Laços Imperfeitos
35 A procura de Hakuna Matata
Notas iniciais
Capítulo vinte e oito — A procura de Hakuna Matata
Eu te amo.
Três pequenas palavras, todas monossílabas, que têm enorme poder. Ukitake poderia sentir-se melhor apenas de ouvi-las da pessoa certa: Kyouraku Shunsui. Ele as escutou há algum tempo, pouquíssimo na verdade. Mas, ele não podia evitar deixar sua natureza cética (se ele fala para alguém que essa é sua natureza, esse alguém riria) ficar na frente.
Ukitake se arrependeu amargamente por ter parado o tratamento. Sua vida atrasou-se algumas semanas por isso. Assim que chegou ao hospital, passou por alguns procedimentos de emergência. Ele tinha noção do rosto aflito de Shunsui e de sua situação complicada. Porém agora estava tudo bem. "Bem" entre raspas, duh. Ukitake recebeu ordens médicas muito claras: ele deveria ficar em casa por cerca de duas semanas, descansar, recuperar o peso perdido, aquela coisa toda. Kyouraku estava consigo desde aquele dia. Sempre ao seu lado, sempre por perto (eles estavam dormindo juntos, para se ter ideia. Apenas dormindo... E isso não foi uma reclamação!). E isso o acalmava, o incentivava a continuar.
Ukitake remexeu-se no chão.
Tanto ele quanto Shunsui pareciam não ter envelhecido quando a referência era o outro. Shunsui, por exemplo, sempre teve a mania de sentar-se com uma perna embaixo da outra, desde que eram crianças. A mania continuou com eles já adultos e tudo.
Ukitake observou isso enquanto dava uma surra no amigo enquanto jogavam Street Fight. Isso era extremamente necessário, pois era a lógica de amigos e também porque ele era frio e impiedoso (muahahahaha). Não realmente, mas quando o assunto era videogame, sua obrigação era mostrar ao amigo o quanto este é noob. Sim, eles não cresceram nada quando a referência era o outro. Porque isso era desse modo infantil desde... sempre.
Kyouraku largou o controle com força na mesinha de centro assim que Ukitake venceu.
– Você sempre trapaceou nesse jogo... Eu tenho certeza! – afirmou.
– Sim, sim, mas não desconte no meu controle novo! – fingiu irritação enquanto sorria para o moreno que, depois de instantes, devolveu o sorriso. Ukitake se perdeu nesse momento, observando a felicidade genuína a qual sempre foi cego; como pode pensar, por um instante, em desistir de tudo isso? Do seu amor verdadeiro? A típica musiquinha do jogo tocava, porém, ninguém prestou atenção. Estavam mais atentos a outra coisa.
A mão esquerda de Kyouraku levantou-se, passando a brincar com uma mecha de seu cabelo claríssimo, envolvendo-a nos dedos.
– O que você está fazendo? – questionou o psicólogo, um pouco confuso.
– Estou te olhando. – respondeu.
– Se olha com os olhos, não com os dedos. Use o órgão certo. – zombou.
– Quem te vê pensa, mas você consegue ser bem cruel. – Os lábios sorriram, mas havia seriedade mortal no olhar. Ukitake entendeu. Demorou alguns segundos a mais para continuar.
– Desculpe por isso.
– Tudo bem. Desde que o alvo não seja você mesmo. – Seu amigo aproximou-se muito; muito mais do que ousou nos últimos dias, pelo menos. A respiração morna tocou sua pele fria, sentiu-se perder a respiração. O pescoço mostrava a pulsação rápida e quase nervosa. Era muito velho para dizer algo clichê como "borboletas no estômago"? Esperava que não, porque nunca as sentiu tão reais como agora.
Passando os dedos finos pelo rosto bronzeado do amigo, se perguntou como pensou, há muito tempo, quando tomara a sua decisão de estar perto dele de todas as formas que não romanticamente, que poderia esquecê-lo, viver apenas como um amigo para sempre.
