Laços Profanos

6 O QUE AS RAÍZES ESCONDEM


O sol da manhã em Ravenwood Valley tinha a insolência de quem não sabia que eu odiava a luz.

Eu abri os olhos no quarto antigo e fiquei deitada por longos segundos, sentindo o peso do linho frio contra a pele nua. A camisola de cetim escuro ainda carregava o cheiro vago de perfume caro e de algo que eu me recusava a nomear — madeira seca, pele limpa, o resquício de um homem que não deveria ter ficado grudado em mim. O corpo estava quieto. A mente, não. Cinco séculos ensinam a acordar já calculando. Já medindo o perigo. Já decidindo quem merece continuar respirando e quem pode ser descartado antes do café.

Levantei.

O chão de madeira polida estava gelado sob os pés descalços. Cada passo ecoava baixo no silêncio da mansão. Caminhei até a janela e puxei a cortina de linho pesado. A névoa da noite anterior tinha se dissipado parcialmente, deixando o vale úmido e brilhante sob uma luz pálida demais, quase ofensiva. Ravenwood se espalhava lá embaixo como uma cidade que fingia ser inocente. Eu sabia melhor. Eu sempre soubera.

Me vesti com a calma deliberada de quem tem todo o tempo do mundo e, ao mesmo tempo, nenhum. Calça preta de alfaiataria que caía perfeita sobre as curvas. Blusa de seda esmeralda que realçava os olhos e contrastava com a pele fria. Casaco longo de lã negra, pesado o suficiente para lembrar um manto. Os cabelos soltos, as mechas avermelhadas aparecendo sob a luz fria da manhã como sangue diluído. Olhei no espelho apenas o suficiente para confirmar o que já sabia: a mesma face. Os mesmos olhos verde-esmeralda. A mesma pele que o tempo se recusava a tocar. A mesma mulher que já enterrara gerações inteiras e ainda assim continuava de pé.

Desci as escadas.

Helena estava na cozinha, de pé junto à mesa de mármore branco, com uma xícara de café nas mãos e a expressão de quem dormira pouco e pensara demais. O cheiro de grãos torrados e pão quente encheu o ar quente da cozinha. Ela ergueu os olhos quando me viu e o corpo inteiro ficou rígido por uma fração de segundo. Eu ouvi o coração dela acelerar — um tamborzinho assustado batendo rápido demais contra as costelas.

— Você acordou cedo — disse ela, a voz tentando soar casual.

— Eu quase não durmo.

Passei por ela, abri a geladeira e peguei uma garrafa de água. O vidro frio contra os dedos. O gosto limpo e sem graça na boca. Helena observava cada movimento como se eu fosse explodir a qualquer instante. Eu podia sentir o medo dela no ar — ácido, metálico, delicioso.

— Precisamos conversar — ela falou, mais baixo.

— Sobre o que, exatamente?

— Sobre o que você veio fazer em Ravenwood Valley.

Sorri sem humor. Apoiei o quadril na bancada de mármore frio e cruzei os braços. O tecido da seda deslizou contra a pele como água gelada.

— Negócios. Já disse.

— Eu li os diários.

O silêncio que se seguiu foi denso o suficiente para ser cortado. Eu a estudei. A forma como os dedos apertavam a xícara até os nós ficarem brancos. A respiração um pouco mais rápida. O medo contido atrás dos olhos castanhos. O coração ainda martelando.

— Quais diários? — perguntei, embora já soubesse.

— Dos meus antepassados. Das mulheres Wycliffe. Os que ficam trancados no escritório do terceiro andar. Eu… eu li o que elas escreveram sobre você.

Inclinei a cabeça. O cabelo escorregou sobre o ombro.

— E o que elas escreveram, Helena? Que eu sou uma vadia sanguinária sem coração?

Ela engoliu em seco. O movimento da garganta foi visível. O cheiro do medo dela se intensificou.

