L heart S

1 Capítulo 1


L *heart* S

Lucas

Repassei, pela milésima vez, os cartões que eu havia recebido do meu irmão. Todos eram de Nova York, as fotos eram escuras, apenas iluminadas pelos vários quadradinhos brancos que eram as janelas em seus prédios. Eu olhava aqueles cartões enquanto fumava um cigarro que já estava minúsculo. Quando iria chegar minha vez? Quando eu poderia dizer um “foda-se” bem alto e vazar desse lugar? Infelizmente, tão cedo não seria. Apesar da minha vontade absurda de ir para Nova York e ganhar a vida fotografando as avenidas, os prédios e o turbilhão de taxis que ali tinha, havia minha mãe. Minha mãe, Olivia, é arquiteta, vive mais no computador do que come, dorme, respira e outros afins. Eu a amo, amo mais que tudo, ela é a razão por eu ainda tentar viver essa MINHA vida sem sentido. Eu já havia cogitado Nova York, somente eu e ela, mas havia o meu pai. Meu pai é advogado/faz-tudo para “homens poderosos” (termo esse que eu acho ridículo, mas não me recordo de nenhum melhor agora), meu pai tinha que viajar para onde eles quisessem a hora que eles quisessem, então quase nunca estava em casa. Meu pai acredita na teoria de que com seu trabalho ele colhera muitos frutos, como a casa enorme em que eu vivo (somente eu, minha mãe e meu pai são meros fantasmas, de vez quando minha mãe decide dar um pulinho na vida real), os quatros carros que estavam na garagem e os empregados que ele paga. Bem, isso não é ruim, não mesmo, ainda mais para mim que não tenho pais presentes, não vou mentir que acordar com um waffle quentinho na mesa é ruim, até porque minha mãe não cozinha, ela sabe, e sabe bem, mas não cozinha porque só trabalha. Como toda história, o “mas’ da questão, mas isso não são frutos, acho que só são meras recompensas materialistas/burguesas, falo sério, eu seria muito feliz morando em um apartamento de dois quartos, um para mim e para minha mulher, e outro para nossos filhos, com, claro, espaço para um cachorro, eu seria um fotógrafo muito requisitado por pessoas com personalidade e minha mulher escritora, racharíamos as contas e poderia ser um pouco difícil nos meses apertados, mas pelo menos passaríamos a noite juntinhos, assistiríamos alguns desenhos até as oito, colocaríamos as crianças na cama e depois iríamos para a nossa, poderíamos assistir um filme idiota ou mesmo, ainda melhor, passar a noite fazendo amor. Aí, ta vendo, um vida sem trabalho excessivo, mas com trabalho, bem vivida e feliz. Falo assim porque nunca soube o que é isso, nunca soube o que é jogar futebol com meu pai no quintal, ou passar vergonha com a minha mãe me chamando de “lindo da mamãe” na frente dos meus amigos, nunca comi com eles na mesma mesa sem que eles mencionassem trabalho, eu nunca tive esse AMOR imenso dos pais, a única que ainda se importava era a minha mãe, muito de vez em quando ela fazia uma panqueca e ia deixar em meu quarto, de vez em quando ela também passeava comigo de carro enquanto chovia (eu e minha mãe temos uma certa doença que causa felicidade toda vez que os dias amanhecem frios e chuvosos), mas era só isso, nada a mais, nem um tiquinho a mais, só isso. Dei uma pausa na crise existencial, e lembrei das torneiras da banheira que ainda estavam ligadas. Fui até o banheiro e as desliguei, tirei e minha roupa e quando já estava entrando na banheira, minha mãe começou a surtar na porta. “Lucas, abra porta. Lucas, abra a porta. Lucas, abra a porta, é a última vez, Lucas, abra a porta, agooora.” Eu poderia continuar entrando em minha banheira e ignorá-la, mas com a minha mão não é assim, primeiro porque ela não para, e segundo, que já não precisa de mais argumentação alguma, é que quando a minha mãe se irrita, sua voz fica tão aguda que é impossível de aguentar, então, me privando de todo o estresse que poderia ser excluído com alguns minutos de sermões, eu decidi que era melhor abrir a porta.“

Está tudo bem? Só quero saber mesm... e que cheiro é esse? Você continua fumando, Lucas? Meu filho, eu já lhe falei que cigarro mata, isso, simplesmente mata, então, pelo menos uma vez, me escute.” Ela falava enquanto revirava meu quarto. Nessa procura, acabou achando duas garrafas de cerveja debaixo da cama.

“Você não tem jeito, o que eu posso fazer pra você parar com essas porcarias?” ela disse, apontando para o cinzeiro que estava sobre o criado-mudo.Sem revidar em qualquer aspecto, eu a puxei para um abraço. Minha mãe é tão pequena, tão frágil, uma menina escondida por enormes quantidades de camadas “de falsas Olivias”. Meu surgimento, na verdade, foi um acidente. Meus pais, que ainda eram dois adolescentes de dezoito anos, decidiram transar e aí se esqueceram de usar camisinha. Pronto! Eu!

