Laços Temporais
7 Conto alla rovescia

Contagem regressiva
As águas cristalinas refletiam o céu escuro, junto com a lua gorda e as estrelas que apareciam aos poucos naquela noite silenciosa. Contudo, a calmaria das águas interrompera-se com o vento forte enquanto o barco de porte médio atravessava o mar rápido, formando ondas pequenas ao longo do percurso. Naquele barco existia de tripulação apenas duas pessoas. A primeira, era um homem atarracado e de cabelos oleosos, era o navegador do barco. A outra pessoa constituía de uma esbelta mulher, com os cabelos vermelhos pálidos esvoaçando com o vento. Situando-se na proa do barco, estava a desfrutar o cheiro salgado que o mar lhe proporcionava.
Porém, seus olhos verdes claros estavam atentos ao horizonte, apesar de não conseguir conter seus pensamentos de irem para longe. Mais precisamente, até seu país natal, a Itália. Por agora, aqueles meninos devem ter chegado por lá, pensara Bianchi com um sorriso surgindo na face pálida. A jovem hitman soltou um suspiro pesado, inevitavelmente, lembrando-se do motivo de estar navegando no mar aquela hora da noite; camuflando-se com a ajuda da escuridão. Bianchi se lembrava perfeitamente de quando Vongola Nono convocara tanto Reborn e ela para voltarem para Itália. A situação era de emergência, afinal, a Vongola Mansion havia sido atacada dois dias antes.
E desde que fora à Itália, a ruiva pode ver de camarote as coisas tornarem-se desequilibradas. Bianchi passara as mãos finas pelos fios de cabelos, adquirindo uma expressão melancólica, se não, angustiada. Não era seu desejo de voltar ao Japão naquele momento, preferia ir atrás de Reborn. Mas a situação não lhe permitira, então voltara para o pequeno arquipélago, indo cumprir uma ordem do Vongola Boss. Apenas para encontrar seu irmão menor internado após um ataque. Bianchi já não conseguia entender os recentes acontecimentos, apesar de ter a certeza que tudo estava interligado.
Espero que as crianças fiquem bem, considerando o que as espera, pensara a mulher indo até a cabine de comando. Lá, se ocupara em verificar mais uma vez suas coisas guardadas em uma mochila; e claro, o motivo de estar ali, uma maleta metálica e blindada, com um código de acesso. Logo então, acenando para o navegador, sendo que o mesmo começava a diminuir a velocidade. Quando o barco estava parado e bem escondido por uma grande cordilheira marítima. O homem, que Bianchi se lembrava chamava-se Tsubasa, ajudara a hitman em colocar a lancha ao mar, junto com suas coisas.
– Não se esqueça, um hora. — dissera Bianchi subindo na lancha, vendo o outro acenar em concordância.
Sem perder mais tempo, Bianchi saíra para o alto-mar com rapidez. Seus olhos digitalizando ao redor com atenção a qualquer movimentação estranha. Em pouco tempo, a ruiva podia ver certo nevoeiro encobrir as altas cadeias de montanhas que aquela ilha possuía. Suspirando, Bianchi ia diminuindo a velocidade aos poucos. A lancha parara na areia da encosta, onde a ruiva saíra com mochila nas costas e maleta firmemente na mão fina.
A italiana olhara em volta por um momento, a areia se estendia em larga escala, com as ondas do mar batendo nas rochas em alguns pontos; havia então, uma vasta floresta, de árvores altas e troncos grossos, por fim, via-se altas montanhas ao longe. Olhara ao redor novamente, estranhando o fato de não haver ninguém para recepcioná-la quando sabiam que ela estaria vindo. Seu cenho franziu desconfiada, a mente pensando no que poderia ter acontecido e como poder agir, ou apenas, se era algum tipo de contra-tempo inesperado que os abatera. Bianchi resolvera por esperar alguns instantes, tirando do bolso do casaco escuro, uma lanterna, ligando-a e analisando o seu entorno. Pelo que poderia dizer, não havia marcas que alguma batalha pudesse ter ocorrido naquele lugar. No entanto, ao adentrar mais adentro na floresta, notara que havia árvores caídas, de uma maneira estranha, como se tivessem sido derrubadas sem planejamento antecipado; isso acontecera recentemente, pelo o que podia constatar.
Seus lábios crisparam e suas sobrancelhas franziram, formando uma carranca. Algo de muito sério aconteceu aqui, divagara, olhando ao redor. Ficara indecisa, voltava para a lancha ou investigaria? Bianchi sentou-se em cima de um tronco caído, pensando e planejando suas possibilidades. De certa forma, era alguém orgulhosa, e não poderia permitir que algo pudesse ter acontecido à eles, quando estavam sob sua proteção.
– Talvez... eu devesse dar uma olhada. — murmurara para si mesma, dando uma rápida olhada em seu relógio de pulso.
Levantando-se, tirara a mochila das costas, abrindo-a. De lá começara a tirar tudo o que precisava para defender-se, caso necessário. Duas armas carregadas foram colocadas no coldre de sua cintura, bem como, pequenas bombas caseiras de sua comida venenosa; além de pequenos punhais serem guardados em um suporte que havia em uma de suas coxas. Colocara novamente a mochila nas costas, pegando a meleta metálica na qual agora estava com uma algema, interligando-os. Orando para encontrar respostas, com lanterna nas mãos e decidida, começara a entrar mais afundo a densa floresta que cercava o quartel general de Shimon Famiglia.
~*O*~
O sol iluminava o céu um pouco nublado, suas luzes refletiam-se nas janelas daquele enorme prédio; fazendo-o com a impressão de irradiar luz própria. Dentro do hotel de luxo, o hall de entrada — assim como o resto do hotel — era impecavelmente decorado, com os mais caros e belos móveis e adereços. E por tal, os funcionários seguiam a risca na norma que o hotel exigia; todos estavam impecavelmente fardados com seus uniformes azuis-marinhos com detalhados adornos em dourado e bordados caprichosos. Bem como, a aparência física também seguia um padrão, sendo todos belos e bem cuidados. Treinados até de alguma forma mais rígida, todos os funcionários se viam preparados para enfrentar as mais diversas situações que seus hóspedes das mais altas classes da sociedade exigiam. Os funcionários de Hotel Siciliane Fiocchi di Neve tinham que ser imparciais, neutros e quando se exigia, ora acolhedor, ora sendo frio.
Contudo, uma certa funcionária se encontrava em uma situação de descontrole emocional. O motivo para tal comportamento? Se devia a tarefa que lhe fora atribuída, que a morena, pela primeira vez desde que viera trabalhar naquele local, não conseguia reunir a coragem e realizar a simples tarefa. Ora, Genevra, o que você está fazendo parada ai? Ande logo!, pensara a morena dos cabelos curtos, abanando a cabeça. Seus olhos cor de mel tomaram um brilho determinado, ajeitando mais uma vez o uniforme e colocando no rosto uma expressão calma e serena.
