Laços de Sangue

1 Duque e duquesa Harrington


Caspian olhou em volta do seu jardim, sorrindo ao avistar a carruagem se aproximando. Estava extremamente feliz em receber seus amigos da família Downey para passar a primavera juntos, já que o castelo era grande demais para se morar sozinho.

A porta da carruagem abriu-se, revelando o senhor Downey sorridente.

—Caspian! — ele disse abrindo os braços para o duque a sua frente que ficou um pouco desconcertado.

—Olá, Edgar! — respondeu, afastando-se do seu amigo.

O homem conseguia ser caloroso quando queria. Até demais para os costumes da época.

A senhora Downey desceu logo em seguida, exibindo um vestido milimetricamente arrumado.

—Angelina! Como vai? — Caspian sorriu elegantemente para a jovem senhora a sua frente, que o retribuiu prontamente.

—Muito bem, Caspian. Como vai depois de tanto tempo, querido? —

—Estou ótimo. Será um prazer tê-los em minha casa. — ele cruzou as mãos atrás do corpo. — No entanto, onde estão as crianças? — questionou confuso.

—Com todo respeito, duque Harrington… — disse uma voz feminina de dentro da carruagem, o que chamou a atenção de Caspian. — Nós não somos mais crianças. —

De repente, uma bela ruiva saiu da carruagem e ficou de frente para o duque, o encarando com seus belos olhos castanhos claros que pareciam brilhar.

—Charlotte! — sua mãe a repreendeu. — Peço perdão pela indelicadeza da minha filha, duque, mas ela é tão espontânea como o pai. — Angelina pediu, olhando rapidamente para o marido.

No entanto, Caspian se quer a ouviu, estava mais ocupado encarando o sorriso que não saia do rosto da moça a sua frente.

—Por favor, me chame de Caspian. — disse, estendendo sua mão ao mesmo tempo que curvava levemente seu corpo. — É sua primeira vez aqui? Não me recordo de ter visto tão grandiosa beleza em meu castelo. — o duque beijou suavemente as costas da mão esquerda de Charlotte, que riu um pouco.

—Talvez o senhor lembre-se de uma pequena ruivinha de seis anos correndo pelo seu castelo falando: "vamos brincar, titio Caspian!" — o duque arregalou os olhos.

—Santo Deus! Agora me recordo… você cresceu muito. — ele riu, envergonhado.

—Passaram-se dez anos, Caspian. —

O duque apenas sorriu, até ouvir seu amigo limpando a garganta. Só então se deu ao trabalho de notar que mais duas pessoas haviam saído da carruagem.

Mirou seus olhos castanhos na outra jovem ruiva. Ela era bonita, claro, mas não chegava nem aos pés de Charlotte.

—Se minha memória não falha… Amber? —

A ruiva sorriu estendendo a mão esquerda para ele, que a beijando suavemente. Ao seu lado estava um rapaz alto, com cabelos castanhos escuros e olhos azuis.

—Nicholas, como vai? — sorriu, estendendo a mão para o jovem rapaz que a apertou com um sorriso de lado.

—Muito bem, duque Caspian. E o senhor? —

—Igualmente! — ambos sorriram. — Já que estamos todos aqui, podemos entrar? —

Todos assentiram e o cocheiro levou as malas para dentro.

—Bom, como chegaram hoje acho que merecem descansar uma noite, mas amanhã pensei em dar um baile para apresentá-los a cidade. — Angelina sorriu.

Ela simplesmente adorava bailes.

—Excelente ideia! O que acha, querido? — falou, virando-se para seu marido.

—Se isso a faz feliz e não incomoda o Caspian, não vejo problemas. —

Caspian sorriu.

—Jamais me incomodaria em dar uma festa para um amigo. —

Charlotte suspirou.

Não gostava de bailes, era formalidade demais. E sempre tinham velhos que não cansam de cortejá-la mesmo ela deixando claro que não os desejavam.

—Algum problema, Charlotte? — Caspian perguntou, preocupado.

A ruiva apenas sorriu, envergonhada, balançando a cabeça negativamente.

—Apenas estou cansada da viagem. Perdoe-me se o deixei preocupado. —

Obviamente, o duque conhecia bem demais as mulheres para se contentar com uma resposta como aquela. Contudo, não faria isso na frente da sua família.

