Laços Perdidos no Tempo
12 Capítulo 12
Demorou para encontrar o local, no meio daquela escuridão. A grande placa, por cima do portão negro, não saia da cabeça de Aldebaran.
A luz da lanterna, nas mãos de Maurício, iluminava uma placa de mármore no chão. Do lado desta, um jarro de ferro, com poucas flores, que tentavam resistir ao tempo.
Não sabia o que dizer. Não conseguia entender.
O que poderia vir a ser aquilo?
- Ela foi ficando incontrolável, como eu disse – Maurício começou, chamando a atenção do homem que estava abaixando sob a luz fraca da lanterna do que estava em pé, um pouco atrás – Depois vieram aqueles amigos estranhos.
- O que houve? Eu não entendo – Disse de forma um pouco revoltada. Não sentia os olhos lacrimejarem, mas sentia um buraco enorme no peito.
Na verdade, não entendia nada. Estivera com a moça a alguns dias e não daria tempo…
- Ela já não ia a escola – O outro começou, pensando que a indignação de Aldebaran, fosse pelo facto de ter chegado tarde de mais – Passou a sair todas as noites. Passou a beber muito.
- Como você permitia isso? – Aldebaran perguntou, se erguendo de forma bruta. Cambaleou um pouco com a tontura, devido ao movimento rápido.
- Eu tentei impedir – O homem estava perturbado – Mas ela dizia que eu não era o pai dela. Disse, com todas as letras, que apenas o pai poderia tirar aquele copo de bebida das mãos dela.
Aldebaran viu o homem passar a mão no rosto, freneticamente. Parecia cansado.
Novamente sentiu pena daquele homem. Um sentimento que passou para si também.
Vira a expressão do homem ficar seria. Seus olhos eram de raiva.
- Linda via tudo, achando piada. Dizia que ela estava na idade de fazer besteiras. Que eu era muito duro…
- Como foi?
- Um dia cheguei em casa e havia carros de polícia na frente. Entrei correndo. Em uma dessas festinhas com os amigos, não saiu bem. Ela conduzia um carro de um amigo. Estava tão bêbada… — Aldebaran notava que a voz do homem alternava entre ódio e sofrimento. – Haviam cinco pessoas no carro. – Maurício ficou com o olhar vago – Ela levou mais duas pessoas com ela.
Só agora, ouvindo tais palavras, Aldebaran se deu conta que não a veria mais. Mas então, como a vira na Grécia?
- Quando isso aconteceu?
O outro lhe fitou. Pela primeira vez vira os olhos de Maurício se encherem de água.
- Sete meses – Disse – Três dias – Olhou para o relógio – duas horas.
Agora não sabia o que fazer.
Tinha um homem a sua frente com as mãos na frente dos olhos, chorando. Sentia o vazio no peito que lhe doía, como se tivesse arrancado uma parte do seu coração. E não sabia o que tudo aquilo significava.
No instinto, colocou a mão no ombro do homem, que levantou o rosto.
- Eu sinto muito, você não ter chegado a tempo – Ele disse surpreendendo Aldebaran – Ela queria tanto te ver.
Aldebaran sorriu tristemente. Não disse nada. O outro também não disse mais nada. Caminharam até a saída daquele lugar, onde se separaram. Não precisaram se despedir. O olhar que trocaram já dizia tudo.
Aldebaran viu o carro do outro se distanciar.
O sol já estava nascendo, mas se sentia perdido, naquele escuro, do vazio de seu coração.
Como poderia ter chegado tão tarde e, não ter aproveitado quando ela apareceu em sua frente?
Porque o procurar, se já não estava ali para ele a abraçar?
Andou tanto, sem ver nada, que não dava conta do cansaço. Não dava conta das horas passando.
Agora seu coração começou a doer. Queria te-la visto crescer. Queria que ela tivesse ouvido suas histórias, pela sua própria boca.
Só se deu conta quando estava na beira daquela mesma praia. O sol já não brilhava.
Nada fazia som, apenas o mar, que lhe tirou de seus pensamentos.
Desceu os degraus que antecediam a praia e, se descalçou.
Sentiu a areia fria entre seus dedos, mas não se incomodou. Andou um pouco na direção da água e sentou um pouco ante de onde as ondas molhavam a areia.
Suspirou, sentindo o cheiro do mar, lembrando da primeira vez que esteve ali, enganado, pensando que aquilo era uma praia deserta.
Riu sozinho por isso.
- Não é deserta, mas é tranquila – Ouviu uma voz feminina atrás de si, virando de imediato, se surpreendendo.
Não conseguiu falar. A moça, de cabelos escuros, sentou ao seu lado sempre lhe sorrindo.
- Está gostando de estar aqui? – Indagou de repente.
