LEGADO DO XOGUM
6 CAPÍTULO 5 - ENCONTRO AMIGÁVEL, O IRMÃOZÃO

A Cidade Âmbar, como também era conhecida Koharamiyako, estava lotada. O Festival da Terra acontecia no dia do equinócio de outono e trazia gente de todos os cantos do Xogunato.
Bandeirolas vermelhas e amarelas enfeitavam as ruas, o cheiro das yatais, barraquinhas de comida, envolvia o ar, e as vozes das pessoas se misturavam em um uníssono irregular sobre a música que tocava ao fundo.
Uma figura enorme caminhava pela rua — o Irmãozão. Em seu ombro se equilibrava um guaxinim com listras azuis.
As cidades têm sua beleza, mas nada se compara à natureza.
Ele farejou o ar.
— O que acha de experimentar um okonomiyaki? — falou o gigante, voz profunda e ressonante que destoava da expressão risonha.
O guaxinim soltou um assobio trêmulo.
— É uma panqueca recheada, você vai gostar.
Dessa vez o assobio do guaxinim foi limpo.
Já na borda da enorme praça principal, onde o festival acontecia, o monge se aproximou de uma das yatais.
— Com licença, amigo, me prepare um okonomiyaki, por favor.
O homem baixinho de olhos puxados fitou de cima a baixo a montanha de músculos.
— De frango ou de vaca?
O gigante refletiu por alguns segundos.
— Qual você prefere? — cutucou com o indicador o pescoço do guaxinim, como fazendo um carinho.
O guaxinim deslizou do ombro para o antebraço, enrolando a cauda no gigante, depois respirou o ar com a cabeça levemente erguida e as patas da frente segurando uma na outra, assobiou uma vez trêmula e outra limpa.
— Um de frango, por favor, e mais três de salada… melhor, me faça quatro de salada. — O sorriso de satisfação acompanhava os olhos cheios de fome.
O vendedor arqueou a sobrancelha.
— É para já! — começou a preparar a massa. — Você não é dessas bandas, né? Pelas roupas… me parece alguém do Norte Saphira.
O monge murmurou antes de responder.
— Você é muito perspicaz, meu amigo. Sou do Reinado, sim.
— Veio apreciar o festival?
O Irmãozão titubeou antes de responder.
— Na verdade não… vim encontrar alguém.
— E o Sr. Guaxinim? Veio no Reinado também? — soltou uma risada forçada.
Jun-Hyung riu alto com a mão na barriga.
— Não, ele já vive por aqui. Na verdade acabei de conhecê-lo, assim como você.
O comerciante coçou a cabeça estranhando a situação.
— Por curiosidade, mestre, você fala a língua dos animais? — falou enquanto jogava os ingredientes na chapa.
Existe uma língua dos animais? Que gozado, nunca ouvi falar.
— Falar não é bem a palavra, eu diria que os entendo. — os olhos semi-cerraram voltados para o comerciante.
Agora ele deve estar pensando que sou louco. — intimamente, ele se divertia com a situação.
— Vai querer algo para beber? Tenho Amazake batizado se quiser?
Jun colocou a mão no queixo.
— Pode ser sem o batismo?
— Claro!
Enquanto conversavam sobre a bebida, um rufar de tambores irrompeu, logo depois um gongo soou alto.
A praça ficava na frente do Palácio Âmbar, e toda a magnificência dourada de suas torres curvilíneas resplandecia naquele entardecer. O sol laranjado lançava seus raios sobre as árvores-do-céu espalhadas pela praça e jardins de flores de crisântemos coloridos.
Um corre-corre de pessoas começou em direção ao palco redondo de pedra, centralizado na praça.
— Já vai começar a apresentação das crianças — disse o comerciante, animado. — Meu sobrinho será um dos participantes… Aqui, o de frango.
Jun-Hyung apenas assentiu e pegou o okonomiyaki oferecido pelo vendedor.
— Hoje será um espetáculo sobre a Última Guerra.
— Sim… — murmurou Jun-Hyung, quase sem dar atenção à movimentação ao redor.