—Então irei apresentá-los aos seus devidos quartos! — disse, indo para as escadas e sendo seguido pela família.

Primeiro o dos pais, logo depois o da Amber, Nicholas e por último Charlotte.

—Este é o seu. Creio que o cocheiro já tenha deixado suas coisas aqui. — ela sorriu, agradecida.

—Obrigada. — segurou a saia do seu vestido, dobrando os joelhos levemente. — Com licença, duque Harrington. —

Ela fez menção de entrar no quarto, mas Caspian a interrompeu.

—Charlotte… por que ficou incomodada quando falei sobre dar um baile? —

Charlotte suspirou, mas olhou nos olhos castanhos do duque e decidiu ser sincera.

—Nesses bailes sempre tem muitos… nobres com idade mais avançada… —

Caspian riu levemente.

—Vou me considerar idoso se continuar falando assim. — a ruiva riu.

—Não… é que eles… ficam me cortejando a festa toda e isso me deixa constrangida. —

—Mas seus pais não interferem? Ou seu irmão? — Caspian perguntou confuso, afinal é dever da família cuidar da honra de suas filhas.

—Não se eles têm grandes títulos de nobreza. Dizem que está na hora de escolher um marido… mas… —

—Não achou ninguém que goste? — ela negou.

Caspian suspirou. Estava cada vez mais encantado com essa menina, e se sentia estúpido em pensar que a última vez que a vira tivesse dez anos.

—Façamos o seguinte: ficarei ao seu lado quando esses senhores aparecerem. Se achar alguém que a interesse, eu sairei de perto. — ela sorriu largamente.

—Faria isso? — Caspian sorriu de forma sedutora, segurando sua mão delicadamente.

—Nunca negaria nada a uma dama tão bela! — disse, beijando as costas da mão dela que ficou levemente vermelha.

—Até amanhã, Caspian! — disse, sorrindo e entrando no quarto.

O duque suspirou e foi para o seu quarto.

***

Já era noite do baile e toda sociedade importante veio ao castelo. Como prometido, Caspian ficou ao lado de Charlotte até seu irmão aparecer. Então ele aproveitou para ir falar um minuto com os convidados.

Um minuto.

Um minuto foi o tempo de Charlotte sumir de sua vista. Felizmente a achou no jardim, desacompanhada.

—Charlotte! Eu fiquei preocupado, não a achava em lugar algum. — o duque sentou-se ao seu lado em um banco.

A jovem ruiva apenas riu.

—Eu estou bem, apenas quis respirar um pouco. Bailes deixam-me sufocada! —

—Imagino, então, que não tenha encontrado uma companhia agradável essa noite. — ela sorriu, ficando corada.

—Na verdade… achei sim. — o olhou.

Caspian sorriu, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha dela.

—A senhorita aceitaria dançar comigo? —

Charlotte sorriu mais ainda.

—Claro! —

***

*Seis anos depois*

—O que faz aqui fora sozinho, querido? —

Charlotte perguntou ao marido que se encontrava sozinho no jardim com um semblante pensativo.

—Nada demais… estava apenas lembrando-me daquele baile. O primeiro em que dançamos juntos. —

Ambos sorriram. A duquesa Harrington sentou-se ao lado do marido, observando o imenso jardim do castelo sem deixar que o sorriso em seus lábios fosse embora.

O duque suspirou, deixando a mulher em seu lado preocupada.

—Está tenso, Caspian… há algo que queira me contar? —

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

—Na verdade, há sim… mas tenho medo que fuja de mim depois que eu falar. —

Charlotte colocou o rosto dele entre suas mãos, sorrindo com ternura.

—Eu jamais fugiria de você! Eu o amo, Caspian. O amo mais do que amo minha própria vida. Pode confiar em mim. — disse, confiante e aquilo fez a inquietação no peito de Caspian diminuir um pouco.

Após um longo suspiro, o duque colocou o rosto dela entre as mãos, exatamente como ela estava fazendo com ele. De repente, seus caninos cresceram e ficaram pontiagudos, seus olhos vermelhos como sangue e as veias ao redor deles levemente saltadas e um pouco escuras.

Charlotte estava com os olhos arregalados, lentamente ela se afastou dele e notou que sua boca abria e fechava, mas nenhuma palavra ou som saia dela. Ao olhar novamente para Caspian, ele estava como sempre esteve.

