Laços Imperfeitos
30 Plano Infalível 2.0
Capítulo vinte e três — Plano Infalível 2.0
Kira suspirou audivelmente em descrença, enquanto Hisagi ria como um idiota. Aquela era a décima vez — não que alguém estivesse contado — que o loiro perdia naquele jogo ridiculamente infantil. (Na verdade, deveriam estar estudando, mas Hisagi não conseguia absorver mais nada do conteúdo. Tudo culpa do Gin-sensei, lógico.) Seu pobre personagem jazia morto na pequena tela da televisão do amigo, o personagem deste refletia toda sua alegria. Fato esse totalmente macabro. Qual é? As crianças não deveriam jogar esse tipo de coisa!
Enfim, não era como se Izuru fosse o pior jogador da história ou que Hisagi fosse o melhor, longe disso. O problema era que o loiro não conseguia se concentrar no jogo em questão. Sentia, ou melhor, sabia que suas chances com Shuuhei passavam de escassas para quase inexistentes. Precisava fazer algo, logo!
Seu plano inicial não dera muito certo. Sabe, aquele de seduzir o amigo através de aulas para “ajudar” na conquista do Ogro-sensei. Enfim, fora extremamente tenso e constrangedor, mas, após o início das aulas, Hisagi lhe disse que aquela não era uma boa ideia, afinal presava a amizade dos dois acima de tudo! E, bem, amigos não costumam fazer esse tipo de coisa.
O pobre loiro tentou não se desanimar com a batalha perdida, já que a guerra estava longe de seu fim. Bem, talvez não tão longe. De qualquer forma, aquela era sua melhor estratégia. E agora não tinha mais nada... A décima primeira derrota o tirou de seus devaneios. Repousou o controle sobre o console e se acomodou melhor no pequeno sofá.
– Cansei desse jogo. – murmurou entediado.
– Poxa, só porque você perdeu! – Hisagi zombou, um tanto convencido. Bem, qualquer um estaria assim depois de tantas vitórias.
– Que seja. – retorquiu, mais mal humorado do que pretendia. Tendo como resposta alguns risos, mas, logo depois o moreno pareceu lembrar de algo importante.
– Sabe, eu queria muito te contar uma coisa, mas acabei esquecendo com a chegada do... Kazeshini e com vocês tão amiguinhos. – evitou qualquer xingamento ao adorado primo, aparentemente Kira ficava irritado quando o moreno o fazia. Ao notar a coloração no rosto de Hisagi no início da sentença, Izuru soube que não seriam boas notícias. – Quando fui comprar aquele bolo para a sobremesa da ceia de natal, eu encontrei com o Muguruma-sensei!
– Ah, que... legal. – tentou com todas as forças esconder a decepção, falhando miseravelmente. Deixando Hisagi um tanto desconfiado. Eles se encararam por alguns momentos antes e o moreno continuar:
– É, foi legal... Posso te perguntar uma coisa?
– Claro!
– Você não gosta do sensei, né? – Kira não evitou um leve engasgo com a pergunta. – Eu entendo que você se preocupe, e que ache que eu vou quebrar minha cara... — Riu, meio sem graça antes de continuar. – Mas, ele é um cara legal. Se ele for me dar um fora, não fará de uma forma tão ruim. – tentou fazer piada, mas, o loiro notou certa tristeza escondida no riso do amigo.
– Não vou mentir para você. Não é que o odeie ou algo assim, só não faz parte da minha lista de pessoas favoritas. Na verdade, está bem longe disso. – Aquilo não era uma total verdade, mas, tampouco era mentira. Ele odiava o que Kensei representava, não a pessoa dele em si. Mal o conhecia no final das contas.
– Ué, você tem uma lista? E quem faz parte dela? Eu faço? – despejou rapidamente as indagações.
– Óbvio que sim! – revirou os olhos.
– Bem, mas aposto que o Muguruma-sensei não perde para o Kazeshini!
– Na verdade eu prefiro passar uma tarde conversando com o Kazeshini do que ter dez minutos de aula com aquele maluco! Seu primo não é tão ruim... Se você ignorar certas coisas ele pode ser bem... agradável.
– Você tá tirando uma com a minha cara, só pode! “Kazeshini” e “agradável” só podem ser usados na mesma frase com um “não” bem grande! Enfim, prefiro lamber o chão que ter cinco minutos de conversa com o Kazeshini!
– Prefiro passar um final de semana com o Kazeshini à ter que suportar aquele troglodita que você chama de "sensei"! — imitou o tom apaixonado que Hisagi empregava à palavra com certo desdém.
– Que horror! Prefiro passar um final de semana inteiro jogando queimada à olhar para a cara do Kazeshini. – Kira sentiu um arrepio ao ouvir a palavra ”queimada”. Digamos que 90% da turma havia ficado traumatizada depois daquele fatídico dia.