Aldebaran fez sinal positivo. Ali estava ela. Mas não conseguia entender.
- O que você não consegue entender, Cavaleiro de Touro?
- Como pode…? Como me encontrou?
- Não é difícil te perder de vista – Ela respondeu simplesmente, fazendo o moreno rir.
- Como posso…?
- Você tem o 8º sentido, não tem!? – Indagou convicta – Você pode ver mais do que imagina. Incluindo a mim – Sorriu de forma meiga.
- Porque fez tudo isso? – Disse estranhando.
- Porque não queria ver o quanto era amada – Baixou os olhos – Queria muito que você me visse…
- Mas agora… — Não sabia como dizer. Ela não poderia ficar ali. Queria que ela não fosse mais embora. Mas sabia que isso era impossível.
- Eu sei – respondeu novamente seus pensamentos – Eu te encontrei, mas não posso ficar – Disse lhe olhando nos olhos.
- Então porque? – Se mostrou indignado.
Sem que se desse conta, a moça se levantou, virando em sua direcção.
- Eu queria lhe ver – Disse sorrindo – Eu precisava… — Baixou os olhos.
- Mas agora é tarde de mais – Disse desanimado.
- Nunca é tarde de mais – A voz dela entrava em seus ouvidos como uma melodia – Você deveria saber disso melhor do que eu – Disse fazendo Aldebaran se surpreender – A final – Ela continuou – Você voltou do reino dos mortos. Porque você ainda pensa no passado?
Aldebaran fechou os olhos de cabeça erguida.
- Porque ainda me sinto preso a ele, de alguma maneira. E de uma hora para a outra, não restou mais nada…
- Não restou mais nada? – Tainá indagou, fazendo o homem abrir os olhos.
- Se você vai embora, porque me procurou? – Estranhou.
- Porque nunca é tarde de mais – Ela disse de forma directa – Porque meu pai, ainda, poderia tirar aquele copo das minhas mãos.
Agora, que a chuva cai, devagar
Lá fora, e a noite vem devorar…
O sol, e tudo fica em silêncio
Na rua, e ao fundo, ouve-se o mar.
Aldebaran fitou a escuridão que encobria o mar, lembrando do que aconteceu no bar, na Grécia. Foi naquele momento…
Ficou assim durante alguns minutos, até que de repente virou-se para copo na frente da moça, que permanecia parada lhe observando.
Em um movimento rápido passou a mão no copo e o afastou da morena. Ao ver isso a moça soltou uma risada nervosa. Era clara a sua irritação.
Agora percebia que não estava nervosa com ele e, sim com a situação.
Sorriu ao pensar que esse era o objectivo dela. Talvez agora pudesse realmente estar em paz. Não via agressividade em seus olhos, como vira naquela mesa.
Ainda sorrindo, ergueu os olhos se surpreendendo novamente. Assim como entrara em sua vida, agora saia. Como a brisa na noite de verão. Ela já não estava mais lá. Seu sorriso desapareceu. Agora sabia o que era perde-la, como Maurício. Sentiu os olhos se encherem de lágrimas, porem conseguiu retê-la, quando ouviu uma voz, que não sabia se entrava em seus ouvidos ou se vinha de sua cabeça.
- Não deveria estar triste – A voz dizia – Você encontrou a verdade no seu caminho e junto ajudou outras pessoas. Vive!! Esse é o seu maior objectivo. Aceite o amor das pessoas que te querem amar e não ligue se alguém te virar as costas. Essa pessoa um dia retornara para pedir ajuda. E quando isso acontecer, ajude-a, como se ela nunca tivesse te desprezado. Porque esse é o pai que sempre idealizei e, que hoje, confirmo, como o melhor dos Cavaleiros.
Apenas uma lágrima rolou dos olhos de Aldebaran, que miravam a escuridão que escondia o mar.
Não sabia explicar. Mas pareceu que seu coração ficou mais leve, apesar de entender onde aquela voz, que identificava como a de Tainá queria dizer.
Imaginou que agora ela poderia ir para o reino dos mortos em paz e, isso lhe deixava aliviado. Pelo menos isso tinha feito pela sua filha.
Ouve-se o mar.
- Essa praia é deserta? – Ouviu uma voz grossa, perguntar.
O moreno ergueu os olhos para a pessoa que parou do seu lado. Os olhos claros de seu primo, piscou duas vezes em sua direção.
Não sabia o que dizer.
- É claro que é deserta – A voz brincalhona de Ricardo encheu o local, chamando a atenção dos dois homens.
- Espero bem que sim – O terceiro, que Aldebaran identificou como Rodrigo, disse, parando do lado de Plínio, que já começou tirando a blusa.
Os outros dois acompanharam o mais velho.
