Laços Profanos
13 POV: DR. JULIAN VANE - O GOSTO AMARGO
O jantar na casa do prefeito foi num sábado.
Eu me lembro porque passei a sexta inteira tentando encontrar uma desculpa minimamente crível para não ir. Nenhuma veio. Então, às sete em ponto, eu estava de pé na porta da residência Blackwood com uma garrafa de vinho que eu nem gostava particularmente e o sorriso educado que eu usava em reuniões de diretoria.
A casa cheirava a assado, a madeira encerada e a um perfume floral discreto demais para ser de Sarah. Arthur me recebeu com o entusiasmo de quem finalmente conseguira encaixar as peças que queria na mesma mesa. Sarah apenas inclinou a cabeça, os olhos castanhos já me avaliando com aquela calma antiga que sempre me deixava desconfortável. E então Maeve desceu a escada.
Ela era linda. Objetivamente linda. Cabelo castanho-claro caindo em ondas suaves, olhos claros, pele com aquele brilho saudável de quem passara meses na Europa, o tipo de sorriso que fazia as pessoas baixarem a guarda sem perceber. O vestido era simples, elegante, azul-marinho. Quando apertou minha mão, os dedos estavam quentes e firmes.
— Doutor Vane. Meu pai fala tanto de você que eu já me sinto como se o conhecesse.
Eu respondi alguma coisa adequada. Sorri. Puxei a cadeira para ela. E o jantar começou.
A conversa fluiu. Maeve falava sobre o fellowship em pediatria com genuinidade, perguntava sobre o hospital com interesse real, ria no momento certo. Arthur servia mais vinho. Sarah observava. E eu…
Eu comparava.
Não queria. Me obrigava a parar. E cinco segundos depois estava de novo medindo a leveza no olhar dela contra a densidade sufocante que Aurora carregava só de atravessar uma porta. Maeve era clara. Aberta. O tipo de presença que preenchia uma sala sem sufocar ninguém. Aurora era o contrário. Aurora entrava e o oxigênio parecia ter que trabalhar mais. O ar ficava mais pesado. Mais carregado. Eu odiava o fato de estar fazendo essa comparação na mesa de jantar do prefeito, com a filha dele sorrindo para mim e passando a travessa de legumes.
— Vocês dois deveriam ir juntos ao Festival da Colheita semana que vem — disse Arthur, de repente, cortando a conversa com um sorriso largo. — Maeve ainda conhece pouco a cidade. E você, Julian, precisa sair desse hospital antes que os monitores cardíacos comecem a aparecer nos seus sonhos.
Maeve virou o rosto para mim, sem constrangimento.
— Eu toparia. Se o doutor não se importar de me aturar por algumas horas.
Todos os olhos na mesa se voltaram para mim.
Eu forcei o sorriso. O profissional. O que não deixava transparecer nada.
— Claro. Vai ser um prazer.
A frase saiu correta. Educada. E completamente oca.
Sarah me olhou por cima da taça. Só por um segundo. Mas foi o suficiente. Eu vi o entendimento passar pelos olhos dela — calmo, preciso, quase compassivo. Ela sabia. Claro que sabia. Sarah Blackwood lia gente do mesmo jeito que eu lia hemogramas.
O resto do jantar foi um exercício longo de presença. Eu perguntava sobre Roma. Maeve respondia com detalhes interessantes. Eu sorria. Por baixo da mesa, os dedos apertavam o guardanapo de linho até as articulações doerem.
A semana seguinte foi pior.
Eu trabalhava. Revisava a planta da nova UTI. Discutia com engenheiros. Operei duas colecistectomias e um apêndice perfurado. Tudo com a mesma eficiência de sempre. E nos intervalos — no café da manhã, no carro, no corredor entre uma sala e outra — a mente escapava.
Para o festival, para a possibilidade de vê-la lá.
E logo em seguida vinha a culpa, pesada, irritante, adulta.
Você deveria estar pensando em Maeve. Em conhecer melhor a mulher inteligente, atraente, disponível e emocionalmente estável que o prefeito claramente quer te apresentar. Não na herdeira ácida que te trata com educação de bisturi e ainda assim consegue te deixar semi-duro só de existir na mesma sala de reunião. Que porra há de errado com a sua cabeça, Vane?
Nada. A resposta era nada. E isso só piorava.
O sábado do festival chegou com o cheiro de maçã assada já espalhado pela cidade.
Maeve apareceu pontual, de casaco bege, cabelo solto, sorriso no rosto. Entrelaçou o braço no meu com uma naturalidade que eu não desencorajei. Andamos juntos pela praça lotada. Ela apontava para as barracas de mel, de cerâmica, de cidra. Eu respondia. O barulho de crianças, a música folk, o calor das lanternas de ferro… tudo estava lá. E eu procurava Aurora o tempo inteiro.
Os olhos varriam a multidão sem permissão. Cada casaco preto. Cada mulher alta de cabelo escuro. Cada risada baixa demais. Eu me obrigava a voltar a atenção para Maeve, para o que ela estava dizendo sobre uma geleia de pimenta, e três segundos depois estava de novo vasculhando o festival como um homem faminto.
Então eu a vi.
