Notas iniciais
*Em 1990, Walcyr Carrasco chocou o Brasil ao exibir na novela Cortina de Vidro, segundo a crítica um novela terrível, uma cena onde um pai violenta a própria filha. Eu não vou chocar o Brasil, talvez nem o público, mas nunca fiz o que farei agora. *Quero lembrar a todos os leitores que a frase que melhor define minha história é: "Pobre de quem não sabe voar", de Glória Perez. Tudo aqui é possível, então não duvide. *Toda mocinha verdadeira tem que ter um momento de burrice, está escrito na "Carteirinha do Sindicado das Mocinhas de Dramas e Melodramas" kkkk. AVISO: ESSE CAPÍTULO PODE GERAR GATILHOS EMOCIONAIS, FICA NA SUA RESPONSABILIDADE LER OU NÃO.

— Eu sou a mulher mais bela que existe na terra, sou jovem e tenho uma fortuna impressionante. Sou uma princesa, uma marquesa, sou...— O sorriso arrogante de Katherine não conseguiu manter-se, a apreensão voltou ao rosto dela.— Sou uma infeliz.

A maior vontade de Katherine era chorar. Fechando seus olhos, a marquesa respirou e tentou voltar a calma, sempre a calma, ela não deveria mostrar nenhum medo ou fraqueza, Katherine deveria ser corajosa. Abrindo novamente seus olhos, ela sinalizou para suas damas voltarem a arrumá-la. Como as coisas desandaram assim? Tudo isso era só para ver James.

— Mais rouge nos lábios, minha marquesa?— Lady Monmouth perguntou com a mistura avermelhada nas mãos. Katherine assentiu.— E nas maçãs do rosto? Deseja pouco ou muito rouge?

— O suficiente para disfarçar qualquer medo que eu sinta.— As damas se entreolharam apreensivas com a resposta da marquesa, mas a baronesa obedeceu.— Nunca usei tanta maquiagem assim na vida.

— Tem certeza que é realmente necessário tudo isso, Katherine?— Soando quase suplicante, Bess perguntou. Mas... do que exatamente ela falava?— Isso é tortura, para todas nós! Sem falar que é perigoso usar tanta maquiagem.

Um momento de excesso não iria estragar o rosto de Katherine, pelo menos ela esperava isso. Mas Bess estava certa, isso seria uma tortura, já estava sendo. Só que... James enviou tantas cartas, bilhetes, pedidos e súplicas por uma conversa particular com ela, ele desejava explicar e pedir perdão pelo que aconteceu, então Katherine cedeu. De forma alguma foi sentindo pena dele ou pensando em perdoá-lo, certas coisas era impossíveis de perdoar, mas a marquesa consentiu apenas para se livrar logo desse... problema na vida dela.

— Bravandale deve ver claramente como não faz medo algum em mim.— O que era uma horrenda mentira.

— Então devemos dar graças a Deus que Frederica não está aqui.— Com as joias da marquesa, Lady Cottington comentou sombria.

Elas deveriam dar graças a Deus era quando tudo isso acabasse, até lá... seria um Deus me ajude. As damas voltaram ao serviço e Katherine voltou aos seus pensamentos. Ela deveria ser forte, corajosa e muito fria, James não era ninguém para amedrontá-la. Sim, esse era o melhor pensamento no momento, embora não estivesse fazendo muita diferença.

Logo a maquiagem da marquesa foi concluída, seu rosto estava mais branco e vermelho que o normal, mas assim que deveria ser. Maria aproximou-se então com as joias que Lady Cottington havia pego: primeiro um colar de pérolas, depois brincos de safira e por fim o enfeite de cabelo...

— Tem certeza que você quer usar isso, Katherine?— Com uma aigrette na mão, enfeitada com safiras e penas de pavão, Lady Courteney perguntou preocupada.— O prendedor dessa aigrette parece levemente com uma lâmina, além de ser afiado também.

— Por isso mesmo que a escolhi, assim terei algo para me proteger.— Caso fosse necessário. Bravandale não seria tolo o suficiente para cometer o mesmo erro duas vezes.

As damas, e principalmente Lady Courteney, arfaram assustadas com a fria resposta da marquesa, parecia até... uma ameaça.

