LEGADO DO XOGUM
3 CAPÍTULO 2 - NAGATO KUROKAGE ESPADA DA MORTE

Quanto tempo faz? Quanto ainda terei que suportar?
Sua visão era um negrume absoluto. Uma máscara de mármore negro cobria toda sua face, sem fendas para os olhos, boca ou nariz. O ar que chegava pelos minúsculos furos da rocha mal bastava para mantê-lo vivo.
Tudo que lhe restava era dor, frio e pensamentos que o torturavam mais do que sua prisão.
Hikari…
Akiko…
Lágrimas escorriam pelo rosto sob a máscara. Suas memórias eram reviradas por pesadelos que vinham mesmo quando desperto:
O calor do fogo que consumia sua casa.
Seu esposo, enforcado em uma árvore retorcida.
Ajoelhado diante dele, Nagato segurava sua filha morta nos braços.
A tez gélida da pequena.
A angústia que transformou seu coração em sombras.
De repente o silêncio da prisão foi rompido:
— Nagato Kurokage, o Espada da Morte — a voz serena ecoou, descendo repetidas vezes até sumir no abismo abaixo do prisioneiro.
O rompimento fez as correntes que o mantinham suspenso tintilarem.
Fazia muito tempo desde a última vez que ouvira qualquer som que não o das correntes. Demorou para compreender que as palavras se dirigiam a ele.
Essa voz…
Depois ouviu passos se aproximando.
— Vendo-te agora, acorrentado e faminto, quase chego a duvidar do mal que causaste. Chegaria a desacreditar, se não tivesse visto teu mal com meus próprios olhos.
Nagato virou a cabeça um pouco de lado, tentando ouvir melhor.
É mais um delírio? Ou realmente tem alguém conversando?
— Conheço tua ruína. Sei como o fel maligno se alojou dentro de ti através da dor. Sei que isso não é culpa tua.
Ele tentou se mover, mas as correntes presas a seus pulsos e tornozelos mantinham seus membros abertos, esticados até o limite.
— Eu vejo aquilo que tentas esquecer. Tua casa em chamas, teu amor assassinado… a pequena Aki—
— Cale-se! — O rugido foi tão alto que as gotas d’água presas ao teto da caverna finalmente cederam.
A voz se calou por um momento, depois retomou:
— Meu silêncio não diminuirá tua dor, Espada da Morte.
Quem é esse maldito? Sua voz não me é estranha.
— Quem é você? — a voz abafada de Nagato carregava uma densidade sobrenatural.
— Sou aquele que aprisionou-te, e o único que pode libertá-lo.
Impossível… libertar-me?
A risada abafada do Espada da Morte irrompeu pela caverna. Quando cessou, ele falou:
— Então me mate! Essa é a única liberdade que almejo…
— Achas que morrer te levará para junto daqueles que amaste?
O semblante coberto de Nagato se fechou. Não houve resposta por parte dele.
— Não, Nagato. Se morreres hoje, irá para o limbo, onde Hikari e Akiko não estão. Nunca mais os verás. Sofrerá pela eternidade até que se esqueça de quem foi… e que já foi amado.
N-não…
— Cale a boca!
— Por que negas a realidade? — retrucou a voz.
— Você não me conhece! Cale-se!
— Filho de Jaggar-khan, O Indomável, e da doce Pansā-Hyou — a voz não se apressava, cada sílaba caía como pedra no silêncio. — Nasceste bastardo entre os Pantarinos do Sul de Moritoshi. Meio homem, meio pantera, tinhas metade de dois mundos, mas nenhum deles te aceitava como eras. Vieste ao mundo sem que tua mãe pudesse te ver crescer, e teu pai criou-te como cria-se uma arma: na dor, no sangue… e no esquecimento de ti mesmo.
A voz fez uma pausa.
Nagato não conseguia sequer pensar, estava perplexo. Nem mesmo seu esposo conheceu completamente seu passado.
— Ainda assim, tu sobrevivestes. Tornaste-te o maior dentre os guerreiros pantarinos, e na Floresta de Jade, puseste fim à vida infame de teu pai. Depois disso, escolheste o exílio.
As cenas narradas pela voz emergiam como fragmentos rasgados de um passado que ele julgava enterrado.