– Nossa, eu prometi a mim mesmo que nunca mais jogaria queimada na minha vida! Preferia dar uns amassos no Kazeshini à presenciar um jogo de queimada!
– Que nojo, Kira! Sério, que nojeira! Vou ter pesadelos com isso... Ai, credo! Imaginar isso é como ter um vislumbre do inferno. – falou, tremendo e fazendo uma cara engraçada, como se estivesse prestes a dizer um “Oi!” ao que almoçara.
– Como você é exagerado. Enfim, não disse até agora como foi o tal encontro... – Não que Kira quisesse realmente saber, mas, parece que as pessoas apaixonadas gostam de sofrer.
– Ah, foi legal... Mas, eu fiz uma grande idiotice!
– Novidade.
– Nossa, valeu! Bom, eu acabei meio que falando que amava ele... – sussurrou em quase urgência. O loiro arregalou os olhos, deixando o amigo ainda mais desesperado em explicar o que havia acontecido. – Mas, aí eu consertei dizendo que me referia ao bolo! Foi bem idiota, eu sei... Pode rir se quiser, mas, quando se apaixonar vai entender direitinho como eu me sinto. Você vai ver!
Bem, ele não era tão idiota, mas, sabia exatamente ao que o moreno se referia. Antes que tivesse a chance de responder, seu celular tocou. Observou a tela rapidamente, apenas para ver que se tratava de um número desconhecido. Atendeu de uma vez para acabar com o mistério.
– Alô?
– Loiro-chan, cadê você?
– Senpai?
– Já falei para não me chamar assim! Eu ‘tô aqui com a oba-chan, ela tá sentindo sua falta! – Ao fundo, Kira pôde ouvir sua avó se esgoelando: “Não ‘tô não! Kazeshini-chan, deixe o Izu-chan se divertir com o Hisagi-chan”. – Ouviu? ‘Tá falando para você voltar logo!
– Kazeshini...-san? Consegui ouvir perfeitamente o que ela disse.
– Ué, se ouviu então venha logo e não deixe as visitas esperando. Poxa, oba-chan, é essa a educação que dá para os seus netos? E, não gosto de como “san” soa junto ao meu nome.
Antes que pudesse responder algo, ou ouvir sua vó ralhando com Kazeshini, este havia desligado. Encarou um Hisagi com uma expressão emburrada extremamente infantil e igualmente fofa. Izuru não conseguiu evitar um leve sorriso.
– “Kazeshini-san”, é? – Murmurou enciumado. “É apenas ciúmes de amigo!” Kira tentou convencer à si mesmo. – O que ele quer?
– Que eu volte para casa. Vou descer, quer ir? – Essa era a parte boa de morarem no mesmo prédio.
– Passo. Vou lamber o chão que é mais divertido... Mas, como ele conseguiu seu número?
Bem, Kira podia ser sincero e dizer que não tinha ideia, o mais provável era que sua vó tivesse dito. Porém, aquela era uma boa oportunidade para... Bom, para repetir um pouco do que aconteceu no Valentine’s Day. Sentia que em breve encontraria uma nova estratégia contra certo... professor.
– Nós trocamos os números, caso houvesse alguma necessidade...
– Necessidade de quê? – perguntou em descrença.
– Ah, Hisagi, sei lá. Bom, eu vou indo. Depois a gente se fala.
Saiu rapidamente, deixando um Shuuhei um tanto irritado. Certo sentimento de alegria, algo mais como adrenalina, apoderava-se do loiro. Sabia que era algo bizarro, diga-se de passagem. Mas, saber que tinha certo poder sobre o amigo o deixava assim, o que se pode fazer? No segundo lance de escadas foi assolado por uma ideia. Uma péssima ideia, para ser mais exato.
Para se ter noção, era tão ruim que seria digna de Hisagi. Não, pior. Digna de Renji, era a cara do ruivo uma ideia tão óbvia e tão absurda ao mesmo tempo. Enfim, a brilhante ideia consistia em uma pequena mentirinha. Não tão pequena, mas, um tanto complexa de ser aplicada. Tudo dependeria de certo moreno malvado.
...
Mais uma vez Kira suspirava audivelmente. Era sua quinta derrota consecutiva e, sim, alguém estava contando. Kazeshini só faltava esfregar os dedos na cara do loiro, estes que representavam o seu número de vitórias. Izuru começou a se perguntar qual seria o problemas daqueles dois. Tão diferentes e tão parecidos, era verdadeiramente assustador.
De qualquer forma, só estava fazendo sala para o moreno porque pretendia lhe pedir um pequeno favor. A cada minuto que passava, mais ele perdia a coragem de pôr o plano idiota em prática. Mas, não custava nada tentar. Logo teria a chance de ter uma conversa a sós com o outro, já que sua avó iria ao mercado comprar alguns ingredientes que faltavam para preparar o jantar.
