu escrevo é necessariamente meus pensamentos, devo dizer que Katherine e Elizabeth não estão completamente erradas. Ter liberdade, mas não ter educação é inútil, uma armadilha para a ruína. É até muito interessante que hoje no Brasil, onde o ensino é gratuito, mesmo não sendo as mil maravilhas, que muitos jovens praticamente escolhem serem "levados pelos outros", não dão real importância a liberdade que têm. * Eu não vou falar muito nas notas sobre a Revolução Francesa, porque também aqui não é livro de História, por isso, caso desejem, vocês podem ver vídeos e filmes sobre o assunto, existem alguns que eu gosto particularmente. * La Belle Anglaise no Pinterest: https://pin.it/2tReSCU