LEGADO DO XOGUM

4 CAPÍTULO 3 - AMATERI YǑNGSHÌ-NǙ, A DAMA SOLAR


Era um dia movimentado na Taverna Cururu. Todo tipo de gente se encontrava ali — de comerciantes bem-sucedidos e bêbados desengonçados a heróis renomados e mercenários decadentes.

A jogatina acontecia em diversos níveis e fuleragens: homens trocavam socos por trocados, cartas eram sacadas em disputa de pequenas fortunas e as vozes exaltadas se misturavam num uníssono caótico.

O coelhino entrou pela grande porta vai-e-vem.

O cheiro forte de bebida destilada invadiu sua narina rosa.

Detesto lugares cheios. Como uma dama veio parar em um lugar desses?

Seu único olho varreu o ambiente; a estante de garrafas coloridas, as luminárias azuis dependuradas, e as pinturas nas paredes retratando lagoas vibrantes. Depois, as mesas repletas de pessoas risonhas e outras mal-encaradas. Por fim, encarou o taverneiro: um saporino robusto, cheio de bolhas purulentas, mais sapo do que homem.

Ao se aproximar, ouviu a voz densa dele reverberar pelo balcão:

— Já chega, Yudu. Diga para os meninos pararem de brigar… ruebet … ou eu mesmo vou acabar com essa farra. — o coaxo parecia um soluço.

Yudu, um pequeno saporino azul de bochechas amarelas, respondeu na hora:

— Deixe comigo, chefe! — e saiu apressado em direção às contendas mais barulhentas.

— Com licença, senhor — disse o coelhino, acomodando-se em um dos bancos do balcão. — O senhor pode me servir uma batida de rabanetes?

— Raba… ruebet … netes? — uma gargalhada rouca seguiu a pergunta.

O coelhino torceu o nariz ao deboche.

— Se não for um incômodo para a altivez da Taverna Cururu — disse, esboçando uma carranca.

— De jeito nenhum, meu jovem! — risonho, o taverneiro virou-se para uma janelinha atrás do balcão. — Uma batida de rabanetes… ruebet … para já!

Depois voltou-se ao cliente:

— Só achei engraçado… ruebet … é que você não parece sujeito de batidas. Com esse tapa-olho e essa carranca fechada, jurei que era um mercenário… ruebet … durão.

Saporinos são os piores.

— Longe disso — a voz era educada e calma, mas o sorriso, forçado. — Estou mais para um mensageiro durão.

O taverneiro riu coaxando.

— Foi uma mensagem… ruebet … que trouxe tu por esses rincões?

— Sim. Estou procurando alguém… — sua fala foi cortada por um grito.

— Batida de rabanetes! Tá na mão! — berrou um serviçal lá da cozinha, empurrando a caneca pela janelinha do balcão.

A mão verde do taverneiro apanhou a bebida e a depositou diante do cliente.

— Voilà! Cinco yuienes.

O cliente puxou a algibeira e espalhou as moedas sobre o balcão.

— Como estava dizendo, estou procurando alguém—

— Meu jovem, pela sua cara… ruebet … tenho até medo de imaginar que tipo de mensagem você pretende dar. — inibiu o coaxo com uma pausa. — Eu não conheço esse tal de alguém.

O tom das palavras carregavam malícia irônica.

O coelhino passou a mão pela orelha branca — um tique de quando os nervos lhe subiam. Respirou fundo, tirou mais algumas moedas da algibeira e as empilhou sobre as outras.

— É uma mensagem importante. E nada violenta.

O saporino olhou para as moedas, arqueou uma sobrancelha, depois fitou a face marcada do coelhino marrom, e falou sem pressa:

— Se é uma mensagem importante… ruebet … então deve ter seu preço.

Malditos sejam todos os saporinos e suas lagoas fedorentas!

Com raiva contida, jogou mais algumas moedas sobre o balcão.

O taverneiro estendeu a mão para recolhê-las — mas o coelhino marrom foi rápido e segurou o pulso verde. Os dois se encararam de olhos entreabertos.

— Estou procurando Amateri Yǒngshì-Nǚ — falou nitidamente enfezado.

— Zut vixe! Ruebet … não conheço ninguém com esse nome.

— Talvez você a conheça como a Dama Solar.

— Há! A Dama? — o saporino abriu um sorriso largo. — Hoje é seu dia de sorte… ruebet … ou de azar.

O coelhino soltou o pulso. O taverneiro recolheu as moedas e as enfiou no bolso do avental sujo.

— Onde posso encontrá-la?