Seus passos eram ritmados, ecoando no corredor vazio, fazendo-a sentir-se nervosa e ansiosa. Assim que virara na curva do corredor engolira em seco com a visão que cumprimentara seus olhos. O único corredor que levava para um porta dupla, estava com um número considerável de homens em seus ternos pretos; alguns encostados nas paredes, outros andando em rondas pelo corredor extenso e largo.
Respirando fundo, Genevra recomeçara a andar com a cabeça erguida e olhar firme, mesmo que no seu interior seu estômago parecia prestes a engolir a si próprio devido ao nervosismo. Em todos os anos na qual estivera ali, nunca tivera a sensação de estar fazendo a coisa mais importante de toda a sua vida. Genevra, ainda meio perdida por entre seus pensamentos, levara um susto ao ser abordada de repente, fazendo-a recuar uns bons dois passos. Um homem alto, cabelos negros e bem feitos, com um bigode e terno impecável bloqueava sua passagem. Mesmo que o maior sustentasse um sorriso amigável na face, Genevra não pode conter o sentimento de pavor tomar-lhe o corpo. Por mais inofensivo que aquelas pessoas poderiam aparentar, Genevra sabia que ainda eram perigosos, uma boa prova disto se dera ao fato de estar recebendo olhares penetrantes, avaliadores, alguns não escondendo a sua hostilidade.
– Siamo spiacenti, signorina, mas não posso permitir sua passagem. — dissera o homem de forma suave, ainda que sua voz transparecesse firmeza e autoridade.
– E-eu tenho um recado ao homem na qual se encontra naquela sala. — informara Genevra, apertando as mãos atrás das costas, os olhos brevemente olhando ao redor.
– E qual seria o recado? E o remetente? — indagara mais uma vez o homem, erguendo elegantemente uma sobrancelha. A morena conseguiu identificar curiosidade cintilar por um instante nos olhos acastanhados do mais velho.
– Não tenho a autorização para responder a esses tipos de perguntas. — começara a dizer, dando uma pequena pausa como se para melhor pensar em suas próximas palavras; mordera os lábios antes de continuar rapidamente: — Porém, quem manda-me ao seu chefe me precaveu caso eu seja barrada, que eu lhe mostrasse algo que me deste. — falara dando um passo adiante corajosamente e tendo uma bela tentativa em ignorar os outros homens a cercando.
– Mostre-me esta prova. — ordenou o italiano a frente, franzindo o cenho.
Genevra assentira, e com cuidado e de forma lenta levara uma das mãos ao bolço pequeno de seu blazer azul-marinho. De lá tirara um pequeno papel pardo e cuidadosamente dobrado. Ainda com extrema delicadeza e atenção, desdobrara o papel e revelando seu conteúdo. Não havia nenhuma escrita por dentro, contudo, uma única chama alaranjada bruxuleava no meio; uma assinatura única e fascinante aos seus espectadores. A funcionária manteve firmemente o contato visual o tempo todo, até quando o italiano pegara o papel e saíra sem dizer alguma palavra, deixando Genevra observá-lo desaparecer além daquelas portas ao final do corredor.
Soltando o ar que a moça não sabia estar a segurar, Genevra permitiu-se relaxar brevemente, mas mantendo a mente atenta. Poderia sentir-se aliviada, pois ao menos parte do motivo de estar ali já estava sendo cumprido, e para que pudesse prosseguir necessitava que o homem dentro daquele cômodo reconhecesse aquela assinatura como verídica. Acaso isso não ocorresse, além de falhar, sentiria-se humilhada, o orgulho ferido. Pois sim, tinha tamanho orgulho de trabalhar no Hotel Siciliane Fiocchi di Neve e agradecia todos os dias aos deuses por ter conseguido tal oportunidade. Bem sabia que era uma das melhores funcionárias do Hotel, eram demais os cochichos. A jovem italiana sentia-se, de alguma forma, que deveria honrar a chance fornecida e quando fora chamada pelo gerente-chefe do Hotel não esperava ter a oportunidade que tanto esperava. Ouvir da própria boca do Chefe superior de todos — incluindo do gerente-chefe — que lhe era confiada uma missão importantíssima; fora-lhe como navegar em pleno êxtase. Então sim, caso viera a falhar, seu orgulho e honra seriam destroçados por inteiro.
Genevra saíra dos seus devaneios de repente ao ouvir um leve pigarrar fazendo-a notar que o homem anterior voltara e lhe mandara um sorriso divertido. A mulher ruborizou-se, mas recusava-se a desmanchar a pose firme, quase desafiando-o — consequentemente sendo indulgente -, ignorando com veemência os sorrisos dos homens ao seu redor. Não era hora para aquilo, repreendera-se mentalmente. Estava ansiosa para a resposta final.
– Pode entrar, Boss a aguarda. — informara por fim, sorrindo de forma tranquilizadora, vendo a outra assentir apenas. — Aliás, me chamo Romario, é um prazer conhece-la senhorita. Estávamos a sua espera.
– Obrigada. Me chamo Genevra. — apresentara-se, deixando um verdadeiro sorriso espalhar por seus lábios pintados com a cor rubra.
O homem apenas se limitara em assentir, deixando a passagem livre até as portas duplas de madeira envernizada. Adiantara o passo até ficar a poucos centímetros de seu objetivo, hesitando momentaneamente em bater. Seus olhos deram uma rápida espiada até Romario, no que o mesmo lhe mandara um aceno encorajador. Retribuíra o gesto, até logo estar dando duas leves batidas na porta, apertando as mãos ao lado do corpo com força, esperando.
– Entre. — a voz máscula e suave a sobressalteara por um momento antes de abrir vagarosamente a porta, para logo fecha-la assim que entrara.
– Com licença... — murmurara, mas alto o suficiente para o outro ocupante do quarto também ouvir. Ou assim achava, já que seus nervos lhe atacavam.
Ousou permitir-se observar os esplendidos do cômodo na qual se encontrava. Era uma decoração antiga em que seus olhos presenciaram, muito possivelmente em um estilo antes da Era Victoriana. Os móveis de madeira escura e detalhada, os sofás largos e com estufados bordados; Havia uma bela estante larga com a maior parte sendo ocupados por grossos livros. Um mini-bar se encontrava nas proximidades com a adega preenchida bem visível. A luz da manhã infiltrava-se no quarto através da larga janela de cortinados vermelhos, fazendo com que o papel de parede salmão e tapete persa se destacarem. Genevra poderia afirmar com toda a certeza que este era um dos mais belos cômodos que entrara no Hotel. Porém, outro detalhe lhe chamara a atenção.
Em pé, a admirar um belo quadro de um campo de tulipas amarelas, um jovem homem encontrava-se com o rosto inclinado para o lado, seus loiros e repicados cabelos cobrindo-lhe parcialmente a face; detinha uma expressão contemplativa na qual Genevra não ousava interromper, permanecendo onde estava. Todavia, a morena pouco tempo depois ouvira o homem suspirar e um sorriso formar-se para então virar-se para a jovem moça. Genevra, pega de surpresa, não sabia o que dizer naquele momento, o que o outro deveria ter percebido, pois rira.
