—Devíamos ir falar com ela? — Chris indagou após ouvir Charlotte começar a tocar pela segunda vez a música Moral of the Story no piano em seu escritório.

—Eu não sei. Ela não parece querer conversar com ninguém. — James respondeu. — Nick, talvez você devesse… —

—Não. — interrompeu o Garcia. — Ela merece ficar um tempo sozinha. Assim como o Caspian. O que significa que minha conversa com ele vai ter que esperar. — suspirou, pegando a garrafa de whisky das mãos de Christian que reclamou.

—Mas você iria conversar como amigo ou como o irmão protegendo a honra da irmã? —

—A Chuck não precisa de proteção, acredite. — respondeu após um generoso gole da bebida.

—Tem alguém no escritório. — Christian falou, fazendo os dois se calarem.

—Oi, Maddie. Eu te acordei? — os três ouviram a ruiva falar ao parar de tocar, a voz embargada causada pelo choro.

—Ok, chega de ouvir atrás da porta. — James advertiu, jogando uma almofada no irmão.

—Concordo. Estou indo para meu quarto. — Nicholas avisou, devolvendo a garrafa ao Garcia mais velho e saindo do quarto.

—Vocês são muito caretas. — Christian resmungou, mas parou de ouvir as conversas de Charlotte.

—Eu acordei com os gritos, na verdade. — a loira respondeu. — A conversa foi feia, pelo visto. — disse, sentando ao lado da ruiva no banco em frente ao piano de cauda branco.

—Eu não chamaria exatamente de feia. Rolou uns gritos e alguns xingamentos da minha parte, mas foi uma boa conversa. — sorriu.

—E esses olhos inchados de tanto chorar foi por que a conversa foi boa? — arqueou a sobrancelha.

—É, são lágrimas de felicidade, raiva, decepção e… mágoa. Toda dor, Maddie, todo sofrimento que eu passei durante esses 300 anos… poderia ter sido evitado se ele tivesse me contado. Nem ele teria sofrido durante todo esse tempo acreditando que eu estava morta! — bateu nos teclas do piano, fazendo Madeline fechar os olhos rapidamente pelo barulho. — E ainda tem aquela bruxa miserável! Tudo é culpa dela. —

—Não pode pensar só no lado negativo, Charlie. Tem que procurar olhar pelo outro lado. — falou, segurando a mão da amiga e acariciando levemente seus dedos. — Você construiu uma vida incrível. Tem uma casa incrível, propriedades espalhadas pelo mundo, fez amigos, se tornou conselheira da prefeita. O Caspian poderia ter visto essa vida incrível que você construiu e ter optado por não te atrapalhar e deixar você vivendo sua vida mesmo achando que ele estava morto. Poucos são aqueles que têm coragem de enfrentar a esposa morta que na verdade estava viva. Principalmente se essa esposa fosse você. —

—Isso foi um insulto? — arqueou a sobrancelha, fazendo Madeline tombar a cabeça para o lado.

—Charlie, seu temperamento é meio explosivo, convenhamos. Eu fiquei surpresa por não ter ouvido você quebrar as coisas da casa. — sorriu, vendo a ruiva revirar os olhos e voltar a tocar em seu piano. — Essa não é a canção de ninar da Bella em Crepúsculo? —

—Prefere que eu toque Moral of the Story pela terceira vez? — perguntou, vendo a amiga balançar a cabeça negativamente rindo. — E o Dylan? —

—Está dormindo. Apenas eu acordei com a gritaria toda. —

—Desculpa. —

—Charlie, a casa é sua. Não tem que me pedir desculpas. E a situação, bem… não é nada fácil ter uma conversa daquelas e se manter calma. —

—E como você está? —

—Melhor. Tudo que você e o Dylan fizeram por mim me ajudou bastante, sério mesmo. E teve o jantar que James e Nick preparou para mim. Até o Christian fez uma carinha feliz com a comida. — sorriu. — E eu tenho que agradecer ao Caspian por ter evitado o pior. Aliás… como o Hardin ficou após sua visita? — perguntou, abaixando o olhar para as mãos em seu colo.

—Uma perna quebrada, o rosto parecendo que foi arranhado por um gato raivoso e logo após picado por um enxame de abelhas… e cortes pelo corpo causado pela mesinha de vidro quebrada. — respondeu, sem parar de tocar a música mesmo com o olhar incrédulo da loira ao seu lado. — Também joguei ele da escada para dar mais veracidade a história que ele contará para todos que perguntarem o que aconteceu. —

—Ele por acaso ainda está vivo? —

—Quando eu saí da casa dele ainda estava respirando. — sorriu. — Agora por que você não volta para o quarto e tenta dormir? Prometo que não vou mais gritar. A não ser que alguém me ofereça sexo, é claro. —

—Pelo amor de Deus. — resmungou, levantando e saindo do escritório.