Seus olhos castanhos estavam carregados de tensão e medo.

—Charlotte… — sua voz soou longe, fazendo-a voltar a realidade.

—Caspian… o que… como… o que você é? — sua respiração estava ofegante.

—Sou um vampiro. — respondeu, tentando se aproximar dela.

—Como… isso não é possível! Vampiros não existem, Caspian! — ela disse chocada. — São apenas histórias de terror que os pais contam para os filhos para assustá-los. Não existem vampiros, é impossível. — Caspian suspirou.

—Sim, querida, existem e eu sou um deles. —

Charlotte não falou mais nada pelos próximos segundos. Caspian, então, decidiu que ela precisava de um choque de realidade.

A pegando pelo braço, ele a levou aos gritos para o quarto deles.

—Caspian! Solte-me! — ela disse tentando inutilmente se soltar.

O duque apenas a ignorou e jogou-a em cima da cama.

—Charlotte! — disse firme, ficando sobre o corpo dela.

Quando ela parou de se contorcer, Caspian desceu o rosto lentamente até seu pescoço. E então Charlotte teve a certeza de que dentro de poucos segundos estaria morta.

Sentiu a boca quente de Caspian tocar suavemente sua artéria e se afastar, sempre olhando nos olhos dela. Depois se afastou em velocidade sobre humana, indo para o canto do quarto.

Após alguns segundos, Charlotte conseguiu formular uma frase em sua cabeça:

—Por que não me matou? —

Caspian a olhou incrédulo.

—Acha mesmo que eu seria capaz disso? Eu amo você, Charlotte. Jamais te machucaria. —

Ambos estavam ofegantes devido ao acontecimento de agora a pouco. Charlotte aproveitou o momento para analisar os olhos de Caspian.

Seu coração bateu mais forte quando percebeu que por trás dos olhos vermelhos sangues ainda estavam os mesmos olhos castanhos que ela tanto amava.

Minutos depois, ela levantou-se e caminhou vagarosamente até Caspian, pegando o rosto dele entre as mãos e vendo sua aparência voltar ao normal.

—Não vai fugir de mim? — ele perguntou ainda temeroso.

A duquesa apenas riu sem humor.

—Só… não me morda. —

Caspian riu, colando seus lábios delicadamente nos dela.

***

*Dois meses depois*

—Vampiros podem ter filhos? —

Charlotte questionou, fazendo desenhos imaginários no abdômen de seu marido.

—Não, mas adoramos tentar. — respondeu, acariciando os cabelos ruivos da sua esposa e vendo-a ficar vermelha. — Isso é um problema para você, querida? — perguntou, preocupado.

—Não. Não lembro-me de algum dia em minha vida ter feito planos de ter filhos. —

Sua resposta fez Caspian respirar aliviado. Odiaria saber que ele teria destruído o sonho de Charlotte de ter filhos, de construir uma família.

A duquesa sentou-se na cama e quando tentou levantar levou sua mão a cabeça, fazendo Caspian levantar preocupado.

—O que houve, Charlotte? Céus! Está pálida. — falou, colocando a mão na testa dela.

—Não é nada, querido. Só… não tomei café da manhã hoje. — ela sorriu, envergonhada. —Não se preocupe. —

Mesmo com o pedido, Caspian ainda continuava preocupado.

—Posso ajudar… se quiser, é claro. — disse, meio incerto.

Charlotte arqueou a sobrancelha.

—Como? — ele suspirou, temendo pela reação dela.

—É um pouco complicado. — ela teve vontade de rir.

—Caspian, eu suportei o fato se você ser um vampiro. Não acredito que nada mais possa me surpreender. —

O duque mordeu o lábio inferior e levou vagarosamente o pulso a boca, mordendo e deixando um pouco de sangue escorrer, tudo sob os curiosos olhos de Charlotte. —O que você… — ela ia perguntar confusa, mas Caspian a interrompeu.

—Sangue de vampiro cura ferimentos, desde um corte a uma bala. Ele também pode fazer você se sentir melhor, se aceitar. —

Charlotte olhou um pouco receosa para o pulso de Caspian que já estava curando, mas chegou a conclusão de que ele não faria nada que a fizesse mal.

Então, lentamente, levou o pulso dele a boca e sugou o sangue que havia escorrido.