— Em teu exílio, tua sorte virou. Foi aqui, em Koharamiyako, em um dia chuvoso de inverno, que encontraste o verdadeiro amor—
— Chega… — sua voz soou cansada, carregada de dor. — Por que me torturas? Já não lhe basta o meu tormento?
— Não é meu intuito torturar-te. Quero mostrar-te quem realmente és.
— Eu não sou mais quem fui.
— Nenhum homem de hoje é o mesmo que foi ontem, Nagato. — A serenidade cadenciava as palavras — Mas a essência que carregamos não muda. E tu, não és o mal que causaste na última guerra. És aquele que matou o próprio pai para salvar inocentes. És o marido de Hikari… és o pai de Akiko.
— Não! Eu sou a vingança! Minha família não existe mais! Não tente embelezar minha ruína, visitante misterioso. Eu sei o que sou… eu sou a morte. E já tenho o que mereço.
— Achas que te prendi aqui para torturar-te? Para que reflitas sobre teus atos? Não me menospreze, Nagato Kurokage. Já não mostrei a ti do que sou capaz?
— Então me diga logo quem é você! — saiu como um rugido.
Um silêncio se fez entre os dois.
Nagato arfava em fúria contida. Não conseguia se lembrar de quem o tinha derrotado ou qual de seus inimigos o teria colocado naquela prisão.
— Antes de dizer-te quem sou, vou dizer-te o que quero de ti.
— O que um homem que sabe tanto pode querer de um prisioneiro moribundo?
— Quero a tua redenção.
Uma risada maldita nasceu de dentro da máscara de Nagato e foi crescendo de forma doentia.
— Redenção? — a risada ainda ecoava no abismo abaixo dele.
— Achas impossível?
— Se conhece tão bem aquilo que fui, deveria saber que o que fiz não tem perdão.
Nagato escutou passos, como se o dono da voz caminhasse em direção ao precipício que estendia o abismo sob seu corpo pendurado.
— Não aqui em Kyūsekai. Tua redenção pode estar em Sōzō Sekai.
Sōzō Sekai? Já ouvi isso antes?
— E por que alguém quereria a minha redenção, se eu mesmo não a quero?
— Porque a tua redenção pode definir a existência de toda Kyūsekai.
Isso não faz o menor sentido.
Uma risada contida irrompeu de Nagato.
— Onde está o sentido nisso? — a voz arrastada, carregada de desdém.
— Te direi quando nos encontrarmos novamente.
— E quando virá me visitar? — ainda desdenhando.
— Não virei a ti. Da próxima vez, serás tu que virás ao meu encontro. — fez uma pausa. — Daqui a uma lua, encontrar-me-ás nos jardins do Palácio Âmbar, quando a primeira sombra do crepúsculo cair sobre a tarde.
— Você só pode estar brincando. — riu baixo.
— Depois de tudo que falei, achas mesmo que sou alguém que brinca, Nagato?
— Tua tentativa de me torturar não é eficaz. Palavras não podem me machucar, muito menos me converter.
— Já foste convertido, Espada da Morte.
Quem é esse sujeito?
— É agora que vai me dizer quem é você?
Mal acabou de falar, o vento correu torto ao seu redor e uma presença se aproximou. A voz falou ao seu ouvido:
— Eu sou… seu libertador.
Uma revoada invadiu a caverna, balançando Nagato em suas correntes. Depois ouviu um estalo e a máscara que cobria seu rosto começou a rachar.
— Quem é você?! — gritou com os olhos arregalados.
Não houve resposta. Não havia mais ninguém ali além dele.
A luz entrava pelas fendas da pedra. Sua máscara negra finalmente se partiu, e os pedaços dela caíram no abismo.
O clarão que vinha pelo teto rachado da caverna o cegou por um momento. Quando conseguiu abrir os olhos, a primeira coisa que viu foi ela — sua espada profana, cravada na beira do precipício.
Que destino esse maldito mundo ainda guarda para mim?
Ele começou a rir compulsivamente e enquanto ria, uma sombra anti-natural começou a sair de sua bocarra negra e ir em direção à espada.
Aquela prisão já não era mais a sua morada.
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