– Bom dia, signorina. — cumprimentou o loiro, aproximando-se lentamente e parando a poucos passos da outra. — A senhorita aceita sentar-se?
– Bom dia, signor. Claro, aceito. — respondera a mulher depois de considerar a oferta, até que notara que o outro estava tentando faze-la confortável. E Genevra admitia, fora um gesto na qual apreciara, mas afinal, aquele era Dino Chiavarone.
– Então, acho que tudo lhe fora explicado antes de vir para cá, não? — perguntara Dino sentando-se no sofá com a morena, mas mantendo um espaço entre os dois para que não parecesse que ele invadira o seu espaço pessoal.
– Sim, Vongola Nono relatou o que espera de mim, e eu, com certeza, farei o meu melhor para cumprir suas ordens. — respondera com convicção, um leve sorriso adornando suas feições e amenizando seu rosto naturalmente severo. Dino dissera a si mesmo, que Genevra ficara melhor sorrindo.
– Ótimo! Pois bem, imagino que Nono mandara um recado para mim. Presumo que seja sobre a reunião que acontecerá com o Vongola Decimo depois do almoço. — Dino abandonara o ar alegre e descontraído, assumindo um ar mais sério na qual sua acompanhante achava que o deixava com uma aparência mais velha do que deveria. Ser um Chefe tem seus preços, pensara com solenidade.
– Sì, Nono quer que a reunião seja amenizada, apenas os aspectos mais importantes sejam discutidos, por enquanto.
– Apenas alguns? Isso incluí Reborn e os outros? Talbot? O ataque? Nono deve saber que essa situação não ficará mais nas sombras. — argumentara o Cavallone, franzindo o cenho, mostrando-se pouco satisfeito.
– Nono sabe, mas não quer sobrecarregar o Vongola Decimo. Ao menos não até termos as confirmações de Bianchi e Dr.Shamal.
– Eu entendo, Nono quer saber até onde a situação está se estendendo antes de agir. — murmurara Dino, mais para si que para a outra.
– Sì, Cavallone Decimo. Depois que aconteceu o ataque ao Vongola Decimo, sabemos que o nosso inimigo está escolhendo seus alvos. E mostra-se forte. — terminara de falar, suas mãos apertando entre si, uma nas outras, suadas e frias.
– Com certeza, afinal, aquilo era uma quimera. E só conheço uma pessoa que poderia ter feito, mas infelizmente, ele parece estar na mesma situação que Reborn. — dissera o loiro, levantando-se, ao que colocava sua típica jaqueta verde por cima da blusa branca social que usava. — Vamos, está quase na hora!
Genevra achara que os ombros tensos e cenho franzido na concentração de algum pensamento do Cavallone; para ela, eram claros sinais de uma mente frustrada. Mas era algo a se esperar, quando há muitas perguntas e poucas respostas, pensara ela saindo junto ao Cavallone Decimo. E no final cabia à eles acharem as respostas daqueles enigmas cada vez mais complicados.
~*O*~
Os passos largos e ligeiros do homem ecoavam no corredor longo, branco e silencioso. No final do corredor aparecia uma porta metálica, na qual o homem ansiosamente abrira, logo fechando-a atrás de si. Um suspiro escapara dos lábios, permitindo-se para apoiar-se na porta, os olhos fechados e o corpo em clara exaustão. Seu maior desejo — depois de duas noites seguidas em claro — era dormir; apesar de ainda manter o vigor para progredir com seus objetivos.
Contudo, repentinamente entrara em alerta, já prevendo que seu descanso seria adiado. Seus olhos âmbar estreitaram-se, olhando atentamente ao redor de sua sala. O cômodo tinha um tamanho relativamente grande, mais por capricho seu do que por necessidade. As paredes de cor amarelada, com uma grande estante de madeira ocupando uma parede ao canto, repleta de livros. O chão de carpete escuro, com um divã no meio da sala, e ao canto era sua mesa abastecida de pilhas de arquivos, documentos, diários próprios e demais coisas. E fora naquele ponto que sua atenção voltou-se, com intensidade. Ele não estava sozinho naquele quarto.
No cadeirão estufado e de couro, o esbelto e curvilíneo corpo ocupava-o. As mãos da mulher distraidamente mexiam com anotações pessoais do outro, um sorriso beirando a zombaria e sensualidade nos lábios cheios e pintados. Os olhos felinos da mulher observavam com divertimento a reação do homem de jaleco em vê-la ali, em seu escritório. Parece que alguém tem trabalhado arduamente, hum, pensara ela, ao notar as olheiras que o maior possuía, além do jaleco branco que sempre andava impecável, havia manchas, tanto de sangue quanto de substâncias desconhecidas para si.
– Ciao, mio caro Evy.– cumprimentara a mulher em um tom baixo, como se não quisesse assustar o outro.
A voz da mulher trouxera Evy de volta a realidade. O moreno observou com atenção a outra, engolindo em seco e as sobrancelhas franzidas. Sua mente tentando processar o fato de que ela estava em sua frente e querendo descobrir o motivo para tal. Pois, conhecia o suficiente sobre a outra para saber que suas visitas além de raras, sempre tinham algum significado por detrás.
– O que você quer aqui? — perguntara ele sem rodeios, deixando a pasta que segurava cair sob a mesa de madeira escura.
– Meu, meu, que rude de sua parte não cumprimentar uma dama corretamente. Pensei que fosse educado para ser um cavalheiro. — ela fingira repreender, apoiando um cotovelo na mesa e a cabeça na mão. Seus olhos nunca deixando o outro.
– Não quero correr o risco de me envenenar com o veneno que exala de si própria. — dissera com acidez, as mãos procurando um charuto dentre os bolsos do jaleco, frustrando-se ao não encontrar nenhum. Como vou aguentá-la agora?
– Assim você me magoa, Evy. — a mulher levantara-se revelando um trabalhoso e longo vestido preto com corpete apertado. O moreno crispou os lábios, odiando o apelido que a outra lhe dera.
– Não tinha algum trabalho a fazer? — indagara, querendo logo mudar de assunto e assim descobrir o motivo da presença indesejada dela.
– Ei de ter, no mais tardar. — respondera vagamente, andando ao redor do escritório como se o inspecionando.
– Mulher, fale logo o que queres aqui e depois saia! — exclamara, perdendo pouco a pouco a paciência que tinha ao ver que ela nada parecia com pressa em lhe esclarecer sua visita. Não ajudava o cansaço, sono, e a dor de cabeça que começava a sentir.
– Raffreddarlo, se queres tanto saber, direi-te. — informara, olhando diretamente nos olhos do outro com suas profundas e hipnóticas íris púrpuras. — Tenho um convite para lhe fazer.