— Elas usaram palavras diferentes. Mas o sentido…

— Talvez — interrompi, a voz suave demais, quase carinhosa. — Talvez seja verdade.

Helena ficou pálida. Eu ouvi o sangue dela bombear mais rápido. Delicioso.

— Você está segura comigo por perto? — continuei, dando um passo à frente. O cheiro do café dela se misturou ao meu perfume. — É isso que quer saber?

— Eu…

— Não faço questão de você — disse, sem elevação de tom. Sem raiva. Apenas fato. — Nunca fiz. Você é útil. É a última. E é teimosa o suficiente para continuar viva. Isso é tudo.

Ela apertou a xícara com mais força. A porcelana ameaçou rachar. Eu ouvi o microestalo.

— Como você se alimenta?

A pergunta saiu quase num sussurro. Medrosa. Curiosa. Julgadora.

Eu ri baixo. O som ecoou na cozinha limpa e moderna demais para uma casa daquele tamanho.

— A modernidade tem suas vantagens. Hospitais. Bancos de sangue. Bolsas que ninguém sente falta. Eu me viro. Sempre me virei.

— E as pessoas?

Olhei para ela por um longo segundo. Deixei o silêncio trabalhar. Deixei o medo dela crescer o suficiente para que eu pudesse saboreá-lo como vinho antigo.

— Nunca precisei matar ninguém que não merecesse.

Helena não respondeu. Apenas me observou com aquela desconfiança teimosa que eu reconhecia de outras gerações. Mulheres Wycliffe sempre foram assim: teimosas, desconfiadas e, no fundo, aterrorizadas com o que carregavam no sangue.

Saí de casa sem me despedir.

A cidade me recebeu com o cheiro de pão fresco saindo das padarias, folhas molhadas grudadas no asfalto e o vapor distante de escapamentos. Eu caminhei pela avenida principal com a mesma arrogância com que caminhara por Veneza no século XVI, por Paris no XIX, por Nova York no XX. As pessoas se afastavam sem perceber. Algumas me encaravam. Outras desviavam o olhar rápido demais. Eu não precisava usar o poder. A labia sempre fora suficiente. A postura. O silêncio. A certeza de que eu podia destruir qualquer um deles antes que terminassem o café da manhã.

O café da esquina tinha mesas do lado de fora, sob uma tolda bege desbotada. Escolhi a mais afastada, de frente para a praça. Pedi um espresso que não iria beber. O vapor subia da xícara em espirais preguiçosas. O cheiro era bom — amargo, forte, humano. Eu apenas segurei a porcelana quente entre as mãos frias e observei Ravenwood se mover.

Crianças indo para a escola, mochilas batendo nas costas. Mulheres com sacolas de feira. Homens de terno caminhando rápido demais para uma cidade tão pequena. A torre do relógio marcava o tempo como se ele significasse alguma coisa para alguém além de mim.

Eu estava ali há menos de vinte minutos quando a cadeira à minha frente foi puxada.

Sarah Blackwood sentou-se sem pedir licença.

Ela envelhecera com elegância. Cabelo branco preso num coque baixo, casaco de lã cinza que cheirava a talco antigo e ervas secas, olhos vivos e afiados que ainda carregavam o mesmo brilho de décadas atrás — o brilho das mulheres que fugiram de Salem com o pouco de poder que restara. O cheiro dela era familiar. Confortável. Perigoso da forma certa.

— Aurora — disse ela, a voz calma, madura, sem surpresa. Como se eu tivesse apenas saído para comprar pão e voltado depois de cinquenta anos.

— Sarah.

Ela sorriu de lado. Não era um sorriso caloroso. Era o sorriso de quem já vira demais e ainda assim continuava viva.

— Eu soube que você tinha voltado. A cidade inteira soube antes do café da manhã.

— Notícias viajam rápido quando envolvem dinheiro.

— E sangue — completou ela, baixinho.

Eu a olhei por cima da xícara. O vapor ainda subia.