— Não fale assim, Katherine, por favor, parece até que você...

— Eu matarei o duque de Bravandale.— Encarando fixamente seu reflexo na penteadeira, a marquesa afirmou sem hesitar. Maria quase deixou cair a lâmina.— Caso ele tente fazer algo, não hesitarei em cometer um crime.

Isto é, se ela fosse mais rápida que James... não, sem esses pensamentos. Suspirando, Katherine sinalizou para a dama das vestes colocar logo a aigrette, o que Maria fez, embora tremendo muito a mão. Assim que ficou pronto, a marquesa desceu para a sala verde com suas cinco damas de companhia, sentou em seu lugar e começou a esperar pelo duque de Bravandale.

Assim como... daquela vez, a marquesa estava sozinha em Hampton Court. A marquesa viúva estava em Buckingham House, visitando a rainha, Wilhelm foi ver como estavam indo as obras em Oldenburg House e as crianças brincavam nos jardins do palácio. Katherine estava sozinha, apenas com suas damas, a Guarda Germânica e os criados da casa.

Mas ela não seria tola dessa vez. Katherine tomou precauções para evitar uma segunda tentativa de abuso. Suas damas estavam todas perto dela e Bess tinha consigo a sineta de aviso, bastava saber se isso seria o suficiente.

— Sua Alteza Sereníssima, estou muito grato pela chance que meu deu.— Após uma eternidade, ele chegou. A porta da sala foi fechada, não havia mais volta.— Eu...

Levantando a mão, Katherine sinalizou para o duque ficar calado. James obedeceu, apesar de mostrar muita ansiedade no rosto. Respirando fundo, a marquesa apontou para o sofá a frente dela.

— Sua Graça, deseja chá?— Bravandale ficou confuso com a pergunta de Katherine, com a frieza dela, mas assentiu. Então Lady Cottington começou a servir o chá.— Com pouco açúcar, não?

— Muito açúcar, na verdade.— Claro, ele e Christine tinham o mesmo gosto. Os olhos da marquesa encaravam o duque com apatia, deixando ele ainda mais desconfortável.— O que é isso, Katherine? Não acho que...

— Você não está em posição para dizer o que pensa ou deixa de pensar, Bravandale. Estou lhe dando uma chance única, então use-a com sabedoria.— Usando toda sua frieza e indiferença, ela cortou James.— Diga logo o que você deseja falar.

Claramente usando mal essa oportunidade, James ficou em silêncio, completamente calado. Talvez ele estivesse muito envergonhado para falar, ou com receio, mas... Katherine franziu o cenho, Bravandale estava pensando...

— A única coisa que quero é o seu perdão, Katherine. O que... Me arrependo terrivelmente das minhas ações, palavras e... fui um bruto selvagem.— Escondendo o rosto com as mãos, James falou cheio de arrependimento. O coração dela quase sentia pena.— Perdão! Eu não queria fazer aquilo, realmente não queria. Perdoe-me, Katherine! Por favor, traga paz a minha consciência!

Em seu lugar, o olhar da marquesa sobre Bravandale continuava impassível, até mesmo indiferente. Um sorrisinho irônico surgiu nos lábios dela.

— Pedir perdão é muito fácil, assim como muito facilmente eu poderia aceitar.— Encarando-a com expectativa, James mostrou que esperava uma resposta positiva. Ele estava enganado então.— Mas não farei isso. Eu não perdou sentindo ressentimentos.

Os olhos do duque arregalaram e, por um breve momento, houve raiva nas expressões dele.

— Mas, Katherine! Eu vim aqui humildemente...

— Você tem alguma ideia do que senti naquele momento, James? Sabe qual o tamanho do medo que senti? Você destruiu a amizade que tínhamos!— E ela ainda estava sendo cautelosa com as palavras.— James, você me bateu. Ninguém nunca ousou me bater! Mas você fez aquilo sem hesitação alguma!

— Eu sei e sinto muito, Katherine. Nunca mais...— Nunca mais? A marquesa riu seca, interrompendo ele.

