Laços do Inverno
2 Capítulo 2 - O Fim de um Laço no Inverno
Capítulo 2 – O Fim de um Laço no Inverno
Janeiro, 1945.
Mamãe me olhou de cima a baixo naquele quarto em que eu ocupava. Isto é apenas uma memória fragmentada, temo não lembrar mais, ou não temo, é bom porque dói. Seus lábios eram vermelhos, seu rosto levemente corado pela neve que caía lá fora. Maquiagem em seus olhos, olhos que me encaravam friamente. Olhos azuis, bonitos, da cor do céu em julho. Escárnio em seu olhar.
Ela sempre me olhava com essa emoção fria. Fria como a neve que caia aos montes lá fora. Eu nunca entendi, e acho que talvez nunca entenderei. Mas machuca de qualquer modo. Dói no fundo de meu ser ter tais belos azuis tão frios em mim. Mamãe me machuca toda vez que me encara.
Jogou em minha direção o casaco negro e o cachecol verde.
- Vista-os, vamos sair. – foi o que ela me disse antes de bater a porta atrás de si.
Meus pequenos braços foram cobertos por aquele casaco negro, buracos em todos os lugares, pois era velho e era meu único casaco. Às vezes ela acendia aquele cigarro, fumava e o apagava em mim, como se eu fosse o seu cinzeiro. Tenho até algumas queimaduras neste corpinho de criança. Mas não me importa, o amor dela é tão desigual, incomum, e ainda é amor, e isso já me basta. Pois papai não está mais aqui.
Envolvi aquele cachecol com cheiro de cigarro e bebida em meu pescoço, nevava lá fora de minha janela. Meu pijama de flanela, que estava por debaixo daquele casaco, não seria páreo para o frio. Pus-me de frente ao espelho, a escova em minha mão e pronta para escovar meus cabelos ruivos. Aquela franjinha que me caia nos olhos, meus olhos tão individualmente diferentes. Os cílios. Os lábios. As sobrancelhas.
Sorri para minha própria imagem e me vi como uma pequena criança que cresceu onde não devia crescer.
Me vi como a menina que foi abandonada pelo pai morto.
Me vi uma criança solitária, sem amigos, sem amor.
Me vi eu mesma.
Um sorriso em meus lábios e eu saí com aquela que chamava de mãe.
Era alguma hora da madrugada, ela havia me dito para esperá-la nesta ponte sobre um negro rio congelado. Havia poucas luzes na rua, quase nada me iluminava ali, naquela escuridão. A neve caia aos montes, os flocos de neve, cada um perto de mim, me faziam tremer. O frio que me envolvia, abraçava. Belo frio característico da morte.
Eu sabia, o frio da morte estava em mim, envolvia-me aos poucos, matando-me aos poucos. A morte estava ali, pronta para me levar. Minha pequena idade me dizia isso, o frio me dizia aos poucos que ele iria me matar.
Eu estaria fardada a morrer no frio e na solidão.
Certeza que morrerei sozinha, pois mais triste que isso seja.
Eu me encostei-me à madeira gelada, esperando que, ao menos, ela estivesse mais quente que eu. Mas ela não estava, nada naquela madrugada estava mais quente que eu. Nada. O gelo caia e me matava aos poucos, o vento me cortava a face. Um leve corte e o meu sangue escorreu. Mas eu não queria chorar, então apenas me sentei naquela neve e esperei.
Esperei o frio me abandonar, esperei aquela mulher que chamo de mãe aparecer. Mas o frio não passava, não ia embora. O frio não quis partir, ele se alojou em mim, no meu mais íntimo, mais profundo, pedaço. E ela não veio. Ninguém veio me buscar. E quando o primeiro sinal de bombardeio atingiu a cidade, meu choro de criança apareceu.
Não sei dizer ao certo quantas bombas caíram ali. Havia fumaça por todos os lados, aquela fumaça dos prédios atingidos, concreto. Fumaça que invadia meus pulmões com força, muito mais desagradável que a fumaça que aquela mulher tragava com o cigarro. Uma bomba perto dali, num prédio próximo à ponte. Aqueles pedaços, grandes e pequenos voando em todas as direções.
Um me atingiu.
O meu grito infantil de dor, minha cabeça doendo e doendo. Não havia um’alma viva ali. Ninguém salvaria uma criança de um bombardeio. Pois eu sou apenas uma criança. Somente uma criança. Não tenho valor para minha Pátria. Para o Führer, nem para mais ninguém. O sangue me escorreu a face, manchava aquele meu olho especial. E então meus olhos se fecharam.
Certeza de que morreria sozinha naquele frio de arrancar a dor. Eu bem sabia que poderia estar morta a qualquer minuto, a qualquer momento. E mamãe me abandonara por nada. Ela me deixara para a morte. Pois nada mais sou do que a maldição dela. Benditos os dias que passará sem mim ao lado.
Meu dom, a minha maldição.
Ninguém quer uma maldição.
Em suma, ninguém me quer.
Por isso morro sozinha nesta neve e neste sangue.
Eu acho que morri.
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