Laços Temporais
6 Avvio del preparativi

Iniciando os preparativos
O sol conseguia ocupar todo o céu azul com sua luz escandescente, naquele tarde deveras calor. Muitos eram vistos andando pelas calçadas daquela pequena cidade japonesa, com suas roupas leves e refrescantes; era um belo dia depois dos dias nublados e frios. Os estabelecimentos, antes pouco movimentados, eram varridos de pessoas, a maioria procurando o conforto para aquela tarde.
Tsunayoshi suspirou. Seus olhos amendoados observando o movimento da sua cidade através da janela daquele carro blindado; a testa pressionada contra o vidro. Fazia quase vinte e quatro horas que Dino Cavallone havia lhe informado da convocação feita pelo Nono Vongola. E sem mais perder tempo, o moreno junto aos seus guardiões tiveram que se arrumarem as pressas. Dino já havia organizado tudo. Por agora, Nana pensava que Tsuna, junto aos seus amigos, haviam ganhado um concurso para uma viagem a Itália; e o Cavallone se prestara a ajudar nesta viagem. Como sempre, Nana, de bom grado, autorizara a viagem, sorrindo radiante.
– Tô com fome, Tsuna-nii. — o murmuro chamara a atenção do moreno, que olhando para o seu lado, deparou-se com os olhos verdes lacrimosos.
– Aqui, Lambo. — Tsuna dissera, tirando de um dos bolsos de sua calça, um pacotinho de biscoitos. Sem mais delongas, o pequeno Bovino pegara o alimento, já o devorando. — Você quer também, I-Pin? — perguntou, agora, olhando a menina chinesa do outro lado de Lambo.
– Não, mas obrigada Gēgē. — respondera I-Pin, sorrindo-lhe, que logo fora correspondido.
Sawada observou atentamente as duas crianças interagindo-se entre si, deixando seus pensamentos derivarem. Ainda tinha receio — e desconfiança — de ter que levar tanto Lambo, como I-Pin, junto nesse viagem. Franziu o cenho, claro que entendia que a criança de olhos verdes era necessária, já que também era um de seus guardiões; mas não podia parar de se perguntar o por que I-Pin também viria junto. Nono havia convocado o Decimo e seus guardiões, como Dino havia lhe dito, antes do loiro acrescentar tardiamente que I-Pin estaria com eles. A Hiper Intuição de Tsuna alertava-o, desconfiança.
Enquanto Tsuna devaneava, os olhos olhando para fora sem realmente ver, o tempo passava sem o adolescente notar. A paisagem mudava, dos prédios altos e residências, as ruas movimentadas e parques cheios, para uma estrada pouco movimentada, cimentada e com a paisagem de cerrado. Algumas árvores eram com folhas alaranjadas e vermelhas, típicas do outono japonês, as famosas koyo. Ao longo se via algumas flores de suzuki e ominaeshi que fascinavam Lambo e I-Pin.
O moreno mais velho fora tirado de seus pensamentos ao sentir o carro abrandar, até chegar a uma parada. A porta ao lado do Decimo fora aberta pelo chofer bem arrumado que Dino havia pedido para trazer Tsunayoshi, e se o mesmo estivesse correto, o homem chamava-se Netto. Agradecendo, Sawada ajudara as crianças a sair do carro e permitindo-se em olhar o seu entorno.
Estavam em um hangar particular do Decimo Cavallone, grande e parecia bem equipado. Situado em um lugar isolado, cercado de altas árvores nas cores do outono, com uma longa pista para a decolagem que sabia que aconteceria em pouco tempo. Suspirando, Tsuna e as crianças — mais animas que o Sawada para a viagem — seguirem para dentro do hangar. Lá, Tsuna se deparou com toda a sua famiglia em uma pequena sala, incrivelmente, estavam comportados. Olhando em volta, conseguiu visualizar Dino no meio dos seus homens, conversando com alguém.
– Jyuudaime!– a voz gritante de Gokudera Hayato chamara a atenção do Decimo, e consequentemente, dos demais ocupantes no local. — Jyuudaime, que bom que chegou! — o prateado cumprimentou seu chefe ao chegar até o mesmo.
– H-hey, Gokudera-kun... — Tsunayoshi voltou o cumprimento, vendo os demais se aproximarem. — Faz tempo que estão aqui?
– Não muito Jyuudaime, eu particularmente acabei de chegar. — respondera Gokudera prontamente.