— E quanto a Frederica? Ou aquela infeliz criada que você traumatizou? Será que elas também não merecem uma humilhação sua!?— Bravandale ficou calado. Ele não tinha coragem!? Katherine negou e riu irônica.— Não! Há uma coisa que desejo saber, James: Você acha realmente que merece o meu, o nosso, perdão!? Eu diria que NÃO!

Com toda certeza seria um não! A marquesa nunca iria perdoar o duque de Bravandale! James pensou um momento na resposta, mas logo voltou a encará-la com desespero.

— Eu não sei, Katherine!— Não sabia? Esses desespero na voz dele... ela negou com a cabeça.— Sei o que fiz, acredite em mim, mas foi por causa do álcool. Você sabe que eu nunca faria uma coisa daquelas em sã consciência.

Eles ficaram em silêncio, agora era a marquesa que estava pensando, o que fez James negar veemente.

— De você eu não duvido mais nada.— Todos esses anos mostraram isso. James continuou a negar.— Eu não vou perdoar você!

Se Bravandale queria paz, que ele virasse um monge católico e fosse morar em algum mosteiro, pois dela ele não ganharia nada! Inicialmente, James mostrou certo abalo, o rosto dele tremeu quase chorando, mas... acabou.

Pegando sua xícara de chá, o duque bebeu um gole e colou no rosto uma expressão mais calma. Katherine encarou Bravandale com suspeita, ele parecia até... entender? Tirando sua atenção do chá, James encarou fixamente a marquesa... muito fixamente.

— Seu enfeite de cabelo é muito bonito.— Automaticamente a princesa levou a mão a aigrette, por que dar atenção a isso?— Quem te deu? Wilhelm?

— A rainha viúva da Dinamarca enviou como presente de casamento.— O olhar dele era persistente... James teria percebido?

Rapidamente a marquesa trocou alguns olhares com suas amigas, compartilhando com elas a mesma dúvida. Bravandale não seria tão inteligente... sou seria? De qualquer forma, isso apenas aumentava a atenção dela, a qualquer ação alarmante de James, elas agiriam.

— Katherine, você sabe que eu te amo, não é?— Os olhos dela arregalaram com essas palavras. Por que relembrar disso agora?

— Eu não chamaria isso que você sente de amor, mas sim de uma terrível obsessão por mim.— Era nesses momentos que Katherine se arrependia de não ter matado esse "amor" mais cedo. Bravandale estava impassível.— Por que dessa pergunta desagradável?

— Você me ama? Ou pelo menos já pensou em me amar?— Ele estava sério, suas perguntas mostravam seriedade, mas... Katherine negou com a cabeça.

Eu nunca amei você, James. Nunca nem mesmo considerei essa possibilidade. Sempre fomos apenas amigos.— Nada, até o momento nenhuma resposta dele. Katherine tentou sorrir.— Talvez isso lhe machuque, mas eu jamais verei você com outros olhos, James. E agora, nem mesmo minha amizade você terá.

A resposta do duque foi o silêncio, mas... esse não era o mesmo silêncio de antes. Parecia uma barragem prestes a ceder! Os olhos de James encheram de raiva e nessa raiva ele levantou do sofá e gritou na direção dela:

— SE VOCÊ NÃO ME AMA, AMA QUEM ENTÃO!? AQUELE MALDITO DINAMARQUÊS!?— Esses gritos raivosos amedrontaram tanto ela, ao mesmo tempo que...

— Sim, James! Eu amo Wilhelm, amo como nunca vou amar você na vida!— Levantando do seu lugar, Katherine também aumentou tom. Ela sorriu desafiadora.— Vai fazer o que a respeito!? Matar alguém!?
Ele gritou, gritou com toda a raiva e frustração que sentia. Dando alguns passos assustados para trás, Katherine acabou caindo sentada no sofá, James parecia um louco raivoso! Em seu surto, o duque pegou a bandeja do chá e a jogou para o outro lado da sala. Era assustador! A marquesa encarou Bess, mandando ela tocar logo o sino.

Antes que qualquer ação fosse tomada, James agarrou a condessa Baster e tomou o sino dela, Bess tentou resistir, mas acabou ganhando um tapa por isso. Louisa até tentou ajudar a condessa, mas ele facilmente a jogou no chão. Respirando com dificuldade, Bravandale olhou para trás, para Katherine, e sorriu com os dentes para ela.

