
— Café da manhã, San.
Ele acordou quando algo acertou seu rosto, assustando-o, e risos chamaram sua atenção. San coçou os olhos e procurou o que o atingira. Era um pão embrulhado em um papel cinzento:
— Bom dia para você também, Yuna — falou ele enquanto abria o embrulho.
A garota, de olhos e cabelos pretos, pele clara, olhos puxados e expressão séria, deu um meio sorriso:
— Come logo — ela continuou a distribuir os pães. — A General Hemp solicitou a presença de todos os rebeldes na sala de comando em dez minutos.
San balançou a cabeça e deu uma mordida no pão. Era como se fosse a primeira vez que comia.
Os últimos doze anos tinham sido os melhores de sua vida. A Aliança Rebelde o acolhera logo que ele chegara, e todos se prontificaram a explicar-lhe tudo o que acontecera desde o momento em que o Império assumira o poder. Onaa mantivera sua promessa de não contar a ninguém seu sobrenome, e eles acabaram se tornando amigos próximos, confiavam um no outro como se fossem irmãos de sangue.
Quando Yuna terminou de servir todos os rebeldes, retirou-se do cômodo que servia como alojamento, e San ouviu um riso:
— Essa garota é inacreditável — comentou Bryadon Overbli, amigo de San e também piloto.
Bryadon era uns cinco anos mais novo do que San, mas era a melhor companhia que ele poderia ter.
— Por que diz isso? — perguntou o Skywalker.
— Conosco, a Yuna é toda séria e, às vezes, agressiva. Mas com as garotas, nossa, você tem que ver! — Ele arregalou os olhos para dar ênfase. — Ela parece o ser humano mais fofo da galáxia. Não joga pão no rosto da Kailgra ou da Shia. Nem mesmo no da Alydar!
San olhou para o amigo com uma das sobrancelhas levantadas:
— E por que você está reclamando?
Bryadon deu de ombros:
— Sei lá... talvez eu queira ser tratado com mais carinho.
— Cara... — San olhou para ele após dar uma mordida no pão. — Você está a fim dela?
O garoto arregalou os olhos ao perceber os olhares de alguns que estavam no quarto:
— Fala baixo, San!
O Skywalker riu alto:
— Eu não acredito que você gosta da Yuna Bondea! — falou, balançando a cabeça. — Você é maluco.
— Não é isso, eu só acho que...
— Senhores San e Overbli, venham para a sala de comando — um dos pilotos da Aliança, Gles Shemle, chamou-os.
Os dois se olharam e levantaram de suas camas. Os outros rebeldes que dormiam no quarto os seguiram.
O dia acabara de amanhecer sob os três sóis do planeta Inoria, localizado nas Regiões Desconhecidas, além da Orla Exterior onde ficava a principal base rebelde em Yavin. Em Inoria, o pequeno grupo estabelecia sua base sob as ordens da General Tarisa Hemp, auxiliando apenas quando solicitados pela líder Mon Mothma.
Gles levou os dois pilotos até a sala de comando, esperou todos entrarem e fechou a porta. Os rebeldes já estavam presentes e aguardavam a chegada da General. Um clima de tensão pairava no ar, deixando San nervoso. Desde que se tornara aprendiz de piloto, todas as vezes em que eram convocados à sala de comando, ele já sabia que algo grave acontecera.
San e Bryadon avistaram Bax Stopas, cumprimentaram-no e ficaram ao seu lado. A General Hemp adentrou a sala junto do Comandante Isalan Hamcoy, sem parecer receptiva como de costume:
— Primeiramente, bom dia a todos.
Todos responderam. A General respirou fundo:
— Infelizmente, trago más notícias.
San olhou para o amigo e para Bax; ambos pareciam ter prendido a respiração.
— Recebemos uma mensagem da liderança no começo desta manhã. A lua de Jedha foi destruída pelo Império e sua nova arma, a Estrela da Morte — falou a General.