– Haha, que bom que chegou Tsuna, só faltava você. — dissera Yamamoto alegremente, colocando o braço em volta dos ombros pequenos do moreninho, para a irritação de um certo prateado.
– Boss... — Tsuna escutou a baixa e tímida saudação, mas não menos calorosa que vinha da única mulher no meio de seus guardiões, Chrome Dokuro. O moreno lhe mandara um sorriso em resposta.
– Irmãozinho, que bom que chegara, pois já estamos prontas para ir. — um loiro aparecera no meio do grupo, ao lado de seu fiel braço direito. — Todos, melhorem irem se organizar no avião. — sugeriu Dino, vendo alguns acenos de acordo, incluindo do seu auto-intitulado irmãozinho.
– H-hai, Dino-san. — falara Sawada, meio hesitante e coçando a bochecha distraidamente. O cenho um pouco franzido, resquícios de seus pensamentos anteriores que voltavam a povoar sua cabeça.
– Haha, não se preocupe Tsuna, tudo vai ficar bem. — confortara o loiro como se soubesse o que se passava em volta da mente do mais novo. Mas o moreno tinha a sensação que o sorriso que o outro ostentava era um pouco forçado e que seus olhos quase dourados tinham coisas a esconder, importantes e que traziam um amargo ao estômago do Vongola.
Acompanhando os demais, Tsunayoshi só poderia esperar que suas preocupações não passassem disso, preocupações desnecessárias. E sentando-se na cadeira fofa e com os olhos vagando para o horizonte, sua mente tentava sintonizar com os outros. Ouvindo a conversa despreocupada entre Ryohei e Takeshi, ou mesmo a discussão entre Lambo e Gokudera, com I-Pin a ter uma amigável conversa com Chorme. Suspirou, fechando os olhos com força, e inconscientemente, colocando-se a dormir para o resto da viagem.
~*O*~
Os setes encapuzados estavam em uma redoma, sentados em cadeiras altas e elegantes ao redor de uma mesa circular, com uma única vela em um suporte metálico detalhado. O breu era quase por completo naquele lugar, a luz vinha das velas acesas em candelabros em pontos estratégicos e que proporcionavam pouca iluminação sobre os ocupantes dali. O clima entre eles era tenso, espesso e frio, como um bravo dia de inverno. Todos estavam em uma postura arisca, como se esperassem que algo acontecesse naquele silêncio perturbador. Todos, com a exceção de um ser.
– Então, por quanto tempo vamos manter-nos neste silêncio fúnebre? — a voz um pouco maliciosa e com divertimento velado dissera, um sorriso de canto visível na tez pálida. — Algum dos senhores e senhoras tivera problemas recentemente? Essas caras azedas me deixam com tédio de estar aqui. Então, novamente, iremos começar isso ou não?
– Mas continua o mesmo moleque insolente! — desta vez quem falara, com a voz grossa e claramente desgostosa sobre a atitude do outro, vinha do encapuzado sentado à frente do primeiro.
– Nossa, estamos com os ânimos exaltados tão de repente, pois? — dissera novamente a primeira voz, zombaria notável.
– Chega desta conversa sem sentido. — uma terceira voz se juntara as outras duas, rouca e irritada, sentava-se ao lado direito do primeiro a pronunciar-se. — Começaremos isso de uma vez! — batera o punho na mesa com força, para provar seu ponto.
– Claro, mon Roi. — uma voz fina e acentuada, claramente de mulher, ao contrário das anteriores. A mulher colocara uma das mãos finas e de unhas compridas em cima do que acabara de falar, como se o acalmando.
– Primeiro, os relatórios. — dissera o agora nomeado Roi, parecendo mais calmo. Seus olhos por debaixo do capuz eram penetrantes e frios, na qual todos puderam sentir, mesmo não os vendo. O homem tinha uma presença naturalmente intimidadora. — Começamos, por você, meu caro Pion.
– Como desejar, mon Roi. — a voz suave e solene vinha de uma pequena figura encapuzada pouco distante do líder. O Pion levantara-se, ajeitando os óculos que usava e limpando a garganta antes de começar a falar calmamente: — Como bem sabemos, meus companheiros, sofremos alguns problemas recentemente. E por tal, interferiu nos nossos planos e assim, o meu Escadron teve que agir e conseg-
– Como se precisássemos de inúteis agindo em um momento como esse. — a voz grossa, e que havia sido o segundo a dizer algo, pronunciara-se novamente, interrompendo com escárnio o ourador.