— Eu tentei, Katherine, juro que tentei conversar e entender, eu te dei uma chance, mas você a perdeu.— Mesmo estando no sofá, a princesa tentou afastar-se em desespero enquanto James vinha ameaçadoramente na direção dela.— Você vai ser MINHA, nem que para isso eu precise te matar!

A voz da marquesa morreu na sua garganta, ela não conseguia falar ou gritar, as lembranças daquele dia estavam voltando para assombrá-la, novamente Katherine estava numa posição de abuso. Como ela pôde ser tão tola e se colocar em perigo!?... Tudo passou como um sopro. As três damas restantes tentaram impedir o duque, apenas para logo em seguida serem empurradas e jogadas no chão como bonecas.

Quando deu-se por si, Katherine apontava sua afiada aigrette em direção ao peito de James. Suas mãos tremiam, ela tremia, mas estava pronta para machucar.

— Fique longe de mim, Bravandale! Ou vou arrancar o seu coração fora!— Não aguentando, ele riu e deu mais um ameaçado passo.— Você quer morrer!?

— Só depois de provar você e, — E? O duque olhou em volta e sorriu perverso. Katherine afastou-se para trás.— quem sabe, deixar uma semente plantada.

Os olhos de da marquesa arregalaram com tamanha asquerosidade... Praticamente pulando em cima dela, James arrancou a aigrette das mãos da marquesa e a jogou para longe. Katherine estava indefesa agora, era uma presa fácil e dominada! Agarrando-a, Bravandale deitou a princesa no sofá e...

— Eu te ODEIO, James!

Tentando usar suas últimas forças para resistir, Katherine gritou, chutou e até mesmo mordeu o duque, mas nada fez efeito! Parecia apenas dar mais desejo a James, que começou a tocá-la... Os gritos da marquesa aumentaram, ao mesmo tempo que começaram a se transformar em lágrimas... a resistência dela diminuía cada vez mais.

Katherine desligou-se do mundo e tentou entrar na prisão que era sua própria cabeça. Ela queria parar de sentir, pensar e lembrar, Katherine simplesmente queria sumir na terra, parar de...

— SEU MALDITO! COMO OUSA TOCAR NELA!?— Voltando a consciência, Katherine viu James sendo arrancado de cima dela. As portas... haviam sido arrombadas... Wilhelm!— EU VOU TE MATAR, DESGRAÇADO!

Prendendo a cabeça de Bravandale no braço, o príncipe, completamente tomado pela raiva, socava James. Wilhelm veio salvá-la... novamente Katherine voltou a chorar, o desespero do momento tomou conta dela. Mas... rapidamente a situação mudou e o príncipe que virou o "saco de pancadas" do duque.

Eles iriam se matar assim! Tomando coragem, Katherine levantou do sofá, correu até a porta e gritou com todas as suas forças:

— Guardas! Ajudem, por favor! Bravandale tentou me atacar!— Foi o suficiente, logo alguns guardas surgiram no corredor.

Estava na hora de ser a marquesa de Bristol e voltar ao controle.

*****

Chegando de Oldenburg House, a primeira ação de Wilhelm foi procurar Katherine e seus filhos. O dia não havia sido o mais feliz, por isso o príncipe desejava ter algum momento de calma e alegria com sua família. Mas assim que chegou no berçário, ele foi avisado que Lady Pembroke havia voltado para casa...

— Foi uma emergência. Mas o príncipe de Niedersieg e as outras crianças estão brincando nos jardins.— Uma das babás avisou ao príncipe, que ficou irritado com esse aviso. Grace não poderia fazer isso!

— E a marquesa, onde ela está?

— Recebendo uma visita, creio que seja o duque de Bravandale.— Agora uma real carranca surgiu no rosto de Wilhelm. Isso explicava a carruagem do lado de fora. A babá continuava sorrindo.— Meu príncipe deseja companhia?...

