Laços Imperfeitos
31 Decisões que trazem consequências
Notas iniciais
Capítulo vinte e quatro — Decisões que trazem consequências
As coisas não poderiam estar melhores (na verdade, poderia sim).
Desde o encontro não muito conveniente – e Ukitake com certeza não repetiria a dose – com Kazuko-san, as coisas pareciam muito mais óbvias entre os dois amigos. A partir do dia esclarecedor na enfermaria (dia infeliz. Ambos desobedeceram normas do trabalho!), as coisas esfriaram um pouco. Não a relação amorosa nula, mas a amizade, onde algumas coisas pareciam confusas e até mesmo travadas. Ele quase temia dormir no mesmo quarto que Kyouraku, medo antes inexistente; vai que acaba falando alguma bobagem... E sim, ele sabe que está agindo como um adolescente apaixonado pelo primeiro amor. E sim, também sabe que a parte do "adolescente" é a única mentira. De qualquer forma, esse medo tolo parecia mais com uma lembrança distante de outra pessoa. Ele gostava de estar próximo de Kyouraku, e encontrar-se com a um pouco – e o eufemismo sempre ajuda! – tagarela ex-namorada com certeza lhe ajudou a limpar a mente. Ele apreciava sinceramente, e de todos os modos, seu até então amigo. Se achasse que Shunsui um dia pudesse retribuir seus sentimentos, mesmo que minimamente, ele estaria disposto a tentar.
Suspirando, prendeu os cabelos compridos com o elástico, não deixando de se perguntar por que ainda não o cortou. Sempre reclamava e jogava ao mundo que a culpa era 70% de Kyouraku (os outros trinta eram divididos em 20℅ para Unohana-san e 10℅ seus), que praticamente o obrigou a deixá-lo crescer, porém, a verdade não é bem assim. Ele não faria nada se não quisesse. Olhou-se mais uma vez no espelho, checando se todas as casas de botões de sua camiseta estavam no lugar certo. Ajustando o casaco e o cachecol, já que estava frio lá fora, Ukitake saiu de seu apartamento visando cumprir todos os seus compromissos do dia.
...
A primeira coisa a fazer era ir ao consultório de Dr. Yoshida, já que tinha um horário de atendimento marcado. Obviamente faria mais uma vez os exames conjuntos para ter certeza se estava tudo em ordem. Desde que se lembrava, os resultados nunca foram 100% bons, infelizmente. E naquela tarde não foi diferente: exames de todos os tipos foram realizados, desde do constrangedor PSA ao eletrocardiograma.
O problema veio apenas na hora de o médico dar o resultado final. Não precisou esperar quarenta minutos desde o momento glorioso em que se livrou da incômoda camisola hospitalar. Andou calmamente até a escrivaninha do doutor e sentou-se à mesa. O homem com cerca de quarenta anos aparentemente, sentou-se também.
– Então? – Ukitake tinha em mente que deveria ser o mais maduro e profissional possível se tratando de sua situação clínica. Até seus catorze anos, ele não podia deixar de nutrir esperanças utópicas, e não podia evitar bombardear o doutor que era seu médico particular da vez com perguntas idiotas ("Alguma melhoria significante?", "Alguma piora significante?", "Vou ficar bem?", "Ainda poderei ir à escola?" ou "Vou morrer quando?" eram as que mais usava).
– Esses foram piores que da última vez. – Dr. Yoshida era assim: seco e direto. A pedido de Ukitake, claro. Ele pediu, certa vez, para o homem não enrolar e ir sempre direto aos fatos. – O hemograma não teve bons resultados. Você sabe, a droga utiliza a sua melanina para produzir vitamina A, C e D em maior quantidade, porque apesar de você se alimentar direito, isso não é suficiente. Você sempre precisa de mais para combater a doença, afinal. Consequentemente, seu corpo fabrica água oxigenada em excesso, ainda mais que nos albinos, aí a explicação para seus cabelos prateados. – Ukitake quis revirar os olhos. Já ouvira essa explicação umas quinhentas vezes no mínimo, e olha que não é hipérbole!
– Vá direto ao ponto, doutor.
– A droga não fez nenhum efeito positivo nos últimos dois meses. Pelo contrário, ela tem usado sua albumina para a criação das vitaminas necessárias. – Ukitake franziu o nariz. Sabia exatamente do que o médico falava. – Você sabe que pode tomar albumina, mas é complicado tomá-la para a droga obrigar seu organismo a transformá-la em outra coisa. É como um ciclo vicioso. De qualquer forma, como você não sabia e não se preveniu para isso, está anêmico. Claro, pode ser tratado de forma muito simples. Fora isso, nada muito sério. Os remédios ainda controlam a doença, o que é uma coisa boa.
– Os outros exames estão em ordem?
– Sim, apenas uma pequena complicação que pode facilmente ser remediada, como foi dito. – O homem levantou assim que viu Ukitake fazer o mesmo.