– Um convite? — perguntara, um tanto quanto incrédulo e com uma sobrancelha elegantemente arqueada. — Sabes tão bem que nada disto vai interessar-me.
– Bem sei, você gosta de fugir destes compromissos. Por outro lado, talvez isso lhe interessará mais, ademais, soube que certa família na qual anda a interessar-te irá estar presente.
Assim dizendo, a menor tirara um envelope da bolsinha de plumas que trazia consigo, deixando o item em cima da mesa. Evy apenas observava, intrigado e, admitia, surpreendido, não sabendo como reagir diante de uma situação como aquela; o que muito raramente acontecia. E a jovem dama, tão astuta como era, tinha notado tal fato, não podendo deixar de sorrir quase que vitoriosamente. Seu objetivo ali já estava cumprido, não tinha motivo mais para ficar. É uma pena, terei que despedir-me agora, pensara, ao que caminhava lentamente até o outro acariciando o rosto amorenado com sua mão pequena e com luvas de cetim. Calmamente depositara um beijo nos lábios do homem e tão elegante e silenciosamente como entrara no cômodo, também saíra.
Ao que a porta fechara-se e tendo a certeza que a outra já não estava mais por perto, pegou o envelope em mãos. Logo sentira que o papel era da mais alta qualidade, com adornos dourados em alto relevo nas extremidades. Típico de nobres, pensara com desdém, revirando os olhos, antes de reparar momentaneamente o lacre de cera e a crista carimbada nela. Um convite dele!?, irritado com tal ousadia por parte daquela família, rompera o lacre com brutalidade. Trincando os dentes e amassando o rosto com uma carranca aborrecida, lera o convite no papel tão extravagante quanto o envelope:
"Conde Antonello Fedele Geronimo Rosso III e Condessa Fiammetta Donata Rosso
Convidam-no para o Baile Comemorativo do XXVI Aniversário de Casamento"
– Aniversário, ein? — murmurara desgostoso, jogando o convite sobre a mesa.
Andara até a estante, onde lá se mantinha uma garrafa de conhaque, na qual bebera um generoso gole direto da garrafa. Para logo em seguida joga-la direto ao encontro de uma parede. O barulho do vidro se quebrando e caindo no chão fizera eco na sala silenciosa. Respirando pesadamente, Evy se recompusera, endireitando o jaleco e a camisa amarela de baixo, afrouxando a gravata escura.
– Aquela bruxa... — resmungara, indo sentar-se em sua cadeira com o objetivo de claramente esquecer a visita e, principalmente, o convite indesejado.
Todavia, assim que sentara-se na sua confortável cadeira, sentira algo incomodá-lo. Levantando-se, seus olhos enquadrilharam uma pequena dobradura em forma de, não menos que, uma aranha. Erguendo as sobrancelhas intrigado — e curioso — por aquela mulher ter deixado tal coisa para trás. Suspirando, desfizera a aranha. Dentro do papel preto e com uma escrita vermelha e delicada, seguia a seguinte mensagem com que fizera-lhe gargalhar alto, extasiado:
Será que não disse-lhe? Ouve-me, a Família Vongola Primo recebera um convite.
Amado Évêque, vemos-nos, em dois dias, no Baile.
~*O*~
As pálpebras tremularam, até que os olhos cansados abriram-se, revelando íris castanhas, turvas por causa do sono prolongado. O menino no leito aos poucos tornava-se consciente em seu entorno e no estado na qual se encontrava. Seu pequeno e magro corpo estava pesado e dolorido, como se acabara de ter-se esforçado além de seu limite. E mesmo com os protestos de seu corpo, Guilio sentara-se na cama. Seus olhos momentaneamente adquiriram um brilho de pânico, antes de suspirar aliviado.
Guilio reconhecia aquele quarto; a cortina esvoaçando com a brisa que passava, a cama com a manta azul, a cômoda e a cadeira ao seu lado. Estava em um dos quartos da casa da família Serafini; estava seguro. Engolira em seco, trazendo os joelhos de encontro ao tronco, um tremor lhe percorrendo ao que sua mente revivia a lembrança aterrorizante. Abraçando-se com mais força, uma das mãos envolvera o medalhão preso em seu pescoço, como se fosse um amuleto que lhe desse força. Guilio preferia nunca ter se lembrado, agora se encontrava aterrorizado com seu próprio passado.
E fora assim que Aurora Serafini encontrara o menino, com o corpo trêmulo, tez pálida e olhos lacrimejantes. A jovem menina fora pega de surpresa, estagnando-se na soleira da porta. Inicialmente ela havia vindo com o objetivo de ir certificar-se que Guilio estava bem, antes de ir ter seu café-da-manhã. Contudo, não estava preparada para deparar-se com tal situação. Era óbvio que sempre que ia ver o amigo, rezava para encontrá-lo acordado, mas Aurora se surpreendera ao vê-lo em tal estado abatido, triste.
Aurora saíra de seu estado de estupor quando um soluço chegara aos seus ouvidos, seguido de vários outros. Rapidamente entrara no quarto, indo até a cama e tocando com suavidade o ombro do outro. A menina recuara quando Guilio bruscamente mexera-se para olha-la, assustado e não parecendo reconhece-la de imediato.
– A-Aurora? — perguntara Guilio incerto, olhos enevoados, vermelhos e inchados por causa das lágrimas, as mesmas ainda escorrendo pelo rosto alvo.
– Sì, sou eu. — respondera aproximando-se e sorrindo de um jeito que esperasse que fosse reconfortante.
O menino assentira, sentando-se corretamente e com as mãos trêmulas, abanava as lágrimas para longe. Porém, a menina o deteve, sentando-se ao seu lado e para a surpresa do moreninho, a jovem italiana o abraçara. O calor que emanava da Serafini, além do sorriso e olhos que lhe mandava ondas de reconforto e carinho, fizeram com que o moreno voltasse a lacrimejar; retornara o abraço com força, deixando que as frustrações recentes saíssem junto as águas salgadas.
Não sabiam quanto tempo se passaram com os dois a abraçarem-se, mas aos poucos Guilio se acalmava, até que os fortes soluços tornarem-se pequenas fungadas. Afastaram-se, com Aurora inspecionando o amigo atentamente, vendo-o com os olhos, nariz e bochechas avermelhados. Percebera também que o garoto não a olhava diretamente em seus olhos, o que logo sua mente fornecia o por quê. Aurora soltara uma risadinha, chamando a atenção de Guilio, que franziu o cenho levemente.
– O que sucedesse, Aurora? — ele indagara, a voz saindo rouca devido ao choro recente, o que só contribuíra para a menina vê-lo de uma maneira mais fofa.
– Nada Guilio, apenas que não há motivo para envergonhar-se. — contara sorridente, limpando o rastro das lágrimas do rosto do outro, vendo-o corar. — Chorar não lhe faz menos forte, pelo contrário, lhe fortalece para seguir em frente.
