La Belle Anglaise

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08|08|1786 Palácio de Kensington, Londres

Desde que uma mulher louca tentou esfaquear o rei enquanto ele decidiu de sua carruagem em St. James, nenhuma outra coisa era comentada em Londres. Embora a situação já tivesse sido resolvida, a calma e misericórdia de George III nessa situação chamou muito a atenção de todos, fazendo até mesmo o parlamento esquecer de problemas mais importantes.

Realmente, era impossível negar que a forma como o rei reagiu foi impressionante. No continente um atentado contra a realeza seria, na melhor das hipóteses, punido com prisão, mas a mulher era louca, então ela foi enviada para um lugar próprio para pessoas loucas. Mas o simples fato de ser um ato misericordioso, não obrigava as pessoas a comentarem o assunto em todos os lugares... como estava acontecendo:

— Uma faca de sobremesa, a louca tentou matar o rei com uma faca de sobremesa... isso é tão... horrendo.— Descendo primeiro a escadaria, Wilhelm ofereceu sua mão para Katherine e a encarou fixamente. Ele sabia do que ela lembrava, mas a marquesa recusou.— Horrendo! Não entendo como o rei conseguiu ficar tão calmo, eu não ficaria.

Atrás de Katherine veio a marquesa viúva, que enlaçou seu braço no da filha. Sendo assim, Wilhelm deu as costas, revirou os olhos e começou a descer os degraus, embora ainda conseguisse ouvi-las:

— A calma e misericórdia fazem parte da personalidade de George, você sabe, minha rosa.— A marquesa viúva respondeu em um tom piedoso. Wilhelm não concordava completamente com ela.— Embora as manias e estranhezas dele também possam ter ajudado em algo... Charlotte está tão preocupada.

— Por que ela deveria ficar preocupada, mamãe?— Tentando afastar a preocupação da mãe, Katherine perguntou divertida.— O rei também ficará...?

— Vamos mudar de assunto, por favor. Para algo que não envolva o rei ou loucura.— Levantando a voz, o príncipe praticamente suplicou. E para sua surpresa, ele não caiu em ouvidos surdos, as duas ficaram caladas.— Todo esse assunto sobre o atentado contra o rei já está me deixando cansado.

— E sobre o que deveríamos falar, Wilhelm? Política?— Descendo o último degrau, o príncipe sorriu desdenhoso para e esposa e assentiu ironicamente. Não seria ruim esse assunto.— O rei e a rainha são praticamente da família, então vamos mostrar nossa preocupação a eles.

— Sua preocupação é louvável, mein Liebe. Mas talvez nem o rei lembra mais disso.— Talvez isso fosse exagero... para o desprazer dele, Katherine riu com escárnio.— Falemos então sobre... a surpresa que você fará a Robert hoje.

A princesa sorriu e, soltando-se da marquesa viúva, pegou delicadamente o braço dele e seguiu para a sala de música, onde Katherine comentou todos os detalhes de como seria essa noite. Um pequeno sarau para comemorar o terceiro aniversário de Robert, mesmo tendo sido no dia anterior. Não seria nada muito grande, ou que chamasse alguma atenção desnecessária, mas sim algo simples com os "amigos".

Quando já passava da meia-noite, muito depois das primeiras apresentações do sarau de Katherine e logo após o pequeno jantar que a marquesa ofereceu, todas as crianças em Kensington, no caso as crianças Bristol, os filhos das damas, cavalheiros e as três ilustres princesas caçulas do rei e da rainha: Mary, Sophia e Amélia, foram chamadas a sala de música para assistirem uma apresentação preparada especialmente para elas.

Um grupo de pequenos órfãos, de um dos muitos orfanatos que Katherine ajudava financeiramente, estava cantando uma bela música as crianças... Não deixava de ser impressionante, os pequenos realmente sabiam cantar, encantando todo o público com isso. Dessa vez Wilhelm iria se render aos caprichos da esposa.