Ele se agachou e colocou o guaxinim no chão. Quando partiu o okonomiyaki para entregar um pedaço ao pequenino, um gato de rua veio até ele, desesperado, miando insistentemente. Depois, outro também se aproximou.
Jun riu baixo.
— Parece que você vai ter que dividir o rango, pequeno amiguinho… — o guaxinim chiou trêmulo — não, não, sem reclamar, vai dividir sim!
Ele partiu a panqueca em três e deu um pedaço para cada animal. Depois, acariciou os gatos com uma voz fina, quase infantil:
— Tadinhos dos gatinhos… Tomem um okonomiyazinho para encher a pança de vocês… Um para você, e outro para você.
Os gatos roçavam em suas pernas enquanto ele ria e os acariciava.
O comerciante deu a volta na barraquinha para entregar os outros okonomiyaki e o amazake ao freguês. Só então reparou nos pés descalços e imundos de Jun-Hyung sobre a calçada de pedra.
Fitou melhor o gigante.
A roupa rasgada. A pele bronzeada. Os pés escurecidos pela sujeira.
Pés de mendigo, pensou.
Jun pegou a cumbuca de panquecas da mão do comerciante boquiaberto com absoluta naturalidade e deu um gole no amazake.
— Que delícia, meu amigo! Dá para sentir o gosto do koji temperando o arroz. — Ele uniu as pontas dos dedos e levou-as à boca, satisfeito, a barba ainda molhada de amazake.
— S-são dez yuienes — hesitou o comerciante.
Jun dava outra golada no amazake quando ouviu a cobrança. Não se conteve. Engasgou com a bebida e espirrou, fazendo amazake voar para todos os lados, inclusive sobre o avental do vendedor.
Eu esqueci do tal dinheiro. E agora?
— Me perdoe, meu amigo. E-eu… já vou lhe pagar. Deixe-me só terminar de comer…
O vendedor colocou as mãos na cintura. Não havia algibeira visível, nem bolsos — mas o tamanho do homem intimidava.
— Não vai me dar o calote, né?
— Não! Claro que não! Jamais! Isso é contra minha índole. — respondeu com a boca cheia.
— Como é mesmo seu nome?
— Jun… — engoliu, auxiliado por um gole de amazake. — Jun-Hyung.
O vendedor estreitou os olhos.
— Jun-Hyung? Você tá de brincadeira comigo? Jun-Hyung tem oitenta anos — e além disso é o homenageado das celebrações de hoje.
— É, mas sou eu mesmo. — ainda com a boca cheia.
Será que um truque me tira dessa enrascada?
Jun bateu um pé no chão. Um pequeno pilar de pedra emergiu da calçada até meia altura. Ele pousou a cumbuca e a caneca sobre ele com toda a naturalidade, depois fez menção de sentar — e uma segunda base subiu devagar, servindo de banco.
— Pelo macaco dourado! Você é mesmo o Mestre Tsukai da Terra? O Irmãozão?!
— Ei, fale baixo, meu amigo — Jun abaixou a mão em gesto discreto. — Prefiro manter a discrição.
O cozinheiro se aproximou, os olhos arregalados.
— Jun-Hyung provando meu okonomiyaki… que dia! Que dia maravilhoso! Tsu não vai acreditar.
— Sente aí comigo, meu amigo — Jun pisou no chão novamente e outro banco cresceu da calçada.
O cozinheiro, que agora parecia satisfeito, sentou-se.
Jun comia apressado, esboçando um sorriso sem graça.
Será que ele ainda vai me cobrar? O mestre me deserdaria se me visse agora.
Enquanto isso, a praça foi se fechando — a multidão tomou cada canto e a yatai ficou na borda daquela maré de gente. O burburinho crescia em direção ao palco, onde poesias eram declamadas, distantes demais para Jun distinguir com clareza.
Um cavaleiro parou o cavalo a poucos metros da barraquinha, bem em frente ao banco de pedra. O guaxinim e os gatos se dispersaram num susto.