A mão pegajosa do taverneiro pousou no ombro peludo do coelhino e o virou na direção certa. Um dedo enrugado apontou para o canto esquerdo da entrada.

— Tá vendo aquele furdunço? Ela tá ali no meio… ruebet … disputando cambão.

— Cambão?

— É. Queda de braço. Tá vendo aquela moreninha de olhos puxados?

— A que está agarrada com a loira?

— Ela mesma! Ruebet … é a sua dama. — gargalhou, largando o ombro do coelhino.

Tá mais para morenona…

— Você me arrancou todas essas moedas para me apontar alguém a dez metros de distância? — quase um sussurro, quase uma ameaça.

— Ora, ora… é assim que se faz nesta lagoa, senhor coelhinho. — engasgou, segurando o coaxo. — Vou preparar uma salada de cenouras para compensar. — deu uma piscadela forçada ao cliente.

Será que ele derrete com sal?

— Pode ser…

O taverneiro balançou a cabeça em afirmação, sorriso no rosto.

Apanhou a caneca que estava sobre o balcão e deu um gole, já caminhando em direção a Amateri.

O andar do coelhinho era leve, embora sua aparência e estatura imponentes arrancassem olhares.

Ao se aproximar da contenda, reparou que Amateri não estava apenas agarrada com uma mulher loira, mas elas pareciam um casal apaixonado e se apalpavam e se beijavam sem pudor na frente de todos.

Quanta obscenidade — pensou enquanto negava com a cabeça.

Ela estava sentada e se despojava com os braços abertos no banco largo de encosto acolchoado. Quando o coelhino se aproximou, ela levantou o olhar devagar até ele.

Seu olhar era dourado, de pupila vertical. Suas longas pernas cruzadas eram sinuosas e cobertas de pelos finos amarelados.

O coelhino teve de se segurar para não encará-las.

— Amateri Yǒngshì-Nǚ? — disse, interrompendo a algazarra do grupo.

Todos da roda se calaram e voltaram-se para ele. Não houve resposta — apenas uma encarada longa e um sorriso de canto.

— A senhora é Amateri Yǒngshì-Nǚ? — insistiu.

As gargalhadas irromperam de todos, menos dela, que não tirava os olhos dele.

— Quem é você, bolinha de pelos? — perguntou a atraente mulher loira, segurando o riso.

O mensageiro pousou o olhar nela por um segundo e voltou-se para Amateri:

— Me chamo Usagi-Senshi. Tenho uma mensagem do Xogum Âmbar.

O sorriso de canto morreu.

— Suas roupas não se parecem nada com as dos empregados do Xogunato. É bom não falar besteiras por aqui, Usagi.

Deu uma bicada na batida de rabanetes e deslizou os dedos pela orelha branca.

— Não sou um empregado comum.

O grupo explodiu — caçoando, imitando Usagi e rindo alto. Menos ela.

A orelha branca caída pela metade tremeu de raiva contida.

Amateri estendeu o braço, indicando o banco da frente. Na mesma hora, todos se calaram. Um homem negro e robusto que estava sentado levantou-se em silêncio com um sorriso largo estampado.

— Isso vai ser interessante! — murmurou a loira. — Sente-se.

Só me faltava essa…

Usagi pousou a caneca sobre a mesa, retirou a espada gigante das costas e a apoiou no banco. O grupo murmurava sarros sobre o coelhino e sua letalidade enquanto ele se sentava.

Amateri o acompanhou com o olhar.

Quando ficaram frente a frente, ela virou uma caneca de bebida de uma só vez e bateu o cotovelo sobre a mesa — punho em riste. A franja dourada escorreu de sua testa e ela sorriu, mostrando suas presas afiadas.

O coelhino corou ao sentir o apelo atrativo da adversária.

Cambão com a Dama Solar… a que ponto eu cheguei…

Ele se posturou e suas palmas se encontraram. A loira baixinha saltou do banco e segurou os punhos dos competidores.

— Senhores… trinta segundos… façam suas apostas.

O furdunço se intensificou com a gritaria. Mais gente se aglomerava em volta da mesa, e a loira gargalhava com a situação.

Os olhos de Usagi e Amateri se encaravam, intensos. O braço do coelhino era evidentemente maior — mas o dela era definido como um mapa de músculos.

— É agora! — berrou a baixinha. — Sem choro e sem muleta! Cinco… quatro… três… dois… um! — Ela largou os punhos e saltou para trás.

A disputa nem sequer chegou a acontecer. Amateri não apenas venceu — bateu o braço de Usagi na mesa com tanta força que o arremessou no chão, derrubando toda a bebida da mesa em cima dele.