— Essas criancinhas são divinas, minha marquesa!— Antes mesmo da apresentação acabar, a duquesa de Devonshire, que surpreendentemente havia sido convidada, comentou.— Onde você as encontrou? Agora eu também quero um exemplar para mim.

— Isso é uma pena, Georgiana, porque esses aqui são apenas para o meu uso exclusivo.— Escondendo um satisfeito sorriso com o leque, Katherine respondeu rindo.

— A menos que o orfanato delas também faça apresentações em Derbyshire.— Ainda assistindo fixando a apresentação, Wilhelm destruiu o momento de vitória da esposa. Era possível sentir a raiva dela.— Você está sentindo alguma coisa, Katherine?

Irritada com a pergunta irônica, cínica até, a marquesa simplesmente voltou novamente sua atenção às crianças. Agora foi o príncipe que sorriu satisfeito. Era maravilhoso ver como ele conseguia irritá-la.

— Eles cantam tão divinamente, mas sofrem como condenados.— Melancolicamente, a duquesa comentou negando com a cabeça. — Ou melhor, estão condenados a uma vida terrível.

— Existem tantas crianças enjeitadas na região onde elas moram, quando eu soube disso ordenei imediatamente a construção de um orfanato.— Suspirando igualmente melancólica, Katherine respondeu a duquesa. Wilhelm franziu a testa ouvindo essa conversa... com certeza estranha.— Talvez assim elas tenham algum alívio.

Isso até crescerem e tivessem que lidar com o cruel mundo dos "pobres e desamparados", uma realidade da qual certamente quase todas aquelas crianças estavam destinadas. Parecia triste, definitivamente era triste, mas fazia parte da existência humana ter que lidar com isso. Pelo menos existiam pessoas, como Katherine, que davam alguma atenção a esses desafortunados, embora... as vezes Wilhelm achasse que ela deveria dar mais atenção aos pobres dela.

Durante todos esses anos o foco dos Tudor-Habsburg em Niedersieg sempre foram coisas como: administração, política, economia, ciência e infraestrutura, enquanto o resto... bem, o resto simplesmente foi esquecido. De fato os pobres não passavam fome em Niedersieg, não como na França, e nem eram absolutamente pobres, como na França, mas era muito estranho que um estado governado por uma família britânica, não tivesse quase nenhuma das mesmas liberdades que os britânicos tinham.

Em Niedersieg havia censura do governo, a estrutura feudal permanecia em algumas das partes mais tradicionais do principado e a tortura permitida. Wilhelm já havia comentado essa contradição com Katherine, e ela sempre respondia que:

"A imprensa é muito partidária. Os niedersiegers podem ler o que bem desejarem e a imprensa também tem alguma opinião, mas "opiniões subversivas" certamente devem ser reprimidas."

"Estamos falando da Alemanha, Wilhelm, melhor ainda, do Sacro Império Romano-Germânico, a "concha de retalhos", você realmente esperava que eles tivessem rejeitado o feudalismo?

"Os que tramam contra o estado devem ser punidos, então a tortura é reservada unicamente para eles. Graças ao Cristo que desses temos poucos."

Pelo menos para o príncipe, essas respostas mostravam que Katherine não nutria nenhum tipo de interesse real ao sofrimento do povo, embora ele também fosse um falso. Enquanto Wilhelm repudiava a "regra de Struensee", ele olhava com bons olhos a regência da rainha Juliane Marie. De qualquer forma, Katherine acabava sempre usando o mesmo fato:

"Devemos lembrar que assim funciona o continente e ninguém nunca foi, e talvez nem será, corajoso o suficiente para desafiar o sistema."

Não, isso não poderia ser sempre assim. Assim como Montesquieu, Voltaire e Rousseau, Wilhelm acreditava fortemente que um dia o povo iria perceber que estava sendo oprimido e lutaria por mais liberdade... mesmo que... uma pessoa só percebia que estava sendo oprimida, quando recebia um pouco de liberdade... Preso em seus pensamentos, o príncipe suspirou e voltou encarar o coro.

