LEGADO DO XOGUM

9 CAPÍTULO 8 - DOR REVELADA, ESPADA DA MORTE


Após a partida de Amateri, o silêncio tomou o jardim de cerejeiras do Palácio Âmbar. A face do Xogum ainda carregava o amargor do que acabara de acontecer.

Nagato o circulou com passos presunçosos até fitá-lo de frente.

— Então é assim que se derruba o Xogum? — A voz sinistra irrompeu de sua máscara.

— Não testes minha paciência…

A fraqueza dos poderosos nunca está neles, mas naquilo que amam.

Nagato bufou um riso.

— Jamais teria imaginado que meu libertador seria o próprio Xogum. Mas, depois que o encantamento de minha prisão se desfez, tudo começou a fazer sentido. Exceto… sua motivação.

Umarekawa permaneceu calado, ainda olhando a silhueta da filha atravessar as imensas portas do palácio. Nagato acompanhou o olhar dele.

— Ela está certa, Dragão Âmbar… Essa é uma escolha muito duvidosa.

— Meu trabalho é infeliz… mas minhas escolhas são calculadas.

— Não tenho como discordar. Afinal, o Xogum de hoje é você, e não o mestre Kuáng-Qíng.

O Xogum o encarou como quem encara um desrespeito.

— Tu podes ser meu convidado, mas não confundas minhas obrigações com meus gostos. Aqui, és tolerado. Mede tuas palavras, ou poderás ficar sem tua boca.

Não… ele precisa de mim tanto quanto eu dele.

— Não foi minha intenção faltar-lhe com respeito, Mestre Âmbar. Foi uma observação infeliz. — Nagato ergueu as mãos, nitidamente contendo o riso.

— Se puderes manter-te calado, serás de grande ajuda. Amateri não será a única a questionar-me sobre tua libertação.

— Assim lhe retribuirei o favor de minha liberdade?

— Não… mas já será um bom início.

— Início de quê? Deve haver algo muito sinistro acontecendo para me libertar… e tentar me dissuadir.

— Não estive a dissuadir-te, Nagato. Tudo o que conversamos é a verdade que tu não queres enxergar. Espero que a enxergues até o fim dessa jornada… para teu próprio bem.

— E que jornada seria essa?

— Explicarei quando todos estiverem reunidos.

— Todos quem?

— Todos aqueles que te acompanharão.

Nagato riu alto.

— Deixe-me adivinhar… a Dama Solar será uma dessas companhias? — A risada debochada continuou. — Impossível isso dar certo.

— Estou começando a achar que tens razão. Ainda assim, é a melhor alternativa que possuo. — Umarekawa começou a caminhar. — Acompanha-me.

Nagato seguiu o Xogum em direção ao palácio.

— Para onde será essa jornada? Onde fica esse tal Sōzō Sekai que mencionou na prisão?

— Terás essa e outras respostas mais tarde. Agora quero que me digas: quando estavas preso, no que mais pensavas?

Nagato parou de caminhar. O Xogum também parou e o encarou.

— Então esse será seu jogo? Apelará para a minha humanidade? Não dará certo, Dragão Âmbar.

— Responde-me… por que temes tanto esse teu lado? Por que temes encarar o amor que recebeste?

Nagato refletiu por alguns instantes.

A noite já cobria todo o jardim. A luz das luminárias acesas tremulava sobre a relva, e as estrelas surgiam no alto, frias e distantes.

— Porque ele não existe mais… Ninguém neste plano sabe disso melhor que você, já que compartilha a essência do criador.

— O que sei é que te agarras a uma realidade que ficou para trás. Isso é o que não existe mais. A guerra acabou. Teu mestre foi derrotado. Tua família foi vingada. Mas o amor que cultivaram por ti… esse é imortal.

A face de Nagato enrijeceu.