***

Madeline conseguiu dormir por mais algumas horas antes de acordar, tomar um banho e vestir a roupa que Dylan deixou sobre a cama para ela quando acordou. Desceu e tomou café com os demais, mas ninguém perguntou sobre a traumática noite anterior ou citou a conversa de Charlotte e Caspian durante a madrugada.

A duquesa, mesmo não tendo dormido nem por um minuto, estava radiante. Nem parecia que a algumas horas atrás tinha gritado com o marido e chorado logo depois por um bom tempo. Caspian não tinha descido para tomar café junto com os demais, mesmo com a própria Charlie tendo gritado da cozinha que poderia se juntar a eles sem nenhum problema.

—Eu preciso ir falar com a prefeita. — a ruiva falou assim que terminou de secar uma bolsa de sangue. — Quer aproveitar a carona até sua casa, Mad Max? —

—Claro. — sorriu, terminando de comer seu último pedaço de panqueca e levantando.

—Charlie, a conversa com a prefeita não pode esperar? Pela falta do Caspian na hora do café, parece que vocês conversaram e eu estou curioso. — Dylan falou, fazendo com que Madeline o repreendesse.

—Ah, Dylan, é só perguntar aos três fofoqueiros aqui. Eles ouviram a conversa do início ao fim. — disse, mexendo em seu celular.

—Nós não estávamos… — James tentou mentir, mas a ruiva o interrompeu.

—Dava para ouvir a reação de vocês. A risada empolgada e comentários sarcásticos do Christian quando eu saí gritando pela casa, o Nick xingando o Caspian e a governanta do castelo e você, James, dizendo que era errado estarem ouvindo a conversa dos outros, mas continuando a xeretar minha vida. — sorriu, baixando o celular e encarando os três que tinham uma expressão frustrada nos rostos por terem sido pegos. — Sem contar que vocês não fizeram nenhuma pergunta, principalmente o Christian. O que só podia significar que vocês tinham alguma ideia pelo que eu estava passando e que precisava de um tempo. —

—Eu disse que não era para a gente ficar ouvindo atrás da porta. — o Garcia mais velho falou, dando de ombros e recebendo um tapa na nuca do irmão.

—Você foi o primeiro a começar a ouvir a conversa, ok? —

—Mas não se preocupem. Eu não estou com raiva por terem ouvido atrás da porta. — a ruiva deu de ombros. — Eu nem pretendia mandar vocês nos deixarem sozinhos, porque, bem, vocês iriam querer saber como o Caspian ressurgiu dos mortos e eu não iria ter paciência para contar tudo de novo. Enfim, vamos, Maddie? —

—Vamos. —

As duas saíram de casa deixando os rapazes sozinho e logo os três começaram a contar sobre a conversa e gritaria que rolou durante a madrugada. James tentava contar tudo direito para que o caçador não se perdesse na história, mas sempre era interrompido pelos comentários sarcásticos do irmão.

Já Nicholas aproveitou o momento para subir as escadas e ir até o quarto em que Caspian estava.

—Nicholas. — disse, deixando o livro que tinha pego na estante do quarto de lado e sentando na cama. — Imaginei que você viria conversar comigo uma hora ou outra. —

—Eu só vim dizer duas coisas, Caspian. — falou firme, vendo o duque assentir. — A primeira é que eu sinto e sempre vou sentir uma certa raiva de você por não ter contado aquele detalhe crucial da sua transformação para a Chuck. O tanto que ela sofreu por causa da sua morte não foi brincadeira e sem contar que ela era uma recém transformada o que significa que todas as emoções dela foram ampliadas e isso só dificultou as coisas. —

—Eu sei. Quero dizer, não consigo nem imaginar por tudo que ela teve que passar nos primeiros anos como vampira. — disse, baixando o olhar para suas mãos por um momento. — Nunca tínhamos conversado a respeito de uma possível transformação dela, mas se fosse para acontecer, eu queria estar do lado dela, a ajudando em tudo. E saber que a minha "morte" dificultou tudo para ela só me faz ter mais raiva de mim mesmo por não ter contado toda a história da minha transformação para ela. — confessou, erguendo o olhar para o híbrido.