– Prefiro que guarde seus comentários impertinentes para si próprio, Tour. — retrucou com acidez controlado o Pion, os lábios crispados. E antes que Tour dissesse mais alguma coisa, continuara: — Bem, como dizia, meu Escadron começou a agir e conseguimos nos infiltrar em alguns lugares e receber novos auxílios. Contudo, devo alerta-los que estamos tomando riscos grandes. Há mais detalhes nesses arquivos, mon Roi. — o Pion, por debaixo da capa azul meia-noite tirara um envelope amarelado e grosso, bem lacrado à cera. Ao sentar-se, de mão em mão, o envelope chegara as mãos do líder.
– Tenha a minha gratidão, Pion. — Roi dissera, inspecionando momentaneamente o envelope, até guarda-lo debaixo de seu manto vermelho bordo. — Continuaremos. E já que Tour se mostrara tão falador nesta noite, por que não de-me seu relatório? Como vai nossas defesas?
– Com prazer, mon Roi. — Tour dissera, o sorriso grande ao levantar-se ajeitando a capa verde floresta. — Como Pion tão amavelmente disse-nos, estamos passando por pequenos problemas. E meu Escadron resolvera por, junto com o Escadron de Cheval, unirmos em prol de nossa causa. Devo dizer, mon Roi, estamos com nossas defesas mais fortes que nunca e graças as notícias que Évêque nos trás, nossos homens estão muito mais preparados. — terminara, tirando um envelope assim como Pion, entregando ao Roi e sentando-se, satisfeito.
– Então, se estamos tão fortes assim, como pode explicar o recente escapamento de uma peça tão importante, caro Tour? — o tom zombeiro era bem perceptível e enlouquem-te, vindo do primeiro homem que falara naquela reunião. O rapaz estava sentado confortavelmente em sua cadeira ao lado do Roi, os pés em cima da mesa e os braços cruzados atrás da cabeça. O sorriso malicioso na face.
– Isso, fora apenas um contra-tempo, que estamos resolvendo. — respondeu Tour, irritado, com as mãos fechadas em punhos. — Para falar a verdade, mon Prince, sobre tudo, deveria estar a indagar o nosso querido Évêque, já que foi mais em sua área, do que a minha. — um dedo grosso apontava para a pessoa sentada ao seu lado, o manto em amarelo escuro.
– Oh, é mais fácil culpar o outro do que a si mesmo, não, Tour? — continuara a provocar o Prince, agitando-se em sua cadeira até estar debruçado na mesa, olhando diretamente o outro homem. Seu manto, o único com detalhes, era preto com guarnições em laranja.
– Não há preocupações, mon Prince. Tour está apenas sendo ele mesmo. — falara Évêque, com a voz cândida, apesar de um sorriso predador estampado do rosto amorenado. — Mon Roi, se me permitir, por favor, peço que seja a minha vez de apresentar meu relatório.
– Faça. — apenas dissera Roi mostrando traços de impaciência.
– Minha gratidão. — com uma curvatura ao líder, Évêque levantara-se e não perdera tempo em começar a falar. Sua voz tinha a capacidade de prender o ouvinte. — Para começar, o incidente recente, devo levar em conta que sim, pode haver culpa minha nisso. Fui negligente e por causa disso, a criança escapara. Peço minhas desculpas quanto a isso. Porém, informo que, com a ajuda importante de Pion, um dos seus já está agindo sobre a criança e logo teremos mais informações. — fizera uma pausa, como se para que todos pudessem digerir corretamente suas falas, então prosseguira: — Sobre meus novos estudos, é como mon Roi previra, estamos no caminho certo, apesar, devo informar, ainda precisarmos de mais conhecimentos. Peço mais uma Mission, e que resulte em vitória e não fracasso.
– O que está insinuando, Évêque? — a voz irritada e fina viera do lado de Pion, obviamente de mulher, onde a mesma levantara-se para enfrentar Évêque.
– Peço perdão, doce Cheval, mas é a verdade. Além de seus ótimos serviços de despistar os problemáticos, mas não parece que está tendo os resultados desejados em todas as Mission que fazes. — respondera Évêque calmamente, dando de ombros, despreocupado.
– Para sua informação, temos tido resultado. — retorquiu, e abruptamente tirara de seu manto roxo escuro, um pequeno pacote, na qual jogara sem cerimônia ao outro. — Abra e cales a boca que nada tem a dizer. — sentou-se de volta na cadeira, um sorriso vitorioso.
