Lúcia

1 As reticências que encontramos no tempo espaço


Os anjos não teem sexo.

Tampouco os demônios que habitam a mente humana, pois nada são além de anjos caídos com as asas chamuscadas pelo fogo infernal e cobertas de fuligem. Então não posso dizer exatamente o que era Lúcia. Se era luz ou se era treva, se era looira ou ruiva, branca ou negra, homem ou mulher. Não era também um padrão de beleza, mas era impossível dizer que a criatura era feia, exótica. Os olhos que, indefinidos transitavam pelo verde, o azul cristalino, passava para o cinza e até mesmo o castanho levaram à loucura muitos homens e mulheres, humanos.

Conheceemo-nos em um café. Entrou sob a tez clara, os cabelos anelados, escuros, quase negros, como os duma espanhola amante, as pestanas longas, os olhos da terra, a boca pecaminosa.

Entrou.

O sinhiho vibrou. Todos os olhos voltaram-se para a porta e receberam uma rajada de vento enregelante como uma bofetada para acordarem e ver aquela maravilha que adentrava o recinto.

O escritor pausou a máquina, o garçon manteve em suspenso a bandeija, eu fitei.

Andava com o requebrado duma mulher, o tecido roçando a pele clara... Que fascínio meu Deus!

-Vim para amá-lo. — ela disse com a voz doce, escorregadia, como se fosse a coisa mais natural do mundo. E a meus ouvidos fora natural. Boquiaberto eu fitava-a, o movimento do café voltara ao normal, ouvia-se o tec-tec do teclado da máquina do escritor, o garçon limpava a mesa do grupo de amigos que acabara de sair, o dono do lugarc ontabilizava em seu caderninho os lucros enquanto fumava um cigarro. Parecia que ninguém mais via-a, loira, angelical, os ombros nus, que tentação!, o mesmo olhar inocente de uma criança, esperando que eu respondesse qualquer coisa, afinal ela viera para amar-me! Quanto tempo havia se passado sem que respondesse?

-Pois então, podemos começar. — ela riu-se, jogando a cabeça para trás, a cabeleira loira, num instante não estava mais ali, parecia que os raios de sol que a tocaram deram-lhe sua cor alaranjada, os olhos, agora muito verdes,muito vivos, o nariz fino, as sobrancelhas fartas e bem feitas, as mãos longas e finas, ela olhou-me de soslaio, passou a ponta da língua nos lábios de leve, entrou na profundeza de minha alma.

Fechei a conta. Saímos dali de braços dados. Fomos para a praça, fim de tarde, estava repleta de casais apaixonados admirando o pôr do sol, sentados na grama, rolando na relva como loucos, desvairados, embebidos no amor, tão sozinhos quanto nós também estávamos.

-Como vou chamá-la?

-Amor, carinho, pequena... Como quiser.

-Mas o que é você?

-Essa foi a pergunta correta. Na falta de uma definição apelidaram-me Lúcia. Lucy na Inglaterra, Luce na França, Luzzia na Itália... Lúcia aqui. Lúcia para você.

-E ama-me?

-Pois não vim para isso?

-Sim,mas nunca viu-me antes! Ou espiava-me?

-Pensa demais! Vamos, deixe-se disso e beija-me!

Eu a beijei. Sorvi o suspiro, gemido de prazer, acalentei os espasmos... Partimos dali. Era pública demais para fazermos o que nossos corpos gritavam! Fomos para meu apartamento. Era pequeno... Eu, estudante na época não tinha condições de dar àquela deusa o que merecia, talvez hoje... Não! Eu não sou hoje mais digno dela. Digno de sua pureza. Sou abastado, mas isso não se basta para mantê-la ao lado.

Entre as quatro paredes, ela de conjuntinho rosinha, pêssego, vaporoso por cima da pele negra, aquele tom que Deus concedeu a poucos, aquela cor maravilhosa, os seios fartos, as ancas largas, nossos corpos transpiravam volúpia enquanto nos encaixávamos perfeitamente naquela luta sem fim, uma dança, uma valsa, o bolero, o tango... Brincávamos sem nos exaurir, eu lambia-lhe a carne, ela mordia-me o canto da boca.

Por fim, extenuada deitou-se a meu lado. A cabeça pousada serena sobre meu peito. Enrodilhei-a com meus braços e beijei-lhe a testa.

-Estou com fome. — ela soltou numa vozinha quase infantil. Olhei-a no fundo dos olhos de jabuticaba. Tasquei-lhe um beijo na boca larga, corri à cozinha e encontrei... Morangos! De onde surgiram? Não importava. Lavei-os, coloquei numa tigela, fiz um café forte, passei geléia na torrada e fui para o quarto. Da forma como eu a deixara, nua, com o lençol a tampar-lhe a vergonha e com os seios brancos à mostra... Eram pequenininhos, duas laranjinhas, o cabelo castanho claro, emaranhado sobre o travesseiro, o olhar lânguido para o teto... Olhou-me. Pegou um morango e mordeu-o com a boca vermelha, soberba beleza, dilacerou a fruta com os dentes alvos, certinhos, enfileirados ali dentro. Sorriu-me e seus olhos viraram duas fendas.

