LEGADO DO XOGUM

1 PRÓLOGO - A PROFECIA DO XOGUM


Era uma noite clara de lua cheia. Dourada, ela subia lentamente, acompanhada por uma infinidade de estrelas, sobre o horizonte das árvores da Floresta de Jade.

A luz quente da fogueira projetava nas sombras da mata as silhuetas reunidas ao seu redor.

Entre todas, uma das criaturas se destacava. Ao centro, ela cutucava o fogo com um graveto e as faíscas rompiam para cima no movimento. Suas orelhas, longas e caídas, revelavam sua natureza coelho-gente. Sua face enrugada denunciava a idade avançada.

— Se querem mesmo saber como essa floresta nasceu… eu vou lhes contar — falou o velho com sua voz arrastada.

Ele suspirou e olhou para o céu antes de continuar:

— Naquela época, a maioria dessas árvores, que hoje nos servem de abrigo, era apenas broto. Mas algumas… algumas já eram jovens. Jovens como vocês — correu os olhos vermelhos pelos pequenos que o ouviam atentamente. — Elas testemunharam a maior batalha em toda a história de Kyūsekai. Testemunhas vivas de quando as montanhas desmoronaram, florestas se incendiaram e os mares tomaram a terra.

O velho falava com veemência, gesticulando enquanto a voz acompanhava o caos narrado.

— Não foi uma batalha entre exércitos, muito menos entre nós, mortais. Não… foi muito mais do que suas cabecinhas podem imaginar. — Ele balançava a cabeça em negação. — Foi uma batalha entre os imortais! Deus contra deus, dragão contra dragão… Âmbar contra Esmeralda.

Até os adultos, mais afastados da fogueira, ouviam com as orelhas de pé.

— Sim… essa batalha foi travada por esses mesmos que vocês estão imaginando; nossos governantes, nossos deuses… nossos criadores. Foram eles que ergueram a Ilha Serpente sobre o Oceano Nebuloso, e da ilha arrancaram essa floresta do ventre da terra. Arrancaram! Essa floresta não foi plantada. Não houve sutileza… houve guerra, destruição e… fogo.

O velho coelho fez uma pausa. Ele se abaixou e pegou um punhado de cinzas do canto da fogueira, depois se levantou e abriu a mão devagar, fazendo as cinzas escorrerem como fumaça entre seus dedos.

— Pois é do fogo que a terra se alimenta. É dele que tudo nasce. — Sua pelagem branca parecia absorver o laranja da fogueira.

— Lembrem-se de minhas palavras. Não se deixem enganar pelo que dizem os livros dos tolos que se dizem sábios. A Floresta de Jade, assim como Kyūsekai, foi forjada no fogo da batalha e suas cinzas.

O crepitar da fogueira roía o silêncio.

— Pare de plantar rabanetes na cabeça das crianças, velho Rubri — resmungou um dos adultos mais ao fundo.

Rubri se virou e o encarou com aspereza.

— Não sou do tipo que “planta rabanetes”. Eu presenciei a anunciação da profecia. Eu sei o que está por vir. Sei o que esta geração terá que enfrentar.

— Nós já sabemos que o senhor morou no palácio do Xogum e blá-blá-blá. Só não assuste as crianças com suas histórias — insistiu o coelhino.

— A propósito, já está na hora de vocês se deitarem. Todos para a cama, agora! — berrou outro dos adultos.

As crianças murmuraram suas reclamações, mas obedeceram ao comando dos responsáveis, e pouco a pouco a roda em torno de Rubri ficou vazia.

Um único pequenino marrom, com uma das orelhas brancas, se aproximou dele alguns passos envergonhados e perguntou:

— Senhor Rubri, que profecia é essa?

Os olhos do velho brilharam, refletindo as chamas da fogueira. Ele chegou bem perto do jovem antes de falar.

— É a profecia do Xogum Âmbar. A profecia sobre a queda deste mundo… da ascensão dos heróis… e da abertura dos portões de Sōzō Sekai.