Caspian espremeu os lábios, segurando um gemido. Depois não conseguiu segurar, ela não estava apenas sugando seu sangue. Estava mordendo. Como uma vampira.

Ele virou os corpos em velocidade sobre humana, ficando por cima dela e beijando sua boca, com gosto de sangue. Desceu seus beijos até o pescoço dela, indo para as outras partes do corpo, mas Charlotte segurou seus cabelos ferozmente, como se dissesse pra ele ficar.

—Querida… não tenho tanto autocontrole assim. — falou, arrancando uma risada dela.

—Morde. — sussurrou, e Caspian sentiu seu corpo arrepiar.

—Tem certeza? — perguntou e ela apenas beijou seus lábios, o direcionando novamente para seu pescoço.

Caspian sentiu as presas emergir e as roçou no pescoço de Charlotte, antes de afundá-las na pele quente e macia de sua esposa.

No primeiro momento, Charlotte sentiu a dor da sua pele sendo rasgada, mas quando Caspian começou a sugar seu sangue um calor descomunal percorreu pelo seu corpo, obrigando-a a gemer.

Não era sobre ser mordida por um vampiro, era sobre ser mordida por Caspian.

Alguns segundos depois Caspian tirou suas presas dela e sorriu. Pegou o rosto dela entre as mãos e beijou seus lábios delicadamente.

—Eu amo você. — sussurrou.

Poucos segundos depois, sua expressão mudou para preocupado.

—O que houve? — Charlie perguntou.

—Estou ouvindo barulhos. Sua irmã está aqui. — disse, saindo da cama.

—Minha irmã? — Caspian assentiu indo ao banheiro e lavando o rosto, antes sujo pelo sangue.

—Acho melhor vestir-se… ou quer que sua irmã a veja em tal situação? — disse, um sorriso divertido no rosto.

Charlotte apenas foi ao banheiro lavar-se e voltou vestindo sua roupa. Em poucos minutos estava impecável. Foi exatamente o tempo para a governanta do castelo bater na porta do quarto.

—Senhora Charlotte, sua irmã está aqui. — disse, arrogante.

—Já estou indo. Obrigada. — disse simplesmente e a mulher se retirou. — Você deveria contratar uma nova governanta. — Caspian riu.

—Por que eu faria isso? — Charlotte sentou-se na cama, observando ele se vestir.

—A mulher parece um fantasma perambulando pelo castelo! Não ficarei surpresa se um dia a encontrar fazendo bruxaria por aí. —

Isso só fez Caspian rir mais ainda.

—Querida, ela é uma mulher idosa. Não iria conseguir outro emprego facilmente. Tenha paciência, sim? — ele se aproximou dela, beijando sua testa.

—Está bem. Isso provavelmente significa que ela irá morrer antes de todos, então eu posso esperar. —

Caspian riu e eles seguiram para a sala principal do castelo. Eles conversaram um pouco e a irmã de Charlotte decidiu passar um tempo lá, pois, segundo ela, estava com saudades da irmã.

Amber não era casada, ainda tinha 20 anos. Seu outro irmão, Nicholas, não havia se casado, mas era extremamente cobiçado pelas mulheres do reino cujo era principal conselheiro do rei.

Charlotte seguiu para o jardim. Essa com toda certeza, era sua parte preferida do castelo. Ouviu passos atrás dela e primeiramente pensou que fosse Caspian, mas Amber se sentou ao seu lado.

—A tarde está bonita, não é? — ela perguntou para a irmã mais velha.

—Sempre está. — Charlotte respondeu sem tirar os olhos do pôr-do-sol.

—Como vai seu casamento? — Amber perguntou e fez Charlotte olhar para ela.

Amber estava olhando para seu pescoço.

—Ótimo. Por que tanto interesse, irmã? — disse, colocando o cabelo por cima do ombro.

Amber suspirou.

—Não é nada, Charlotte. No entanto, quero que saiba que pode falar comigo caso algo aconteça. —

E antes de Charlotte perguntar o que ela queria dizer, Amber voltou pra dentro do castelo.

***

Era madrugada. Tudo estava tranquilo no castelo, mas alguns minutos depois Caspian acordou ouvindo barulhos semelhantes a correntes ou madeira.