— Podemos falar. Você e eu sempre pudemos.

Sarah inclinou a cabeça, aceitando. Os dedos dela, finos e manchados pela idade, descansaram sobre a mesa de madeira úmida.

— Por que voltou, Aurora? De verdade.

Eu girei a xícara devagar. O calor se dissipava contra a pele fria. O espresso já não fumegava tanto.

— Porque senti alguma coisa.

— Alguma coisa.

— Horrível — corrigi. — Vindo na direção de Ravenwood Valley.

Sarah não piscou. Apenas esperou. O coração dela batia lento, constante, acostumado a segredos antigos.

— Quão horrível? — perguntou por fim.

Eu erguei os olhos para ela. Verde-esmeralda encontrando o castanho cansado, mas ainda afiado, de uma descendente das bruxas que atravessaram o oceano com o que restava de sua linhagem.

— Naquele nível — disse, a voz baixa. — O nível que nós duas já vimos uma vez.

O silêncio entre nós ficou pesado. Sarah respirou fundo. O ar frio da manhã fez o peito dela subir e descer devagar. Eu ouvi o sangue dela circular, calmo, antigo.

— Então é pior do que eu imaginava.

— Sempre é.

Foi nesse momento que eu o vi.

Julian Vane atravessava a praça em direção ao hospital. Casaco escuro, ombros largos, o passo firme de quem já se acostumara às ruas de Ravenwood em apenas duas semanas. O cabelo castanho-escuro ainda úmido do banho matinal. O rosto concentrado. Ele carregava uma pasta sob o braço. E o cheiro… o cheiro dele chegou até mim antes mesmo do corpo. Sabonete limpo. Café forte. Pele quente. Sangue humano bombeando em um ritmo constante e irritantemente saudável.

Sarah o viu também. O rosto dela se suavizou.

— Doutor Vane — chamou, elevando a voz apenas o suficiente.

Ele parou. Virou a cabeça. Os olhos azuis profundos encontraram os dela primeiro. Depois os meus.

E então eu ouvi.

O coração dele.

Acelerou.

Não de forma dramática. Não como o de Helena na cozinha. Foi sutil. Preciso. Um aumento claro no ritmo, o sangue bombeando mais rápido por todas as direções — para o cérebro, para os músculos, para os órgãos mais interessantes. Eu senti o fluxo mudar. Senti o desconforto físico dele se instalar como uma onda baixa. O maxilar apertou por uma fração de segundo. Os dedos apertaram a pasta com mais força. A respiração ficou um milímetro mais funda.

Ele ficou desconfortável.

E eu segurei o sarcasmo que subiu imediatamente à língua.

Porque o corpo dele me respondia de um jeito que a mente dele ainda tentava negar.

Ele se aproximou da mesa com a postura educada e firme que eu já começava a odiar. O cheiro ficou mais forte. Quente. Vivo.

— Senhora Blackwood — cumprimentou, a voz grave e cortês. — Bom dia.

Sarah sorriu de verdade pela primeira vez desde que se sentara.

— Julian. Que bom vê-lo. Você conhece Aurora Wycliffe, claro.

Os olhos dele se voltaram para mim. Eu sustentei o olhar sem piscar. Sem sorrir. Sem oferecer qualquer coisa. Apenas deixei que ele sentisse o peso do verde-esmeralda.

— Senhorita Wycliffe — disse ele, inclinando a cabeça apenas o suficiente para ser educado.

— Doutor — respondi, a voz fria, quase amarga. Controlada. — Que feliz coincidência.

Ele não revidou. Apenas me observou por um segundo a mais do que o necessário. Eu ouvia o coração dele ainda acelerado. O sangue ainda bombeando com mais força do que deveria. O desconforto ainda presente sob a superfície calma. Ele estava controlado. Sempre controlado. Mas o corpo… o corpo não mentia.

