Laços Demoníacos
12 Vaga-lumes sangrentos
Notas iniciais
Os pequenos vaga-lumes ainda voavam iluminando a grama baixa do campo. O ar tinha ficado mais frio e úmido, o que parecia não incomodar os pequenos insetos. Algumas flores de cerejeira eram levadas pelo vento, junto das folhas que já estavam espalhadas pelo lugar.
Um som seco fez com que as aves que dormiam tranquilamente em uma grande arvore, voassem desordenadamente. Um corpo caiu sobre a grama e um grito pode ser ouvido.
–Cala a boca! – A morena que segurava Yomi lhe deu um tapa no rosto, fazendo um pequeno corte em sua boca. – Olhe em quanto sua namoradinha apanha. – Puxou Yomi pelos cabelos a fazendo encarar a cena. Mato tinha sido arremessada na arvore que tinha presenciado as cenas de suas caricias e agora era o palco de uma surra. A menina apertou a grama com força arrancando algumas do chão.
– Vamos lá Mato. Você só sabe isso? – Dizia o garoto com um sorriso no rosto. Ele parou de frente para a menina caída e cruzou os braços. – A julgar pelo tapa, eu esperava mais de você. Mas parece que você só sabe latir, como uma cadela vira-lata. – Em um ataque de fúria, Mato conseguiu acertar a grama nos olhos do menino que cambaleou par trás grunhindo, chamando a atenção de sua irmã.
–Uni!- Gritou a menina afrouxando a chave de braço que dava em Yomi. A morena aproveitou para se livrar do golpe e a socar no rosto. Mato foi para cima do menino e o agarrou pela cintura o jogando no chão. Parecia uma briga de dois moleques de rua. Mato aproveitou que o adversário ainda não enxergava para lhe socar o rosto com vontade. Os golpes foram ficando cada vez mais violentos e intensos. Os olhos da morena começaram a ganhar um tom azulado mais claro. O sangue do menino espirrou em seu rosto, mas ela não parou. Somente quando ouviu Yomi gritar, ela interrompeu os ataques. Olhou para trás avistando sua namorada com uma adaga no pescoço.
–Mato!- Lagrimas escorriam pelo seu rosto sem controle. Só então ela percebeu o quanto Yomi estava ferida.
–Se afasta dele... Ou eu acabo com a sua vadia. –Disse começando a cortar o pescoço da morena que gemia de dor.
Mato levantou as mãos abrindo a boca para dizer alguma coisa, quando foi golpeada com violência voltando a se chocar contra a arvore. O golpe fora tão forte, que ela ficou presa entre a fenda criada no tronco. Sua testa sangrava e suas vestes eram quase trapos. Não conseguia se mover, por mais que tentasse.
–Muito bom. Muito bom. –Disse o menino praticamente intacto , limpando a poeira de suas vestes. –Você não luta mal. Quando realmente quer...- Sorriu para a irmã. –Parece mesmo que essa humana é o seu maior incentivo. – A jovem abriu os olhos lentamente e olhou para o garoto, e logo depois para Yomi, ainda feita de refém. Sua visão estava turva, mas pode ver claramente quando Uni (garota) lambeu o sangue que escorria pelo pescoço de Yomi que se relutava para escapar.
Apertou seus punhos e antes que pudesse juntar forçar para se mover, o garoto a arrancou da arvore com violência a segurando pelos cabelos. Mato tentava segurar o braço do menino, que a segurava como se não fosse nada.
–Você é um parasita, que eu adoraria eliminar agora mesmo. – Ele sorriu. – Mas não teria a menor graça acabar com a festa, antes da hora.- Ele examinou a menina que espremia os olhos de dor e mal conseguia se debater. Seu corpo estava completamente debilitado. –Olha só para você. Em uma forma tão patética como essa...Só, tentando viver uma vida normal. -Olhou para Yomi que estava angustiada. – Nada mais do que isso, certo? Só que, seu egoísmo faz com que você não perceba o estrago que tem feito na vida das pessoas. Você as machuca Mato. –A voz do garoto mudou para um tom mais tranquilo. — Olhe para ela. –Ele fez com que ela encarasse Yomi. –Tudo o que ela queria, era ter uma vida normal com você. Mas lá no fundo... Bem lá no fundo, você mesma sabe que isso nunca ia ser possível. –Mato encarava Yomi e não pode conter as lagrimas. Estava realmente aceitando as afirmações de Uni. Era culpa dela Yomi estar ali, sendo maltratada. Se ela tivesse se afastado...- Você nunca vai ter uma vida normal Mato. Nem com ela, nem com ninguém. Você foi a responsável pela morte de seu pai, e agora...Dela. – O garoto voltou a sorrir de forma macabra.
A respiração de Mato ficou alterada , e seus olhos voltaram a ter o mesmo brilho azulado de a poucos momentos atrás. Não percebeu quando aconteceu, mas sentiu seu corpo receber vários arranhões e uma forte pancada nas costas fazendo suas costelas se estalarem. Ela gritou de dor e cuspiu sangue. Tinha sido arremessada a quase cinco metros de distancia. Tossiu e abriu novamente os olhos vendo o rastro de terra feito pelo seu corpo. Não conseguia se mover.
Os irmãos se juntaram e uma espécie de portal negro apareceu bem atrás deles.
–Se estiver interessada em uma troca, estamos dispostos a negociar. Sua vida, pela dela. –Disse sorrindo enquanto Yomi se debatia mas já era arrastada para dentro do portal junto da menina que sorria. Mato esticou a mão e sem forças para levantar ou gritar não pode fazer nada. Apenas observar sua amada ser levada mais uma vez. –Quando se decidir, você sabe como nos achar.- Disse arrumando seu kimono.- Ah, mais uma coisa... Lembranças a sua família. – E com seu sorriso habitual, desapareceu na escuridão do portal que sumiu logo em seguida.