Parecendo um pouco surpreso pela atitude da outra, mas recompondo-se rapidamente, Évêque não perdera tempo em examinar o item em mãos. Era pequeno e cubico, sentindo o papel marrom e amassado moldar-se ao objeto desconhecido. Seus dedos longos sentiram ornamentações por debaixo do papel, que despertarem demasiado seu interesse. Olhando brevemente Cheval, desfez com cuidado o nó daquela corda fina, desembrulhando com lentidão até revelar para todas na sala o objeto. Um suspiro surpreso escapara do seus lábios, assim como escutara dos demais ao seu redor.
Com um fascino quase doentio brilhando nas íris de seus olhos, Évêque contemplava o item nas mãos como a coisa mais valiosa do mundo. E não para menos, já que era algo que ele, assim como os outros, estavam a procurar por um longo tempo. O objeto era cubico, em cores amareladas e detalhes geométricos abstratos, havendo em um de seus lados um pequeno buraco, na qual não se permitia ver nada lá dentro.
– É verdade, afinal... — murmurara a mulher que sentava-se ao lado do Roi, tinha o manto índigo e as mãos cobrindo os lábios pintados, surpresa.
– Parece que sim, ma Reine. — dissera Pion ao seu lado, também mostrando certa incredulidade, apesar de sua mente estar entrando em frenesi com as possibilidades que entravam em sua mente. Parece que terei que rever meus planos, pensara franzindo o cenho.
– Teremos que rever todos os nossos planos a partir de agora. — dissera o Roi, os lábios arregalados, soltando uma risada sombria. — Muita coisa mudará a partir deste momento, e iremos nos preparar.
– É claro, mon Roi. — disseram, em uma sincronia assustadora. Roi apenas expressara os pensamentos que povoavam a mente de alguns, por diferentes razões.
– O que quer que façamos, mon Roi? — indagara Reine primeiramente, as unhas compridas batucando a mesa de pedra lustrosa, ansiosamente.
– Primeiro, — começara o líder a dizer, virando-se para o rapaz relaxado ao seu lado, olhando-o atentamente. — Prince, você irá agir do jeito que combinamos. Traga-a para cá o mais rápido possível, entendeu? — dissera, deixando os outros assustados com a atitude do Roi.
– Mas, mas Roi! — exclamara Tour, irritado e levantando-se em um rompente. — Trazer aquela pessoa, não é o melhor momento!
– Está me questionando, Tour? — perguntou gélido, fazendo o outro paralisar no lugar, trincando os dentes com força, tenso. — Sente-se, imbecil e saiba seu lugar!
Rapidamente, Tour sentara-se pesadamente em sua cadeira, engolindo em seco. Sabia ter passado por um momento de risco, mas não podia parar a si mesmo quando soubera o que as palavras de Roi implicavam. Se ela vier, como poderei agir?, pensara irritado, Com certeza, descobrirá o que planejo. Droga!
– Como dizia, Prince, traga-a e deixa que ela aja da melhor forma para nossos interesses. — Roi falara, seu tom não deixando mais espaços para alguma outra contra-argumentação. Prince, com seu sorriso preguiçoso, olhava vagamente um detalhado relógio de bolso, respondendo distraído, ainda que pertinente:
– Como desejar, mon Roi.
~*O*~
O sol era resplandecente na imensidão azul, mesmo que nuvens cinzentas aparecessem hora ou outra, como um presságio que logo a chuva cairia sobre aquele pequeno vilarejo italiano. Os ventos que traziam as folhas secas, era gélido, obrigando alguns moradores agasalhar-sem adequadamente. O outono se fazia cada vez mais presente, preocupando alguns, principalmente, aqueles que ainda tinham que recolher a colheita daquele época.
Os poucos fazendeiros que ali haviam, apressavam-se, bem como a família Serafini. E por tal, toda a família estava nas plantações, ajudando sob o sol escaldante. A pequena Aurora, por entre a plantação andava, com seus bracinhos já cansados, carregando o cesto de frutas recém colhidas. Era o último que carregava até o pequeno armazém, antes da pausa para o almoço.
– Bom trabalho, pequena Aurora. — a voz suave e baixa recepcionara a garota quando chegara ao armazém.