- Então, Aldebaran!? – Plínio começou com um ar brincalhão e provocante, vendo que o moreno não reagia – Vai amarelar?
Aldebaran arregalou os olhos, mas mal deu tempo de levantar, seus primos correram em direção a água.
Continuou parado, olhando a cena atentamente.
Agora, talvez te possas perder
Devora, o que a saudade te der
A vida leva pra longe pedaços
O tempo, deixa o sabor de um regaço.
Seus primos falavam alto e, riam, enquanto suas imagens ficavam cada vez, menos definida, pelo escuro.
Agora se dera conta de tantas coisas que perdera, pelo facto de ter acreditado em uma ilusão e, de ter se martirizado por algo que não tivera culpa.
Aqueles que corriam, já não eram meninos. Eram homens.
Não poderia dizer que fizera parte da vida de sua família e, a culpa, não era por ter que guerrear por Athena e, sim, pelo facto de não ter tido coragem para enfrentar seus medos. De enfrentar aquela mulher.
Talvez, também, poderia ter aproveitado esse tempo com seus amigos. Conhecido alguém…
A imagem de Tainá, que estivera sentada a pouco tempo ao seu lado, veio em sua mente. Poderia ter convivido com ela e nada disso teria acontecido.
“Nunca e tarde de mais”, foram as palavras que apareceram em sua mente, na voz melodiosa de sua filha.
De facto: porque pensar assim?
Vendo seus primos na água chamando seu nome, foi como se a sua juventude tivesse voltado. Na vida dos mortais, a única coisa que não havia solução era a morte e, isso, ele já havia experimentado.
Sorriu ao pensar isso.
Tainá tinha razão. Não era tarde de mais.
Apesar de tudo que aconteceu, ainda a vida lhe dera o presente de poder ter se encontrado com a filha, mesmo após a sua partida. Mesmo que apenas por duas vezes.
Não poderia se queixar.
Havia afastado aquilo que foi a perdição da moça.
E ao fundo, ouve-se o mar.
Agora a pergunta que lhe veio a mente, foi: como seus primos voltaram naquela praia exactamente no momento em que precisava?
Será que eles sempre frequentavam aquela praia, aquelas horas.
Ouve-se o mar.
- Tipicamente brasileiro, não é!? – A voz tranquila e bem conhecida, fez com que Aldebaran sorrisse olhando para quem havia falado.
Agora, que a agua inunda os teus olhos
E o mundo, já não te deixa parar
- Tipicamente brasileiros? – Aldebaran, rindo, perguntou – Pensei que já não me ajudaria.
- Sou um fraco – Mu disse resignado, enquanto se aproximava do amigo. – Se eu fosse você não tirava toda a roupa – Disse sorrindo maroto.
- Porque? – Aldebaran estranhou o comentário do Ariano.
Mu, fez um sinal com a cabeça na direção das rochas. Aldebaran acompanhou o movimento.
Ali, em pé, estava aquela que lhe causara tanto mal e, para seu espanto, atrás desta, surgia a imagem de Maurício.
No escuro, voltam as histórias perdidas
Na alma onde não podes tocar.
Os olhos de Linda estavam cheios de água, enquanto lembrava de um tempo que já não voltava mais. Talvez, pudesse ter sido diferente, se naquela noite não tivesse passado naquela praia. Talvez, tivesse sido mais feliz se tivesse largado tudo para viver uma aventura na Grécia.
Talvez…
Não adiantava.
Sentiu a mão ser envolvida pelo calor de outro corpo. Conhecia aquele calor apesar de não senti-lo a muitos anos.
Ali estava Maurício, afagando um coração angustiado, que fizera mal a outras pessoas, talvez por egoísmo ou para se proteger.
Aldebaran, pela primeira vez entendia o que era o amor verdadeiro. Entendeu através do único homem que odiou todos esses anos e que agora admirava.
Tainá não poderia ter tido um melhor pai. Se ele não pode ser, ficava feliz por ter sido Maurício.
Sorriu e isso agradou o Cavaleiro de Áries.
E ao fundo, ouve-se o mar.
Ouviu o suspiro forte de Aldebaran que se voltou em sua direção.
- Então me diga, Mu – Começou recebendo toda a atenção – O que você fez todo esse tempo?
- Passeei bastante e comi feijoada – Disse satisfeito, fazendo Aldebaran rir.
- E já tomou água de coco e viu uma roda de samba?
Mu sorriu sem entender.
- Não…
- Então eu te mostro – O moreno, conduzia Mu pela praia – Se não me engano, pode haver um quiosque que tem tudo isso, um pouco mais para lá – apontou para frente.
- Nós te alcançamos – ouviram Plínio gritar – Ricardo se você entrar no meu carro sujo assim eu te mato!
Antes que os que caminhavam pudessem acenar positivamente, ouviram a voz de Rodrigo.