— Minha família nunca será completamente vingada até que eu… até que eu…

— Tua família foi vingada por mim, Nagato. Tu foste manipulado durante toda a tua vida. Primeiro por teu pai, depois por meu irmão. Foi ele quem matou tua família para que tu te perdesses e te tornasses a arma dele.

— Mentira! Quem os matou foram seus homens!

O Xogum deu alguns passos em direção a Nagato. Seus olhos brilharam como fogo dourado, e uma força invisível agitou-lhe as vestes.

— Tens certeza… Espada da Morte?

A voz veio retumbante, ecoando na consciência de Nagato como um feitiço.

Maldição.

Uma tontura o tomou de assalto.

— O que… o que você está fazendo? Seu… seu maldito! — Nagato deu alguns passos para trás tentando desviar o olhar.

Nagato caiu de joelhos e levou a mão ao rosto. Seus olhos brilharam como os do Xogum, e a noite do jardim se desfez diante dele.

Sua consciência e sua visão se misturaram num emaranhado de manchas. A lembrança surgiu como uma pintura borrada, distante e cruel.

…

Espectros vestidos de âmbar invadiram sua casa, isolada nas montanhas.

Hikari não fora moldado para o combate. Não houve resistência.

Arrastaram seu marido para fora pelos cabelos longos. Uma coronhada o fez tombar sem sentidos.

Depois vieram com ela.

A pequena Akiko.

Ajoelharam-na diante de um cavaleiro que não entrara com os outros. Ele permaneceu afastado, imóvel, coberto pelas cores do Xogunato Âmbar.

Então ergueu a mão.

E deu a ordem.

Cortaram a garganta da menina como se abatessem um animal de fazenda.

Lágrimas escorreram pelo rosto de Nagato no mundo real.

— Não te lembras de quem te enviou para longe? — A voz do Xogum era grave e sobrenatural, atravessando sua alma. — Quem sabia onde ficava tua casa? Quem sabia que ela estaria sem tua proteção?

Nagato fitou a face do cavaleiro vestido de âmbar.

Mesmo através do borrão da memória, não era Umarekawa.

Era seu antigo mestre.

Kuáng-Qíng.

O Imperador Esmeralda.

O mesmo que o havia enviado em missão naquela noite fatídica.

— Não… — os gritos atraíram os olhares dos servos no jardim. — Não!

No jardim do Palácio Âmbar, Nagato se contraía em dor, ajoelhado diante do Xogum.

— Sim, Nagato. Foi teu mestre quem os matou. Depois, atraiu-te para a cólera. Para o pacto das sombras.

— Não! — Ele gritava compulsivamente, preso à visão.

Então viu Kuáng-Qíng sentado no trono esmeralda, a face semelhante à de Umarekawa, mas carregada de malícia.

Viu a si mesmo subindo os degraus do trono, arrastando-se, implorando pelo poder necessário para vingar seus familiares.

— Achas que deste tua alma ao Oni Sombrio? Tolo! — gritou o Xogum. — Tua alma não é tua para dar!

A visão continuou, e Nagato vislumbrou o momento em que Kuáng-Qíng lhe concedeu o poder das sombras, alimentado pela angústia da perda.

— Tu… não… és… a sombra!

O brado do Xogum reverberou por todo o jardim.

…

Então ele libertou Nagato do feitiço.

O Espada da Morte caiu de lado na grama.

Hikari… Akiko… ainda há lugar para mim junto de vocês?

Umarekawa também titubeou, mas se recompôs rapidamente. Fez um gesto para que alguns servos se aproximassem.

Depois deu alguns passos e se agachou bem próximo de Nagato.

Ele estava caído com os olhos arregalados e tremendo.

O Xogum pousou a mão sobre seus cabelos negros desgrenhados e fez uma leve carícia.

— Respire, Nagato Kurokage… respire… você ainda tem um longo caminho pela frente.

Existe redenção para tudo o que fiz?

Os servos se aproximaram correndo.

— Levem-no para os aposentos dos convidados… ele precisa descansar.