Aurora soltou um suspiro aliviado quando soltara o cesto de palha, enquanto seus olhos castanhos seguiam até a dona da voz. Uma jovem moça dos cabelos ruivos e cheios, sentada em um banquinho ao canto, suas mãos finas e calejadas separavam os grãos. Marri-Ann, uma das garotas mais disputadas e belas do vilarejo, também era a noiva de Rocco, o irmão mais velho de Aurora. E assim, se encontrava a ajudar a futura família naquele dia, para certo desgosto da mais nova Serafini.
Não era ódio que Aurora sentia em direção a moça, não tinha motivos para tal sentimento. Marri-Ann era boa demais. E esse era o problema. A morena não acreditava nas perfeições que a ruiva mais velha demonstrava, ninguém poderia ser perfeito em tudo que fazia. Mas Marri-Ann era boa — e ingênua — demais para notar tais coisas. Assim, a menina Serafini apenas sentia o desgosto amargo na boca do estômago todas as vezes que a ruiva estava por perto. Odiá-la faria Aurora sentir-se completamente culpada.
– Obrigada, Polesso. — dissera a menina secamente, chamando a outra pelo sobrenome, mesmo sabendo que podia chama-la pelo nome próprio.
Aurora dera de ombros. Suas mãos, suadas, amarrotavam o vestido floral que usava, agarrando a vestimenta com força. Marri-Ann apenas lhe mandara um sorriso suave, maneando a cabeça. As vezes a morena tinha a leve impressão que a maior sabia dos sentimentos de Aurora em sua direção. Porém, a dona dos olhos calorosos e cristalinos sempre era amável consigo, como uma irmã mais velha, muitas vezes. Mas novamente, Marri-Ann Polesso era boa demais para uma pessoa normal.
– Diga aos meus pais que vou ter meu almoço agora. — anunciou Aurora, não aguentando o silêncio recaído entre elas.
Sem mesmo esperar por alguma resposta, seus passos apressados já a levaram longe do armazém abafado. Sabia ser uma ação que sua mãe soubesse, não lhe pouparia bronca e castigo. Contudo, Marri-Ann nunca contaria o ocorrido, na verdade a ruiva nunca contava das armações que a Serafini fazia consigo. Aurora bufou, cruzando os braços e sobrancelhas franzidas, seus olhos de relance pegaram a figura do irmão Rocco.
Parando no seu caminho, a poucos metros da sua casa, os olhos amendoados observaram o irmão. Rocco tinha uma beleza moderada, compensada por uma personalidade carismática e firme. Aurora amava e admirava Rocco desde que era pequena demais, sempre estando ao lado do mesmo. E por amá-lo demais, a menina nunca se permitia contar seus sentimentos em relação a noiva do irmão, as reprimindo no fundo de seu coração.
Afinal, mesmo nunca dizendo isso em voz alta, não negaria internamente que Rocco e Marri-Ann faziam um belo casal. A cena que presenciava era apenas mais uma das confirmações relevantes a este fato. Rocco se encaminhava ao armazém, o sorriso na face bronzeada enquanto cumprimentava com beijos nas bochechas coradas de uma Marri-Ann feliz. Uma das mãos maior do moreno detinha uma flor silvestre encontrada em qualquer lugar do vilarejo; mas que a ruiva aceitara como se fosse a mais bela joia já recebida. E Aurora, infelizmente, sabia ser sincero.
Balançando a cabeça com certa brutalidade e ignorando a cena à frente, virou-se de costas, voltando a caminhar apressada para sua casa. O imóvel era de tamanho considerável, feito de madeira já gasta, com janelas altas e varandas largas. Aurora gostava de sua casa, era simples e bela, e que sempre emanava aconchego pra quem chegava.
Entrara pela porta detrás da casa, indo direto para a cozinha. Lá, o cômodo estava preenchido pelo aroma de comida recém feita; depositada em cima da mesa comprida. Aurora animou-se, sentido o estômago roncar e embrulhar-se na visão da comida gustativa. Saltitante, fora até a pia, lavando as mãos às pressas.
Já estabelecida à mesa, um prato em mãos, ansiosa colocava um pouco de cada alimento. Primeiro uma massa refugada, seguida da carne cozida e, mesmo relutante, acrescentara algum verdinho no final. Quem é que gosta de comer salada, ou mesmo, berinjela?, a menina indagou-se, olhando com animosidade a salada em seu prato.
– Ora, mais que menina! — a voz repreendedora, ainda que cândida, assustara momentaneamente a criança, antes que a mesma rompesse em um sorriso.
– Nonna! — reconhecera Aurora, virando seu olhar para a porta de acesso aos demais cômodos da casa. — Sua comida está deliciosa, como sempre!