— No final, quem decide tudo é...— Assustando o príncipe, todos começaram a aplaudir com entusiasmo as crianças.

Por um momento Wilhelm assustou-se, mas quando ele percebeu que a apresentação havia acabado, também se juntou aos aplausos. Crianças talentosas deveriam ser celebradas... Não tardando muito, o coro deixou a sala de música, os pequenos Bristol enviados ao berçário e as três princesinhas voltaram a Buckingham House, os aristocratas adultos poderiam voltar a conversar normalmente...

— Foi uma apresentação linda, minha marquesa. As crianças pareceram gostar muito.— Tendo a seu lado Josephine, Lord Ricketts comentou a Wilhelm e Katherine, que responderam sorrindo.— Deve ser maravilhoso para um pai ver seu filho feliz.

— É uma alegria sem igual.— Sorrindo quase tensa, Katherine encarou o príncipe e acrescentou:— Uma que certamente vocês também sentirão.

— Temos certeza que sim, minha marquesa.— Lady Ricketts quase revirou os olhos ouvindo o marido. Mordendo seus lábios, Wilhelm tentou não rir.— Não falharemos, pelo menos não por falta de tentativas, não é, Josephine?

Todos os três fitaram a viscondessa, esperando uma resposta dela, mas ela simplesmente encarou um por um, até fixar no marido. Josephine parecia prestes a soltar todo o veneno que tinha...

— Não faça eu me rebaixar e lhe responder inapropriadamente, Philip. E também não me irrite.— Baixa e fria, ela respondeu... não foi assim tão venenosa.— Vamos falar com Lady Harrington?

O visconde e a viscondessa fizeram uma leve mesura e saíram de perto do casal Bristol, que ficou observando eles se afastarem. Wilhelm ainda queria muito rir.

— Uma pena, eles se davam tão bem antes.— Suspirando tristemente, o príncipe encarou a esposa e sorriu zombador.— O que aconteceu?

— Philip e Josephine sofrem do mesmo mal que nós.

— A interferência externa?— Katherine fitou o marido fixamente, mas, desistindo, simplesmente negou.

— Estou falando de pontos de vista diferentes.— Oh, fazia mais sentindo agora. Katherine abriu a boca para acrescentar algo, mas inesperadamente sorriu.— Lady Harrington está vindo aí. Fuja ou fique comigo.

Voltando seus olhos na mesma direção que ela, Wilhelm percebeu a condessa de Harrington aproximando-se deles. Aos poucos, mas antes dela chegar, o príncipe então afastou-se da esposa. Era melhor deixar Katherine conversar sozinha com a condessa, que era praticamente uma versão morena e menos bonita dela mesma.

Jane Stanhope, a condessa de Harrington, não era uma mulher desagradável, ela era gentil, honrada é uma líder social, mas também muito fria, muito honrada e até mesmo incompreensível. Lady Harrington era uma ótima mulher, mas não o tipo que fascinava Wilhelm. Por isso mesmo ele procurava encontrar a duquesa de Devonshire agora, com quem o príncipe sabia que poderia ter uma ótima conversa... mas estava sendo difícil...

Não encontrando a duquesa, ele acabou conversando com Lady Courteney, que não era ruim. Para falar a verdade, Maria sempre foi a mais equilibrada das damas. Ela não era tão inocente como Lady Baster, fatalmente sincera igual Lady Ricketts, rebelde como Lady Monmouth, desorientada da mesma forma que Lady Torrington ou depressiva como Lady Cottington.

— Gosto quando tenho conversas "normais" em eventos sociais. John fala constantemente que até nossas conversas podem ser ferramentas políticas.— Sorrindo docemente, Maria comentou a Wilhelm.

— Ele não está necessariamente errado.— A condessa acabou assentindo.— Mas fico surpreso por vocês terem divergências.