Continuamos nosso caso por um longo tempo, não sei dizer se por uma semana ou um ano, tão intenso que era... Minha vida tornou-se exclusivamente dela, girava em torno daquela criatura mística. Quando a aula acabava, corria para casa, chegava a voar e a encontrava lá, deliciosa para mim, ora indígena, ora francesa, às vezes asiática... Meus amigos adoravam-na, diziam que ela não era muito bela, mas sua personalidade superava tudo, mesmo baixinha, de oclinhos na ponta do nariz e o cabelo curtinho, era apaixonante, ela crescia diante deles. Era maravilhosa, as amigas adoravam-na e ela não se enciumava que Carlinha ou Lurdes houvessem, um dia, gostado de mim.

Um dia resolveu ir embora. Não houve jóia ou loucura que a segurasse. Supliquei que ficasse, sequestrei-a, escondi a chave da casa e lá a deixei trancada, arrependi-me amargamente disso, pois quando voltei, ansioso por seu corpo nu encontrei-a sobre a cama, pálida, magra. Cadavérica. Olhei-a e senti repulsa. " o que eu fiz?!" tentava a todo custo reanimá-la, cuidei dela, de sua doença, e mesmo assim ela se foi no dia em que esqueci de trancar a porta.

Enlouqueci. Chegava em casa e não a encontrava, só o odor da saudade, o cítrico impregnado nos livros, o doce saindo da vitrola, amor abandonado, comecei a beber para resgatar à boca o sabor da sua. Não podia deixar cair no esquecimento a beleza do que vivera. Espalhei as fotos por todo o apartamento e não reconhecia nelas o meu amor. Será que ela existira? Carmen dissera que sim. Mas então, que fim tomara a moça, a mulher, a amiga e a amante? Aliás, qual fora seu início? De onde viera? Quem eram o pai e a mãe? Os sobrinhos, se os tinha... Simplesmente entrara no café e arrebatara-me a sanidade! Viera. Amou-me. Deixou-me.

Voltei ao café em que nos conhecemos. O escritor ainda datilografava ali ao canto. O garçon circulava com a bandeija no ar. Eu lia meu jornal tranquilamente, bebericava meu cafezinho e quando a porta abriu-se, soando o sininho, vi Lúcio, um amigo de tempos entrar. Olhei-o. Cumprimentamo-nos. Ele pediu um capuccino para Afrânio, o homem que atendia no balcão. Sentou-se na mesma mesa que eu.

-Sabe Lúcio, estava a pensar, se fosses mulher...

-Ora! O que é isso meu amigo? Esttranha-me?

-Não! De forma alguma! Mas imagina, como seria a mulher perfeita? Como lhe seria?

-Bem, a primeira vista impactante, como uma espanhola, logo depois loirinha, afrancesada, mas riria como uma inglesa, jogando a cabeleira de fogo para trás e na cama... Meu Deus! Seria uma negra daquelas, bem cheia de desejo, as carnes fartas para ter-se onde pegar! Seria serena quando o ambiente exigisse, oriental nos trejeitos delicados e discretos e simples perante os amigos.

-Exatamente! Assim é Lúcia!

-Que Lúcia homem? Bebeu?

-Lúcia, a minha namorada, não se lembra dela?

-Não.

- A que me deixou... — de repente parei. Quem era Lúcio? Quem era este amigo à minha frente? De onde o conhecia?

-Tem de esquecer-me. — disse a mulher que estava à minha frente, de cabelos curtinhos e clarinhos, leves como os de uma criança, os olhos cinzentos e profundos, o corpo reto, meio sem forma...

-Onde está Lúcio?

-Que Lúcio? Ei! Escuta-me! Você deve me esquecer! Entende?

Não, eu não entendia. Mas com medo de ficar louco deixei como estava. Não prolonguei assunto. Levantei-me e saí do bar ( não era um café?), fugi para minha casa, atravessei o quintal e agarrei-me à barra da saia de minha mãe, pequeno, ela tomou-me no colo e disse não passar de um susto.

Eu cresci, fui à escola e quando jovem fui morarna cidade grande, estudante, morava num apartamento pequeno, mas formei-me e comecei a trabalhar, exerci o Direito, o Jornalismo, virei cronista... Enriqueci rápido, casei-me com Clara, temos hoje dois filhos, dois bons filhos, já adultos, Helena e Carlos, já estamos velhos, senis e pode ser loucura ou mal da memória, mas me lembro de Lúcia. Não, não esqueci aquela divindade que quis brincar de humana. Hoje vejo que era isso. Lúcia era uma deusa. Como Hera, Atenas e Afrodite, descera do Monte Olimpo para distrair-se um pouco de sua vida tediosa e rica.

***

Vejo-a agora. Ela resplandesce. Muda de face a todo tempo. Deu-me um último beijo. Sorveu meu último respirar. Levou-me às alturas. Embebedou-me na verdade mentirosa e levou minha alma para o limbo.

Notas finais
Então fantasminhas?O que acharam?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!