Ele segurou o cavalo pela rédea e se aproximou da yatai — não em direção a ela, mas buscando uma brecha para atravessar a praça, o que seria quase impossível com o animal.
Ao passar por ali, o cavalo foi de boca direto na base de pedra e abocanhou o último okonomiyaki da cumbuca de Jun.
O cozinheiro deu um salto. Jun ficou olhando pasmo para o cavalo mastigando.
O cavaleiro puxou a rédea e gritou um comando — mas não foi suficiente. A panqueca de salada já havia sido engolida.
— Lamentável… — murmurou o cavaleiro. — Me perdoem, senhores, meu cavalo não—
A gargalhada do gigante interrompeu o pedido de desculpas.
O cozinheiro ficou sem palavras. Era nítido que estava diante de um nobre — o homem era alto e esbelto, a seda do quimono verde-clara, quase branca, com mínimos detalhes pretos. O cabelo longo preso em coque. Mas o que mais chamava atenção era a katana comprida na cintura.
— Essa cidade está cheia de esfomeados! Coitado do cavalinho. — Levantou-se e fez um carinho no animal.
O nobre ficou perplexo, olhando para aquele homem que mais parecia uma montanha.
— Ele não come desde o amanhecer, estamos em galope por semanas. — Sorriu para Jun e acariciou o cavalo, contagiado pelo sorriso do gigante.
O sorriso do gigante permaneceu, mas seus olhos estudaram melhor o recém-chegado.
Esse homem não é comum… um tsukai?
O cavalo esfregava a cabeça nas mãos de Jun.
— Ho! Vejo que é um animal feliz. Parabéns, meu nobre. Qual é o nome dele?
O homem arqueou a sobrancelha e fitou os bancos de pedra antinaturais.
— Eu me chamo Takedo-Khan, e o cavalo se chama Kaminari. E o senhor? — serenidade e tranquilidade marcavam sua voz.
— Sou apenas um monge errante. — piscou para o cozinheiro.
Takedo passou a mão na barba e encarou os pés descalços de Jun.
— O que posso fazer para recompensar o furto de Kaminari? Senhor monge errante? — sorriu de canto.
Ó mestre, onde o senhor estiver, me perdoe.
Jun pigarreou.
— Quitar meu débito com o senhor… — gesticulou em direção à yatai.
— Tori-Chi — o cozinheiro se adiantou, orgulhoso. — Todos me chamam de Tori-Chi.
— Isso! Quitar meu débito com Tori-Chi.
— Mas isso não será o suficiente para mim… Tendo em vista que não tenho lugar nenhum para ir, o que acha de me fazer companhia em mais uma rodada de okonomiyakis? — Takedo já amarrava as rédeas do cavalo na árvore que sombreava a barraca.
Ele me percebeu? Deve ter sido os bancos…
— Que ideia maravilhosa! — pigarreou, contendo a alegria. — Mas o senhor vai pagar, né? — falou baixo, com o dorso da mão ao lado da boca.
— Claro. Acho que sua companhia vale o investimento. — disse já se sentando no assento antes ocupado por Tori-Chi.
Acho que percebeu sim… que figura intrigante.
— Então me prepare mais três de salada e um amazake. — sorriu largamente para o cozinheiro.
— Eu vou querer dois de frango e um amazake também.
— Batizado?
Takedo passou a mão na barba, refletindo. Depois sorriu.
— Pode ser… batizado.
A chapa fumaçou e o perfume da carne tomou o ar mais uma vez. Tori-Chi foi rápido em servir o amazake enquanto Jun e Takedo se acomodavam de frente para a multidão.
No palco ao longe, silhuetas enfeitadas dançavam e o som fraco do shamisen chegava até eles misturado ao burburinho da praça.
— Então, senhor Takedo, é nobre de qual região?
— Sua percepção é notável, monge errante. Mas prefiro me abrir com quem conheço — por que não começa me dizendo seu nome?
É justo. Não vai dar para esconder muito desse sujeito.
— Jun-Hyung. O Irmãozão. — estendeu a mão.