— Todo casal tem divergências, meu príncipe.— Rindo levemente dele, Maria respondeu. Wilhelm assentiu, ele sabia muito bem que sim.— Mas não vou dizer que acho ruim, até que gosto dessas divergências.

Antes mesmo que ele pudesse acrescentar algo, Lord Ricketts aproximou-se deles procurando pela esposa, que havia "fugido" dele.

— Josephine disse que iria falar com Grace, mas Lord Pembroke disse que ela estava com as crianças no berçário.— Fazia sentido... Wilhelm fitou o visconde, que parecia ter perdido uma grande joia.— Onde Josephine está?

— Talvez ela esteja com a marquesa e Lady Harrington, conversando.— Lady Courteney sugeriu calma.

— Oh Maria, meu príncipe, confesso que as vezes eu queria uma Josephine mais parecida com a duquesa de Devonshire, não uma Lady Harrington.— Não deixava de ser compreensível... as vezes Wilhelm queria o mesmo de Katherine.

— Mas isso seria o mesmo que pedir para pararmos de falar com Josephine.— Novamente, Maria tentou acalmar o visconde sendo mais provocativa. O príncipe tentou rir, mas... isso era uma brutal verdade.— Talvez você esteja exigindo muito dela, Philip. Lembre-se que vocês têm interesses diferentes.

Isso também parecia com a duquesa de Devonshire e Katherine, quando a primeira fazia algo, a segunda vinha com o contrário. Se Georgiana usasse penas de avestruz, a marquesa usava de cisne ou pavão. Enquanto a duquesa apoiava a política e a química, Katherine era neutra e apreciava a botânica. Parecia até mesmo uma lutar afim de mostrar quem era melhor.

— Mesmo assim, Josephine poderia mostrar algum interesse.— As palavras de Ricketts fizeram Wilhelm voltar ao momento. Ainda essa discussão?— Ela é tão fria frente ao sofrimento dos escravos.

— Você deveria tentar entender que nem todos nós temos a mesma animação que você, Ricketts.— Usando um tom duro, o príncipe repreendeu Lord Ricketts.

O visconde ficou visivelmente ofendido. Mas era uma benção que ele não poderia tentar dizer absolutamente nada, ou melhor, até poderia:

— Mas não sou apenas eu com problemas.— Isso era uma indireta para quem em específico?— Duquesa!

Georgiana Cavendish, finalmente apareceu, Wilhelm sentiu falta de falar com ela, fazia mais de uma semana que ele não a viu, e a duquesa nunca era alguém cuja conversa excessiva faria mal, embora Katherine sempre falasse o contrário.

— Parabéns por me notar, Lord Ricketts! Já percebi, a muito tempo na realidade, que estou tendo que dividir a atenção hoje.— Bem-humorada como sempre, ela riu levemente.— Uma pena. Mas, sejam francos, quem está mais bem vestida hoje?

— Claramente é a...— Wilhelm iniciou.

— A marquesa.— Mas antes mesmo dele começar direito, Ricketts surpreendeu com a resposta.— A marquesa sempre é a mais bela, embora haja um empate triplo entre a mais bem vestida.

— Lord Ricketts! Eu não gosto de empates!... Mas também ninguém ganhar sempre.— Fingindo seriedade, Georgiana aceitou sua vitória, apenas para em seguida sorrir com malícia.— Mas, pelo menos, eu vi as princesas Mary, Sophia e Amélia!

Usando seu mais inocente tom, a duquesa causou risos entre as pessoas que conversava. Assim como também causou pelo resto da noite.

*****

A noite anterior foi uma alegria, uma que durou até quase três da madrugada, um pouco além do que era esperado. Mas todos aqueles minutos gastos valeram mais que a pena, Katherine havia superado a duquesa de Devonshire, e deixou seus filhos felizes também. Foi uma ótima noite, perfeita. Com certeza os jornais falariam muito bem do "simples" sarau dado pela marquesa.