Mato sentiu um aperto no coração e tentou gritar ou emitir algum som. Mas a dor que tomava conta de seu corpo era tão pesada que ela mal conseguia respirar. Ela ainda não tinha entendido o que aconteceu ali. Como ninguém tinha ouvido os gritos, e todos os golpes. Mato pode ver a luz dos fogos iluminar o céu mais uma vez. E se deu conta de que não teria como ninguém ter ouvido. Sua preocupação agora era de ver se sua família estava em perigo, e encontrar Yomi o mais rápido possível. Seus olhos foram se fechando involuntariamente e logo a escuridão tomou conta de tudo.
Os vagalumes continuavam a voar pelo campo, como se nada tivesse acontecido. O ar voltou a ficar quente e as flores pararam de cair.
Não sabia se era um sonho, ou alucinação, mas Mato pode jurar que ouviu alguém lhe chamando. Abriu os olhos lentamente e sua visão estava completamente embaçada. Pode ver uma mancha negra se aproximar, e ir tomando formato a medida que chegava mais perto.
–Mato...! Mato! Você esta bem? –A voz não passava de um sussurro para os ouvidos a menina que estava entre a lucidez e a inconsciência. Pode identificar apenas que era uma voz feminina –Tenho que te tirar daqui. Não estamos seguras. – A mulher a pegou no colo e a tirou aquele lugar.
“Ela corria em direção a luz forte que estava bem a sua frente. Sentia medo. Escutava sussurros e vozes sem sentido, e isso a deixava ainda mais apavorada.
–Mãe!- Mato gritava com lagrimas nos olhos.-Mamãe!? Otöto!? Onde vocês estão?
A luz diminuía a media em que se aproximava, ate chegar a forma de uma fresta na porta que surgira a sua frente. Ela ouviu sussurros e antes de esticar a mão para tocar a maçaneta reconheceu a voz de seu irmão conversando com alguém. Alguém que ela não soube identificar.
Segurou a maçaneta e terminou de abrir a porta. Ela reconheceu sua própria sala de estar, e os poucos segundos de alivio que teve ao se imaginar em casa, foram destruídos pela visão seguinte. A cena de brutalidade e horror, era cruel demais para a jovem , que não conteve um grito de desespero. Seu irmão estava com o corpo completamente dilacerado com partes espalhadas pelo chão. As paredes , e quase todos os objetos em volta, estavam manchados com seu sangue fresco. Pois a mão na boca ao olhar em outra direção tentando não enlouquecer e vomitar. Porem isso só piorou. Uma estranha criatura de pelagem negra e olhos grandes e vermelho sangue, comia os restos mortais do corpo de sua mãe nas mesmas condições de seu irmão. Mato sentiu sua espinha congelar e não soube identificar mais nada a sua volta. A criatura parou de se alimentar e encarou a menina. Lambeu a face com sua enorme língua e sorriu exibindo orgulhosa uma fileira generosa de dentes, desordenados e pontiagudos.
Sua garganta explodiu de dor ao gritar mais uma vez, e criatura voou para cima dela numa velocidade quase impossível...”
–Mato, acorda! – Gritou a mulher que estava ao lado do corpo da jovem que suava e se debatia.
–Mãe! Mãe!-Abriu os olhos e olhou em volta desesperada. Tentou se levantar por impulso mas foi contida por duas mãos. –Não! Me solta! –A menina se debateu com fúria , mas parou ao sentir seus ossos debilitados.
–Se acalme Mato.
A jovem pela primeira vez conseguiu olhar diretamente para a mulher, e ficou um tanto surpresa .
–...D-diretora?Como?
A mulher sorriu fracamente e pois um pano úmido na testa da jovem que voltou a se aquietar .
–Você precisa descansar. Teve uma febre muito alta. E não foi fácil fazer seus curativos. Mas acho que logo vai se sentir melhor.- Falou preocupada.
Mato estava tão nervosa por conta do sonho que não sentiu nenhuma dor, mas agora voltando a si, toda sua rebeldia lhe custara muito caro. Gemeu de dor. Apertou seus punhos e tentou pensar em outra coisa que não fosse dor. Logo, uma xícara apareceu a sua frente.
–Tome. Vai se sentir melhor.
A diretora fez com que a mesma engolisse um pouco da bebida quente.
–É um chá muito bom. De onde eu vim, ele faz milagres.- Terminou sorrindo e pondo a xícara pela metade na mesinha próximo a cama.
–Engraçado...
–Hum? O que Mato?
–Você falar de milagres, levando em conta tudo o que tem acontecido comigo. – Um silencio desconfortável se formou, ate que a mais nova quebrou novamente. – Minha família ? Yomi?..Eu preciso ir vê-los.
A mulher sorriu com seu jeito habitual e respondeu.
– Você esta em minha casa. Eu te carreguei. Eu te achei.-Suspirou-Quanto a sua família e Yomi, eu não posso responder com certeza, o que aconteceu.
A menina ficou sem entender. Pensou em fazer mais perguntas , mas sentiu o corpo pesar e amolecer.
–Você vai ficar sonolenta um tempo. Vamos conversar quando estiver melhor.
–O que tinha...No chá?
A mulher se levantou e acariciou os cabelos da jovem que sentia as pálpebras pesadas. Sorriu de forma doce e respondeu suave.
– Um milagre.
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