Silêncio. San olhou para os presentes e avistou Onaa Jin, que parecia extremamente preocupada. Sendo quase o braço direito da General, ela era a primeira a saber dos fatos.
— Todos estão em alerta, mas nos avisaram de que já estão à procura de uma forma de destruir a arma o mais rápido possível. Por enquanto, pedem que fiquemos preparados caso precisem dos nossos melhores pilotos.
— E nós ficaremos aqui parados enquanto milhões morrem nas mãos do Império? — uma voz feminina ecoou pela sala.
A General fechou os olhos e suspirou:
— Alydar, por favor.
— Tarisa, é sério. Estamos em menor número, isso é evidente, mas temos espaço suficiente para abrigar inocentes.
Alydar Hemp era a irmã mais nova da General e sempre fazia questão de dar sua opinião, mesmo sem ser solicitada.
— Eu concordo com você, mas infelizmente não posso permitir que nossos pilotos vão em missões com baixa probabilidade de sucesso.
— Mas temos naves de transporte que nunca são usadas! Deveríamos fazer algo, ir até planetas que são alvos do Império e salvar quem conseguirmos.
— Eu não irei desobedecer às ordens da líder Mothma.
— Mas...
— Chega, Alydar — repreendeu Isalan. — Todos queremos fazer o possível para salvar vidas, mas a General e eu não podemos agir sem a aprovação de Mothma.
Alydar bufou alto e saiu da sala de comando, batendo a porta. A General forçou um sorriso:
— Desculpem por isso. Bem, essas eram as notícias. Podem voltar aos seus afazeres — ela pigarreou. — Obrigada.
San, Bryadon e Bax saíram juntos. Os rebeldes comentavam a discussão entre a General e a irmã; alguns concordavam com Alydar, outros diziam que ela deveria ser proibida de participar das reuniões.
— Na minha humilde opinião, não concordo com a General. Nossa base é a menos reconhecida e só nos chamam para batalhas suicidas. Podemos ser mais do que isso — comentou Bryadon.
— Concordo. Estamos aqui para ajudar, não? Deveríamos ter missões de resgate a inocentes — disse San.
— Acho que não seria viável. Poderíamos perder mais rebeldes, e nos últimos anos não recrutamos quase ninguém — ponderou Bax.
— Eu acho que deveríamos atacar a Estrela da Morte.
Os três se assustaram quando Alydar passou por eles, falando com sua amiga Shia Vyoro, que balançava a cabeça em negação enquanto a segurava pelo pulso:
— Você ficou louca? Não duraríamos cinco minutos! Você ouviu a General: se essa arma destruiu uma lua inteira, nossas naves não são nada para eles.
— Eu tenho um plano, mas preciso de um piloto que aceite ir comigo.
— Duvido que alguém vá te ajudar.
— Eu vou.
San corou quando a atenção se voltou para ele:
— Eu irei com você, Alydar.
— Cara, o que você está fazendo? — resmungou Bryadon.
A irmã da General pareceu surpresa:
— Tem certeza disso, San? A probabilidade de morrermos é bem grande — falou ela, aproximando-se do garoto.
Ele deu de ombros:
— Não quero ficar aqui parado enquanto o Império destrói tudo o que estiver no radar.
Ela sorriu:
— Ótimo. Encontre-me na pista de pouso em vinte minutos e explicarei o plano.
•••
Raven assustou-se no instante em que o superlaser da Estrela da Morte atingiu a lua de Jedha. Ela não queria ver aquilo; não queria sequer imaginar a população sendo morta pela explosão. Embora tivesse caído para o Lado Sombrio, ainda detestava ver seu pai obter sucesso em suas atrocidades.
Viu seu droide se aproximar e apitar, questionando por que ela observava o teste da estação espacial:
— Eu quis ter certeza de que essa arma seria tão eficiente quanto Galen Erso prometeu — mentiu.
R3 apitou que ela deveria retornar ao seu aposento o quanto antes, pois seu mestre não voltaria tão cedo e ela não deveria vagar pelos corredores. Ela assentiu e seguiu o droide.