Nem mesmo esperando a mulher acabar, Wilhelm deu as costas e saiu do berçário. O príncipe iria brincar com Richard, Anne e Robert nos jardins, na sala de visitas ele não iria nem mesmo pisar. Bravandale era tão... A obsessão daquele homem por Katherine era tão terrível que chegava a ser impressionante. Como ela conseguia aguentá-lo? Talvez nem Katherine suportasse o duque, a julgar pelo afastamento deles.

Mas... Hampton Court estava tão silencioso hoje. Descendo a escadaria, Wilhelm percebeu que o único barulho alto eram seus passos nos degraus. Isso chegava a ser estranho, era muito estranho, parecia até que algo de errado estava acontecendo... a marquesa viúva não estava em casa, as crianças brincavam nos jardins e os criados, sempre extremamente imperceptíveis, haviam sumido. E quanto a...

— Welpe! Welpe!? Você está aqui, garoto!?— Nada, apenas silêncio. Talvez o cachorro estivesse brincando com as crianças.— Odeio esse silêncio. Parece até que todos foram embora e apenas eu, em meio a esse grande silêncio, que... sobrei...

Talvez exatamente por conta desse silêncio, quando chegou no hall, Wilhelm escutou um barulho de algo sendo quebrado, e não parecia ter sido um criado derrubando algo sem querer, mas sim... foi alto, estridente e... veio do corredor onde ficava a sala verde. O príncipe foi então na direção da sala, buscando saber o que foi aquilo, mas no meio do caminho ele foi parado por gritos altos e desesperados... Katherine!

O sentimento do perigo chegando tomou conta do príncipe, que correu para a porta da sala, afim de saber o que estava acontecendo. Bravandale teria coragem de...? Percebendo que a porta estava trancada, Wilhelm bateu fortemente e quando não houve resposta, ele gritou:

— O que está acontecendo aí dentro!?— Sem resposta alguma. O príncipe bateu com mais força ainda.— Bravandale! Abra essa merda agora! Eu estou ordenando, abra! Katherine!

Gritos... alguém estava gritando desesperadamente dentro dessa sala... os olhos de Wilhelm arregalaram percebendo de quem eram esses gritos. Katherine! O que o maldito dumm estava fazendo com ela? O príncipe bateu novamente da porta, praticamente socou ela, mas nada. O desespero tomou conta de Wilhelm, então ele afastou-se e jogou fortemente seu corpo contra a porta, na tentativa de abri-la, não uma ou duas vezes, mas sim quatro! Nada aconteceu.

Os gritos de Katherine não paravam, aumentando ainda mais o pânico do príncipe.

— Abra essa merda, Bravandale! EU MATO VOCÊ!— Quase chorando, Wilhelm apoiou sua cabeça na porta e tentou acalmar seu desespero.— Meus ombros doem. Que tipo de marido eu sou? Não consigo nem... arrombar uma porta... Amaldiçoado.

Certa vez, a muito tempo atrás, Wilhelm recusou-se a descer para comprimentar o príncipe herdeiro, então o príncipe Carl, cheio de raiva, arrombou a porta do filho mais jovem... o beberão havia usado os... Oh Deus, essa dor seria por Katherine!

Afastando-se, Wilhelm fechou os olhos e chutou a porta da sala verde com toda a força que possuía, não foi o suficiente, então ele chutou novamente, e nada. Os gritos da marquesa então pararam, e um risada foi ouvida... Bravandale! Wilhelm chutou a porta uma terceira vez e ela abriu... O príncipe quase caiu para trás com o que viu: as damas de companhia caidas, cacos de porcelana jogados no chão e...

— Sim, meu amor, não chore e nem grite mais. Seja minha.— Bravandale... estava agarrando Katherine, tocando onde não deveria e... ele a beijou!— Seja minha...

Nesse momento Wilhelm perdeu a razão, a raiva tomou de conta dele. Como Bravandale ousava!? Estava abusando de uma inerte Katherine!

— SEU MALDITO! COMO OUSA TOCAR NELA!?— Numa velocidade impressionante, Wilhelm arrancou Bravandale de cima dela e deu um forte soco no rosto dele.— EU VOU TE MATAR, DESGRAÇADO!