...
– ‘Pera, deixa eu ver se entendi... Você quer que eu pague uma de “frutinha”, e a única coisa que eu vou ganhar com isso é “deixar o Hisagi irritado”?
– Sim, e a minha gratidão. – sorriu amarelo.
Pois é, aquilo era ridículo. Ele realmente pediu para o Kazeshini fingir namorar consigo só para fazer ciúme para Shuuhei? O desespero deveria ter limites! Esperou temeroso enquanto o moreno parecia ponderar o que lhe fora proposto. Talvez não fosse tarde demais para desistir daquela idiotice e dizer que era apenas uma brincadeira...
– Já decidi. Mas, antes de dizer quero saber qual o verdadeiro motivo para isso.
– Eu disse que era complicado. – murmurou exasperado. Sério, contar seus sentimentos para alguém como Kazeshini não fazia parte de seus planos.
– Sou todo ouvidos! – sorriu, tão zombeteiro quanto sempre. O pobre loiro apenas suspirou tentando escolher a melhor forma de contar aquilo.
– Você lembra daquela vez, quando éramos pequenos e você desafiou o Hisagi à entrar naquele bairro perigoso e...
– Eu lembro. – interrompeu, desconfortável. Por mais que os primos adorassem antipatizar um com o outro, no fundo — bem, bem no fundo! — eles compartilhavam aquele amor fraternal implicante.
– Bem, e lembra daquele cara que salvou ele?
– Aham, aquele grandalhão sinistro! O Hisagi até fez aquela coisa tosca na cara por causa... – Finalmente, Kazeshini se dava conta. – A-aquele é...!
– Exato. Nosso professor de Educação Física. – revelou sem nenhuma emoção.
– Mas que merda! Enfim, o que isso tem a ver com o que você me pediu?
– O Hisagi está... – Shuuhei era seu melhor amigo, contar o segredo dele seria uma traição. Não podia fazer isso. — Está... Está muito amigo daquele professor e eu não consigo confiar naquele cara.
– “Amigo”? Você ‘tá me zoando, né? – Definitivamente, o moreno malvado havia entendido tudo. Parabéns, Kira! Acabou de revelar o segredo do seu melhor amigo para o inimigo natural dele! – Tudo bem, eu te ajudo! Posso detestar o Hisagi, mas ele é da família. Não quero que ele fique de cadeira de rodas! – riu (histericamente) da própria piada. Izuru permaneceu sem demonstrar nenhuma emoção, enquanto passava por um turbilhão interior.
– Kazeshini, não conte nada disso ao Hisagi, ele não me perdoaria se soubesse que lhe contei.
– Tudo bem. Eu não vou falar nada disso. Mas, eu havia te perguntado qual era o “verdadeiro motivo”, esse você ainda não contou. – Sério, porque esse cara tinha que ser perspicaz logo agora? Antes que o loiro achasse uma saída, o outro interrompeu sua linha de raciocínio. – Okay, você me conta depois. A oba-chan já deve estar chegando, vou lá chamar o Hisagi já volto!
E simplesmente saiu, deixando um Kira um tanto quanto confuso.
...
Confusão. Isso estava expresso nas três faces à sua frente. Ainda assim, Kazeshini ignorava tudo, apresentando uma expressão estranhamente animada. Shuuhei estava emburrado, não entendeu nenhum pouco quando seu primo chegou todo alegre o chamando para a casa do “Izuru”, que droga de intimidade era essa? E porque o moreno das trevas estava tão feliz a ponto de nem ao menos implicar consigo?
A pobre idosa estava ainda mais confusa, fato esse que triplicou quando o rapaz de cabelos longos lhe segurou as duas mãos.
– Oba-chan, preciso pedir sua permissão e benção para namorar com seu neto.
Internamente, Kazeshini estava amando aquele teatro e, principalmente, as expressões de choque que tinha à sua frente.
– K-kazeshini-chan, você não quis dizer “neta”?
– Não... Mas, não sabia que tinha uma neta, ela é bonita? – perguntou, mais interessado do que deveria aparentar.
– Na verdade, eu não tenho. Só... Bem, vocês realmente querem isso? – O moreno malvado afirmou rapidamente, Kira murmurou um “sim” quase inaudível. Hisagi ainda permanecia com a mesma expressão de choque, seu cérebro ainda estava processando o ocorrido. – Se o que sentem for amor verdadeiro, então, acho que tudo bem. Tenham em mente que será difícil, mas vocês têm meu apoio.
Izuru engoliu em seco. Sua avó era tão boa, se sentia um babaca pela mentira, mas, ao mesmo tempo, estava feliz por ela ter aceitado tão bem. Apenas ela, a mesma aceitação não viria de seu amigo.
{...}
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