LASIK

1 capítulo único


Notas iniciais
fala, galera! essa one-shot é a minha participação no dia New Adult, na semana de UAs do jilytober 2020. eu falo muito sobre OLHOS nessa história, então fica aí o aviso se você tem nervoso. espero que gostem!

um ano e meio antes

Lily destranca a porta do apartamento com um floreio discreto de varinha. James, que descobriu videogames dois meses depois que se mudou para o estúdio de Lily, está sentado no chão do espaço designado como sala, controle nas mãos e rosto próximo demais da TV.

— Cheguei. — Ela sente a necessidade de anunciar, porque James está focado no diálogo que seu personagem, um gigante de pele cinzenta e chifres, está travando com um outro personagem, humano, de pele marrom como a do próprio James. — Como foi o seu dia?

— Desbloqueei as especializações — ele diz, admirado, ajeitando os óculos no rosto e pausando o jogo. — E o seu?

Lily dá de ombros. Ela é apenas mais uma advogada júnior num escritório elitizado. A sorte dela é que esse escritório, em particular, tem todo um contingente de funcionários dedicados a lidar com clientes do mundo bruxo. Ela sabia que todas as suas experiências vivendo como trouxa iriam lhe servir de alguma coisa depois de sair de Hogwarts.

— Normal. — Ele se inclina para beijá-la e Lily sente o estresse do dia evaporar de seus ombros. Ela tem James a esperando quando volta pra casa, e isso é tudo que precisa.

Lily puxa as alças dos óculos dele quando se separam. Ela pega o objeto delicado entre as mãos, a única coisa que James possui que tem a aparência completamente trouxa. E é aí que ela percebe que não faz ideia de como instrumentos para correção de defeitos de visão funcionam no mundo bruxo.

seis meses antes

— Eu vim assim que consegui — Lily diz, completamente esbaforida, colocando a bolsa de ombro numa das cadeiras do quarto de James no St. Mungus. — O que aconteceu?

— Prongs perdeu os óculos e não viu o balaço — explica Sirius, de forma sucinta, fechando a HQ do Homem-Aranha (outro hábito trouxa que James adquiriu e transmitiu aos amigos) que estava lendo e levantando-se para receber Lily. — Deram uma poção pra ele dormir enquanto o inchaço diminui.

Lily olha para o noivo e seus olhos se enchem de lágrimas. Seu coração está disparando em seu peito desde que recebeu o aviso de que James tinha sofrido um acidente durante o treino de quadribol dos Chudley Cannons. Ela estava no meio de uma reunião quando uma das secretárias do escritório disse que havia um tal de Sirius Black berrando no telefone querendo falar com Lily. Só depois de findada sua apresentação e de respondidas todas as perguntas é que Lily conseguiu ouvir o recado de Sirius.

E deu graças a Merlin pela possibilidade de desaparatação.

— Ele vai ficar bem? — Lily pergunta, em voz frágil, ciente de que ferimentos na cabeça podem ser muito graves.

— Vai sim. — Assegura Sirius, depois de abraçar a amiga. — E não se preocupe, eu e Moony já estamos pesquisando feitiços para grudar os óculos permanentemente na cara do Prongs...

Lily ri, um som quebradiço, mas Sirius não a acompanha.

— Espera... Você tá falando sério?

— Só assim pro James ficar enxergando perfeitamente o tempo todo, Lils.

Ela enterra o rosto nas mãos.

dois meses antes

Se James se atrasar, justamente quando Lily pediu metade do dia de folga para acompanhá-lo como se ela fosse sua mãe e não sua futura esposa, ela vai quebrar o console dele em minúsculos pedacinhos. E nem vai fazer isso com a ajuda da varinha, porque seria fácil demais — não, ela vai ter o prazer de comprar um martelo, sentir a textura da madeira contra seus dedos, ouvir o barulho do metal contra o plástico...

Ah, James chegou. De olhos arregalados e cabelos mais bagunçados do que de costume, mas encontrou o consultório antes mesmo de Lily desistir de esperá-lo e começar a preencher a ficha de paciente dele com as informações que já tem.