Mas nem tudo poderia ser completamente perfeito... Por algum motivo desconhecido, talvez insônia, Katherine acordou muito mais cedo que o normal, não era nem dez da manhã, quando normalmente ela nunca acordava antes do meio-dia. A marquesa até tentou dormir novamente, fez muito esforço, mas não houve resultado algum, Katherine continuou acordada.

Isso era claramente um problema, nem mesmo as damas dela haviam chegado. Gemendo tristemente, a marquesa levantou-se da cama e foi para o quarto do marido, tentando encontrar algum "auxílio". Mas Wilhelm estava dormindo e não estava nada disposto a acordar, mesmo quando Katherine tentou o contrário.

— Deixe eu dormir em paz, Katherine. Estou muito... cansado.— Cobrindo o próprio rosto com um lençol, o príncipe respondeu sonolento.— Vá dormir também, por favor, ainda é cedo.

— Mas eu não consigo dormir. Já tentei, mas não consegui.— Ele ficou em silêncio. Franzindo a testa, ela aproximou-se do ouvido do marido.— Wilhelm? Você está dormindo!

— Estou sim, e você deveria fazer o mesmo, não?

— Eu já disse que não consigo, embora esteja muito cansada.— Novamente, não houve uma resposta. Suspirando cansada, Katherine levou uma mão ao peito de Wilhelm e começou a acariciá-lo.— Poderíamos resolver isso...

Cansando-se disso, o príncipe pegou a mão da esposa e, tirando o lençol do rosto, encarou ela com irritação.

— Você está cansada e não consegue dormir? E o que eu poderia fazer a respeito disso?— Muitas coisas. Rindo irônico, o príncipe deitou virado para o outro lado.— Não posso fazer nada em relação a sua insônia.

Mas é claro que poderia! Irritada com essa resposta, Katherine saiu da cama e voltou ao seu próprio quarto. Que fosse como ele queria então!

Após limpar seus olhos com bicarbonato e hortelã, a marquesa escolheu as peças de roupa e preparou-se para fazer o que nunca fazia sozinha: vestir-se. Primeiro as meias, depois uma anágua, stays, bum pad, os bolsos do vestido, a segunda anágua, um saia branca, o fichu sobre os ombros e, finalmente, o robe à l'anglaise azul. Olhando no espelho, Katherine percebeu que parecia uma bela dama inglesa...

— Se bem que outra coisa eu não poderia ser.— Abrindo uma caixinha de joias, ela comentou consigo mesma ao procurar um colar.— O que eu deveria fazer agora? Talvez fosse bom voltar a botânica... ou seria melhor o projeto de papai?

Sim, talvez essa segunda opção fosse melhor. O marquês Alfred havia deixado muitas coisas para a filha, sendo uma delas o projeto de um grande palácio rural em Bristol. Em meio a tantos problemas, Katherine nunca realmente havia dado atenção a isso, mas as coisas tinham mudado, talvez... com certeza ela deveria dar alguma atenção ao projeto. A começar pelos jardins claro.

Depois ela também teria que chamar Sir Edmund Brocket para replanejar a propriedade. O antigo baronete Brocket tinha sim feito um bom trabalho, mas Katherine achava muito simples. O desejo dela era algo grande, bonito, ostentoso... um verdadeiro palácio continental, e seria barroco e rococó claramente. Por quê? Não havia nada desse tipo na Inglaterra, seria uma construção única... se bem que o Castelo Howard e o Palácio de Blenheim também eram barroco... mas não era rococó!

Não seria de fato único, mas dificilmente havia algo mais belo que barroco e rococó.

— Sua Alteza Sereníssima?— Ao chegar no últimos degraus da escadaria, Katherine foi surpreendida por uma aflita Lady Cottington, acompanhada por uma... senhora com um cesto.— Eu não esperava que a senhora já estivesse acordada, é tão cedo.