– Grazie, Aurora. — murmurara, ainda um pouco envergonhado, mas um sorriso brotava em seu rosto, fazendo com que fosse a menina dos cabelos castanhos a corar-se.
– Guilio... Você quer conversar? Algo, algo aconteceu? — a Serafini perguntara, hesitante, depois que um silêncio se instalara entre os dois.
– Não, nenhum pouco. — respondera, mordendo os lábios com força, sentindo um frio passar por sua espinha. A memória ainda bem viva em sua mente. — E-eu tive uma recaída, certo? Então, eu lembrei-me de uma coisa... algo horrível! Não quero, realmente, falar sobre tal coisa no momento Aurora. — contara, preferindo olhar o céu claro lá fora através da janela.
– Entendo. Não pedirei mais. — concordara, percebendo a dor que apossara nos olhos escuros do rapaz. O que quer que for essa memória, não fez bem a ele. — Então, você quer comer algo? O café-da-manhã está na mesa.
– C-claro.
Guilio estava tão concentrado em esquecer a lembrança, que não se dera conta o quanto de fome que estava a sentir; não ajudava o fato de seu estômago querer ser reconhecido, roncando alto enquanto levantava-se. Suas maçãs da face ruborizaram-se, desviando o olhar e seus lábios comprimindo-se, nunca admitindo que estava a fazer um bico; mas mesmo assim nada impedira Aurora de rir-se.
Ambos saíram do quarto, em um clima agradável e conversando em alguns momentos, assim Guilio pudera informar-se dos acontecimentos durante seus dias de enfermo. O clima mudava rapidamente e a colheita teria que ser feita um pouco as pressas, Aurora contava com certo mal-humor em como os últimos dias haviam sido cansativos. E principalmente, na opinião da jovem italiana, ter que suportar a futura cunhada fora o mais exaustivo.
Já Guilio, nada tinha contra a ruiva Marri-Ann, pelo contrário, das poucas vezes que vira a moça, sentira um apreço pela mesma. E por tal, não entendia completamente os sentimentos negativos que Aurora tinha contra a outra. Havia de uma teoria a formar-se em sua cabeça, contudo, preferia guardar sua opinião para si mesmo, não só por aquele ser um assunto mais familiar; bem como achava que a amiga não estava pronta para saber o que poderia estar bem a sua frente. O moreno esperava que Aurora pudesse entender logo seus sentimentos conflitantes.
– Oh, Guilio! — Aurora exclamara de repente, os olhos arregalados e brilhantes. Um sorriso desenhado nos lábios era de pura felicidade alheia. — Tu não sabes a novidade que chegastes ontem cá em casa!
– Pois, o que seria? — perguntara o moreno curioso, ao que ambos encontravam-se agora na cozinha, com o menino sentado à mesa desfrutando de um bom café-da-manhã. Era simples seu prato, constituindo de ovos mexidos e pães frescos, com um copo de leito morno.
– Um doutor chegara ao vilarejo! — contara animadamente, ao que Guilio levantara as sobrancelhas, surpreso e intrigado com o fato. — É um nobre, no que dizem.
– Oh, mas por que viera a cá? — indagara, curioso. Por um momento, sentira um arrepio passar-lhe na espinha.
– Em estudo, do que, nada sei. Coisa de doutor, possivelmente. — respondera de forma leviana, dando de ombros. — Pelo que andam a dizer, é um bom moço. Atende de graça e na casa do enfermo, por isso mamãe achou melhor chamá-lo.
– C-chamá-lo? Por quê? — assustara-se, remexendo inquieto na cadeira e a face amassada em ligeira preocupação. Aurora notara tal fato, lhe mandando um sorriso compreensivo e acolhedor ao mesmo tempo. O menor acalmara-se um pouco.
– Não tenhas preocupação, meu amigo. Apenas queremos ter certeza que estás bem. — tranquilizara a italiana, aproximando-se do outro, no qual enviara um sorriso amarelo. — Sabes, ficamos preocupados e só queremos-lhe o melhor.
– Tudo bem, então. — aceitara, suspirando derrotado e sentindo um pouco de culpa em causar preocupação para aqueles que o acolhera. — Quando este doutor chegará?
– Antes do almoço, no mais tardar. — a voz que respondera não vinha de Aurora, era mais madura, de mulher.
Ambas as crianças se assustaram momentaneamente com a chegada repentina desta terceira voz, virando-se para a fonte da mesma. Seus olhos depararam-se com a figura esguia de vestido rosado e avental branco encardido preso à cintura. A mulher dos curtos cabelos castanhos adentrara a cozinha, deixando o chapéu de palha e fita vermelha em cima de uma das cadeiras. No processo, dera um pequeno afago na cabeça de ambos os menores, sorrindo-lhes docemente.
– Mamma!– exclamara Aurora, um tanto desconcertada pela atitude da mais velha, a mesma apenas soltara uma leve risada, indo ao fogão.
– Bom dia a vocês dois. — cumprimentara Contanza Serafini, sorridente enquanto escolhia alguns ingredientes na qual usaria mais tarde para o almoço. — Guilio fico feliz que tenha vindo a acordar. Como estás a se sentir?
– B-bom dia, senhora Serafini. Estou melhor, o-obrigado pelo cuidado e desculpe o incômod-do. — gaguejara o menino, corando-se sob o olhar carinhoso da bela mulher. Guilio mandou um olhar irritado ao ouvir Aurora rir de si.
– Tudo bem, pequeno. — Constanza acariciou os cabelos bagunçados do outro brevemente, aumentando o vermelho no rosto pálido menor.
– Mamma, será que Guilio poderia me ajudar no armazém? — perguntara Aurora depois de alguns minutos, o silêncio reinando na cozinha.
– Bem... Se Guilio estiver em condições, não queremos forçar seu corpo. — respondera Constanza, franzindo o cenho, pensando. Seus olhos castanhos focaram-se no menino, avaliando-o.
– Ah, mamma... Guilio não vai fazer esforço excessivo, apenas vai me ajudar com os grãos, separando-os. — argumentara a garota, levando seu prato e copo até a pia.
– Eu realmente sinto-me bem, senhora Constanza. — intervira Guilio ao ver a expressão da amiga murchar sob o olhar de censura que a mãe lhe mandava. Levantara, imitando o gesto anterior de Aurora, para então virar-se e enfrentar a mulher dos cabelos curtos. — Vou ter certeza de avisa-los caso não viera a sentir-me bem. Vi prometto.
– Tudo bem, mas juízo nessas tuas cabeças. — falara Constanza, suspirando. Não poderia negar um pedido feito daquele jeito, suplicante. — E Aurora, minha filha, não deixe-te de cuidar de Guilio.
– Sì, signora. — assentira a menina, o sorriso mostrando puro contentamento, já puxando um atordoado Guilio porta à fora.