A nave de Raven era minúscula em comparação a um Star Destroyer ou à própria Estrela da Morte. Sua tripulação reduzira bastante devido a ocupações em outros setores, restando apenas vinte Stormtroopers, alguns pilotos, copilotos e o Almirante Kelsan Pynbra no comando.
R3-13 apitou novamente.
— Não, eu estou bem. Só estou cansada, andei treinado sozinha nas últimas noites.
•••
— Você tem certeza absoluta, San? Olha, ainda dá para desistir — questionou Alydar pela terceira vez.
Na base de Inoria, havia uma nave inspirada em cruzadores, porém bem menor, usada apenas quando a General Hemp e o Comandante Hamcoy viajavam para reuniões em outras bases. Não faria falta de imediato.
O garoto bufou:
— Não vou desistir, Hemp. E mais: se formos pegos, assumo a culpa com você.
Ela deu risada:
— Muito bem, então!
— O que vocês estão fazendo?
Os dois se assustaram com a voz de Onaa Jin vindo pelo comunicador da nave. A Togruta praticamente gritava:
— Jin, não estou com tempo para conversar agora — disse San, prestes a cortar o sinal.
— Vocês acharam mesmo que ninguém me contaria desse plano ridículo de invadir a Estrela da Morte e tentar destruí-la?
Os dois se entreolharam.
— Bax e Bryadon... — Alydar revirou os olhos.
— A sua amiga Shia também pode ter falado — retrucou o Skywalker.
— Na verdade, foi a Yuna quem me contou! E isso não importa agora. Quero que vocês dois saiam dessa nave antes que a General Hemp descubra!
San olhou para Alydar, e ambos pareceram ter o mesmo pensamento: ligaram os motores e decolaram o mais rápido que puderam. Alguns rebeldes na pista de pouso se assustaram.
— Parem com isso!
— Foi mal, Jin, mas não deixaremos mais mortes acontecerem sem fazer nada — falou San, acionando os propulsores. A nave ganhou velocidade.
— As únicas mortes que vão acontecer serão as de vocês!
Alydar desligou o comunicador. A nave subiu rapidamente sobre a base rebelde, cortando a atmosfera em direção ao espaço.
•••
R3-13 observava Raven desmontar e remontar seu sabre de luz com peças novas. Ela retirara o cristal vermelho e o jogara longe; dias antes, encontrara um cristal kyber de sua preferência. O antigo fora entregue pelo Imperador Palpatine — o mesmo sabre que tirara a vida de Yulte Aldob.
Os últimos oito anos tinham sido os piores de sua vida. Sem sua cuidadora, sentia que sua jornada perdera o sentido.
Raven encaixou o novo cristal no cabo e examinou o sabre em busca de qualquer falha que pudesse causar uma autodestruição. Não encontrando nada anormal, ativou a lâmina. A luz brilhou em tom púrpura — uma cor rarável entre Sith, e exatamente o que Raven desejava.
Ela ainda era uma Sith, mas com seus próprios ideais... e um único inimigo em sua lista.
R3 aproximou-se, mas virou-se subitamente ao perceber passos no corredor. O droide apitou em alarme. Raven desligou o sabre imediatamente e colocou-se de pé.
— Darth Liathe — o piloto curvou-se em reverência.
Além de odiar o pai, Raven detestava o nome Sith que ele lhe dera:
— Vim informá-la de que uma nave rebelde se aproxima da Estrela da Morte, mas não aparece nos radares da estação. Não sabemos o motivo de estarem aqui, e os canhões da estação estão fora de alcance no momento. O Almirante Pynbra deseja saber se devemos disparar contra a nave ou alertar o Almirante Krennic.
Raven respeitava o Almirante Pynbra por ainda levar sua opinião em consideração.
— Façam diferente.
O piloto pareceu confuso:
— Capturem-nos e tragam-nos para mim. Mandem um aviso ao meu mestre.
— Sim, senhora.