Takedo abriu um sorriso largo. O aperto foi contido e respeitoso, com Takedo curvando-se levemente.
— Jun-Hyung, o Mestre Tsukai da Terra?
— O próprio! — um sorriso genuíno.
— Ué? Por que não está no palco, ou nos bastidores? Não é o senhor o homenageado de hoje?
Ele nem duvidou…
— É, mas não gosto desse tipo de coisa. Homenagens fazem parecer que morri — ou que estou para morrer.
Takedo riu.
— Concordo. Mas essas homenagens sempre vêm com louros. — fez o gesto de dinheiro.
Tá me chamando de pobre? — riu para si.
— É? Eu nem sabia… mas ainda assim, prefiro ficar do jeito que estou. Como diria o mestre Joto: "Quem nunca teve sobra aprende a repartir migalhas com dignidade."
— Compreensível… — murmurou. — Já meu pai dizia: "O homem que nada guarda para si acaba servindo a própria carne aos famintos." Uma fala áspera, é verdade, mas ele era daimyo, e firme como só um pai pode ser.
— Reconheço a sabedoria nisso…
— Meu pai era fissurado na família, sempre muito protetivo. Podemos dizer que seus ditados eram mais conservadores.
— É raro ver alguém falar assim de um pai severo — cheio de orgulho nos olhos, perdeu-o há muito tempo, né?
— Mais uma vez sua perspicácia me assusta, senhor Jun-Hyung. Ele era severíssimo… cumpriu sua missão em Kyūsekai com maestria.
— Então você é um daimyo?
— Não. Para meu alívio, meu irmão herdou o título. Daimyo de Uul-Galyn.
— Então minha perspicácia não é tão boa assim. Eu achei que o senhor era do Império Esmeralda.
— Impressionante! — Takedo balançou a cabeça. — Como chegou a essa conclusão?
— Não sei… acho que é essa cara bonita. Me parece do povo de lá.
Takedo riu alto, equilibrando a caneca para não derramar a bebida.
— A verdade é um pouco mais sombria, mestre Jun-Hyung.
Jun cerrou os olhos para o novo amigo.
— Se não quiser contar, não tem problema.
— Em outro momento, talvez…
Tori-Chi depositou as cumbucas sobre a mesa de pedra.
— Obrigado, Tori-Chi! — os olhos de Jun brilharam ao ver a comida.
— Eu que agradeço, senhores… Posso lhes pedir um favor?
Takedo apenas o olhou. O outro respondeu com a boca já cheia:
— Mas é claro!
— Preciso ir ali rapidinho. Vocês podem ficar de olho na barraca?
— Tem certeza? Estou com uma fome de urso saído da caverna!
Tori-Chi sorriu, meio desconcertado.
— Os senhores não vão me aprontar nada — e ninguém vai querer aprontar com vocês por aqui. É rapidinho! — pendurou o avental na barraca e sumiu no meio da multidão.
Jun confirmou com um gesto de joia.
Takedo segurou a panqueca com cuidado antes de dar a primeira mordida.
— Se o senhor não veio para a homenagem, então para que veio a Koharamiyako? Pelo que sei, o senhor é do Reinado do Norte.
Jun o fitou nos olhos.
Agora não posso vacilar.
— Vim visitar um velho amigo.
— Compreensível…
— E você? — perguntou o gigante.
Takedo fez uma pausa mastigando e devolveu o olhar mais incisivo.
— Vim visitar o nosso Xogum… ossos do ofício.
— Ué, mas você não é daimyo. Ainda tem que lidar com essa chateação?
— De fato, não sou o daimyo, mas parece que o Xogum ainda precisa da minha katana. — deu um tapa na bainha da espada apoiada no banco.
Falou assim? Como se não fosse nada…
— Engraçado você dizer isso… a pessoa que vim visitar é Umarekawa. — a voz grave veio ainda mais carregada de força.
— Então, mestre Jun-Hyung, talvez o destino queira nos dizer algo…
Jun-Hyung sorriu para Takedo-Khan antes de responder.
— É… talvez…
Fale com o autor