A senhora, com seus cabelos brancos e bem feitos, sorrira com carinho, andando até a neta e lhe acariciando os cabelos acastanhados. A senhora sabia que deveria estar aborrecida que a criança começara a comer antes que toda a família aparecesse. Mas parecia impossível ao olhar o rosto brilhante de Aurora, a mulher só pode suspirar, resignada. Antonella Serafini, uma senhora com sorriso amoroso e personalidade calma, era conhecida pelos mais novos, como a avó de todos no vilarejo; sempre pronta para receber outros com os braços abertos.
Antonella andou até o fogão a lenha, pegando a chaleira de latão retorcido, água já preenchendo o recipiente. Colocara a água para ferver, enquanto seus olhos vagueavam para o forno, olhando com atenção o bolo crescer lá dentro. Então voltava a olhar a neta, a mesma concentrada em comer a comida no prato. Antonella não pode deixar de rir baixinho ao observar a menina comer com má vontade a salada que se obrigara a colocar no prato. Igualzinha ao avô e pai, pensara divertida, colocando a chaleira no balcão, recolhendo logo em seguida folhas verdes para o chá que preparava.
O forno dera um apito agudo, fazendo a senhora Serafini parar em sua prepara de chá. Apressada, recolhera as luvas recheadas de estufo indo logo tirar a travessa de bolo. O cheiro doce chamara a atenção de Aurora de imediato, fazendo com que a mesma parasse de comer. Seus olhos brilharam com a visão da forma ainda quente, o bolo gordo e o cheiro de pão de ló fazendo Aurora imaginar como seria quando estivesse totalmente pronto; gelado e decorado. Os bolos da vovó são o melhor!, pensara a menina animada, voltando a comer seu almoço com mais afinco.
– Tão animada para comer meu bolo, minha menina? — a voz de Antonella tirara a mais jovem de seus pensamentos, nem percebendo quando começara a cantarolar baixinho, toda feliz.
– Claro, nonna. Seus bolos são os melhores! — respondera Aurora, um sorriso na face ruborizada. A avó soltara uma risada, assentindo.
Assim como Aurora terminara de comer, e estava a colocar o prato na pia, a porta dos fundos da casa se abrira, e de lá, o resto da família Serafini adentrava depois de uma manhã cheia de trabalho árduo. A maioria estava com semblantes cansados, suados e ofegantes. O pai de Aurora, um homem dos cabelos escuros e olhos miúdos, era alto e de porte grande, limpava as mãos grandes e calejadas nas calças pardas e sujas; o chapéu de palha torto na cabeça.
– Que manhã mais cansativa. — resmungou Ercole Serafini, sentando-se no seu lugar habitual na mesa, o lado direito da ponta da mesa.
– Querido, por favor, lave as mãos antes de comer, oras. — repreendeu levemente a mulher dos cabelos curtos e escuros. Costanza Serafini sorrindo com ternura, enquanto ajudava a sogra com o chá e Antonella se ocupava em terminar o bolo.
Todos se ocupavam em revezar em lavar as mãos e sentar-se à mesa, habitualmente. O patriarca da família e o mais velho, marido de Antonella, Benedetto Serafini com rosto enrugado e uma carranca característica, sentava-se na cabeceira da mesa, sua mulher a sua esquerda. Logo depois vinha Rocco, com a futura esposa, Marri-Ann Polesso e em sua frente, Ercole e Costanza. Aurora deveria estabelecer-se ao lado da mãe, mas em vez disso, discretamente saia da cozinha, que aos poucos tornava-se agitada e barulhenta.
No corredor que levava para os demais cômodos da casa, Aurora seguia pensativa. Estava indecisa se iria para o quarto que Guilio estava usando, receando o estado em como estaria o menino; que aos poucos se tornara como um querido amigo. Já na sala, onde os móveis de madeira e antigos, com seus sofás estufados e remendados, Aurora olhou atentamente as escadas que levariam para o outro patamar da casa.
Suspirando, a jovem quase moça decidira em dar uma rápida verificada em Guilio, internamente, rezando para que o mesmo estivesse acordado e bem. Já fazia três dias que o moreno estava entrando e saindo do seu estado de inconsciência, com febres altas e temores forte no pequeno e magro corpo já bem danificado. A família Serafini chamara o médico do vilarejo, que quase nada pode fazer, já que pelas palavras do doutor, haveria de fazer exames completos para saber a causa de tal comportamento. Mas não era como os Serafini tinham dinheiro suficiente para tais exames, e o jeito era esperar que Guilio saísse bem. Aurora sentia-se frustrada, com medo e ansiosa, tudo ao mesmo tempo.