Lily sorri e fica nas pontas dos pés para dar um selinho rápido em James. Ele permanece mudo, olhando para tudo ao redor dos dois com a admiração silenciosa de uma criança. Lily acha completamente adorável e estafante todas as vezes em que eles se veem até o pescoço em alguma situação mundanamente trouxa e James fica sem reação, procurando por Lily para guiá-lo pelas águas mais banais da vida adulta.

Ele já tem um aplicativo de entrega de comida no celular, pelo menos, e já sabe como utilizar o internet banking. Daqui a pouco já vai conseguir declarar o Imposto de Renda.

— Vai ficar tudo bem, amor — Lily assegura a James, apertando os dedos dele com os seus. — Preenche isso aqui.

Eles preenchem a ficha e uma das enfermeiras pede para que James tire os óculos e vire a cabeça para trás. Ele olha para Lily, procurando por confirmação, e ela acena com a cabeça. A enfermeira pinga um colírio amarelo nos olhos de James e assegura que a médica vai chamá-los em breve.

— Lil — ele a chama, com voz trêmula. — As luzes ficaram mais fortes?

— É o colírio. Dilata suas pupilas pra médica poder te examinar melhor.

— Ah.

James fica em silêncio, olhando para um ponto qualquer na parede. Lily tenta puxar assunto com ele, perguntando dos treinos, se ele falou com Sirius ou Remus hoje, sobre a transmissão do Twitch que estavam assistindo na noite anterior. As respostas de James são monossilábicas.

A enfermeira volta pouco tempo depois e os conduz para o interior do consultório, começando pelo escritório da oftalmologista, onde a mulher de meia-idade está sentada na frente de uma estante recheada de livros médicos. Dois porta-retratos com crianças sorridentes estão alocados ali também, juntamente com um computador e um modelo em plástico do olho humano.

Lily sempre teve a visão perfeita, mas acompanhou os avós algumas vezes em consultas ao oftalmologista quando era mais nova, então ela conhece a rotina. James senta-se primeiro num banquinho que é baixo demais para uma pessoa tão alta, a testa apoiando-se numa moldura de metal. A Dra. Abbott joga luzes de diferentes cores nos olhos dele, pedindo para que ele foque o olhar na ponta da orelha dela e não olhe diretamente para a fonte de luz. Em seguida, James é conduzido para fora do escritório, para uma outra área de exames, onde Lily não o segue. Ela permanece sentada em frente à mesa da médica, admirando os livros coloridos e os diversos diplomas e desenhos das estruturas que compõem os olhos espalhados pela parede.

James volta, estranhamente empolgado.

— A enfermeira colocou alguma coisa que ficou cutucando as minhas córneas — ele sussurra para Lily, olhos desfocados, mas brilhantes. — E eu não senti nada! Foi muito legal!

Lily ri enquanto James senta-se, sem os óculos, numa grande poltrona num dos cantos do escritório da Dra. Abbott. Ela pede para que ele leia sequências de letras e números de diferentes tamanhos, ajeitando lentes cá e lá. Quando termina, James senta-se ao lado de Lily, vestindo as armações redondas mais uma vez.

— Bom, Sr. Potter, tenho boas notícias — começa a médica, enquanto digita eficientemente no teclado de seu computador. — Seu grau está estável e sua retina tem uma ótima espessura para que possamos fazer a cirurgia de correção de miopia à laser.

— Que bom! — Exclama Lily, sorridente, voltando o rosto para James

Mas James está ocupado brincando com o modelo do olho humano na mesa da Dra. Abbott; ele parece estar se divertindo imensamente.

— Antes eu quero saber como é que essa cirurgia — ele fala a palavra como se estivesse se referindo a um basilisco pronto para atacar, e Lily faz uma careta em resposta — funciona.

A explicação dos detalhes do procedimento deixa Lily enjoada, mas James fascinado.