Ele levantou sem acordar Charlie e seguiu para a sala, de onde vinham os barulhos. Ficou poucos segundos lá e não viu nada, mas quando pensou em voltar para o quarto sentiu correntes parecendo embebedadas em álcool sobre seu pescoço.

Alguns segundos depois conseguiu se soltar e virou-se para ver o rosto do seu quase assassino.

—Amber? — seus olhos se arregalaram.

A irmã mais nova de Charlotte aproveitou esse tempo para acertar uma estaca de madeira no coração de Caspian que caiu no chão.

Charlotte, que já tinha ouvido o barulho a essa altura, gritou quando viu o corpo de Caspian caído no chão. Ela correu até o seu marido, ajoelhando-se ao seu lado e tentando acordá-lo.

—Caspian! Caspian, acorde. Por favor, querido, não me deixe. Por favor. — ela suplicava chorando.

Pegou a primeira coisa afiada que viu na frente e cortou sua mão, colocando um pouco de sangue na boca dele. Contudo, de nada adiantou.

Então a realidade a atingiu como a estaca cravada no coração dele: Caspian estava morto.

Seu corpo caiu ao lado do seu marido e ela se pôs a chorar.

—Charlie… —

Amber disse após alguns segundos, fazendo com que Charlotte finalmente percebesse que ela segurava um revólver.

—Você! Foi você que… como pode? — murmurava perplexa.

—Irmã, eu só queria te proteger! Ele estava a usando! Usando para se alimentar! Antes eu não tinha certeza, mas depois dessa marca no seu pescoço… ele era um monstro, Charlotte. O mundo agora está melhor sem ele. —

Charlotte se levantou vagarosamente, ainda com as pernas bambas e riu incrédula.

—Era ele… o monstro? Tem certeza? Você o matou, Amber! Você matou a pessoa que eu mais amei na vida! Quem é o monstro, irmã? — Amber suspirou.

—Eu fiz o que foi preciso. —

Charlotte não aguentou.

Era tanta raiva que estava sentindo no momento que não pensou nas consequências. Não pensou que sua irmã podia simplesmente atirar.

E foi isso que ela fez.

A última coisa que lembra é do seu corpo caindo no chão, depois disso tudo ficou escuro.

***

Charlotte acordou puxando o ar, mas ele parecia não vir. Olhou em volta e notou que estava no meio de uma floresta.

Ainda estava escuro.

Procurou pelo ferimento em seu peito e percebeu que estava apenas a mancha de sangue no lugar.

Olhou em volta novamente, confusa, e tudo parecia estar mais cinza. Poucos segundos depois lembrou que era uma floresta próxima ao castelo, e que a conheceu quando Caspian a levou para cavalgar.

Ao pensar nele seu coração doeu e ela se pôs a chorar novamente. Um barulho atrás de si a fez ficar em alerta, deixando as lágrimas para depois.

—Quem está aí? — perguntou, procurando por qualquer coisa viva, mas era difícil enxergar com a floresta escura.

Logo um homem velho e barrigudo com uma lamparina nas mãos apareceu.

—Olá. O que uma moça tão bela faz sozinha na floresta a essa hora? — disse ele, chegando mais perto dela.

—Estou um pouco perdida, mas consigo achar o caminho de volta sozinha. Obrigada. — ela respondeu querendo ir embora, mas o homem segurou seu braço.

—Calma, querida. Por que tanta pressa? Vamos ficar e conversar um pouco. —

Charlotte ia falar alguma coisa, mas olhou o pulso do homem e jurou que conseguia ouvir ele pulsando. Conseguia ouvir o sangue correndo pelas suas veias.

Isso fez sua garganta arder.

—Estou com fome. — sussurrou para si mesma.

O homem sorriu. Charlotte puxou o pulso dele para sua boca e mordeu ferozmente, sugando o sangue dele.

A essa altura o homem já estava apavorado, mas Charlotte segurou seu pescoço e mordeu. Ela continuou bebendo o sangue do homem até ele morrer em seus braços.

Quando ela abriu os olhos novamente, tudo era colorido. Ela conseguia ouvir até o sangue do homem descendo em sua garganta e a noite já não era tão escura assim.

Agora Charlotte era uma vampira. E ela já sabia quem seria a primeira a receber sua visita.

***

Amber chorava falsamente sobre o ombro do vizinho mais próximo do castelo.