Perto de uma barraca de cerâmica artesanal. De braço dado com Helena. O casaco preto caindo perfeito sobre os ombros. O cabelo negro solto, as mechas avermelhadas aparecendo sob a luz dourada das lanternas. Aquele jeito de ocupar o espaço como se o resto das pessoas fosse apenas cenário temporário.
O impacto foi físico.
O coração disparou. O sangue desceu quente e imediato. Eu senti o corpo inteiro reagir à presença dela antes mesmo de eu dar o primeiro passo naquela direção. A vontade absurda de soltar o braço de Maeve, atravessar a praça e simplesmente… ficar. Andar com ela. Ouvir a voz ácida. Tentar arrancar alguma rachadura, qualquer rachadura, naquela armadura de gelo.
Eu me aproximei mesmo assim.
— Helena. Senhorita Wycliffe.
Os olhos verde-esmeralda se ergueram até os meus. Eu senti o olhar dela como um toque. O sangue bombeou mais forte. A pressão baixa e familiar entre as pernas voltou com uma honestidade irritante.
— Doutor Vane — ela disse, o sorriso educado e distante já no lugar. — Que surpresa. Achei que médicos passassem festivais inteiros trancados em hospitais salvando vidas.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa que não fosse completamente segura, Maeve puxou meu braço com uma risada leve.
— Vamos tentar o tiro ao alvo? Eu era boa nisso na faculdade.
Eu deixei. Claro que deixei.
Mas enquanto atirávamos em alvos de madeira e ela comemorava cada acerto com uma espontaneidade que eu deveria ter achado encantadora, meus olhos continuavam voltando. Procurando o casaco preto. Procurando o perfil. Procurando o verde daqueles olhos na multidão dourada e barulhenta.
Eu a encontrei de novo alguns minutos depois e o que vi fez o estômago virar.
Um homem alto, loiro-escuro, terno escuro impecável demais para um festival de colheita, estava parado perto dela. Perto demais. A mão dele no braço de Aurora. O corpo inclinado em um ângulo de intimidade antiga. A expressão no rosto dela… eu não conseguia ler por completo, mas não era conforto. Era tensão. Reconhecimento. História.
Eu me movi antes de terminar de pensar.
Atravessei a multidão com o coração batendo num ritmo que não tinha nada de desejo desta vez. Era outra coisa. Mais antiga. Mais protetora. Quando cheguei perto o suficiente, a voz saiu baixa, firme, o tom que eu usava quando entrava em uma sala de trauma e precisava assumir o controle.
— Está tudo bem aqui?
Aurora virou o rosto para mim. O sorriso que ela ofereceu foi controlado, polido, perfeito.
— Está tudo bem, doutor. Lucien é apenas um velho amigo.
O homem — Lucien — riu. O som foi baixo, educado, charmoso. E profundamente errado. Ele olhou para mim com aqueles olhos azuis claros e eu senti, com a clareza desconfortável de quem passa o dia lendo microexpressões, que ele estava me medindo. Avaliando. Entendendo exatamente o que eu sentia por ela e achando graça.
O sorriso dele se alargou com uma lentidão quase cruel.
— Amigo é uma palavra tão… insuficiente. — A mão dele desceu daquele braço para a cintura de Aurora com uma intimidade que não deixava espaço para nenhuma interpretação generosa. Os dedos se espalharam sobre o casaco dela como se tivessem direito de estar ali. — Sou o namorado de Aurora. De longa data. Muito longa.
O golpe foi limpo, preciso.
Eu senti o impacto no centro do peito como se alguém tivesse acertado exatamente o osso. O ar saiu dos pulmões num ritmo errado. Por um segundo o barulho do festival — risadas, música, crianças — simplesmente sumiu. Só restou o peso daquela frase e o gosto metálico que subiu na boca.
Namorado.
Claro.
Fazia sentido.
A distância. A educação cortês demais. O gelo consistente. A forma como ela nunca prolongava o contato visual além do necessário. A maneira como me tratava como um colega ligeiramente inconveniente e nada mais. Eu tinha inventado sinais. Tinha projetado desejo onde havia apenas indiferença bem educada. Tinha passado semanas obcecado por uma mulher que nunca estivera disponível.
O sorriso que eu forcei depois foi o profissional. O que eu usava quando precisava dar uma notícia ruim e manter a voz estável.
— Entendo. Desculpem a interrupção.
Lucien inclinou a cabeça, satisfeito, educado, vitorioso sem precisar levantar a voz.
— Nenhum problema, doutor. Apenas um pequeno mal-entendido.
Eu dei um passo para trás. Depois outro. O olhar de Aurora passou por mim uma última vez — rápido, fechado, ilegível. Eu me virei antes de fazer qualquer pergunta que só me tornaria mais patético.
A multidão me engoliu de volta. O cheiro de canela e maçã assada voltou de uma vez só, enjoativo. Em algum lugar à minha direita, Maeve ria e chamava meu nome, ainda segurando o rifle de brinquedo da barraca de tiro.
Eu caminhei na direção dela, o rosto educado no lugar, a postura correta, o peito inexplicavelmente oco.
E o gosto amargo subindo pela garganta, persistente, adulto, profundamente desagradável.
Porque mesmo agora — sabendo que ela tinha namorado, sabendo que a distância fazia sentido, sabendo que eu tinha sido um idiota otimista…
Ainda assim.
Ainda procurava o casaco preto entre as lanternas douradas e odiava a mim mesmo por isso.
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