O sol da manhã, morno e apreciativo, os recebera assim que saíram da casa, não havia sinal de qualquer brisa. As duas crianças caminharam calmamente até o armazém da fazenda Serafini. Ambos pareciam estarem nas nuvens inexistentes no céu límpido, e não mostrando indicações de voltarem tão cedo para a terra. Ou ao menos, fora o que acontecera com o jovem menino, andando com a cabeça baixa e cenho ligeiramente franzido. E tudo devia-se a lembrança que povoava sua mente de vez em quando, como grandes clarões de imagens. Estremecera, apertando os punhos inconscientemente. Não sabia ao certo de onde vinham, mas sentia a raiva e mágoa, sem contar o medo apavorante, que tentava subjugar seu corpo. Emoções fortes, lembranças mais fortes ainda... Isso lhe intrigava até certo ponto, pois não poderia deixar de indagar-se no significado por detrás da memória. Perguntar-se, mesmo receando a resposta, quem de fato era aquele homem, onde ele, Guilio, estava naquela época... O que de fato ocorrera com ele? Tantas dúvidas que perneavam sua cabeça, deixando-o com uma leve enxaqueca.
Ora, por mais que Guilio quisesse negar, já havia o conhecimento que detinha algum passado terrível, que era melhor mante-lo no escuro do que ir-se à luz. Todavia, Guilio sentia a necessidade urgente em lembrar-se de algo, algo que muito lhe era importante. Mesmo hesitando, o moreninho nada desistia em tentar rever a memória de importância. Mas era frustrante em tentar tão duramente, e no máximo que conseguia era dor de cabeça; ou pior, um de seus episódios de apagões. Ao menos, só aconteceram duas vezes, pensara ele numa tentativa de animar-se, ao que adentrava no armazém abafado. Ao menos, tenho os Serafini, por enquanto...
Por outro lado, enquanto Guilio tentava ver — e analisar — pontos positivos e negativos que sua vida estava a seguir; Aurora tinha a maioria de seus pensamentos em um fato que lhe intrigara desde que conhecera Guilio. Mas precisamente, em algo que o amigo lhe dissera logo após o primeiro apagão do menino:
" — Não me lembro direito, mas era em uma vila que estava pegando fogo. Uma mulher me pegou no colo e me deu esse colar. Ela disse que eu era um herdeiro, não sei o que isso significa."
Ao que pudera entender naquela época, Guilio tinha algum poder hereditário. Isso lhe interessara. Porém, não era por benefícios próprios ou egoístas, nunca conseguiria aproveitar-se de uma pessoa fragilizada como o moreno estava. Ao contrário, queria e muito era poder ajudá-lo, e por tal, a informação que o garotinho lhe dera — mesmo que não intencionalmente — era valiosa aos seus olhos. Se havia uma possibilidade de Guilio ser algum tipo de herdeiro, então, com certeza estavam procurando-no. E era nessa esperança que Aurora se agarrava. Entretanto, lhe aborrecia saber que Guilio não dera a devida importância para tal fato, parecendo mesmo o esquecer. Por sorte de Aurora, ou o destino, uma oportunidade aparecera-lhe, um pouco repentina e mesmo, inusitada; porém lhe era motivadora e não iria desistir, para o bem de Guilio.
– Aurora? Já chegamos. — a voz do moreno menor fizera a menina sair de seus pensamentos, corando ao notar estar tão profunda em devaneios que não percebera que estavam em seu destino.
– Obrigada Guilio. — agradecera, lhe enviando um sorriso envergonhado, sendo prontamente correspondida por um tímido do outro.
O armazém não era grande, tinha um tamanho considerável, bem estruturado e feito de madeira. Em um canto, se via o feno armazenado em pequena quantidade, enquanto na parede oposto, sacos e mais sacos — resultado da colheita — eram guardados, impermeáveis. Havia ainda, prateleiras com diversas ferramentas, algumas, Aurora notara, estavam faltando devido a estarem sendo usadas naquele dia. Possivelmente, o resto de sua família já estava fazendo seu trabalho.
Seguira até um canto, perto dos fenos, onde lá havia uma pequena mesa e várias cestas cheia de grãos, prontos para serem escolhidos e guardados em um saco. Aurora achava ser um trabalho bem simples, porém, era demorado demais para seu gosto. Contudo, Marri-Ann não poderia os ajudar naquela manhã, já que os pais da mesma solicitaram a ajuda da garota. Os Polesso eram donos de duas lojinhas, uma dentro do vilarejo e outra em Sicília. Tinham um número considerável de lucros, e por tal, eram bastante respeitados nas redondezas. Os Serafini, assim como várias outras famílias fazendeiras, faziam comércio com os Polesso, vendendo uma boa parte de sua colheita para eles. Fora assim que Rocco conhecera Marri-Ann, praticamente, desde crianças.
– Olha, Guilio, é bem fácil. — começara a dizer a Serafini, sentando-se em um banquinho de madeira. Aos seus pés colocara uma cesta de grãos, enquanto duas bacias de tamanho médio estavam a sua frente. — Primeiro pegamos um pouco de grãos, não precisa ser muito, e colocamos nessa peneira, que irá filtrar os grãos, separando-os de outros resíduos. Então, depois só temos que certificar que todos estão com uma boa aparência e guardamos nestas bacias. — explicara, demonstrando todo o processo para um atento moreno.
– Entendo... — murmurara Guilio, sentado em um amontoado de feno, já preparando-se para começar seu trabalho. Aurora sorrira, sabendo que a capacidade de esponja — como ela achava — de Guilio de aprender facilitaria todo o processo.
As próximas horas, que antecederam o almoço, foram gastas dentro do armazém, na qual Guilio sentira um extremo abafo. O que fizera, várias vezes, ter que parar seus afazeres para descansar. Aurora não parecia mostrar algum desconforto, o que provavelmente se devia por já estar acostumada a esse tipo de trabalho. O sol forte da manhã também não lhe ajudava muito em sua situação. E por tal, estava mais que agradecido quando Antonella aparecera com um par de copos de suco, frescos e gelados.
O menino primeiramente ficara sem jeito em frente a senhora, avó de Aurora, mas a mesma se mostrara amável e afetuosa, logo conquistando Guilio. Antonella ainda se dispusera em ajudar, por algum tempo, as crianças e conversando com as mesmas de forma agradável. O único momento tenso fora quando a mais velha perguntara em como estava a sentir-se e se no tempo de desacordado, tivera algum tipo de recordação. Aurora fora uma benção, desviando a atenção da avó assim que notara o desconforto do amigo. Pouco tempo depois, Antonella partira para ajudar a cunhada no almoço. Que logo dava sua presença.
– Olá crianças. — um garoto no final da adolescência entrava no armazém, sorrindo e mostrando-se cansado e suado. — Está na hora do almoço, vamos-nos?
– Claro Rocco. — respondera Aurora, definindo suas coisas em cima da mesa, imitada pelo amigo. — O que há de ter de comida?
