— Pai.

Raven andava pelos corredores de sua nave à procura do Imperador. Acordara naquela manhã com uma sensação estranha no peito, como se sua intuição a avisasse de algo. A garota espiava por cada ala da nave, vendo os poucos tripulantes e stormtroopers que viviam ali com ela, Yulte e R3, já que seu pai passava a maior parte do tempo em seu próprio cruzador imperial.

Ela estava distraída quando sentiu algo empurrar sua perna de leve e um som conhecido preencher seus ouvidos. A garota olhou para baixo e sorriu. R3-13 a seguia, como sempre fazia, apitando para perguntar aonde ela ia:

— Oi, R3 — ela olhou para o droide rapidamente. — Estou procurando pelo meu pai. Senti a presença dele...

Uma ala que ela dificilmente frequentava estava com as portas abertas, e um choro baixo vinha de lá de dentro. Raven franziu a testa e entrou. O Imperador estava parado em um canto, observando Yulte. A cuidadora da garota estava de joelhos no chão, parecendo paralisada. Palpatine mantinha a maior parte do rosto coberta pelo capuz marrom, mas a garota sabia que ele a observava:

— Querida, venha aqui.

Raven aproximou-se do pai, sem tirar os olhos de Yulte, que tentava lutar contra um aperto invisível, o estrangulamento da Força. Ao ficar frente a frente com o pai, Raven apoiou o joelho esquerdo no chão e abaixou a cabeça:

— Minha filha, tenho observado seus últimos treinamentos e estou impressionado com o quanto você evoluiu.

— Obrigada, pai. Eu dou o meu melhor.

— Mas...

O Imperador deu um leve passo à frente e observou a filha. Raven continuou de cabeça baixa, sentindo algo que não experimentava há muito tempo: medo.

— ...você continua vacilando em direção ao Lado da Luz.

Yulte pareceu tentar se mover, encarando a garota com os olhos cheios de lágrimas.

— E para ser uma Sith, querida, é preciso ir direto para o Lado Sombrio. Não deveria haver hesitação desde o começo — disse ele, com puro desprezo.

Raven sentiu o coração disparar:

— Me perdoe...

— Contudo, lhe darei uma nova chance de provar sua lealdade a mim e ao Lado Sombrio. Levante-se.

Raven levantou-se imediatamente. Sentia as pernas bambas, mas tentava ocultar o desespero. O Imperador pegou um sabre de luz que estava sobre uma poltrona e entregou-o à filha. A garota franziu a testa.

— Para se provar, você terá que matar Yulte Aldob. Agora.

Ela arregalou os olhos:

— Mas, pai...

— Sem "mas", Raven.

Seu pai raramente usava aquele tom ríspido com ela, e o medo parecia devorá-la por dentro.

— Faça.

Ela balançou a cabeça em negação:

— Yulte é como uma mãe para mim!

Palpatine sorriu:

— É exatamente por isso que estou mandando você matá-la. Yulte é a razão de você continuar caindo no Lado da Luz, Raven.

— Pai...

— Faça. Agora.

Raven sentiu os olhos queimarem ao se virar para Yulte, ainda paralisada no chão. Aproximou-se segurando o cabo do sabre de luz com força. Seus dedos tremiam, e o coração batia tão forte que parecia sufocá-la.

— Me perdoe... — sussurrou ela ao acionar o sabre. A lâmina vermelha iluminou o rosto de sua cuidadora.

O Imperador observava atentamente a execução da Togruta. Ao lado, R3 emitiu um apito triste de incentivo. Raven posicionou a lâmina na altura do ombro esquerdo. Quando reuniu forças para dar o golpe, Yulte olhou-a nos olhos:

— Você ainda pode ir para a Luz, Raven. Você...

Raven cortou-a de ombro a ombro e virou o rosto para não ver o corpo tombar sem vida. A garganta ardeu, e as lágrimas finalmente transbordaram, molhando seu rosto. Sentiu a mão fria do pai tocar seu ombro.

— Essa é a minha garota — disse Palpatine. Pelo tom de voz, ela sabia que ele sorria. — Como está se sentindo?

Ela fungou, encarando-o com raiva:

— Eu acabei de matar a pessoa que eu amava. Como acha que estou me sentindo?

Palpatine desativou o sabre de luz de Raven e a abraçou, não com carinho, mas de forma fria e debochada. A garota sentiu uma vontade avassaladora de matá-lo ali mesmo.

— Mantenha esse sentimento de raiva e perda. Eles serão cruciais para o seu treinamento a partir de agora, minha querida. Você terá um novo mestre, e ele já está à sua espera. R3 vai levá-la ao último andar.

Ele a soltou e deixou a sala. O droide aproximou-se e apitou, pedindo que ela o seguisse.

Ainda segurando o sabre dado por seu pai, Raven seguiu R3 pelos corredores, chorando baixinho para não chamar a atenção dos soldados que cruzavam seu caminho. O droide conduziu-a até o elevador que levava ao topo da nave, mas não entrou. Quando as portas magnéticas se fecharam, Raven caiu de joelhos, largou a arma no chão e cobriu o rosto para chorar.

Não costumava chorar, mas, naquele instante, uma tempestade de sentimentos a esmagava: raiva, medo, tristeza e culpa. Eu não deveria ter feito isso, pensava.

Logo as portas se abriram no nível superior. Raven nunca estivera naquela ala e não sabia o que esperar. Levantou-se, usou a Força para trazer o sabre de volta à mão e avançou. Era uma sala ampla com teto de vidro, revelando a imensidão estrelada e alguns planetas distantes. Secou as lágrimas com a mão livre, desejando desesperadamente poder fugir daquela nave.