— O mesmo eu poderia dizer, acredite. Não é muito cedo para a milady estar aqui?— Lady Cottington e a senhora fizeram uma mesura a marquesa, que assentiu e apontou para a sala azul.— Vamos então conversar em um local mais confortável?

Mesmo hesitante, a baronesa assentiu e seguiu a princesa, mas não sem antes pedir para a senhora mais velha ficar no hall, esperando o momento de ser chamada. Havia algo de muito estranho, suspeito até, nesse pedido. Parada na entrada na sala, fitou com curiosidade a dama, mas rapidamente voltou a sorrir, quando Lady Cottington começou a encará-la de volta.

— Minha marquesa deve estar curiosa para saber quem é aquela senhora comigo, não?— Rose tentou sorrir, mas não conseguiu. Talvez... fosse apenas o luto por Lady Palmer.

— Estou muito curiosa sim, é verdade.— Apontando para o sofá, Katherine respondeu e sentou a frente da dama.— Novamente, sinto muito pela sua perda.

Momentaneamente a baronesa ficou sem saber o que dizer, parecia até ter esquecido, mas rapidamente voltou a lembrar.

— Oh, Martha. Eu agradeço, sinto... minha irmã faz muita falta.— Mesmo? Katherine inclinou a cabeça com as expressões de Rose, que suspirou e encarou a marquesa perdidamente.— Foi uma morte tão... dolorosa... A Sra. Halifax é a governanta de Cottington House, e foi minha babá em Kemble Hall.

Essa mudança repentina de humor deixou Katherine ainda mais confusa. Toda essa conversa levava a confusão. Por que Lady Cottington trouxe essa mulher? Para comentar as belezas de Brecon, no País de Gales, ou do próprio Kemble Hall?

— Então é uma amiga antiga e de confiança.— Perdida em seu próprio olhar, a baronesa assentiu. Isso já estava ficando insustentável.— Algum problema, milady?

Fechando fortemente os olhos, Rose os abriu fitando fixamente a princesa. Em seu lugar, Katherine quase petrificou com essa olhar. Lady Cottington... havia um grande desespero nos olhos da baronesa, como se sua alma estivesse ferida e perturbada... Com certeza havia algo errado.

— Minha marquesa, eu poderia humildemente lhe pedir um favor?

— Sinta-se a vontade.— Temerosa com o que seria, Katherine assentiu. Lady Cottington suspirou aliviada e levantou-se lugar.— O que... a milady vai para onde?

Não respondendo, a baronesa simplesmente saiu da sala sala e voltou com o grande cesto que a Sra. Halifax tinha antes consigo. Agora era Katherine que estava receosa, algo dizia a ela que as coisas estavam tomando um rumo dificilmente esperado. Lady Cottington colocou o cesto no sofá, a frente da princesa.

— Peço, pelo amor que a senhora tem a Deus, que cuide por mim... dessas coisas.— Aflita, a baronesa afastou-se do sofá. Nunca em toda a sua vida Katherine viu essa mulher tão perturbada, o que haveria nesse cesto? Ainda hesitante, a princesa abriu o cesto... Por Deus!— Não conte a ninguém, por favor!

— Bebês... são dois bebês... Lady Cottington!— Voltando seus olhos a dama, Katherine elevou a voz.— De quem são essas crianças? São seus?

— Oh, não, minha marquesa! Eu nunca teria tal coragem. Mas certamente eles têm sangue Cunliffe. Essas duas crianças são de minha falecida irmã.— Lady Palmer? Mas... ela era viúva! Viúvas não tinham filhos, a menos que...— Martha teve... isso um pouco antes de morrer, foi um parto muito difícil e... já sabemos o resultado.

— Então por isso ninguém sabia ao certo o que matou Lady Palmer.— Foi uma morte repentina, e agora havia um motivo. Katherine fitou os bebês e depois a baronesa.— Quem é o pai? Um criado, amante ou...