– Um pouco do que sobrara de ontem, e se não estou a enganar-me, peixe. — respondera Rocco, sorrindo ao ver os olhos da irmã brilharem, afinal, peixe era o que mais Aurora gostava. Os olhos do Serafini desviaram da irmã, focando-se na figura magra de Guilio, o mesmo mantivera-se quieto todo o tempo. — Como estás a sentir-se? — indagara ao moreno, não podendo conter uma risada baixa ao ver os olhos assustados do outro por um instante.
– Estou sentindo-me bem, nada para preocupar-se. — respondera timidamente, olhando para o chão de terra, antes de encontrar os olhos de Rocco, vendo-o assentir e, para seu alívio, não fazendo mais perguntas.
Os três continuaram o trajeto até a casa, entrando pela porta dos fundos e acabando dentro da cozinha já cheia com o resto da família Serafini. Guilio sentiu-se sem jeito, travando por um instante na soleira da porta, até que a amiga lhe dera um pequeno puxão pela mão, fazendo-o andar novamente. Os três recém-chegados primeiramente se puseram a lavar as mãos, antes de sentar na mesa. Guilio ao lado de Rocco e em frente a Aurora.
Guilio observou o dinamismo da família, cada um servia-se de um pouco de cada logo que os mais velho — Benedetto e Antonella — terminavam de se servir. Rocco de muito lhe fora de ajuda, escolhendo para um envergonhado Guilio comidas leves, já que ninguém queria arriscar que o moreninho adoecesse novamente. O mesmo sempre se surpreendera por esse ar aconchegante que os Serafini exalavam quando estavam reunidos. Inconscientemente o garoto divagava se tivera uma família assim também.
– Então, garoto, como foi sua manhã junto a minha neta? Sentindo-se bem? — a voz profunda de Benedetto assustara um concentrado Guilio, que muito aproveitava a deliciosa comida oferecida. Encontrando com os olhos escuros e rosto severo do senhor de idade, o menino engolira em seco antes de responder:
– S-sim senhor. Foi uma manhã agradável, mas estou bem agora. O-obrigado. — falara em um quase sussurro, apertando com força o garfo em sua mão esquerda.
– Bom. — Benedetto assentira, brusco, antes de voltar sua atenção a cunhada. — Quando aquele doutor virá?
– Depois do almoço, como ele mesmo informara. — dissera Costanza, ao mesmo tempo em que se levantava para recolher as sobras de comida. Daria um bom composto para sua horta.
O resto do almoço seguira em um clima ameno, alguns sussurros entre os ocupantes, mas nada que durasse poucos minutos. Os primeiros a sair da mesa foram Benedetto e seu filho, Ercole, em uma conversa sobre problemas com algum plantio. Parecia sério, Guilio achara, mas não prestara a atenção a isso por muito tempo, querendo mais era desfrutar o pequeno pedaço de bolo que era a sobremesa daquele dia. Apesar de estar um pouco surpreso, já que, de acordo com Aurora, não era todo dia que havia algum doce em casa depois do almoço. Porém, aproveitava esta oportunidade.
Depois que Aurora e Guilio foram, praticamente, enxotados da cozinha quando os mesmos tentavam ajudar Antonella e Costanza com a louça; as crianças seguiram para a sala de estar da casa. O cômodo de móveis gastos e sofá estufado era de clima confortável. Contudo, os dois nada tinham muito o que fazer naquele momento, já que depois de comerem, ainda havia um descanso de uma hora e meia antes de voltarem ao trabalho anterior.
– Guilio, você gosta de xadrez? — Aurora de repente indagara, mexendo em uma das gavetas do aparato que havia ao canto da sala. Guilio erguera uma sobrancelha, intrigado.
– O que é isso? Xadrez? — retorquira o moreno aproximando-se da amiga, a mesma sentando-se em um dos sofás. Sentara-se ao seu lado.
– Ah, tu nunca jogastes? Então, venha cá, te ensinarei, apesar de eu mesma não ser muito boa. — contara, mostrando as peças e o tabuleiro monocromático de madeira surrada. — Rocco bem sabe jogar, Nonno também.
– Hun, parece interessante...
A próxima meia hora, Aurora ensinara todos os movimentos de cada peça, além das regras e até mesmo, algumas jogadas que conhecia. Guilio ficara fascinado pelo jogo, querendo mais do que tudo, poder jogar. Aurora rira de seu entusiasmo, achando graça como o moreno parecia avido em aprender. O que lhe trouxera o pensamento, será que Guilio pode ir na escolinha comigo? Vou ter que perguntar a mamãe.
– Aurora... — o chamado de Guilio a trouxera de volta a terra, vendo o outro com as sobrancelhas enrugadas e olhar em direção a porta de entrada da casa. — Acho que há gente na porta.
– Será? — a menina levantara-se, sendo seguida de perto pelo outro, escutando uma batida de leve na porta de madeira. Trocara um olhar com o menor, antes de adiantar-se e ir atender a pessoa.
Assim que abrira a porta, seus olhos acastanhados vislumbraram um jovem moço, de feições leves e rosto rosado. Os cabelos acobreados, com o rosto pintado com pequenas sardas. Quando vira a menina a sua frente, um sorriso fácil aparecera em seu rosto, contribuindo para a vermelhidão aumentar na face de Aurora. Guilio observava a cena, estranhamente sentindo-se incomodado.
– Buon pomeriggio, signorina. — o tom era um pouco rouco, mas apresentando uma inegável simpatia. — Sou Luchino Tardocchi, o médico. Acredito que a família Serafini chamara-me, pois?
– A-ah, boa tarde, s-sim, claro. — gaguejara a morena nervosamente, sorrindo quase bobamente, ou ao menos, era a opinião de Guilio. — Oh, entre, entre doutor.
– Com licença. — O jovem homem adentrara a casa, observando brevemente o lugar com seus olhos clínicos. Guiado por Aurora, o médico se acomodara no sofá.
– Eu... Eu irei chamar minha mamãe para o senhor. — informara a garota, ansiosamente, enquanto tentava mostrar-se mais apresentável ao moço, este apenas assentira. Aurora já estava a meio caminho de sair da sala quando parara de repente, virando-se para os demais. — Oh, claro, esqueci de dizer-te. B-bem, seu paciente, acho, é Guilio.
Os olhos límpidos do médico seguiram até o menino a pouca distância de si, assentindo. Aurora saíra do cômodo, deixando os outros dois em um silêncio incômodo para o menor. O mesmo preferiu manter-se distante, os olhos castanhos estreitos em desconfiança. Já o médico, assim que soube que o menino era seu paciente, deixara seu olhos fazerem rápidas observações no estado do menor. Reparara, é claro, no semblante desconfiado, mas naquele momento — mesmo que achasse divertido — não era algo relevante.
Tinha a mais pura concentração em suas avaliações, bem como, reparando no estado cansado e triste que o menino detinha; mesmo pálido. Apesar de com certeza, já ter recuperado um pouco de cor em suas bochechas. Franziu o rosto ao notar o quão desnutrido que o menino estava. Todavia, sabia, pelo que disseram, que o menino que encontraram naquele dia de tempestade já apresentava este estado. O que muito lhe preocupava, ademais, a falta de memória e esses desmaios tinham que ser investigados mais afinco; era o que supunha.