Parando em frente a porta que Guilio usava, a menina momentaneamente fechara os olhos com força. Exalando com força, abrira os olhos, piscando rapidamente, antes de recompor-se totalmente. Batera de leve na porta, e esperara, como não ouvira nenhum tipo de resposta depois de alguns minutos, resolvera em entrar. A porta do quarto abrira-se lentamente, Aurora com receio em acordar o ocupante do lugar, caso estivesse.
O quarto continuava do mesmo jeito que estava quando Guilio pela primeira vez acordara naquele lugar. Com exceção, talvez, de haver algumas roupas para o menino dentro da cômoda e que em cima da mesma, havia uma jarro de água e um copo, junto com uma compressa usada. A janela aberta iluminando o local, as cortinas balançando com o vento. E em frente a porta aberta, era o leito ocupado por Guilio, estando o mesmo dormindo pacificamente; o peito subia e descia ritmado com o rosto sereno e cabelos esparramados no travesseiro desbotado.
Aurora entrara no quarto, fechando a porta com cuidado, depois que tomara um tempo em observar o cômodo na qual passara a maior parte dos três dias anteriores. A menina aproximara-se de manso, encarando o outro com atenção. Ao estar ao lado da cama, não pode conter um suspiro que não sabia estar segurando. Agradecia a Deus por seu amigo já aparentar uma boa coloração, não mais pálido cadavérico. Parece que ele está melhorando, aos poucos, pensara indo sentar-se na cadeira ao lado.
Não sabia quanto tempo passara a observar o outro rapaz, certificando-se que tudo estava bem; mas quando Aurora notara, a manhã adquirira um tom mais escuro, as nuvens encobrindo o céu, cinzentas e gordas. Ela aproximara-se da janela, sentindo o vento tornar-se gélido, fazendo-a encolher-se com o frio. Fechara rapidamente a janela ao ver que uma tempestade poderia vir daqui a algumas horas. Nesses dias, o tempo está meio maluco, pensara franzindo o cenho, enquanto esfregando as mãos uma na outra, tentando aquece-las.
Saíra de seus pensamentos quando a porta fora abruptamente aberta, assustando a menina. Um jovem moreno de pele morenada entrara, seguida de uma bela ruiva de rosto amigável, era Rocco e Marri-Ann. A mais nova dos Serafini estava pronta para indagar e consequentemente, reclamar, da aparição dos mais velho daquela forma nada educada em sua opinião. Mas Rocco fora mais rápido que si.
– Aurora, mia sorellina, você não sabe a novidade que acabara de chegar a vossa casa. — dissera Rocco, sorrindo abertamente.
– E qual seria, meu irmão? — indagara, curiosidade em seu tom de voz, apesar de tentar esconde-lo. Seus olhos acastanhados focados exclusivamente no irmão e tentando ignorar a presença silenciosa de certa ruiva.
– Acaba de chegar ao nosso vilarejo, um jovem doutor da cidade. Pelo que estão a dizer, veio aqui por um estudo e é de classe nobre. — contara ele, aproximando-se da irmã, que mostrara-se confusa. Rindo ao notar tal fato, Rocco esclarecera: — O jovem doutor soube da situação do pequeno Guilio e concordou em ajudar. E sem cobrar nada! Não ves, um nobre e da alta formação vem ajudar-nos! Não é explêndido, irmãzinha!?
– Rocco, que notícia maravilhosa! — exclamara Aurora, não contendo um pequeno salto de alegria, mas tentando conter-se para não perturbar o sono do enfermo. — E qual seria o nome deste nobre doutor? — perguntara, abraçando com força o irmão. Mas quem respondera desta vez fora a doce Marri-Ann, sorrindo e dizendo com confiança que mesmo Aurora não se importara naquele momento:
– O filho mais novo do Conde di Sotto, vindo direto da cidade de Palermo, Luchino Tardocchi.
~*O*~
O vento uivava no alto daquele penhasco, o céu obscurecido em tons fortes de azul e um roxo púrpura. A noite chegara, mas a lua era escondida pelas grossas nuvens azul-cinzentas, as estrelas pareciam terem escolhido não aparecerem na noite sombria. Naquele lugar tudo era silencioso, sem rastro da existência de seres vivos na vegetação rochosa e rupestre. Contudo, em segundos, um assobio alto, agudo e prolongado, cortou o ar repentinamente. Logo que o som terminara, um trote suave, ainda que com certa rapidez, fez-se presente.