— Não existe um pai, pelo menos não existirá até eu revelar quem é... enquanto eu não tiver coragem.— Seria um segredo? Por que não falar? A julgar pela expressão sofrida de Rose, era algo muito doloroso.— Por favor, minha marquesa, cuide dessas crianças para mim! Eu não posso fazer isso, assim como também não posso abandoná-los, são meus sobrinhos!

Os olhos da marquesa arregalaram. Como assim cuidar dessas crianças!? Katherine negou veementemente e afastou-se do sofá, qualquer pena seria fatal. Lady Cottington mesmo assim seguiu ela, tentando falar alguma coisas, mas sem forças.

— E o que a sociedade irá dizer disso, Lady Cottington!? Eu não...

— Estou pedindo apenas que cuide da educação deles, não é necessário criá-los como filhos. Seja uma madrinha, envie-os para longe, a Llanover Park, perto de mim.— Ainda assim Katherine negou, isso era legal!? Mas Lady Cottington não aceitou a negativa:— Eu posso pagar pela educação deles, posso pagar por todos que servirem a eles. Eu posso pagar, minha marquesa, dinheiro é a única coisa quem não me falta.

De fato, enquanto os Carlton eram ricos, os Cunliffe eram muito ricos, mas... Katherine negou. Não haveria algum primo ou parente muito distante? Por que ela? Mas a marquesa acabou caindo na armadilha de olhar para Lady Cottington, para seu desespero e súplica. Suspirando com pena, Katherine encarou o distante cesto.

— Qual o nome deles?— Desistindo de negar, Katherine cedeu.

— O nome?... Eles precisam de um nome!— Mas é claro. Lady Cottington pensou rapidamente e respondeu:— Um menino e uma menina... Philip e Philipa, esse será o nome deles.

Iriam servir ao menos. Fitando fixamente o cesto, Katherine começou a pensar na história que iria ser usada para justificar essas crianças. Fechando seus olhos e suspirando, a marquesa fitou Lady Cottington com seriedade.

— Philip e Philipa Cunliffe são seus parentes muito distantes, os pais dele morreram e então a milady decidiu ajudá-los. Essa será a história que será dita para a criadagem de Llanover Park e a sociedade em geral.— Talvez fosse o suficiente, ninguém iria contestar pelo menos. Lady Cottington assentiu.— Todos os anos a milady irá visitá-los. E quanto tiverem idade o suficiente, Philip será feito baronete e Philipa casará com um cavalheiro de alguma uma família de valor.

A bastardagem deles seria desconhecido por todos. Havia como dar errado? Certamente que não, as crianças poderiam ser ruivas como Lady Palmer e Lady Cottington, mas qualquer um poderia ser ruivo... era apenas mais um segredo que os Tudor-Habsburg escondiam...

Notas finais
* Com esse capítulo eu estou definitivamente encerrando a penúltima fase, no próximo capítulo entramos na última, e talvez mais importante, fase de La Belle Anglaise. Alguém tem alguma suposição do que vou falar? * É muito interessante trabalhar com a dualidade de personagens, deixando assim eles mais reais, contraditórios como pessoas reais. Katherine é uma governante absolutistas em Niedersieg, embora Richard seja o príncipe e ela esteja sendo regente. Mas é muito interessante isso, nossa bela Katherine seria uma tirana para seu povo, se eles soubessem disso. * É muito interessante isso. Na Europa continental a maioria das pessoas não sabia que estava sendo oprimida, para a maioria só existia aquela vida. Quem sabia dessa opressão eram os ricos e bem instruídos, salvos algumas exceções de "pobres", que logo entrarei em mais detalhes. É a mesma coisas das mulheres, a maioria delas não sabia que eram limitadas pelos homens, "existia apenas aquela vida", por isso mesmo as "mais instruídas" e ricas perceberam isso antes. * Philip e Philipa Cunliffe... esses dois gêmeos não são daqui, mais vou entrar em detalhes mais tarde... Mas eles estarem aqui é uma promessa para o futuro distante... * La Belle Anglaise no Pinterest: https://pin.it/2fQ4tug