– Olá, Guilio, certo? — cumprimentara o médico de forma mansa, não querendo ter algum atrito com o seu futuro paciente. O menino assentira, sem mover-se de onde estava. — Como você está a passar? Soube que tivera uma recaída recentemente.
– Estou bem, doutor Tardocchi.– respondera Guilio, de uma forma um pouco ríspida, na qual se constrangera por sua atitude ao outro, mas mesmo assim mantinha a fachada firme. Isso não pareceu abalar o outro.
– Certo. — o ruivo concordara, sorrindo. Suas mãos moveram-se até sua maleta de couro na qual trazia consigo. De lá tirara um pequeno bloquinho de notas e uma caneta. — Poderia contar-me esses episódios? Desde o momento em que se lembre, por favor.
– Eu... — o moreno engolira em seco, sentindo-se intimidado pela pergunta. Realmente não queria compartilhar suas lembranças com aquele homem. E por isso agradecia a senhora Costanza quando a mesma chegara ao cômodo ao lado de Aurora.
– Oh, doutor, boa tarde. — cumprimentou Costanza, sorrindo aliviada. — Que bom que pudera vir.
– Não é nenhum problema, senhora Serafini. — como um bom cavalheiro, cumprimentara a morena como se a mesma fosse a mais nobre dama; A mesma sentira-se encantada com o outro. — Desde que posso ajudar, nada mais será importante.
– Obrigada. Mas, bem, por favor, sente-se. Crianças, aqui, venham também. — chamara a mulher, deixando o Luchino sentar-se no sofá longo e Guilio, para o desgosto do menino, sentara-se ao lado do mais velho. Aurora e a mãe estavam no outro pequeno sofá. — Como disse daquela vez, pedimos que examine o menino, Guilio. Estamos preocupados com estes desmaios. Atento-me a achar que deve ser a causa de uma pancada na cabeça, naquele dia.
– Sim, claro. Também estou-me a indagar se estão relacionados. — o médico virou-se para um nervoso moreno, sorrindo cândido. — Não temas, nada virá de mal para si. Apenas farei rápidos exames, nada que doa, tudo bem?
– Bem... Sim, acho. — Guilio concordara, resignado, principalmente ao ver os olhares das Serafini. Elas estavam ansiosas e preocupadas, e o menino não podia permitir-se ser a causa dessa preocupação.
Os próximos minutos Luchino fizera todos os tipos de exames na qual era possível, usando sua experiência de quem viera de uma faculdade prestigiada. Fazia de vez em quando algumas observações em seu bloquinho de notas, em outras, fazia algumas perguntas para Costanza ou para Guilio. Ambos respondiam da melhor forma possível. Ao final da consulta, Luchino presenteara tanto Aurora e seu paciente com um doce, para o agrado da menina.
– Então, doutor, o senhor tem alguma ideia do que se passa? — indagara Costanza, aflita, ao ver o termino do médico. O mesmo suspirara, franzindo o cenho.
– Pois, com o pouco que percebi, a senhora muito tem razão, provavelmente. — começara a dizer com seu tom solene. — A pancada fora realmente em uma região da cabeça em que se possa causar alguma amnésia. O problema mesmo, é saber se é temporário ou não.
– Mas, e esses desmaios? Essas crises realmente são assustadoras. — a senhora olhava o menino, que muito já o adotara em seu coração como seu próprio, penosamente.
– Pelo que estão a dizer, o jovem Guilio tem recuperado suas lembranças, aos poucos. Acho que, com o impacto que sofrera, possa estar causando estas dores. O melhor que posso fazer é recomendar esse remédio, ajudará muito com as dores. — Luchino anotara o nome do remédio em um papel, depois entregara a moreno dos cabelos curtos.
– Oh, mas não sei se poderemos pagar. Parece tão cara, senhor. — murmurara, as sobrancelhas unidas, preocupada.
– Se me permitir, senhora Costanza, eu mesmo poderei comprar. Não gastará nada. — propôs Luchino sorrindo ao ver os três pares de olhos castanhos arregalados.
– D-doutor Tardocchi... Eu não sei se podemos aceitar. Deve custar muito. — contrapôs a mulher, ainda um pouco atônica.
– Não vejo o problema, realmente. Vim para cá justo para ajudar. — tranquilizara o ruivo, vendo o quanto a senhora ficara emocionada.
– Ora, muito, muito obrigada. — agradecera, sorrindo amplamente, olhando admirado o rapaz a sua frente.
– Eu trarei o remédio o mais rápido que puder, visto que terei que sair do vilarejo por alguns dias. — anunciara, recebendo olhares curiosos de ambas as crianças. Aurora sem conseguir conter-se, perguntara:
– O senhor irá a onde, se me é possível saber. — indagara, habilmente ignorando o olhar repreendedor que sua mãe lhe mandava. Luchino soltara um riso anasalado diante da curiosidade da menor.
– Nada muito importante. — respondera, mas ao ver que a menina não parecia satisfeita, incrementara: — Em Sicília ocorrerá um baile, cujo fui convidado. Apenas mais uma ocasião formal, jovenzinha.
– Um baile! Um baile! Que magnífico! — exclamara Aurora, seus olhinhos brilhando ao imaginar tal espetáculo. Luchino soltara um riso ao ver tamanha empolgação da menor.
– Ora, Aurora! Por favor, comporte-se! — repreendera Costanza, olhando a filha seriamente, mas a mesma parecia já estar em outro mundo, sonhando.
– Está tudo bem, senhora Costanza. — apaziguara Luchino, sendo sincero. De sua bolsa tirara um pequeno e um pouco amassado, envelope muito bem feito, na qual mostrara a menina. — Olhe, apenas é um convite de um amigo familiar.
– É lindo... — murmurara Guilio, observando junto com Aurora o envelope, a mesma concordara com a observação do outro. Guilio leu atentamente o nome dos anfitriões. — Os Rosso... Nobres, não?
– Sim, uma família prestigiada, daqui das redondezas. — respondera Luchino meio distraído, como se estivesse pensando em algo. — Partirei amanhã mesmo, e enquanto estiver em Sicília, trarei seu medicamente jovem Guilio.
– Quando é? Este baile? — perguntara o moreninho, curioso, mesmo estando envergonhado ao perguntar. Bem, era alguém tímido naturalmente, pelo que o ruivo percebera.
– Em dois dias, a partir de hoje. — seu sorriso mostrara-se misterioso e o brilho nos olhos não deixara Guilio com bons pressentimentos em relação ao evento. Engolira em seco. — Tenho certeza que divertirei-me por demais neste Baile.
Pela primeira vez desde que o médico entrara naquela casa, Guilio sentira um verdadeiro medo.
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