Laços do Inverno
3 Capítulo 3 – Laços com os Mortos
Capítulo 3 – Laços com os Mortos
Havia vozes perto de mim, sussurrando naquele escuro com neve. Não conseguia entendê-las com clareza, minha mente parecia vagar para longe dali. Bombardeio. Morte. Menina. No meio daquela ponte destruída, os pedaços de concreto por todos os lados e eles ali, conversando casualmente. Como se nada havia acontecido, como se eu nem machucada estava. Parecia que eu não teria salvação tão cedo. Eu ainda podia sentir o sangue escorrendo por um corte em minha testa e várias dores por todo o meu corpo. Mas eles agiam como se nada tivesse acontecido.
Então falavam de mim.
Abri apenas um olho, aquele olho, e ergui o rosto para encontrar dois homens próximos a mim. Era um hábito, apenas um olho. Dois homens, o mais próximo encontrava-se ajoelhado em minha frente. Seus cabelos castanhos apontados para todos os lados, os óculos de armadura simples em seu rosto. Aqueles penetrantes, castanhos. Lindos olhos por trás daqueles óculos.
Eu podia muito bem ver o ferimento em seu coração, uma faca ali cravada e o sangue seco que escorria lentamente, mas era sangue negro.
O outro, o mais distante. Um sorriso em seus lábios, não era tão simpático quanto aquele em minha frente, mas ele tinha seu charme. Cabelos prateados, quase brancos, olhos escuros como a noite que a poeira escondia. Mas eu sabia que ele estava me olhando. Por detrás daquela poeira toda, eu podia sentir seus olhos fixos em mim. Era incômodo. Sua garganta cortada, mas sua cabeça se mantinha fixa no mesmo lugar. Ele apenas me assustava.
Eu encarei aquele de cabelos castanhos. Ele era tão familiar, parecia familiar, mas aqueles fios castanhos não. Estiquei a minha mão de criança até encostá-la em seu rosto, o meu indicador em seu nariz, cutucando-o levemente.
- Você parece o papai... Estou feliz. – sorri, fui obrigada a abrir o meu outro olho. O meu olho azul, então eu não os enxergava tão bem mais. Apenas difusões na neve, no concreto, na poeira.
Somente o meu vermelho me permite enxergar. Enxergar pessoas mortas. Isso se tornou óbvio quando, meses depois da notícia da morte do papai, eu o vi em casa, no meu quarto, sentado na beirada de minha cama. E sorria docemente para mim. À noite, ele sempre ficava na beirada de minha cama, observando meu sono. Eu não poderia contar nada à mamãe. Parece que ela nunca me amou tanto quanto o papai.
Isso confirma-se pelo fato de eu estar numa ponte destruída numa cidade bombardeada no meio da noite. E pelo visto algo bateu em minha cabeça, sinto o sangue cobrir meu olho vermelho. Sangue no vermelho. Sangue no sangue.
Fui obrigada a fechar o azul, eu queria enxergar perfeitamente aquele parecido com o papai.
E ele apenas me encarava com um olhar curioso em seus castanhos penetrantes. O outro, o de prateados, continuava com seus orbes fixos em mim, o sorriso já não era tanto. Uma ruga de surpresa em sua testa, e então eles os fechou, escondendo de mim tais olhos penetrantes. Eu não os queria ver, certeza que sob aqueles olhos eu estaria nua e crua. Mas aqueles castanhos me pareciam ternos, acolhedores, acolhedores de aberrações, de uma aberração que eu sou. Meu dom e minha maldição.
- Você pode me ver, pequena? – o papai me perguntou, acariciou de leve meus fios rubros.
Um sorriso em meus lábios. Felicidade, ele era o papai em uma nova forma, não? Tão parecido com ele, tão similar. Eu quero que ele seja o papai. Quero estar com ele. Quero fazer como fazia com papai, dormir nos braços dele, na mesma cama enquanto me contava aquelas histórias.
- Papai... Eu o vejo muito bem. Este vermelho me permite ver mortos. – indiquei o olho, limpando no caminho o sangue em meu rosto com a manga do casaco rasgado e esburacado. Tremi, o frio ainda não me deixava, por mais que a sua presença ali fosse acolhedora e quente. O frio não quer me deixar. Ele já faz parte de mim?
Ele olhou para o companheiro, um aceno deles e então voltou a dirigir-se à mim.
Seus castanhos me encaravam docemente, tão diferente do frio mortal que me encaravam aqueles azuis oceânicos de mamãe. Minha mamãe, a mulher que me matou pela primeira vez. A primeira morte ninguém esquece. Eu tenho certeza que nunca esquecerei o dia em que o meu papai voltou para mim em outro corpo. Certeza.
- Cresça, pense em mim, morra e então me procure. Estarei te esperando, nesse mundo, ou em qualquer outro mundo, eu apenas estarei esperando por você, minha querida. – sorria ao se aproximar e me envolver em seu casaco, fantasmagórico quando pousou em meus ombros, e então ele se realizou. O casaco estava em meus ombros e não havia mais frio algum em mim. Depositou um leve beijo em minha testa fria.
Um presente dos mortos se torna um presente real para os vivos, foi apenas o que concluí. Aquele casaco em mim.
Lhe segurei a mão máscula, puxando-o levemente, olhou-me curiosamente, e então seus lábios imitaram um breve fino sorriso. Envolvi-lhe os braços ao redor do pescoço e o abracei fortemente. Ele era tão morto para meu vermelho, mas tão vivo para o meu azul. Seu corpo quente em contraste com o meu frio. Eu quero sentir calor! Eu quero ter vida novamente. Não posso ser beijada pelas sombras. Eu preciso viver, como ele disse, e então morrer, e voltar para ele.
- Me ame... Porque eu te amo. – sussurrei, o sono estava vindo, mas havia o calor. Então eu não morreria tão logo.
Eu não morreria tão logo aqueles braços me deixassem. Sorri alegremente e o apertei ainda mais, podia sentir a breve retribuição. Havia apenas o meu amor ali, não o amor dele, mas um dia, o meu papai me amaria novamente. Eu sei que ele me amará um dia.
Ele me amará porque eu o amo.
Eu adormeci no calor daquele abraço.
A morte não veio mais para mim naquela noite em que morri pela primeira vez.
Eu acho que a morte espera um pouco, depois que nos mata.
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