Lótus
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Lagrimas escorregavam pelo meu rosto. Meu corpo há muito tempo na mesma posição reclamava, para que eu mudasse, porém faltava vontade para isso. Queria apenas ficar aqui, sentado nesta cama com a colcha cobrindo meu corpo.
Fitava a parte mais escura do quarto, a única parte em que a luz da televisão não iluminava. Naquele momento, passava o noticiário de Gotham, Gotham News, que anunciava uma notícia pior do que a outra, crime atrás de crime:
“O Índice de criminalidade chegou ao seu recorde hoje. Muito, devido ao desaparecimento do nosso Vigilante Noturno. Desde o seu misterioso sumiço, Gotham entrou em caos. Onde será que está o Batman? Será que está morto? Será que se aposentou? No fim só sabemos que precisamos dele.”
— Só que ele nunca mais voltara… — sussurrei enquanto desligava a televisão, e imergia na mais profunda escuridão.
Fazia mais ou menos três meses que eu saí de Gotham para amadurecer, tanto mentalmente quanto fisicamente. Esse concelho foi me dado por ele. Nesse tempo ele pedia alguns favores, uma ajuda, em missões fora de Gotham. Ele achava que, para um jovem de vinte anos, eu era muito imaturo e irresponsável, e meus serviços como Robin não eram mais necessários, sendo assim não recusei essa proposta.
O primeiro mês foi “tranquilo”, se assim eu posso dizer. Viajei para um pequeno país na África treinar com uma pequena tribo em umas das savanas, e depois desloquei-me até o Egito, para acabar com uma organização que fazia contrabando ilegal de Drogas para Gotham.
A partir do segundo mês que as coisas começaram a ficarem estranhas, nossos contatos foram ficando menores, e as missões menos frequentes — achava que era para que eu me empenhasse totalmente no meu treinamento. Nesta suposição não fiquei muito preocupado.
Ao final do meu terceiro mês, tudo estava esclarecido. Bruce Wayne havia falecido, junto com o marco da justiça de Gotham.
Envenenado… Apenas isso.
(…)
Dias depois, em Gotham, as situações só pioravam; as pessoas começaram a ter medo, não só dos vários criminosos que surgiam pela cidade, como do sistema político-jurídico que só os beneficiava com sua clara deficiência. E minha vida continuava a ruir.
“Hoje foi finalizada a investigação sobre o caso de Alexandra Rodrigues, nossa jornalista investigadora, que foi encontrada morta em um dos becos de Gotham. Os Detetives do caso desistiram pela falta de pistas do Assassino. Nós, da Gotham News, nos encontramos de luto pela morte de uma companheira adorável, e empenhada, sempre buscando a verdade!”
Gotham é uma cidade perigosa, e ser Jornalista nesta cidade era anunciar seu atestado de óbito. Lembro de ter avisado a ela tantas e tantas vezes … Estávamos noivos a mais de um ano. A conheci quando investigamos o mesmo caso, um homem que andava estuprando as mulheres, e logo depois as matando brutalmente, o irônico que ele fazia isso em todas as sextas-feiras do mês, em lugares diferentes de Gotham, assim fugindo da polícia com facilidade. Alexandra e eu, e quando alcançamos um suspeito, ela foi à isca para pega-lo, e quando estava provado que era ele, eu apareci antes que algo pudesse acontecer. Nesta mesma noite, eu a deixei que tirasse minha máscara e revelei minha identidade, seguido de um longo beijo.
Nosso relacionamento foi evoluindo aos poucos, até que nos encontramos noivos, e tínhamos marcado nosso casamento logo depois que eu voltasse da minha viagem, mas esse casamento nunca acontecerá.
Lembro bem que ela implorava para que eu a deixasse ajudar nos casos, mas Bruce já não gostava de me ver envolvido, imagina minha noiva? Então, eu sempre dizia que ela me ajudava anunciando as notícias, que ela era melhor como Jornalista.
Será que algo poderia ter evitado essas circunstancias? Será que eu teria evitado isso tudo se não tivesse ido embora, ou permanecer parado aqui? O que faria com que esse mundo em que vivo, repleto de sofrimento, mudasse?
“Assalto a um banco nas ruas mais movimentadas da cidade, resulta em treze mortos, e quatro feridos em estado grave.”
“Um sequestro nas proximidades da Avenue X resultou na morte da vítima, Rachel T. Austin. O galpão abandonado, que servia de esconderijo para o sequestrador, sofreu uma grande explosão derivada de uma péssima combinação de explosivos, fogo, pólvora e barris cheios de gasolina”
“E depois de tudo que vemos aqui, só nos resta uma pergunta: Onde está o Batman?”