Dominado pela raiva, Wilhelm prendeu o pescoço de James entre seus braços e começou a socá-lo com fúria. Bravandale merecia morrer! Ele estava machucando Katherine, abusando dela. Um homem desses merecia a pior das mortes!

— Maldito... maldito dinamarquês!— Quem era o maldito!? O aperto do príncipe aumentou com as ofensas do duque.— Alemão... sujo... ALEMÃO!

Bravandale ainda era mais forte. Soltando-se de Wilhelm, o duque rapidamente revidou os ataques, os dois homens acabaram no chão brigando e... quando deu-se por si, Wilhelm que estava sendo enforcado por James, estava sendo realmente enforcado pelo duque!

— Desgraçado!... vou matar você!— Justiça! Wilhelm queria apenas justiça pela esposa.

— Guardas! Ajudem, por favor! Bravandale tentou me atacar!— Com esse chamado, guardas entraram na sala e logo apartaram os dois homens.

— Soltem-me! Bravandale não sairá impune disso!— Sendo segurado por dois guardas, o príncipe tentou furiosamente avança contra James, que ria provocador.— VOU ARRANCAR O SEU PAU!

— Estou pagando para ver... mein Prinz.— O dumm desgraçado respondeu provocador.

Essa coisa não deveria viver no mundo! Debatendo-se, Wilhelm tentou se soltar. Ele queria matar Bravandale, castigá-lo pelo crime cometido! Justiça!

— Já chega desse espetáculo, Wilhelm. A vida desse homem termina hoje.— Ouvindo a voz da esposa, Wilhelm a procurou e... haviam marcas vermelhas no pescoço de Katherine ... a bainha do vestido dela estava rasgada.— Levem esse homem de volta a Bravandale House.

Simplesmente levá-lo para casa? Novamente o príncipe tentou avançar contra o criminoso.

— Não! Esse desgraçado merece morrer!— Em sua raiva, Wilhelm encarou a plácida Katherine e depois James.— Eu exijo JUSTIÇA! Escolha a hora e o local, um de nós não sairá vivo dessa história, Bravandale!

O sorriso provocador do duque mudou, tornou-se... desdém! Um duelo, ele estava desafiando Bravandale para um duelo e o príncipe iria vencer, era uma questão de honra!

— Não seja um idiota, Wilhelm!— Como Katherine poderia dizer isso!? Encarando a esposa, ele negou veementemente, mas ela não deu atenção.— Guardas, tranquem o príncipe no quarto dele e levem Bravandale para casa.

Não! Não poderia ser assim! Katherine merecia justiça! Bravandale não poderia sair livre! Apesar de todos os seus protestos, Wilhelm foi trancado sozinho em seus aposentos. Ele gritou, ameaçou e até mesmo procurou abrir as janelas, mas nada deu liberdade ao príncipe, nem mesmo a porta de conexão com o quarto da marquesa estava aberta. Tudo estava fechado, como se tivesse sido premeditado!

No final, ele apenas deitou na cama e gritou raivosamente até cansar e pegar no sono... Por quanto tempo ele dormiu? Era impossível saber, mas o sol, que antes reinava supremo, agora dividia momentaneamente seu lugar com a lua. Assim que acordou, Wilhelm escutou o barulho da porta sendo aberta, então ele levantou e encarou desafiadoramente.

Foi Katherine que entrou, calada, fria e não muito feliz, pois eram dois agora. O cabelo dela havia sido arrumado e seu vestido foi trocado, mas os hematomas continuavam nela. Essa visão apenas deixava Wilhelm mais irritado.

— Por quê? Diga-me, Katherine, por que você não deixou eu fazer justiça?— Mas, apesar de sua raiva, ele ainda falou preocupado. Ela negou.

— Você realmente acha que isso daria certo, Wilhelm? Achou realmente que iria vencer o melhor atirador?— Ninguém acertava sempre. O príncipe assentiu com firmeza.— Você iria morrer! Foi muito tolo da sua parte, Wilhelm. Extremamente tolo.

Ela negava, reclamava e criticava, mas isso não servia para nada, apenas irritava mais ainda Wilhelm.

— E o que você queria, Katherine!? Que eu deixasse ele livre!?— Julgando pela falta de resposta dela, era isso mesmo. O príncipe riu irônico.— Deixasse ele exatamente como está agora?