— Se está aqui, é porque completou o que lhe foi solicitado — disse uma voz robótica e profunda.

Raven procurou a origem do som e viu, de costas para ela, o aprendiz de seu pai. Ela quase não o via e nunca se interessara por quem ele era. O homem respirou, produzindo um ruído mecânico que ecoou pela sala.

— Então você é meu novo mestre — disse ela, com tom de indiferença.

O homem virou-se para ela, respirando ritmicamente mais uma vez:

— Sim. Seu pai me pediu para concluir seu treinamento.

A garota balançou a cabeça e segurou o choro ao lembrar-se de Yulte:

— Como você se chama mesmo? — perguntou, tentando afastar a lembrança da tragédia.

— Darth Vader, senhorita Palpatine.

— Não, não quero o nome que meu pai lhe deu. Quero seu nome verdadeiro.

— Por quê? Meu antigo nome não tem mais importância.

— Porque ele carrega a sua história antes de você ser apagado e começar uma nova vida no Lado Sombrio... assim como vai acontecer comigo e com qualquer um que se entregar.

O homem mascarado pareceu hesitar por um fração de segundo. Raven sentia a presença dele na Força: era absurdamente poderosa, mas também oscilava em direção à Luz. Talvez fosse por isso que seu pai ficara tão furioso ao perceber a humanidade na filha — o seu próprio aprendiz mais confiável também carregava esse conflito.

— Anakin. Esse era meu nome. Mas agora atendo apenas por Darth Vader. Não perca seu tempo chamando-me por aquele nome.

Raven assentiu. Então ele era o Jedi de quem seu pai falara anos atrás.

— Quando chegar a hora, Raven Palpatine será apenas o meu passado. Mas continuarei sendo filha do Imperador e não pretendo me voltar contra ele. Já você, Darth Vader, pode se voltar contra ele a qualquer momento, seja qual for o motivo. Você oscila entre os lados... assim como eu.

Darth Vader não se deixou abalar pela provocação:

— Vamos começar seu treinamento?

Ela deu um sorriso amargo.

— Claro, meu mestre.

•••

Raven não conseguia dormir. Após o treino com o novo mestre, sentia-se diferente — não de um jeito bom. Sentia a Força fluir por suas veias, mas seus sentimentos oscilavam mais do que nunca. Sua mente repetia continuamente a cena em que tirara a vida de Yulte. O medo se transformara em raiva; a raiva virara ódio, e o ódio desaguara em sofrimento puro.

Estava tão perdida em seus pensamentos que sequer percebeu quando o Imperador Palpatine entrou em seu quarto. Ele sorriu ao vê-la naquele estado:

— Você finalmente está caindo para o Lado Sombrio de vez. Isso é excelente — disse ele, aproximando-se.

Raven encarou o pai com puro ódio:

— Eu deveria ter matado você.

— Sim, deveria — ele abaixou-se para encarar a filha bem de perto. — Mas isso não traria sua cuidadora de volta à vida.

— Ela não merecia isso...

— Saiba que, quando tiver poder suficiente, poderá trazê-la de volta.

Raven negou com a cabeça:

— Eu não vou trazê-la de volta. Vou deixar esse sentimento me corroer e, quando chegar a hora, vou destruir você assim como fez comigo.

Palpatine riu sem humor:

— Quanto mais você diz isso, mais se parece comigo. Não acredito que consiga fazer algo assim, minha querida. E sou seu pai; não deveria querer me matar — balançou a cabeça. — Tudo o que fiz foi para conduzi-la ao seu destino: ser a Sith mais poderosa da galáxia.

Raven levantou-se em um salto:

— Eu não quero isso!

— Quer! É claro que quer, minha querida! Imagine só: ter tanto poder a ponto de me matar das piores formas possíveis e ainda poder me trazer de volta à vida apenas para fazer tudo de novo!

A garota sentiu a Força rugir em seu sangue e ergueu a mão direita na direção do pai, arremessando-o contra a parede com um impacto violento. Palpatine caiu no chão, gargalhando enquanto se levantava:

— Sua mãe fez exatamente a mesma coisa comigo quando você nasceu. Ela não queria que eu a levasse. Meira teria tanto desgosto se pudesse ver você agora, seguindo meus passos, sendo treinada pelo meu melhor aprendiz e planejando me matar!

— Saia do meu quarto agora! — falou ela entre os dentes.

O Imperador aproximou-se, segurou-a pelo queixo e deu um sorriso largo e perverso:

— Seu nome não é mais Raven Palpatine.

A garota nem piscou, mantendo o olhar firme.

— A partir de hoje, minha filha, você será chamada de... Darth Liathe.

Raven sabia que aquele dia chegaria, mas no fundo ainda nutria a esperança de fugir do pai e abraçar o Lado da Luz. Ela viu um brilho de loucura nos olhos amarelados de Palpatine quando ele a soltou:

— Um dia você tomará o meu lugar e se tornará a Imperatriz. Pode tentar me matar se desejar, mas jamais poderá mudar o sangue que corre em suas veias.

— Eu não serei Imperatriz. Não serei igual a você.

Palpatine deu as costas a ela:

— Se você não tomar o meu lugar, então a criança que carregar em seu ventre tomará.

O Imperador deixou o quarto. Raven caiu sentada na cama, sentindo as lágrimas voltarem a queimar seu rosto enquanto a escuridão e a dor dominavam sua mente.