Levantei-me furiosamente da cama e joguei a televisão no chão e comecei a pisoteá-la, até não sobrar um único pedaço que estivesse intacto, até eu não puder ver um único reflexo sequer em sua tela na escuridão de meu quarto. Por que insistiam nele? Por que não encaravam a obvia e clara constatação de que ele não está mais vivo para ajudar? Afinal, o que resta a nós agora? Não tenho nada que me faça continuar....
Mas diante de toda aquela escuridão, raios de luz atravessavam os feixes da porta.
Eu não liguei nenhuma luz até entrar aqui.
Coloquei minha cabeça para fora do quarto, e procuro a origem da luz. Vinha da porta entreaberta do Escritório de Bruce Wayne. Caminhei calmamente até lá, com a guarda alta e de prontidão; abri a porta rápido, sala vazia, apenas com os antigos moveis em frente a lareira crepitando.
Andei por todo o local procurado alguma evidencia de quem havia acendido a clareira, e assim eu me liguei, a entrada para a Batcaverna era neste comodo da casa… Caminhei na direção da lareira, e parei quando estava perto o suficiente, e olhei para o símbolo sobre ela, um “W” bem parecido com um morcego.
Posicionei meu dedo indicador sobre a parte central do símbolo, e pressionei. Então aos pouco a lareira desaparecia, e a abertura se tornara maior, o suficiente para um homem de dois metros passasse. Os degraus foram se formando em minha vista, com luzes fracas que se acendiam. Desci cautelosamente, temendo o que ou quem eu encontraria lá embaixo.
E eu encontrei o vazio. O silencioso e calmo refugio para mentes perturbadas pela dor.
Fui caminhando a passos lentos até o meio daquela caverna, e comecei a fitar cada pedaço daquele lugar rochoso, e uma tempestade de lembranças me possuiu. Ao fitar o Batmóvel, me lembrei da primeira vez que estive com Bruce Wayne, quando ele foi me buscar com minha mãe, Talia Al Ghul, que após a destruição da Liga Das Sombras, e sem condições de cuidar de mim e dos poucos sobreviventes da organização, ela me mandou para viver com meu Pai. Eu o odiava pelo simples fato de ter como pai, um completo desconhecido. E eu, não pude me sentir mais deslocado em qualquer outro momento, tirando esse.
É difícil nos apegarmos as pessoas, principalmente quando somos jogados a uma situação, mas quando acontece, nós nunca pensamos que vamos perdê-las. A dor da perda é o nosso maior medo, e nosso instinto é ignorar até que isso aconteça…
Andei até onde ele deixava a roupa de Homem-Morcego, e ela estava intacta, como se ela nunca tivesse chegado a ser usada, os olhos brancos da máscara brilhavam parecendo que me fitavam, então tive os deslumbre de ver Bruce dentro daquela armadura novamente. Balancei a cabeça e me distanciei até chegar à cadeira enfrente ao computador.
Fiquei sentado fitando a maior tela, que estava desligada. Isso me lembrou do caso mais importante que tivemos, foi preciso pedir ajuda ao Comissário Gordon, uma das poucas pessoas na polícia em que o Batman confiava, uma das poucas pessoas incorruptíveis que ele conheceu, principalmente na polícia, já que ele dizia que a polícia estava corrompida há muito tempo. Esse caso foi palco do acontecimento inédito, foi a primeira vez que ele confiou em alguém além de seu círculo de confiança e trouxe para a Batcaverna, e essa pessoa era o Gordon, que veio de olhos vendados, mas já é um início. Trabalhar com alguém que sabe se comunicar e tem experiência, era algo novo pra mim.
Olhei novamente para a mascará de Batman.
Bruce era um terrível Pai, tentava de todas as formas me manter dos casos e das missões em campo, mas foi ele que morreu primeiro entre nós. Porque você tinha que defender essa cidade até o final de sua vida? Além de ter perdido a vida atoa, pois essa cidade não possui salvação, o mal já se impregnou em cada beco e viela de Gotham, e ele morreu acreditando que poderia mudá-la…
A tela começou a brilhar e na tela apareceu o mapa de Gotham, e um quadro com as atuais imagens de cada rua. Mas um quadro em especial me chamou a atenção.
Em uma rua não muito movimentada, um homem apontava a arma para uma mulher. Pela falta de som, apenas deduzo que ele queira sua bolsa, e acertei, ela passa a bolsa hesitante para ele, que ao pegar sai correndo. Os cidadãos não fazem absolutamente nada, apenas saem do caminho. Até que um homem qualquer, coloca o pé na frente, fazendo o assaltante cair. Ele se joga sobre o assaltante para tentar retirar a arma de sua mão, com êxito, mas o meliante, mesmo assim, consegue fugir.
— Vai ver, que mudar nunca dependeu de você... — Fixando o meu olhar nas pessoas, que, agora corriam para ajudar o homem que tentou defender alguém que necessitava.
Olhei para o símbolo do morcego estampado no peito da armadura do cavaleiro das trevas, e sorri, com uma fagulha de esperança que cresce em meio a dor.
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