- Aldebaran, ajuda!!
Ouve-se o mar.
Caminhando sorriu.
Nunca é tarde de mais, porque certas coisas nunca mudam.
Assim como as caminhadas em torno do Santuário de Athena.
Não sabia exactamente se o tempo passava mais rápido agora que sentia o coração mais leve.
De porte imponente, e vestimenta reluzente, caminhava por entre as ruas de uma vila vizinha do Rodorio.
Um pouco atrás, caminhavam em sua companhia, o Cavaleiro de Áries e de Leão.
Suas armaduras brilhavam de um jeito intenso, fazendo as pessoas que queriam ver sua passagem, estreitarem os olhos.
Enquanto caminhava, pensava naquela morena, imaginando se ela estava bem. Pensava naqueles minutos que passou com ela na praia e prometera para si mesmo, quando o avião tocou em solo grego, que daquele momento em diante iria aproveitar cada momento.
Seus companheiros e amigos eram preciosos, mas iria prestar mais atenção neles. Quando saísse, era na companhia deles que iria apreciar o momento, mais que com qualquer outra pessoa. Mas estava determinado a permanecer com cada amizade.
Iria visitar mais sua terra e assim manter mais contacto com aqueles que amava. Não queria voltar a sentir aquela sensação.
I took my love and I took it down
(Eu levei meu amor e o derrubei)
I climbed a mountain and I turned around
(Escalei uma montanha e dei a volta)
And I saw my reflection in the snow-covered hills
(E eu vi meu reflexo no gelo coberto da colina)
Well, the landslide brought me down
(E o deslizamento me trouxe para baixo)
A imagem de Tainá lhe acompanhava, para onde fosse. Não lhe pesava. Ficara apenas aquela sensação que algo em seu passado…algo em sua vida faltava. Algo que não conseguia definir como mal, mas sabia que não era saudades dela, que não sabia explicar, mas quando ficava triste, resolvia sair e ver tudo com bons olhos.
Oh, mirror in the sky, what is love?
(Oh, Espelho no céu — O que é amor?)
Can the child within my heart rise above?
(Pode a criança no meu coração elevar-se mais?)
Can I sail through the changing ocean tides?
(Eu posso navegar sobre a mudança, a maré dos oceanos?)
Can I handle the seasons of my life?
(Eu posso cuidar das temporadas da minha vida?)
E agora caminhava de forma decidida, olhando as pessoas que lhe miravam espantadas e pessoas lhe causavam uma sensação boa de vida e harmonia, coo se tudo na vida valesse a pena.
Well, I\'ve been afraid of changin\'
(Bem, eu tenho temido de mudar)
Cause I\'ve built my life around you
(Porque eu construí minha vida a sua volta)
But time makes bolder
(Mas o nos tempo faz crescer)
Children get older
(As crianças ficam mais velhas)
Well…
(Bem...)
As pessoas se acumulavam na calçada, para ver a passagem dos Cavaleiros da grande deusa e, ali, no meios daquelas pessoas, olhares ansiosos esperava pela proximidade olhos de Mu, cruzaram com aqueles olhos castanhos, fazendo-o sorrir discretamente, mas não o suficiente para evitar o estranhamente de Aioria.O Cavaleiros de leão ía perguntar, mas acabou entendendo, quando uma mulher um tanto mais jovem que eles saiu de repente de trás de um homem e se colocou na frente deles, fazendo-os parar.
Well, I\'ve been afraid of changin\'
(Bem, eu tenho temido de mudar)
Cause I\'ve built my life around you
(Porque eu construí minha vida a sua volta)
But time makes bolder
(Mas o nos tempo faz crescer)
Children get older
(As crianças ficam mais velhas)
And I\'m getting older too
(E eu estou envelhecendo também...)
Aldebaran viu uma mulher de cabelos arruivados, lhe sorrir.Não conseguia lembrar onde já tinha visto aquele sorriso.Só compreendeu quando esta em um gesto simples e simpático lhe estendeu uma flor lilas, achando graça. Valia a pena viver. E faria isso, não apenas por ele, mas também por ela.
Por Tainá.
So take this love and take it down
(Então, pegue meu amor e o derrube)
Yeah, and if you climb a mountain and you turn around
(E se você subir uma montanha e der a volta)
And if you see my reflection in the snow-covered hills
(Você verá meu reflexo no gelo da colina;)
Well, the landslide brought it down
(Bem, o deslizamento o trará para baixo,)
And if you see my reflection in the snow-covered hills
(E se você ver meu reflexo na neve que cobre a colina)
Well, maybe…
(Bem, talvez…)
Well, maybe…
(Bem, talvez…)
The landslide\'ll bring you down
(O deslizamento o trará para baixo)
Fim
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