Os lábios masculinos tocaram sua garganta, arrepiando-o. A barba por fazer encostando em sua pele, pinicando, mas de forma boa. Tudo muito calmo.
Até que finalmente as bocas se tocaram, iniciando um beijo no mínimo... quente.
A ponta dos elegantes dedos do psicólogo rasparam na camisa que o diretor usava no momento que o puxou para mais perto em um abraço que não apaziguava a vontade por contato. Os cabelos brancos foram totalmente bagunçados quando a camiseta branca foi apressadamente tirada de seu corpo e atirada a qualquer canto (durante o ósculo, esse foi o único momento em que, brevemente, se separaram).
Juushirou suspirou, junto do amigo, quando seus dedos passaram das costas largas ao quadril, tocando o tentador, muito sexy, em sua opinião, osso ilíaco de Shunsui. Parou o beijo digno de cinema por um momento, distribuindo beijos borboleta pelo pescoço másculo, voltando finalmente aos lábios. Então, quando suas mãos chegaram ao zíper, deixando claro que este era um caminho sem volta... Kyouraku o parou. Simples assim.
Ukitake nunca pensou que Kyouraku seria otário, mas ele foi otário. Com toda modéstia, claro.
(Nossa, sejamos francos. Que pamonha.)
Ukitake o olhou, os orbes que sempre lembraram o céu tempestuoso, o oceano revolto ou um diamante bruto mais pareciam negras. O que era aquilo? Desejo, luxúria? Kyouraku nunca viu esse lado do amigo. Era quase... não, minto. Era assustador.
– Desculpe. – o moreno pediu com voz rouca. Ukitake respirava lentamente, como se fizesse uma espécie de exercício. Depois de uns momentos, olhou o amigo. A confusão anterior parecia ter dado lugar a ira fria.
– Você está se desculpando por me beijar?
– Sim, quer dizer, não! – corrigiu-se rapidamente depois de ver expressão de Juushirou. Suspirando, Kyouraku recomeçou: – Olha, não é nada disso. Bem... como eu explico...?
– Com a boca. Você está piorando as coisas. – o moreno levou um corte rápido, estilo Tramontina. Olhou feio e continuou:
– Eu te adoro, você sabe. – coçou a nuca. – Mas nós teremos, antes de qualquer coisa... A conversa. – terminou, meio sem jeito. Ukitake o olhou, cheio de desconfiança e estranhamento. O encarou por segundos constrangedores antes de se desmanchar em uma risada contagiante. Kyouraku, depois da surpresa inicial, não pode deixar de rir junto. Quando terminaram, Ukitake tinha as bochechas vermelhas do ataque de risos.
– Ai, meu Deus... Sim, certo, eu confesso. Nem os irmãos Kuchiki na infância eram tão adoráveis quanto você. E olha que eles eram (ainda são) a epítome do adorável. Se bem que...
– Oh, por favor, não estrague o clima falando de Kuchiki-kun.
– Até hoje eu não entendo sua implicância com ele... – comentou inocentemente antes de continuar, meio constrangido. – Agora, arrume suas roupas, por favor, e vá ao ponto. O ponto principal! – Kyouraku sorriu, observando Ukitake tentando e falhando em esconder suas mãos trêmulas ao procurar a camiseta jogada em algum lugar. Respondeu depois de alguns segundos, com toda honestidade e deboche que conseguia reunir:
– Você e ele se tornaram próximos muito rápido. Por um momento, eu achei que perderia o BF pra um pirralho de treze anos. – Ukitake apenas cantarolou algo que se podia entender como "pamonha". Ou quem sabe fosse "trouxa"... Antes de sorrir docemente e falar:
– Eu amo meu trabalho e prezo muito minha amizade com Kuchiki-san... mas ele é meu amigo. E você é meu melhor amigo. Certamente que vê a diferença.
Kyouraku esboçou um sorriso sem jeito. Oh, sim, ele via a diferença.
{···}
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