—E é bom mesmo ter conhecimento dessa sua mancada, porque você errou e feio nessa parte, amigo. A Chuck não merecia passar por tudo que passou por conta de uma história mal contada. — falou, enfiando as mãos nos bolsos da calça. — E a segunda… a segunda coisa é que é muito bom saber que você está vivo. A Chuck perdeu o marido e eu o meu amigo, mas por causa dela eu nunca contei o quão abalado eu fiquei com a sua morte. Eu precisava me manter firme para poder ajudá-la. Então… ter você aqui, vivo e bem, me deixa feliz. É bom ter meu amigo de volta. — declarou com um sorriso.

Caspian também sorriu, aliviado, e levantou, abraçando o amigo. O sorriso logo se tornou uma risada e depois de três séculos inteiros, ele estava genuinamente feliz. Mesmo sem ter a certeza do que passava na cabeça de Charlotte, o simples fato de estar novamente ao lado dela já o deixava feliz.

—É bom ter você de volta também, meu amigo. Eu rodei o mundo todo atrás de você, mas você soube esconder seus rastros tão bem que eu já não sabia mais o que fazer. — afastou-se dele.

—Como a Chuck disse: precaução. Nunca se sabe quando algum inimigo vai vir atrás de vingança. — falou rindo. — Quero dizer, a gente limpou todos os nossos rastros e ainda sim a Amber sabe tudo sobre nós, principalmente da Charlotte. —

—Ah, sim. Você tem que me contar mais a respeito da Amber. Pesquei algumas informações nesses dias, mas ainda estou perdido nessa história toda. —

—E eu vou contar, mas antes você tem que me prometer que vai dar um jeito de descobrir como desfazer o feitiço de ligação entre você e a bruxinha. — disse sério. — Se tem algo que a Chuck ama mais do que a própria vida e as botas dela são os amigos e aquela bruxinha então… você não vai querer entrar em uma briga com a Charlie por causa da bruxinha, acredite. —

—Não se preocupe. Eu irei dar um jeito de falar com a minha mãe. Onde quer que ela esteja. — garantiu.

—Isso é ótimo. Agora a Amber. Para isso temos que voltar para o dia da sua morte que não foi sua morte de verdade. — disse, sentando na poltrona que tinha no quarto.

—Algo me diz que será uma história emocionante. — murmurou, sentando-se na cama.

***

—É claro que você pode tirar uns dias de folga da organização do baile, Charlie. — Lucy sorriu enquanto assinava alguns papéis no gabinete da prefeitura. — Você já escolheu uma orquestra e só iremos precisar de você um dia antes do baile para checar se está tudo certo. Planeja viajar? —

—Não. Eu só quero sair da cidade por um tempo. — respondeu, suspirando. — Surgiu uns dramas do meu passado envolvendo aquele cara que foi o pivô da minha briga com a Amber e… eu só preciso de espaço, entende? —

—Perfeitamente, querida. Sabe que se precisar estarei aqui, não sabe? — sorriu de uma forma acolhedora.

—Eu sei, Lucy, e agradeço muito por isso. — sorriu de volta.

Charlotte levantou da sua cadeira e foi até o lado de Lucy, depositando um beijo em seu rosto e saindo do gabinete. Enquanto caminhava até seu carro, seu celular começou a tocar e praguejou achando que seria algum dos meninos querendo saber se ela ainda estava viva e bem.

Sorriu aliviada ao ver o nome de Caleb no identificador de chamada.

—Hey, lobito. —

—E aí, minha ruivinha favorita. Como estão as coisas por aí? Amber matou alguém enquanto eu estive fora? —

—Não, mas isso não quer dizer que ontem foi um mar de rosas. — suspirou, entrando no seu Corvette.

—Como assim? O que aconteceu? —

Charlie pressionou os lábios, encarando seu reflexo no retrovisor do carro e sorrindo.

—Por acaso você ainda está em New York com sua mãe? —

—Estou, por quê? — indagou confuso.

—Estou indo para aí, me manda a localização por mensagem. —

—O quê? Charlie, você não pode simplesmente vir para New York com a Amber atrás de você. Ou pode? —

—Não só posso como já estou saindo da cidade. Quando chegar te conto tudo que aconteceu com detalhes. Acho bom escolher algumas garrafas de whisky, porque a história é… emocionante e cheia de surpresas. —

—Devo preparar pipoca também? —

—Se me arranjar um lanchinho… —

—Ah, isso não vai ser problema. Arranjo uma mulher rapidinho. —

—Claro que arranja. — revirou os olhos. — Chego aí no final da tarde. — avisou, encerrando a ligação e dando a partida no carro.

Seu celular começou a tocar quando ela estava próximo a saída da cidade. O nome de Christian no visor fez ela suspirar antes de pegar seus óculos escuros e colocar no rosto. Ela ligou o rádio e aumentou o volume, deixando o celular tocar.

Notas finais
Comentários são bem vindos e contribuem com a continuação da história.