– Ah, fico feliz por isso. – Cinismo não era de forma alguma um adjetivo que poderia ser associado a Ukitake, mas, por causa daquela frase, poderia ser aberta uma exceção. – Marcarei uma consulta assim que for possível, as aulas começaram, vou estar muito ocupado. – Ofereceu seu melhor sorriso e apertou a mão de Dr. Yoshida com firmeza. O dia que tinha tudo para ser bom estava estragado.
...
O banco de pedra em que sentara estava frio. O ar estava frio, seu próprio corpo estava frio. Tudo se devia à temperatura muito baixa na região, está assim graças à neve, que caia incessantemente, como se zombasse de suas vidas monótonas.
Ukitake via crianças fazendo bolas ou bonecos de neve, se divertindo e brincando; era um pouco difícil nevar na cidade, então elas provavelmente viam isso como oportunidade rara. Parando para pensar, Juushirou percebeu que nunca parou para brincar na neve, nem nada parecido. Quando criança, sua saúde frágil não permitia que isso acontecesse. Hoje em dia, nada mudou. Ele não fazia questão, contudo. Ukitake pegou uma mecha absurdamente clara de seu cabelo, enrolando levemente as pontas. Olhava-a fixamente, até que se deu conta: era um tolo masoquista. Ele odiava branco, mais que tudo. Odiava a cor que deixava clara sua condição, que mostrava uma palidez doente, que dizia o que ele não podia fazer. Era a mesma cor das paredes de um hospital. As mesmas paredes brancas que, ou o prendiam ou assistiam milhares de mortes, solenemente sem fazer nada. Ainda assim, ele mesmo quis trabalhar em um hospital ele mesmo optou por deixar o cabelo com aquela odiosa cor. Ukitake deu uma risadinha. Droga, o frio, este que ele estava estritamente proibido de passar, provavelmente o estava afetando.
Levantou-se, batendo a inexistente poeira das roupas. Andou calmamente até seu carro, iria para casa.
Os risos das crianças ficaram presos, ecoando em sua mente, contudo.
...
Passou-se uma semana desde o término das férias e início das aulas. Estava levando uma vida completamente normal na medida do possível. Trabalhava, comia, dormia, tudo normalmente. Ou era o que gostava de pensar. Olhava para o frasco que continha seus remédios com desdém e, desde aquela consulta um tanto perturbadora, até mesmo evitava fazê-lo. Se não estava funcionando, se apenas prolongava sua vida, qual o sentido dele? Descobriu a resposta para essa questão quando em uma madrugada, duas semanas depois de parar o tratamento, acordou com dificuldades extremas para respirar.
Até cogitou voltar a tomar o remédio, mas desistiu. Havia tomado uma decisão, não? Se não poderia ter uma vida normal, não sabia se queria uma subvida. E os dias passaram assim. A balança de seu banheiro denunciou peso perdido. O espelho parecia apontar as olheiras que apareceram. O cabelo naturalmente sedoso e brilhante estava ressecado. A mudança só era percebida se alguém prestasse muita atenção, de qualquer forma. Mas ele não ligava. Isso estava para acabar. E sua rotina era apenas essa: pensamentos negativos.
Até o dia em que Kyouraku veio lhe visitar, sem nenhum aviso:
– Aconteceu alguma coisa? – indagava com preocupação sincera, visto que Kyouraku aparecer assim era raro.
– Eu esqueci papéis importantes aqui na última vez que vim te ver. – explicou o moreno, tendo espaço dado para entrar no confortável apartamento. – Estava em uma pasta amarela, você viu?
– Acho que sim... – Pôs graciosamente um dedo no queixo, refletindo. – No escritório. Eu vi lá, tenho quase certeza.
– Maravilha, você salvou a minha vida. – Kyouraku subiu com rapidez as escadas do lugar, indo até o local indicado, que mais parecia uma pequena biblioteca. Claro, ele conhecia aquela casa como a sua, então não era nenhuma surpresa ver a tênue iluminação nos livros enfileirados. Sua atenção foi desviada para a escrivaninha. A tal pasta amarela lá, quase brilhando a seus olhos. Chegou perto para pegá-la... Outros papéis chamaram a sua atenção. Exames. Leu-os com atenção. Piscou longamente. Outro papel. Uma simples folha de caderno. Nela, apareciam anotadas todos os progressos da doença com a letra elegante e deitada para a direita de Ukitake. Desde perda de peso à noites mal dormidas. Engoliu em seco. Não se passaram dez minutos, logo a porta da sala foi aberta e por ela passou um calmo Ukitake.
– Encontrou o que queria? – Ele olhou para a pasta em sua mão esquerda e para o papel na esquerda. Ele havia o esquecido ali! Ukitake arregalou os olhos. – Hei, deixe isso aí. – advertiu. Kyouraku o ignorou. Continuou lendo os dados catalogados como se fossem algo bom. Ah, ele não pretendia mesmo deixar por isso.
{···}
Fale com o autor