— Todas aquelas ameaças foram desnecessárias, Wilhelm! Não resolveram nada.

— Eu estava salvando você! Salvando a sua honra, quem sabe o que...— As palavras morreram na boca de Wilhelm. Só de pensar nessa possibilidade... ele sentia raiva.— Fiquei tão preocupado com você.

— E eu agradeço, faço isso de todo o coração.— Mesmo? Não parecia. Wilhelm negou as palavras dela.— Saiba que eu mesma tomei as providências necessárias.

Tomou? E o que ela poderia fazer!? Wilhelm riu irônico. Estupro era um crime, isso era verdade, mas não existia justiça para esse crime. Ninguém era condenado ou preso por isso. Katherine era uma princesa, muito bem, mas Bravandale era homem. O melhor seria matar aquela praga!

— Mandou prendê-lo? Ou até mesmo denunciou?

— Levantando em consideração que essa não é a primeira vez, eu poderia até mesmo mandar enforcá-lo.— Houveram outras vezes!? Essa nova informação veio como uma avalanche sobre ele.— Mas não foi isso que...

— Então diga-me por que deixar aquele monstro entrar novamente!?— Não deveria nem haver explicação...

— Não importa isso. O importante é que James deixará de ser um problema para nós. Ele irá embora, para muito longe de nós, todos nós.— Como imaginado. Mas... Bravandale seria executado?— James irá para o Caribe, mais especificamente as Ilhas Leeward. O duque servirá como vice-governador em Antígua. Lá ele não poderá fazer mal a ninguém.

Não era uma execução, mas praticamente uma viagem para a morte. No Caribe haviam doenças, sujeira, animais perigosos e... nativos, mesmo assim... vice-governador? Negando com a cabeça, Wilhelm deu as costas a Katherine. Bravandale ainda estaria numa posição privilegiada.

— E caso aconteça dele abrir a boca? O que você fará?

— Irei mandar matá-lo.— Fria e certa, a voz de Katherine não mostrava dúvida alguma. Eles ficaram em silêncio por um momento, até que ela suspirou.— Agora acho que vou descansar, esse... foi o pior dia da minha vida.

— E dificilmente será superado.— Apenas isso... Wilhelm suspirou.— Descanse em paz.

Não houve uma resposta, o príncipe simplesmente escutou os passos dela afastando-se dele. Wilhelm queria tanto pensar sozinho, o que aconteceu hoje foi...

— Mais uma coisa. Eu fui em St. James fazer uma petição ao rei,— Antes de sair, Katherine ainda tentou falar.— e ele fará de você um duque, Wilhelm. Você será duque de Kendal.

Que ótimo! Um ducado que traria apenas mais problemas. Mas essa era a menor das preocupações de Wilhelm no momento. Ele tinha que controlar a própria raiva.

Notas finais
* Vou começar dizendo que esse foi um capítulo muito difícil de escrever, no sentido de ser angustiante. Pensar e imaginar a cena e os sentimentos de Katherine não foi nada fácil. * Na época de Katherine, até pouco tempo atrás na verdade, crimes como o retratado aqui não eram puníveis. As leis existentes eram fracas, principalmente num mundo governado por homens. A justiça de Katherine foi "fraca", mas hoje as vítimas de violência sexual podem ter justiça de verdade. Qualquer um, independente do sexo e orientação sexual, que sofrer qualquer tipo de violência, deve denunciar. Dar valor à justiça que muitos não tiveram, e não tem. * Um assunto mais "ameno": as maquiagens nos séculos passados realmente tinham componentes perigosos a saúde, o mais famoso sendo mercúrio. Mas é interessante notar que as maquiagens não eram usadas em excesso, caso o contrário, por que as mulheres continuariam a estragar o rosto por séculos? Não era exatamente um exagero como alguns filmes retratam. No passado eles não sabiam o que sabemos hoje, mas isso não significa que eram "burros". * "Um de nós não sairá vivo dessa história, Bravandale!" Devo dizer que isso é uma promessa. * La Belle Anglaise no Pinterest: https://pin.it/4cHsZ6c