Depois de ter se livrado do corpo de Caspian e da sua irmã, obviamente ela tinha que fazer todo aquele teatro para que ninguém duvidasse dela.

—Minha pobre irmã. Por que eles foram para a floresta a noite? —

Ataques de animais eram comuns pela cidade, então não foi muito difícil Amber achar uma desculpa que fizesse todos acreditarem na morte da irmã e do cunhado.

—Toc, toc. —

Ela ouviu uma voz familiar na porta, desviando o olhar na direção da mesma e levantando assustada.

—Charlotte? —

A duquesa estava coberta por sangue e exibia um sorriso cínico nos lábios.

—Sentiu saudades, irmã? Estava louca para te encontrar. — ela parou em frente a Amber.

—Duquesa Harrington? — o vizinho estava confuso. — Mas a senhorita não disse que sua irmã estava morta? — ele olhou para Amber.

—Eu… achava que estava. — a ruiva respondeu sem olhar para ele.

—Bom, querido, eu estou morta. E no que depender de mim, minha querida irmã logo estará também. — ela sentou-se no sofá ao lado do vizinho. — Diga-me, querido, acredita em vampiros? —

O rapaz arregalou os olhos.

—O que? Vampiros? Do que a senhora está falando, duquesa? Isso é loucura! — respondeu cético.

—Até um tempo atrás eu também achava isso, mas veja-me agora. Eu morri com sangue de vampiro no organismo, acordei e me alimentei de uma pobre alma que vagava pela floresta… e agora virei uma criatura da noite. — sorriu, virando-se para o vizinho e mostrando seus caninos pontiagudos.

O rapaz levantou do sofá assustado, já se preparando para correr, mas Charlotte foi mais rápida e segurou seu pulso.

—Sente-se! — disse firme, olhando nos olhos verdes do vizinho que sentou-se no sofá sem entender muito bem o porquê. — Agora você, irmã. — disse ela, levantando-se e caminhando em direção a Amber que estava paralisada de medo.

—Charlotte… irmã, por favor. — suplicou, fechando os olhos.

Charlotte apenas mordeu o próprio pulso e a forçou a beber seu sangue. Lembrava-se muito bem desse ritual.

—Eu não vou te matar, Amber. — disse, pegando o rosto dela entre as mãos. — Apenas irei te transformar na criatura que mais odeia! — e por fim quebrou o pescoço da sua irmã.

***

Amber acordou algum tempo depois um pouco tonta. Levou a mão a sua boca e sentiu que estava coberta de sangue.

—Finalmente! —

Ela ouviu a voz de Charlotte que estava mais aguda que o normal, no entanto, o que chamou sua atenção foi o cheiro incomum de sangue. Isso a fez virar e dar de cara com Charlotte sentada no sofá, com o corpo de Jack ao seu lado.

—O que fez com ele? — perguntou com os olhos marejados.

A vampira a sua frente sorriu, parecendo satisfeita.

—A pergunta em questão é: o que eu fiz com você? — disse, tombando a cabeça de Jack para o lado, fazendo aparecer um corte profundo de onde jorrava sangue.

Amber sentiu sua garganta queimar e, no impulso, inconscientemente levou às mãos a mesma. O ato desesperado só fez Charlie sorrir mais ainda.

—O que houve, irmã? Parece com… sede! — ela pegou apenas uma gota do sangue dele e levou a sua boca.

—Charlotte, não. Por favor, não. —

Charlotte levantou, possuída de ódio.

—Por favor? Quer que eu tenha misericórdia de você? Você matou o homem que eu amava! Você me matou, Amber! Você disse que matou o monstro… — a duquesa chegou perto do ouvido da irmã e sussurrou: — Agora você é o monstro. —

Amber apenas se pôs a chorar sob o olhar rancoroso da irmã.

—Agora, querida irmã, você decide: ou mata ou morre. —

Dizendo isso, Charlotte sumiu para só Deus sabe onde.

Passado alguns minutos, Amber levantou o rosto encarando Jack. Ela engatinhou até o corpo dele sussurrando um “desculpe" antes de mordê-lo e sugar seu sangue, tornando-se a criatura que mais odiava no mundo.

Depois disso teve apenas uma certeza:

—Parabéns, irmãzinha… você acaba de declarar guerra! —

Notas finais
Comentários são bem vindos e contribuem com a continuação da história.