A respiração do garoto estava acelerada quando ele acordou de mais um dos seus pesadelos estranhos, e ele sempre se questionava o porquê de todos terminarem da mesma forma: morte.

O garoto, loiro de olhos esverdeados, respirou fundo tentando se acalmar e espiou pela fresta aberta do local onde era mantido preso. O dia ainda não chegara e ele não ouvia tantos passos no lado de fora como horas antes. Mas ele se assustou quando ouviu uma voz feminina resmungar algo. Parecia estar ali dentro com ele.

— Anakin — repetiu a mulher.

Como ainda estava escuro, não era possível observar o rosto dela, apenas a sua silhueta.

— Quem está aí? — perguntou o loiro.

Sua voz esganiçada assustou a mulher e ela tentou se mexer, mas estava presa com cordas, que apertaram seus pulsos quando ela levou as mãos ao rosto para tirar os cabelos do seu campo de visão.

— Quem é você? — perguntou o garoto novamente.

— Shmi.

Ele franziu a testa.

— Meu nome é Shmi. E o seu?

O garoto ainda não conseguia vê-la, mas não sentiu medo na presença daquela mulher, diferente de quando qualquer um daqueles que o torturavam estava por perto.

— Eu... não tenho um nome, não que eu me lembre. Eles me chamam apenas de "garoto".

Mesmo no escuro, ele sabia que a mulher sorria com certa dificuldade.

— Onde estão seus pais?

— Eu não tenho pais.

Houve um minuto de silêncio e o garoto pensou que a mulher estivesse dormindo. Quando um dos sóis começou a surgir e iluminou o local pela fresta, ele pôde ver, enfim, o rosto dela. Shmi fora agredida e havia um pouco de sangue em seu rosto, mas o garoto acreditou que aquela não era a primeira vez que isso lhe acontecia.

— Está há muito tempo aqui, Shmi? — ele ousou perguntar.

— Infelizmente, sim.

— Por que não foge?

Shmi olhou para o garoto.

— Você me lembra um pouco o meu filho. Ele era tão curioso quanto você.

— Ele morreu?

Shmi deu um leve sorriso.

— Foi levado por um Jedi.

O que é um Jedi?, pensou o garoto. Eles então ouviram os passos do lado de fora ficarem mais altos. As pessoas começaram a acordar e falavam entre si em uma língua estranha. O garoto olhou para Shmi mais uma vez e a viu quase dormindo.

— Pode descansar se quiser, eu irei protegê-la.

Ela sorriu e fechou os olhos.

— Irei te chamar de San.

O garoto arregalou os olhos de leve; ele gostou do seu novo nome e sorriu. Shmi adormeceu logo em seguida.

•••

Não era sempre que se ouvia o choro de um bebê ecoar tão alto quanto os inúmeros barulhos de Coruscant. A nave desconhecida que sobrevoava o planeta estava em silêncio quando a criança nasceu e os berros começaram.

— Meira — uma das enfermeiras chamou.

A mulher, de olhos e cabelos castanhos-claros, deitada na cama, respirou fundo várias e várias vezes. Agradeceu à Força por aquela dor ter acabado, limpou o suor que escorria de sua testa e sentou-se para finalmente ver a vida que acabara de trazer à galáxia.

— É uma menina.

Meira sorriu e seus olhos se encheram de lágrimas ao observar a criança sendo colocada em seus braços.

— Como vai chamá-la?

Meira não teve tempo de responder. As luzes da nave piscaram freneticamente e ela sentiu os pelos de suas costas se arrepiarem.

— Saiam daqui! — falou para as enfermeiras com certo desespero.

As portas automáticas se abriram, revelando pelo menos sete droides e um homem encapuzado adentrando o quarto. Não era possível ver o rosto dele, mas o medo se espalhou pelo corpo de Meira. Ela segurou a criança mais perto de si e percebeu que a recém-nascida parara de chorar.

O homem se aproximou lentamente da cama. Meira pôde, finalmente, ver o rosto dele e quis matá-lo naquele instante.

— Não sabe o quão ansioso eu estava por este dia, minha querida.

Meira manteve uma expressão de puro ódio.

— Eu não sou sua querida e você não levará a criança.

As duas enfermeiras tremiam em um canto do quarto, procurando uma forma de sair daquele local com vida. O homem sorriu.

— Esta criança é mais minha do que sua, querida, e pode ter certeza de que não me deixarei abalar por um monte de lixo como você.

Meira ergueu a mão direita na direção do rosto do homem e, no mesmo instante, ele foi arremessado para o outro lado do recinto, batendo contra um armário. Os droides levantaram as armas em direção a ela, mas não atiraram. O homem tomou impulso para se levantar e deu uma risada irônica.

— Então seus poderes enfim apareceram...

Ele voltou para perto de Meira que, rapidamente, se preparou para atacá-lo novamente. Desta vez, porém, foi surpreendida quando raios azuis saíram das mãos pálidas dele e acertaram seu rosto.

— Essa criança será poderosa, assim como eu, e você nunca conseguiria controlá-la.

Meira tremia por conta do choque e seus braços perdiam a força gradualmente. O homem se prontificou a pegar a criança e sorriu.

— Meira, querida, você não foi um desperdício, já que me ajudou a trazer a esta galáxia o Sith mais poderoso existente.

— A Sith — uma das enfermeiras corrigiu.

O homem olhou para ela com desprezo.

— Pois bem! A Sith mais poderosa existente. Minha única filha.

Meira respirou fundo e seu corpo estremeceu mais ainda, causando dores insuportáveis.

— Eu iria deixá-la viver, mas, infelizmente, você colocou a vida de outras pessoas em risco.

Ele deu as costas para a mulher e os droides atiraram nas enfermeiras. Meira deixou as lágrimas caírem e tomou forças para dizer:

— Raven.

O homem parou.

— O nome dela é Raven.

Ele olhou para a mulher por cima do ombro.

— Lindo nome. Raven Palpatine.

A criança resmungou e Meira soluçou alto, sabendo que nunca mais veria sua filha.

— Matem-na e não deixem rastros.

Os tiros ecoaram e a criança começou a chorar novamente, como se soubesse que fora tirada de sua mãe. O Lorde Sith Darth Sidious segurou sua filha recém-nascida com cuidado e, com um sorriso vitorioso no rosto, levou-a embora.