•••
— Não fomos detectados pelos radares deles. Estamos com sorte, San — disse Alydar.
— Eu não ficaria tão confiante. Eles podem ter sentinelas observando.
— Duvido que coloquem Stormtroopers para isso. Eles nem conseguem acertar um tiro de blaster.
San segurou o riso ao avistar a Estrela da Morte. A estação espacial era terrivelmente maior do que imaginava, mas sua determinação continuava firme. Alydar resmungou, e ele se voltou para ela:
— Isso está estranho.
— O quê?
— Os controles não respondem.
San a viu apertar botões e puxar alavancas em vão. Ele tentou reativar o rádio, mas o indicador, antes verde, agora brilhava em vermelho.
— Sem comunicadores e sem controle de voo... o que está acontecendo?
As luzes da cabine piscaram. Pelos visores, viram uma nave se aproximar — não tão colossal quanto a Estrela da Morte, mas grande o suficiente para arrastá-los com um raio trator.
— Fomos interceptados — disse San.
— Que ótimo! — resmungou Alydar.
— O que faremos?
Alydar olhou para ele, hesitante:
— Não sabemos quantos estão a bordo, mas pelo tamanho da nave... acho que podemos tentar enfrentá-los.
Ela puxou dois blasters e entregou um a San, que checou a carga de energia:
— Se vamos fazer isso, espero que consigamos sair vivos — e com alguma informação sobre essa Estrela da Morte.
— O plano mudou, San. Vamos reagir e, se der certo, tomamos essa nave menor.
A nave rebelde foi guinchada até o hangar da embarcação imperial. Os dois se prepararam para a invasão. Quando a rampa baixou, um esquadrão de Stormtroopers adentrou o recinto. San e Alydar apontaram suas armas.
— Soltem as armas! — ordenou um dos soldados.
Nenhum dos dois se moveu.
— Senhor, capturamos os rebeldes — disse outro Stormtrooper pelo comunicador do capacete.
— Ótimo! Levem-nos até Darth Liathe.
— Sim, senhor.
— Não vamos machucar vocês — assegurou o primeiro Stormtrooper, aproximando-se.
— E como podemos ter certeza? — desconfiou Alydar.
— Darth Liathe não é tão ruim assim... mas rezem para a Força para que Darth Vader não apareça.
•••
As portas do hangar se abriram, e Raven observou os dois rebeldes sendo escoltados com certo tédio. Os Stormtroopers os forçaram a se ajoelhar:
— Me solta! — protestou Alydar.
— Ajoelhe-se! — ordenou o soldado.
Raven aproximou-se:
— Apenas esses dois estavam na nave?
— Sim, senhora. Não há mais ninguém, e os canais de comunicação foram cortados.
— Ótimo.
As portas se abriram novamente. O som mecânico e ritmado de uma respiração pesada ecoou pelo corredor. Alydar olhou para San, e ele percebeu que ela tremia.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou o Lorde Sith.
Raven sequer se deu ao trabalho de encarar o mestre:
— Estes dois rebeldes voavam nas proximidades, mas não constavam nos radares — nem mesmo nos da Estrela da Morte — falou ela. — Pretendo interrogá-los. E talvez avisar ao senhor Erso que a estação ainda apresenta falhas.
Darth Vader aproximou-se dos prisioneiros e notou o pavor de Alydar:
— Levarei a garota — declarou friamente.
Dois Stormtroopers seguraram Alydar pelos braços e começaram a arrastá-la:
— San! — gritou ela.
— Calada!
Raven encarou San e deu um leve sorriso:
— Levem-no para a sala de interrogatório. E apaguem-no.
San sentiu um golpe forte na cabeça e tudo escureceu.
•••
— Eles fizeram o quê?! — exclamou a General Hemp.
Onaa respirou fundo:
— General, eu tentei...
— Jin, não importa mais! Eles podem estar mortos a esta hora!
— Não podemos perder a esperança.
A General balançou a cabeça:
— Não existe esperança em um caso destes.
— Sinto muito...
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