Ele topa.

o dia

Lily estala um beijo na bochecha de James conforme uma das enfermeiras vem buscá-lo na sala de espera. Ela relê a receita médica que a Dra. Abbott deu para os dois na consulta que tiveram mais cedo, recitando para si mesma as instruções sobre medicamentos e sensibilidade à luz. Os dois prepararam o pequeno estúdio antes de saírem para a clínica, cobrindo as janelas com as cortinas recém-compradas, os ingredientes para prepararem alguns dos pratos preferidos de James guardados nos pequenos armários.

(Lily tem ficado cada vez melhor em fazer comida indiana, especialmente quando ela e James estão precisando de um pouco de comfort food, mas mesmo assim não fica nem aos pés do tempero da Sra. Potter.)

(Os pais de James se mudaram para Tiruchirappalli quando se aposentaram e infelizmente Lily não pode mais experimentar a comida da sogra sempre que quiser.)

James segue a enfermeira e Lily consegue ouvir, mesmo à distância, que ele está enchendo-a de perguntas sobre como a máquina funciona e se ela já viu alguma coisa dando muito errada num desses procedimentos. Um arrepio percorre a espinha de Lily — ela não quer nem imaginar como seria ter que explicar para seus sogros puro-sangues se alguma coisa acontecer na cirurgia trouxa que James está fazendo.

Mas dá tudo certo e ele volta algum tempo depois, sendo conduzido de volta pela mesma enfermeira que o levou para dentro. Ele está com os olhos arregalados, piscando alucinadamente, e quando encontra Lily, James respira fundo.

— Lil — ele diz, num tom completamente deleitado — estou te vendo.

— Se certifique de que ele está usando os óculos escuros o tempo todo pelos primeiros dias — adverte a enfermeira, dando tapinhas nos ombros de James. — Porque ele parece que vai esquecer.

— Obrigada. Pode deixar que tirei uns dias de folga para cuidar dele.

— Ótimo! — A enfermeira sorri e confere a prancheta que carrega consigo. — Vemos vocês de novo no retorno, daqui a cinco dias. Se cuidem. — Antes de seguir para o próximo paciente, ela pausa e olha para os dois, para Lily encaixando os óculos de sol grandes e quadrados no rosto angular de James. — Vocês são um lindo casal. Ele tem sorte de ter alguém tão dedicada!

Lily sente as bochechas esquentarem.

um dia depois

James dopado de analgésicos é muito mais engraçado que James bêbado. Lily sente-se só um pouco culpada por estar filmando o noivo balbuciando palavras desconexas enquanto passa horas desacordado por efeito dos remédios que está tomando nos primeiros dias pós-cirurgia. É uma pena nem Sirius nem Remus terem celulares, porque aí ela não pode enviar os vídeos para eles ficarem zoando James por isso.

— Amor, talvez seja melhor fazer isso depois — ela sugere, gentilmente, quando James cai no sono pela segunda vez enquanto ele está ditando (e Lily escreve) uma carta para os pais, contando como foi a cirurgia. — Você não quer tomar banho, botar o pijama e ir dormir?

— Mmmmmm... — Ele responde, eloquentemente, cabeça afundada numa almofada no colo de Lily. — Mamãe pediu. Falar. ...mo foi.

Lily afunda a mão livre nos cabelos muito escuros e muito macios de James, massageando o couro cabeludo dele com as pontas dos dedos, num cafuné delicado. Ele amolece ainda mais.

— Eu sei, mas podemos esperar até amanhã, quando você estiver menos chapado.

— Não tô... — Ele pausa por umas quatro respirações. — ... chapado. Os remédios. Bzzzz...

Lily aperta os lábios um contra o outro, para não cair na gargalhada. Ela põe a pena de lado e continua a passar os dedos pelos cabelos dele, sentindo satisfação em ter os fios sedosos nas palmas de suas mãos, e no espaço entre os dedos. James dá um suspiro muito satisfeito, subitamente, e sua respiração fica mais calma, mais suave, e Lily sabe que ele caiu no sono.

Ela afasta alguns cachos do rosto dele e planta um beijo em sua testa. Ele dorme pacificamente e ela não tem alternativa senão admirá-lo.

vinte dias depois

— E o que está escrito aqui?