Por entre rochas volumosas, um animal quadrupede e com pelagem cheia aparecia, uma fita vermelha com um sininho no pescoço curto e grosso. A jovem ovelha soltou seu berro característico alegremente, caminhando até um velho senhorzinho na ponta do penhasco. O homem sorriu, mostrando a falta de alguns dentes, enquanto acariciava a penugem do seu animal.
– Boa menina, boa menina, Dolly. — resmungou divertido, soltando uma rouca e baixa risada seca.
O homem corpulento, apoiando-se no cajado de formato estranho, caminhava até um conjunto de pedras onde lá se estabelecera com um suspiro. Deixando o cajado de lado, suas mãos ansiosamente procuraram abaixo do manto esfarrapado e retalhado. Por algum tempo, apenas se havia o barulho de vidro contra vidro, bem como sons de tecidos e metais.
Com uma exclamação contente, debaixo do manto, uma lamparina enferrujada aparecia. O velho olhou a ovelha ao seu lado com um olhar aguçado por alguns instantes, como se esperasse algo. Uma mão segurava a lamparina e a outra serpenteava até encontrar a vela gasta. Agora, o senhor tinha toda a sua atenção voltada ao objeto em posse, a mão gorda e cheia de anéis metálicos e brilhantes; enrolando o topo da vela. Em segundos, tirava a mão, deixando a luz bruxulear e iluminar o local já escuro e o rosto enrugado do homem.
– Ho, ho, parece que ainda funciona. — divagava o senhor, colocando a lamparina ao chão, a luz se tornando ainda mais intensa.
– O que ainda funciona, são seus velhos truques, não? — uma nova voz preencheu o lugar, vindo da parte mais obscura do penhasco, por entre os paredões de pedra. O velho soltara uma risada divertida.
– Ora, ora, quem resolveu aparecer, numa hora tão... inoportuna, por assim dizer. — respondera o senhor, acariciando distraidamente a ovelha cansada ao seu lado. — Pensei que tivesse passando por uma crise. Num momento como esse, não deveria estar fazendo seu trabalho, criança?
– E quem disse que não estou? Chamei o senhor por um motivo, e já deve saber por qual. — respondeu o outro homem, o tom denunciando seriedade e um toque de irritação. Ele suspirou, resolvendo caminhar até o outro, parando a pouca distância.
– Hahaha, olha quem cresceu! — riu-se, mexendo por dentro do manto. — Bem, bem, me diga no que precisa e ajudarei, se possível.
– Você sabe, estamos em crise. — começou a dizer o homem que usava um belo terno, meio extravagante pelas cores monocromáticas e a máscara prateada. — Ou melhor dizendo, o tempo estará em colapso em pouco tempo se não fizermos algo. Será que isso é sério o suficiente para interessá-lo?
– Hunm... O Trinisette nunca foi meu interesse, tanto que sou o traidor, não? Ho, ho, mas desta vez, não posso escapar dele.
– Então irá ajudar? — indagou, mexendo nos cabelos loiro ondulados, inquieto. Vendo o mais velho acenar com a mão em concordância, não pode parar de suspirar aliviado. — Ótimo, podemos ir ou ainda há algo para fazer?
– Não, claro que não. — respondera, levantando-se com a ajuda do cajado, onde pendurara a lamparina. A ovelha sonolenta ao lado, dando um pequeno berro. — Mas, lhe pergunto, por que escolhera justo esse lugar?
O homem pareceu considerar a pergunta, olhando o outro atentamente. Os olhos cobertos pela máscara digitalizando ao redor, como se inspecionando o lugar. Um dia, aquele monte de rocha desiguais e com resquícios de algum tipo de luta que acontecera ali. Quem pensaria que uma montanha bonita como aquela, com uma vista para uma vasta floresta e céu límpido; agora parecia deserta, um penhasco empobrecido. Tudo como um constante lembrete do que acontecera ali, entre ele e mais oito pessoas.
– Um capricho meu, digamos assim. — informara, virando de costas para o senhor de cabelos roxos. Os lábios comprimidos em um sorriso malicioso.
– Você gosta de uma boa provocação, não é, mio caro Check Face.
– La mia natura sadica parla più forte, Talbot...
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