— Espero que esteja se acomodando bem em Ravenwood — continuou ele, ainda olhando para mim.

— Eu nasci aqui, doutor. Diferente de alguns.

O canto da boca dele se moveu. Quase um sorriso. Quase irritação. O coração deu outro salto discreto. Eu senti.

Sarah observava a troca em silêncio, os olhos passando de um para o outro com uma inteligência antiga demais para ser inocente.

— Preciso ir — disse Julian por fim. A voz ainda estável. O corpo ainda traído. — O hospital não espera.

— Claro — respondeu Sarah. — Cuide-se.

Ele inclinou a cabeça novamente. Para ela. Depois para mim. E se afastou.

Eu acompanhei o corpo dele se afastando pela praça até ele desaparecer na direção do Saint Jude. O casaco escuro. Os ombros largos. O passo firme que tentava disfarçar o que o coração ainda confessava. O cheiro dele ficou no ar frio da manhã por longos segundos depois que o corpo já tinha sumido — madeira, sabonete, sangue quente bombeando para lugares que eu não deveria estar pensando.

Sarah quebrou o silêncio.

— Interessante.

Eu voltei o rosto para ela, lenta.

— O quê?

— A forma como vocês dois se comportaram.

Ela não sorriu desta vez. Apenas observou. Como uma amiga de longa data que já vira demais e ainda assim se divertia com o espetáculo.

— Você o olhou como se quisesse dissecar. Ele olhou para você como se tivesse encontrado um diagnóstico que não conseguia nomear. E o ar entre vocês… — Sarah fez uma pausa, inclinando a cabeça. — Ficou pesado.

Eu girei a xícara intocada. O espresso já estava frio.

— Eu não tenho tempo para esse tipo de coisa.

Sarah ergueu uma sobrancelha branca.

— Claro que não.

Ela se levantou com a lentidão elegante da idade. Ajustou o casaco. O cheiro de ervas e talco se espalhou novamente, familiar e reconfortante da forma errada.

— Cuidado, Aurora — disse, baixinho. — A última vez que algo daquele nível veio para Ravenwood… você sabe o que aconteceu.

Eu não respondi.

Sarah se afastou pela calçada, a figura pequena e reta desaparecendo entre as pessoas que caminhavam sem saber o que realmente habitava a cidade delas.

Eu fiquei sozinha na mesa.

O espresso esfriara completamente. A porcelana já não queimava os dedos. A névoa começava a voltar, baixa, rastejando entre os prédios como se tivesse memória. Eu passei o polegar na borda da xícara e olhei na direção do hospital.

Julian Vane estava lá em algum lugar. Entre paredes brancas, cheiro de antisséptico e vidas que ele ainda acreditava poder salvar. O coração dele tinha acelerado só de me olhar. O sangue tinha bombeado mais rápido para todos os lugares certos. Ele ficara desconfortável. E ainda assim saíra andando como se nada tivesse acontecido.

Eu fechei os olhos por um segundo.

O poder latejou sob a pele. Antigo. Frio. Faminto. Eu poderia ter entrado na mente dele ali mesmo, na praça, e feito o que quisesse. Poderia ter apagado o desconforto. Ou intensificado. Poderia ter feito ele voltar.

Mas eu não precisava, nunca precisei.

E, no entanto, enquanto o cheiro residual dele ainda pairava no ar e o sabor amargo do café intocado me lembrava que eu não era humana, a frase de Sarah ecoou na mente com uma clareza perigosa.

A forma como vocês dois se comportaram.

Eu abri os olhos.

Talvez…

Talvez um passatempo enquanto eu estivesse aqui fosse interessante.

Algo para ocupar o tempo, algo para lembrar o corpo de como era sentir o sangue de outra pessoa acelerar só porque eu existia.

Eu sorri devagar, sozinha na mesa, com a névoa voltando a cobrir Ravenwood Valley.

Sim.

Um passatempo podia ser exatamente o que eu precisava.