Todos em volta fizeram zuada enquanto Usagi se recuperava, encharcado. O coelhino viu as pernas e os pés descalços de Amateri se levantarem e passarem por ele.

— Venha comigo — falou a leonina, a voz como uma lâmina afiada.

Ele apanhou a espada pela bainha e lançou um olhar ameaçador ao grupo — mas aquilo só serviu para que rissem mais. A loira mal se aguentava em pé.

— Não deu nem graça! — ela debochava. — Tchau, bolinha de pelos…

Usagi seguiu Amateri pela taverna, ainda se limpando, até saírem por uma porta aos fundos.

A saída dava para um pequeno deck sobre a Lagoa Coaxante. Mesmo desconfortável, Usagi não deixou de apreciar a beleza — o azul vivo da água, as vitórias-régias enormes cobrindo a superfície toda salpicada de flores rosas.

O barulho da mata e dos insetos inundou o silêncio que se fez entre ele e Amateri.

De costas para o coelhino, tanto seu cabelo dourado, longo e liso, quanto seu vestido vermelho fendado dançavam com a força do vento. De sua anca esbelta não saía rabo — ela era mais mulher do que leoa.

Que mulher… — pensou, limpando o líquido dos olhos e das orelhas.

— O que o Xogum quer comigo? — falou sem olhar para o mensageiro, levando um cigarro de palha à boca.

Usagi sacudiu-se para expulsar o último molhado pegajoso de seus pelos, depois pegou um papiro de seus pertences e estendeu para ela.

— As palavras dele não são para meus olhos — pontuou.

Ela estalou as garras e uma pequena chama se fez para acender o cigarro. O cheiro doce de cravo e madeira perfumou o ar.

— Pois agora são — disse de soslaio. — Leia para mim.

— O Xogum foi claro quanto a isso, a mensagem é apenas para você, a Dam—

— Não me chame desse nome. — cortou a leonina. — Quer discutir comigo, coelho-homem? Leia logo essa mensagem.

É melhor não…

Usagi engoliu seco e abriu o papiro.

— Teri-san… ouso chamar-te de minha filha, pois és aquela dentre os mortais a quem mais amei.

Sei que as diferenças entre nós fizeram-te afastar de mim e do Xogunato. Tenho pensado muito sobre as escolhas que fiz, em como fui cego ao machucar-te, em como errei ao exigir de ti aquilo que não se pode dar.

Nada do que eu diga pode alterar o que ficou no passado.

Mesmo assim, mais uma vez, peço-te perdão.

— Está perdoado, velho amarelo. — um murmúrio quase inaudível, soltando fumaça para cima.

Usagi parou a leitura.

— Perdão… a senhora falou algo?

— Não. Continue.

Mas que escrita rebuscada…

Ele pigarreou.

— Mesmo que não me dês o teu perdão, ou que não me aceites novamente em tua vida, preciso tratar contigo de um assunto irremediável.

Enfim, chegou o momento de meus irmãos e eu partirmos de Kyūsekai.

Por mais que eu desejasse apenas me despedir, caberá a ti e a párias poderosos a manutenção da paz neste mundo.

Lembras-te das histórias que eu te contava quando eras pequena? Do portão de fogo, do pequeno Ressan-Shinzen e seu jardim? Do mundo dos sonhos e do mundo das sombras?

Pois bem…

Finalmente é chegada a hora de abrir os portões de Sōzō Sekai.

Sōzō Sekai… a história do velho Rubri… é verdade? — Usagi parou a leitura, remoendo suas memórias.

— O que foi? Acabou?

— Não. Perdão… ainda tem mais um pedaço. — deu sequência na leitura. — Vem ver-me no festival do equinócio de outono.

Mais uma vez… Kyūsekai precisará de tua bravura… e de tua lança.

— Agora sim acabou. Mas tem um desenho aqui. — estendeu o papiro para a leonina.

Amateri não parecia mais tão altiva. Havia uma certa tristeza em seu semblante quando ela pegou o papiro.

— Obrigado, Usagi-Senshi. Você está dispensado. — soou como a ordem de um general.

Ele ficou paralisado, sem saber como se portar, e viu a leonina passar o dedo sobre o relevo da figura desenhada no papiro — um homem de cabelos longos, de manto amarelo com detalhes azuis, segurando uma criança leonina no colo. Ambos com sorrisos largos.

— Dispensado! — ela repetiu, com mais frieza.

Antes de se virar e ir embora, Usagi viu a lágrima solitária escorrer pelo rosto da Dama Solar.