Sirius está segurando um Profeta Diário do lado oposto ao de James na sala do apartamento que divide com Remus, o dedo apontando para uma das manchetes. Lily e Remus se entreolham: tem meia-hora que Sirius está em diferentes cantos do apartamento desafiando James a ler textos de diferentes tamanhos.

É quase uma consulta oftalmológica.

— “Ministra Edkins criticada por fazer concessões a delegação de centauros” — lê James, sorrindo de lado, como se fosse subitamente superior por conseguir fazer uma coisa que todas as outras três pessoas no apartamento sempre conseguiram fazer. — Eu te disse, Pads. Tô vendo tudo perfeito.

— Depois deles mudarem o formato do seu olho? — Quer confirmar Sirius, olhos estreitando-se, sentando-se ao lado de James e analisando o rosto do amigo, de um lado para o outro, como se a cirurgia tivesse modificado o formato do crânio dele. — Sem magia?

— Sempre disse que medicina trouxa é avançada — apressa-se Lily. — Eles não têm feitiços para transformar animais em taças, mas conseguem fazer maravilhas com laser.

— Hmpf. — Sirius ainda parece desconfiado. — Então você não vai precisar mais de óculos?

— O meu... grau? — James procura por Lily para ter certeza de que está utilizando os termos corretos. Ela confirma. — Era muito alto. Daí, a médica disse que a miopia pode retornar... mas não forte como era. O que é bom, porque posso jogar quadribol sem ficar com medo dos óculos saírem voando e eu não conseguir capturar o pomo.

— Eu e Moony estávamos elaborando um feitiço para não deixar isso acontecer!

— E o máximo que conseguimos foi literalmente fundir a armação dos óculos ao boneco que testamos — ressalta Remus, em tom neutro, apontando para um manequim no canto do apartamento.

Um arrepio percorre a espinha de Lily e ela vai se sentar no colo de James, passando os braços pelo pescoço dele e apoiando a cabeça em seu ombro. Ela inspira fundo, sentindo o cheiro do creme de barbear e do desodorante dele, o calor do corpo dele irradiando para o dela, os braços dele abraçando-lhe a cintura.

— Que bom que não tivemos que testar esses experimentos, Sirius — diz Lily, aconchegando-se mais ainda no colo do noivo. — Se não eu ia ter que ficar testando contrafeitiços na sua cabeça.

dez meses depois

As arquibancadas vibram com o nome de James, que voa ao redor do campo com uma pequena bolinha dourada nas mãos, o vento rasgante bagunçando os cabelos dele, mas mesmo assim ele consegue encontrar o rosto de Lily no meio da multidão e sorri única e exclusivamente para ela. Borboletas estão esvoaçando pelo estômago de Lily, que não consegue parar de sorrir que nem uma idiota, as pessoas ao seu redor comemorando a vitória dos Chudley Cannons no campeonato britânico de quadribol.

Lily não sabe como, mas quando dá por si, está de pé na beirada do campo, os jogadores reserva dos Cannons amontoados ao seu redor, cantando e comemorando. Ninguém liga muito para a presença de Lily, já que outros namorados e namoradas, esposos e esposas, filhos e filhas, também se juntaram à comemoração que ocorre antes do time inteiro montar em suas vassouras para levantar a taça.

James desce da vassoura com um floreio, ainda segurando o pomo de ouro firmemente entre os dedos, e seu sorriso é tão brilhante que Lily não tem escolha senão sorrir de volta, o sangue subindo-lhe às bochechas sem motivo algum. Ele abre os braços e ela se joga na direção dele, sem se importar com as manchas de suor, lama e grama de seu uniforme.

Quando Lily beija James em parabenização por ter conduzido seu time à vitória, e ele diz que com certeza não estaria aqui sem ela e todo o apoio que ela lhe dá, Lily sabe que fez a escolha certa ao ter dado aquela chance a ele, tantos anos atrás, quando ainda estavam em Hogwarts. E sabe, ainda envolvida nesse abraço tão aconchegante, que James nunca se virá livre dela.

Notas finais
comentários me deixam ridiculamente feliz!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!