“Meu filho, eu ando muito mal, seu pai não pisa em casa já faz um mês. Ele não ligou nenhuma vez, nem pelo menos para dizer se está vivo. Eu... eu não sei o que fazer. Não aguento mais!” sua voz estava trêmula, suas mãos tremiam encolhidas sobre meu peito.

“Mãe esquece esse homem, vamos sair daqui, podemos dividir um apartamento pequenininho em Nova York, podemos até morar com o Robert, que está se dando muito bem por lá”

“Oh, o Robert, olha a situação em que eu me encontro, não falo com meu outro filho há meses. Nós precisamos visitá-lo, Lucas, vamos fazer isso, ainda este ano, eu prometo.” Ela passou suas mãos em seu rosto enxugando as lágrimas que escorriam “Se livre dessa porcaria toda, arrume seu quarto, arrume pensando que um ser humano mora aqui. Tome seu banho, querido, eu tenho que terminar alguns projetos.” Ela saiu do quarto rapidamente, batendo a porta sem olhar para trás. Voltei para o banheiro, peguei o maço de cigarros e o isqueiro que estava sobre a pia, e entrei na banheira.

Sophie

Adoro cálculos, adoro mesmo. Sempre passo horas do meu dia resolvendo cálculos de todos os níveis. Essa minha paixão começou quando o Charles foi embora. Bem, ele não foi, eu o mandei, mas isso não importa. Depois de ter resolvido cinco páginas de cálculos, guardei meu livro na prateleira e criei coragem para levantar da cama. Tomei um demorado banho gelado e em seguida desci.

“Mãe, vou à casa de Lauren, tchau” escutei uma espécie de objeção, mas saí de uma vez tentando evitar algum constrangimento inútil, já que eu iria para a casa da Lauren de qualquer forma, poxa, é a casa da Lauren, a minha amiga que tem três irmãos gêmeos de cinco anos, não há objeção para isso. Parei na porta da casa de Lauren e já podia escutar a gritaria dos trigêmeos, sem coragem de suportar aquilo, decidi que era melhor ir para outro lugar. Acabei parada por alguns segundos na porta da casa de Charlie. Já fazia duas semanas que eu havia terminado, depois dele ter me deixado duas vezes para assistir uma porcaria chamada futebol. Fiquei lá olhando aquela porta feia e sem graça, pensando se eu batia ou não, até que Charlie abriu a porta e me viu ali parada. Arregalei os olhos, mas não expressei mais nada que aquilo. “Pensei que nunca fosse atender” falei, o empurrando e entrando em sua casa pequenina. Charles mora sozinho, ele tem vinte e quatro anos, e, sim, minha mãe não sabe sobre nós, ou pelo menos ela finge muito bem, já que passar a noite com ele trancada em meu quarto não dava muito espaço para dúvidas de mãe.

“Achei que nunca fosse voltar”

“E achou certo, eu não voltei, só vim aqui saber se você tem algo que preste para beber.”

“Esses seus olhos podem ganhar qualquer coisa de mim” disse Charles, aproximando-se de mim e passando seus braços em volta da minha cintura. Ele aproximou seus lábios aos meus, e encarou-me como perguntando “Posso?”, apenas fechei meus olhos e também me aproximei. Seu beijo era bom, mas não como no começo. Preciso confessar que eu fui bem idiotinha no começo do nosso relacionamento, sabe, Charles-maisvelho-independente-cabeloarrumado-nadadecolégio, isso tudo me impressionou, e ainda me impressiona, é por isso que eu estava ali o beijando, quando eu o mandei ir embora e não voltar mais, e ele não voltou, claro, depois das mil ligações e de um milhão de batidas na porta da minha casa.

“Eca! Seu beijo tem gosto de cigarro” menti.

“Eu não fumei, aliás, estou há uma semana sem fumar, meu recorde, mentirosa.” Ele disse exibindo um sorrisinho orgulhoso.

“Parabéns!” ironizei “ Vai me matar de sede aqui?” disse, tentando evitar qualquer conversa no nível de sobriedade em que eu estava. Charles reapareceu na sala com duas garrafas de cerveja “Pode ser cerveja? Só tenho isso e sei que você não gosta”

“Se vocês sabe porque trouxe?” disse pegando a garrafa. Tomei um gole e então me sentei no sofá olhando para o nada. “Você está bem?” perguntei.

“Poderia estar melhor se você parasse de ser assim” respondeu Charles, sentando-se ao meu lado.

“Ai, ai” bufei “Se eu parasse de ser assim eu não seria eu, então não compensa perder meu precioso tempo com tentativas inúteis. Enfim, eu vim aqui para pedir para você não me procurar mais”

“Foi você quem veio aqui.” Eu sou chata mesmo, e gosto de ser assim, porque sei que quando alguém me aguenta é porque gosta de mim de verdade, e Charles era um desses. Tudo que eu falava ele rebatia de forma divertida, com aquele seu sorrisinho infantil. O único motivo de minha mãe ter o deixado entrar em meu quarto com a porta fechada, foi a sua afirmação interior de que ele tinha 17 anos.

“Mas foi você quem abriu a porta, não me culpe pelos seus atos impensáveis.” Joguei levemente a garrafa vazia no chão e o beijei, estava com saudade, uma semana é muito. Fomos para seu quarto e eu sabia que a noite não terminaria tão cedo.
continua...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.